Sábado, 10 de Setembro de 2011

10 anos

Terrorist, Falling Man e Saturday são tês romances  associados ao 11 de Setembro. Não os consegui terminar. Seria abusivo fazer destes abandonos prova de que recuso a estetização de acontecimentos globais, terríveis, polarizadores e próximos. É verdade que todos parecem competir pela melhor redacção da turma e nem sempre regresso feliz dos reenvios à instrução primária; é verdade que sobra a sensação de que a arte se limita a parasitar a actualidade; é verdade que o romance ainda me parece ser a forma menos adequada de se discutir uma ideia; é verdade que a simples contemporaneidade com o evento nos torna sobranceiros face aos esforços dos outros; mas admito hoje, pela primeira vez, que talvez alguns destes livros apenas precisem de amadurecer, como se o facto de estarem a priori datados facilitasse a evolução futura na única direcção possível: a da intemporalidade. Em todo o caso, parecem trilhar o caminho oposto ao dos ensaístas, pois ler o Hitchens de então é mais interessante do que ler o Hitchens de 2011 sobre 2001 - menos por o artigo omitir o embuste das weapons of mass destruction do que pela tendência natural de se fazer da coerência uma força transformadora da História. Vence então o romancista, se não se lembrar de uma sequela e resistir a prefácios e posfácios, pois a vida própria que o livro ganha é uma daquelas em que não acontece mais nada senão envelhecer. 

 

A operação militar Shock and Awe veio lembrar-nos que a tentação dos nomes extraordinários resistiu ao ataque às torres, cujo contrastante e lacónico baptismo de data reforça a ideia de que aconteceu algo de inominável. Se foi por um pudor ou ideia de uma equipa de comunicação formada ainda as cinzas pairavam sobre Manhattan para evitar promover a Al Qaeda ou fazer do cérebro do atentado um Heróstrato moderno, nunca saberemos. O uso de "11 de Setembro" foi um sucesso de tal ordem que julgo não voltar a presenciar outra efeméride tão instantânea, mesmo tendo em conta a volatilidade dos mercados e que a pontualidade na abertura das bolsas se presta bem a consagrações de calendário. Talvez por alguma idiossincrasia minha, fui depois sentindo que reforçar a data não a fixava no tempo sem consequências, pois parecia distorcer o calendário, como se 11 de Setembro de 2001 fosse um corpo em torno do qual tinham passado a gravitar outros eventos, alguns com órbitas largas, como a guerra Irão-Iraque, outros com órbitas apertadas, como o enforcamento de Saddam Hussein - e embora a ordenação das órbitas concêntricas ainda respeitasse a cronologia, os seus autónomos movimentos de translação sugeriam que estaríamos na presença de inevitabilidades. O 11 de Setembro acusaria então um excesso de presente, como Portugal acusa um excesso de passado e Pedro Passos Coelho acusou em tempos excesso de futuro. Este efeito da gravitação do tempo em torno do 11 de Setembro tem manifestações viciosas, de que ainda são exemplo algumas discussões sobre as causas últimas próximas da Guerra do Iraque, e outras francamente divertidas, como a que me leva a fazer de Jarhead o Apocalipse Now do 11 de Setembro, embora o filme relate a Guerra do Golfo, que é de 1990-91.

 

As efemérides servem para que não nos esqueçamos, mas excepcionalmente podem assinalar o fim de um luto, servindo então para não nos lembrarmos tanto de aí em diante. Assinalarei a data com um regresso a Falling Man, de Don DeLillo. Há no livro duas crianças que vigiam os céus de uma janela com uns binóculos, temendo a chegada de Bill Lawton. É assim que "Bin Laden" soa aos ouvidos das crianças americanas e é tempo de gostar disto, se nos soa bem. 

 

 

 

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 16:00
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Sábado, 3 de Setembro de 2011

Blogosphere as she is spoke*

Neste momento, é muito provável que haja teses de mestrado sobre a blogosfera lusa e em alguma se encontrará um dendrograma com a filogenia de todos dos blogs. Não a tendo lido, imagino que no tronco comum da blogosfera em que o Sinusite se inscreve encontraríamos o blog A Coluna Infame, da autoria dos três magníficos, e reconheço no ano de 2003 o nosso Câmbrico, aquela explosão de diversidade que não mais se voltaria a repetir e que condicionaria irreversivelmente toda a evolução futura, ao ponto de se pecar por defeito quando se afirma que o blog  A Causa foi Modificada é o melhor até agora, por se tratar logicamente do melhor blog de sempre. Em 2003, já havia o blog político, o blog literário, o blog intimista, o blog da estrela mediática, o blog erótico, o blog caluniador, etc. Todos os papéis e modelos estavam claramente definidos: o blogger e o comentador, anónimos ou não, o blog individual e o blog colectivo. Os blogs tinham necessariamente nascido, mas também já havia óbitos, bem como a figura mista do blog nado-vivo, porventura o mais frequente. E as empatias foram coincidentes com as embirrações e logo seguidas das zangas. Depois de 2003 não aconteceu mais nada cuja substância não fosse apenas uma alteração de grau, pois todas as qualidades tinham sido inventadas. A chegada dos bloggers aos jornais e a dos jornais à blogosfera são acontecimentos que nada acrescentam à essência do meio, tal como, nos blogs colectivos, os processos de cristalização (no duplo significado de afunilamento de ideias e de aumento do efectivo), de gemulação, cisão e colapso são dignos de registo, mas apenas correspondem a uma institucionalização das pulsões que já andavam à solta em 2003. Daí que, embora umas das duas discussões que marcaram 2003 esteja datada (a Guerra do Iraque), a outra seja recorrente (o metabloguismo) e se regenere sem nunca perder a actualidade, alimentada por aquele mesmo entusiasmo fundador que - como alguém notou - fazia Catarina Furtado falar da sua gravidez como se fosse a primeira mulher a passar por isso. Este texto, naturalmente, é apenas mais um exemplo.

 

Num sketch que vi há muitos anos na televisão francesa, faz-se uma flash interview a um pugilista, que fala como um  intelectual estruturalista. É um fillão de humorismo conhecido: a surpresa que vem da junção de uma natureza e um discurso incompatíveis. Nesse sentido,  o metabloguismo não deveria ter graça nenhuma, pois trata-se de uma emanação directa da blogosfera. O post sobre blogs é, quase sempre, um post sublimado sobre o próprio blogger e não há nisto nada de surpreendente, pois os bloggers  são criaturas narcísicas, pelo menos de um ponto de vista - digamos - estatístico. Não faltam dados a esta tese. Por exemplo, os dois mais importantes exemplos de metabloguismo, apesar de diametralmente opostos no fôlego e no estilo, são da autoria de Luís Carmelo, cujo banner não engana, e de Pacheco Pereira, cujo método de conhecer por dentro (Esquerda, PSD, Media, blogs) para depois descrever como se estivesse de fora resulta mais de uma limitação imposta pelo seu narcisismo do que de uma opção consciente. Paradoxalmente, o que tende a suceder com o metabloguismo, e cada vez mais, pois aproximamo-nos  da impossibilidade teórica de um discurso original, é que a hiperbólica compatibilidade entre o blogger e o seu discurso cria um instante ainda mais cómico do que o boxeur francês, pois resulta num humor involuntário, o tal em que se tempera a fruição com a irresistível malícia. O metabloguismo, sobretudo quando ensaia uma deontologia (que uso dar ao poder que vem do anonimato, como lidar com os arquivos, que regras de citação seguir, etc.) na ressaca de um dos casos concretos que periodicamente agitam o meio, vem sempre com a mistura de leviandade e desejo de ser levado a sério típicos de uma RGA ou assembleia popular. Se faço esta comparação é para realçar o elemento comum: a plateia. A blogosfera, no fundo, é um Big Brother de e para pessoas com pretensões intelectuais -  o que se confirma pela importância desmesurada que damos a este meio, socialmente irrelevante, pelo guilty pleasure que sentimos por não estar a ler outra prosa e até por casamentos, divórcios e um eventual pontapé na cara. De modo que só há duas atitudes maduras perante os cortes de relações (aqui confesso seguir o método de Pacheco Pereira), as zangas,  as traições e os elogios públicos que abundam na blogosfera, plenos de pequeno calculismo e sempre esplendorosos: tratá-los como enredo de telenovela ou como enredo de sitcom. Antes rir, creio, mas é uma opinião pessoal. E antes assumir o papel de personagem, pois na óptica do praticante o Big Brother  perde para o Último a Sair. Daí o meu fascínio pelo João Miranda e pelo Carlos Vidal. São personagens absolutamente blindadas e que não nos aborrecem com a intromissão permanente do seu carácter no enredo. Um faz de autómato ultraliberal e o outro é um pró-estalinista adorador de Badiou, ambos pairando sobre o terreiro onde somos vítimas das armadilhas do humor involuntário, pois quando os leio sinto-me na presença de um humor que é voluntariamente involuntário ou então involuntariamente voluntário, mas não pode ser uma terceira coisa. Talvez neles falte uma pessoa, mas essa é a única forma de garantir que jamais nos enganarão.

 

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publicado por Vasco M. Barreto às 09:21
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Esperando Gael García Bernal

Três histórias em Nova Iorque

 

Ao fim do dia, quando os meus amigos regressavam dos seus passeios pela cidade, era inevitável que relatassem o encontro na rua com alguma celebridade, ao ponto de eu mudar o habitual "então, o que fizeste hoje?" para "então e hoje, encontraste quem?" Eles vinham por seis dias e esbarravam com o Nicholas Cage numa esquina ou eram alertados pela campainha da bicicleta do David Byrne antes de atravessar uma rua; eu estive lá seis anos e para encontrar alguém foi preciso ir a uma sessão de autógrafos (de um dos irmãos Coen). Ciente da excepção à probabilidade e estatística que era a movimentação em Nova Iorque dos célebres e deste que vos escreve, de resto convencido que uma entidade superior olhava a cidade  de alto e, como num jogo de Pacman, me guiava à custa de acasos para evitar que me cruzasse com eles, foi sem entusiasmo que reagi à notícia de que talvez o Gael García Bernal aparecesse para jantar em minha casa.

 

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publicado por Vasco M. Barreto às 11:00
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Romãs de Istambul

Se a lembrança mais forte que se traz da intemporal Istambul é a das suas romãs, desafio Constantino, Atatürk, Ricardo Quaresma e a humanidade em geral, e só me resta abrigar-me na fortaleza das recordações de infância, território ao abrigo de um pacto de não-agressão. Ao explicar o primado das romãs da casa dos avós alentejanos sobre as exuberantes frutas tropicais da casa dos avós madeirenses, não posso esquecer a singular romãzeira do quintal de Ourique, porque estabelecer o parentesco entre o fruto e a árvore conta, mas só o receio de ser chamado de menino da mamã faria com que não reconhecesse também em público que a cor de natureza morta da casca da romã, as suas gretas e o conglomerado vivo do interior estarão para sempre associados ao carinho da minha mãe, de uma forma tão forte que nem a releitura de Proust contaminará esta associação com o sabor do raio da tal madeleine involuntariamente recordada, porque se trata mesmo uma vontade consciente. Ainda hoje, mas com a devida infrequência, quando por vezes chego a sua casa e a minha mãe anuncia que me espera uma taça cheia de bagos de romã no frigorífico, só não fico absolutamente feliz por ter logo presente que jamais lhe poderei retribuir em atenção a entrega que descascar uma romã para alguém tão bem simboliza. Foi por isso que, ao passearmos pelas ruas de Istambul, nos concentrávamos tanto nas romãs por ali à venda, mais vistosas que as nossas, de uma cor de granada a induzir um tropismo tão grande que chega a ser contraproducente para o comerciante, pois são tão bonitas que basta ficar ali quieto a olhar para elas. Não foi a primeira vez que notei um desajuste entre o forma como o mercado e eu entendemos a romã.

 

Há uns anos, quando vivia em Nova Iorque, um certo empreendedor, talvez também marcado pela descoberta na infância da romã, mas com uma ambição e proselitismo que não possuo, invadiu os supermercados com garrafas de sumo de romã, então vendida como uma panaceia capaz de vencer tumores, retardar o envelhecimento, prevenir doenças cardiovasculares, aliviar inflamações e, claro, curar a depressão. Provei o seu produto sem grande entusiasmo, pois consumir romã pelo gargalo não reproduz o prazer táctil que precede a explosão dos bagos dentro da boca, mas ainda movido pela possibilidade de os frutos nos poderem salvar. Comer fruta é uma das poucas acções a que gosto de associar alguma irracionalidade. Não me custa provar pela razão a superioridade da fruta sobre todas as outras sobremesas, mas tendo a esquecer os milhares de anos de selecção artificial que nos deram a maior parte dos frutos que hoje consumimos, só para continuar a pensar que comer fruta me devolve à natureza, me regenera e purifica, numa relação que não pede intermediários, nem implica outra contingência além de um céu limpo entre o Sol e a Terra - e não será esta suspensão do conhecimento uma forma de religiosidade? Daí ter cedido à tentação de acreditar com fervor que a fruta cura a depressão e ter embarcado em exercícios revisionistas, que retiravam ao antidepressivos o mérito logo associado à maçã-reineta que por acaso tinha trincado na semana em que arrebitei.

 

Não serei o único a cair nestas ilusões. Aliás, não devem sobrar dúvidas e é até com alguma pretensão de serviço cívico que o escrevo: o que faz funcionar o mercado em expansão dos livros contra os antidepressivos e das soluções alternativas vai além da natural desconfiança face aos interesses comerciais e corporativos das farmacêuticas; o que explica este mercado é o desejo que os deprimidos têm de que os seus antidepressivos nada mais fizeram do que simbolizar o poder das suas mentes contra a doença. Da sua força de vontade. Da sua personalidade. Porque não seria apenas uma boa notícia, seria um renascimento. Só assim se explica a situação absolutamente insólita que é um doente reagir com alegria  à notícia de que o medicamento que tomou foi um placebo, isto é, que o enganaram. Mas como as farmacêuticas nem sempre são vilãs e a serotonina é mesmo parte do que somos, o que fazer? Talvez defender os nossos afectos, protegê-los do desgaste dos anos, cuidar deles como em tempos cuidavam do quintal de Ourique, hoje com a sobrevivente romãzeira cercada de ervas daninhas. Não é preciso gostar de fruta, nem ter ido à Turquia; o importante é encontrar as romãs de Istambul.

 

publicado por Vasco M. Barreto às 13:00
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Um jantar com Michael Neuberger

Um dos problemas de explicar o "pleasure of finding things out" é que quase ninguém descobriu ou descobrirá alguma coisa de jeito. O explicando poderá já ter experimentado uma epifania na Wikipedia quando leu a entrada sobre o Método de Hondt, em tempos abriu um relógio de corda e fez até uma experiência controlada quando pediu a um amigo que também telefonasse à sua ex-namorada por volta das 5 da tarde, mas não adianta procurar na sua biografia um episódio que contenha a essência do prazer de descobrir e pedir-lhe que multiplique essa sensação por mil, não apenas por ser perigoso fazer contas com a rejeição de uma ex-namorada, mas sobretudo porque há extrapolações impossíveis. De modo que explicar isto é um pouco como aqueles exercícios de representação teatral em que se pede o impossível - William Hurt contorcendo-se a explicar Bach a uma surda (2' 11''). Conviver com alguém que descobriu alguma coisa deve então ser um privilégio, mesmo que olhemos para essa pessoa como se olha para o Grand Canyon, isto é, iludidos de que por estarmos a par da erosão e da escala de tempo conseguimos compreender algo que nos ultrapassa. Algo que não se pode extrapolar. 

 

Passei metade do dia a pensar na forma como apresentar Michael Neuberger, o conferencista meu convidado, sem acertar no tom. O tom certo é um equilíbrio de contenção institucional e calor humano, um “Oh” de comoção e um “Ah Ah” de diversão, com um remate que deixa a audiência ao rubro. Não saiu assim, refugiei-me na batida imagem do homem que resolve o puzzle e percebi logo que na manhã seguinte, ao acordar, que é quando a consciência vem pedir satisfações pelas asneiras da véspera, iria ouvir das boas. Mas a conferência teve lugar, Michael cumpriu e depois fomos jantar a um restaurante de peixe.

 

Quase toda a gente percebe de garoupa o suficiente para pedir uma e imaginar o peixe a partir da posta. Quase ninguém percebe de hipermutação somática e é capaz de imaginar o significado do emparelhamento da sequência de letras “AGCT”  com “TCGA”, em que o “C” está sublinhado em ambas. Nesse sentido, éramos seres estranhos. Depois do primeiro Muralhas, eu esforçava-me por traduzir “garoupa” e descrever o peixe, Michael mal reagia ao termo “grouper” e, com a naturalidade de quem descobre que fala o mesmo dialecto estranho depois de esforços inúteis na língua supostamente franca, logo nos concentrámos no “AGCT” com “TCGA” que ele desenhou na toalha de papel. Fui então assaltado por um desejo infantil que não mais me abandonou, antes saiu reforçado quando a conversa divergiu depois para os grandes temas: a política de ciência, o publish or perish, os limites da democracia e se devíamos passar para um Planalto ou continuar no Muralhas. É que o Michael, que em 2001 resolveu um puzzle importante e cujo trabalho eu lia há muitos anos, parecia ser, além de um excelente cientista, um homem decente, não particularmente excêntrico, mas nada aborrecido, com prazer em discutir e sem a atitude predatória dos big sharks. Foi quanto bastou para que nascesse uma surpreendente admiração amistosa,  porque com os anos vamos admirando de novo cada vez menos e com um grau de pureza cada vez menor – é a admiração a puxar à nostalgia, a admiração com uma ponta de inveja, a admiração com um redentor  “mas é uma besta”.

 

Já com a conta paga e fora do restaurante, invento com péssimo teatro uma desculpa para voltar lá dentro, aproximo-me da mesa, rasgo a toalha de papel, dobro e meto no bolso as letrinhas do Neuberger. O “AGCT” e “TCGT” estão pregados a pionés na cortiça que tenho no escritório e a porção de papel não está sequer assinada, mas tem manchas de gordura a fazer de selo de garantia. “Grouper? Grouper? Are you sure?”

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 09:00
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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

A capitulação do omnívoro

A propósito de uma viagem ao México, o Pedro faz um dois-em-um na construção pública do conservador, ao defender a superioridade da civilização ocidental e pôr em causa o fascínio por certos destinos de férias e actividades de lazer. Admitindo que não o tresli, apresso-me a dizer que nunca percebi esta associação. Sem pôr em causa sequer a ideia de que há civilizações superiores, para não perder muito tempo, concentro-me no conservador com fobia de férias exóticas, por ser um estereótipo oposto ao freak que vai à procura da natureza, das civilizações que em algum momento foram colonizadas e daquele misterioso homem ainda mais improvável do que o yeti: o bom selvagem de Rousseau. Ambos estão enganados. Porque devemos conhecer a Itália antes do México, mas o México antes da Escandinávia; porque devemos buscar a Europa de propósito antes dos 25 anos e depois dos 65, mas no período das nossas vidas em que a mutiplicação do vigor físico pela autonomia financeira regista os valores mais altos é imperativo evitar as deslocações voluntárias dentro eixo do mal composto pela Europa e o América do Norte. O argumento fraco é que haverá deslocações em trabalho e obrigações sociais (casamentos e funerais) suficientes para irmos saciando a curiosidade pelas nuances na civilização ocidental. O argumento forte toma a forma de regra: quanto menor for a vontade de viver numa determinada sociedade, maior será a vontade de a visitar. Mas abandonemos a Coreia do Norte e regressemos ao México.

 

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publicado por Vasco M. Barreto às 23:16
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Um longo dia até ao Charlie Trotter's

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

O Alexandre ridiculariza o obcecado autor de uma autobiografia que apenas interessa ao biografado e o meu homónimo procura um sentido para a existência. Como ainda estou aquém da idade suficiente para projectar alguma autoridade sobre estas questões e eles já perderam a juventude necessária ao crédulo, só me resta defender o epicurismo, cuja grande vantagem sobre todas as outras filosofias de vida é a certeza de que a caminhada terá sempre valido a pena, mesmo se percebermos um dia que nos enganámos na direcção. Serve também de pretexto para rebater uma interpretação abusiva de uma famosa frase de Tolstói: a de que a infelicidade diversifica e a felicidade homogeneíza. Por ser assim com as famílias, como o russo escreveu, não se pode concluir que também se aplica aos indivíduos. Pelo contrário, não há dois epicuristas que se confundam, porque ambos falharam a busca do prazer completo, mas cada um à sua maneira. Por exemplo, é quase impossível encontrar duas pessoas que tenham visitado os mesmos grandes restaurantes, a menos que estejam casadas  - Tolstói realmente rules, porque muitos destes casais agregam-se em double dates e até grupos excursionistas, homogeneizando-se.

 

Quando a classe média com ideais de esquerda admite ir a um restaurante com estrelas Michelin, tem lugar na cabeça um exercício de equilibrismo, impensável para os mais ricos e impossível para os mais pobres, que explica um aparente paradoxo: incomoda mais o capricho de um jantar caro do que a extravagância de um jantar caríssimo. Tal sucede porque só com um jantar que custa o que daria para alimentar um cidadão de um país subdesenvolvido durante um ano inteiro pode o peso na consciência  ser contrabalançado pelo enorme peso na carteira, pois acima de certos valores, à medida que o preço sobe, o peso aumenta mais depressa sobre a carteira do que sobre a consciência e onde no gráfico - imaginem um - estas linhas se cruzam não vemos apenas um break even, é mesmo um break free. Acresce que, quanto mais excepcional for a experiência, mais reforçado fica o efeito atenuante da devoção. Pelo menos foi nestes raciocínios que passei parte da tarde do dia em que tive reserva para jantar no Charlie Trotter's

 

A classe média associa a ida a um destes restaurantes a uma qualquer celebração, mas no meu caso o denominador comum foi a companhia da  mesma pessoa. A mulher da minha vida? Não. O careca da minha vida. Chama-se Th. e é o gourmet e gourmand que me convenceu a ser seu parceiro no projecto megalómano de visitar todos os grandes restaurantes do mundo. O plano aparentemente colapsou por falta de verba e só fomos a três restaurantes, todos nos EUA de W. Bush, onde então vivíamos. Houve peripécias - no Wd50, expliquei ao maître que se um jantar de gastronomia molecular me deixa com vontade de ir comer uma vulgar fatia de pizza a seguir, em vez de retocar as fórmulas e cortar centésimas no tempo de cozedura do ovo escalfado, o melhor é reforçar as doses; no Daniel, sentou-se longe da nossa mesa uma sósia da Nastassja Kinski circa 1980 que à saída agraciou Th. com um sorriso. Mas só o Charlie Trotter's nos marcou e sempre que tento contar aquela noite oiço uma Helen Sinclar cá dentro: "No, no, don't speak. Don't speak".

 

Chicago deve ser a cidade a única das cidades que conheço em que as três breves estadias em alturas diferentes se fundiram num único dia. Esta distorção talvez seja um efeito secundário da forma de catalogação que uma memória débil encontrou e, no caso concreto, produziu um dia muito preenchido. 8:00 AM: no café do aquário da cidade, muito perto do tanque dos golfinhos, que - gosto de corrigir esta ideia errada - não são monogâmicos, Th., em jeito de preparador físico que recupera o jogador, explica-me - mas sem violentar muito a verdade - que eu iria voltar a encontrar alguém. 9:00 AM: estamos no The Art Institute of Chicago, onde daí a pouco tempo terei um daqueles instantes de lusofilia bacoca diante de um quadro de Vieira da Silva - Th. está não sei em que sala, porque gostamos de apreciar arte sem a pressão do comentário. 11:00 AM: deambulamos pela cidade e acabamos meio perdidos numa zona run down, quase uma ruína industrial, tão próxima do centro que ficamos com a sensação de em algum momento termos cruzado uma porta do tempo; 1:00 PM: estamos no Museu de História Natural e Th. tira apontamentos de memória para a exposição de Biologia que organizará - vemos o museu juntos, porque, ao contrário de um Edward Hopper,  animais embalsamados e mesmo borboletas tropicais trespassadas por alfinetes não induzem estados contemplativos. 3:00 PM: como nenhum de nós trabalha de fato e gravata, preparamos a noite auxiliados por St. Anthony Scotfield, o "wardrobe consultant" que adverte um Th. tentado por uma camisa rosa para a absoluta certeza na orientação sexual de que dá mostras quem enverga tal peça de roupa.  4:00 PM naquela que é seguramente a mais deslocada destas memórias, porque sei que não houve matinés de música em Chicago, estamos no Legends, o clube de Buddy Guy, com a irritante atitude de branco a querer ser aceite entre pretos só por em tempos termos escrito um blues sobre a nossa condição laboral. 5:00 PM: sesta breve no hotel para gozar umas camas que ninguém deve comprar, sob pena não de morrer a dormir, antes de dormir, dormir, dormir e mais nada fazer até morrer. 6:00 PM: numa esplanada perto da cloud gate, aquele monumento que me lembra apenas uma gigantesca gota de mercúrio, mas a outros lembra o aparelho reprodutor feminino, é com a tensão característica do relato de uma experiência pessoal que Th. desenvolve uma teoria pré-Hitchens sobre a generalizada falta de sentido de humor das mulheres, a que respondo com a tese de que as mulheres estão, na verdade, igualmente bem representadas nos grupos dos extremos, o das pessoas com pouca e o das pessoas com muita graça. 8:00 PM:  Subimos ao topo da Sears Tower, contemplamos o vazio escuro que é o lago Michigan e depois descemos. 9:00 PM: gargalhadas num clube de comédia de Chicago, o Second City, e um I told you so com o olhar após o gag improvisado de uma rapariga, por quem nos nos enamoramos até às 10 da noite. 10:00 PM: Entramos no Charlie Trotter's.

 

Termina no Sábado. Lá está ela: "No, don't speak. Don't speak".


 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 09:59
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Monstros marinhos na Ponta do Sol

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Velhos de pijama na praça pública e andar seguro cimentaram a ideia de senilidade, mas se houvesse omnisciência e rigor devíamos subtrair todos os casos que correspondem a ajustes de contas, pois só os lúcidos tentam recuperar a paz interior. O esporádico assassínio por vingança fez com que os ajustes de conta se associem invariavelmente a pessoas, mas não é por falta de enquadramento penal que devemos desconsiderar os ajustes de contas com lugares. Quando me perguntam "ela marcou-te muito, não foi?", respondo com outra interrogação: "Paris ou Nova Iorque?" Nova Iorque, Paris, Lisboa, o bairro dos Olivais, Setúbal e... de memória viva não consigo continuar esta regressão, o que deixa Bragança e a ilha de São Jorge, lugares onde me dizem que também vivi, como aprazíveis destinos de férias futuras, que tendem a ser lugares com que não temos contas para ajustar. Curiosamente, alguns lugares de férias passadas, nomeadamente as férias grandes, podem pedir um ajuste de contas. No meu caso, esse lugar é a praia da Ponta do Sol, na Ilha da Madeira.

 

O meu irmão e eu assistíamos o meu pai no mergulho para apanhar lapas, que ele arrancava com uma espátula a uma profundidade pouco impressionante e nós depois recolhíamos para dentro de sacos de serapilheira de plástico; por vezes passava-nos também jacas, uns pequenos caranguejos que abundavam por ali. O objectivo era uma frigideira de lapas grelhadas, que a minha avó faria ao fim do dia, para se acompanhar com cerveja Coral ou laranjada Brisa, mas a apanha era também uma oportunidade para gozar o espectáculo daquele mar rico em castanhetas de roxos fluorescentes e iluminado até ao fundo pelo sol. Era o mundo do silêncio do Jacques-Yves Cousteau, mas com o silêncio interrompido por uma respiração inquieta e a paisagem a rodar periodicamente nos seus 360 graus, como se pretendesse evitar ser surpreendido pelas costas. De quem era a culpa? Minha, mas também do próprio Cousteau, que filmou o tubarão branco, um bicho de verdade e não como o brinquedo mecânico do Spilberg; a culpa era ainda de quem me levou ao Museu de História Natural do Funchal, visita que taxidermizou para sempre alguns receios sobre monstros marinhos. Quando entrava naquele mar plácido a perder de vista, a minha cabeça era um oceanário arquitectado por um Jeronimus Bosch, cheio de criaturas que nunca haviam sido vistas na Madeira, mas que existiam em algum mar distante e podiam nadar até ali. O mar tinha a propriedade única de anular as distâncias - antes do bater de asas de borboleta na China que provocava um furacão na América,  já eu pensava nas batidas de barbatanas na Ponta do Sol que excitavam os tubarões dos recifes australianos.

 

O meu pai nunca soube. E com o meu irmão nunca falei disto, porque falamos pouco. Mas lembro-me de um dia estarmos a sair da água e ele me contar que quando fazíamos o percurso de regresso à praia a sós, só os dois, ele nadava muito depressa por causa dos tubarões. Creio que foi das vezes em que me senti mais próximo dele. Éramos miúdos, mas se o mano velho também tinha medo, era normal ter medo. A vergonha não chegou a desaparecer, apesar de nunca ter recusado uma ida ao mar. Mesmo depois de o meu pai ter capturado o único monstro marinho que vi na Ponta do Sol, o medo não desapareceu. A Ponta do Sol tinha um posto de observação de cachalotes em ruínas e o meu pai contou-me que quando era miúdo um desses gigantes veio dar à praia. Por vezes passavam barcos de pesca desportiva ao largo e eu sabia que eles apanhavam peixes assustadores, mas nunca vi nenhum ali. O único monstro marinho que vi foi um polvo que o meu pai caçou com as mãos.

 

Não sei se esta classificação faz algum sentido e se há algum fundamento neurológico, mas distingo as memórias animadas (como uma cena de filme) das memórias estáticas (como um quadro ou fotografia). A imagem que guardo do polvo é absolutamente estática. De calção de banho, diante dos amigos e da família, o meu pai mostra a sua presa com um sorriso de orgulho que hoje faria dele o inimigo número um do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza). Só o polvo varia em função do tempo e dos humores, indo de um polvo com tentáculos de choquinhos ao polvo gigante das 20 Mil Léguas Submarinas. Esta captura deu um belo polvo de escabeche e passou a ser usada para ilustrar que os actos de bravura costumam ter associada alguma imprudência (se o polvo estivesse agarrado a uma rocha e não a seixos soltos, estaria há décadas órfão de pai), mas para mim tem um  ensinamento mas íntimo. Lembra-me que ninguém pode fazer tudo por nós, nem sequer um pai que, sem o saber, limpa o mar dos monstros marinhos. Por isso, não imagino uma vida cumprida sem voltar a nadar naquela mar e vejo-me a cumprir a tal imagem do velho senil, não na versão de pijama, mas equipado com umas barbatanas e viseira modernas que liguem mal com o meu corpo flácido ou descarnado, para enfim nadar sozinho e respirar tranquilo sem nunca olhar para trás.

publicado por Vasco M. Barreto às 14:01
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

O génio censor lusitano

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Numa das milhares de notas de rodapé que nos deixou, David Foster Wallace sugere que o “beef” e o “pork” do léxico gastronómico da língua inglesa são atavismos de proibições ancestrais, por afastarem da mesa as imagens dos mamíferos (a “cow” e o “pig”) de onde vem a carne, cuidado que não se aplica a outros animais, como os crustáceos – “lobster” é “lobster” – e os vermes – “Dick Cheney” é “Dick Cheney”. Trata-se de uma digressão tipicamente wallaciana, pois o autor de imediato mina a sua tese, recordando que “lamb” não vem com eufemismo e é ainda “lamb” quando chega ao prato, embora um melhor exemplo fosse a expressão “suckling pig”, que combina som e sentido, recrutando as glândulas salivares à segunda sílaba, sem deixar de descrever, com grande rigor e franco poder imagético, a essência de um leitão. Em Portugal, a tese de Wallace seria ainda mais absurda, pois aqui vaca é vaca, porco é porco e uma tripa é uma tripa. Não trocamos significantes por causa de um qualquer tabu milenar, antes os significados, e só devido à pressão do mercado – são os “secretos” anunciados pelas ementas deste país e consumidos a um ritmo incompatível com o da produção de porco preto.

 

Até à vulgarização dos termos brasileiros “moqueca” e “bobó” (por exemplo, de camarão), o léxico gastronómico luso era muito pouco traiçoeiro. Folhear um índice de um livro de Maria de Lurdes Modesto oferecia pouquíssimas oportunidades para trocadilhos vulgares, o que surpreende, tendo em conta a nossa tradição nos enchidos. Dir-se-ia que o léxico gastronómico luso esteve sob uma longa e constante pressão, contrária à que moldou aquele artesanato rico em falos de cerâmica animados por uma mecânica simples. Não surpreende, pois a comida é para se levar a sério. Esta purga livrou-nos das “moquecas” e dos “bobós” autóctones e não sobrou quase nada. Uma excepção é “túbaros fritos”, nome que foi solução prática, pois conserva uma fonética alusão à botânica - túbaro/tubérculo - mas evita que por engano se lancem rodelas de tomate para dentro da frigideira. Menos pragmática e mais interessante, ainda que simples, é a génese da segunda excepção: o rabo de boi. A subtileza de “rabo de boi” é tal, que só quando nos lembramos da alternativa mais natural se percebe a artificialidade da escolha que vingou. Refiro-me, naturalmente, a “rabo de vaca”. Temos a carne de vaca, os bifes de vaca, o lombo de vaca, a língua de vaca e a mão de vaca, mas o rabo de boi. Não é um mistério insondável. Há uma sinergia que faz com que “rabo de vaca” seja treslido pelo rudimentar cérebro masculino como uma expressão vulgar, capaz de o embalar num silencioso crescendo a culminar no sonoro e boçal “comia-te toda!”, que depois espalharia ondas de choque no jantar de cerimónia e faria do pobre coitado o epicentro da censura social. Isto é trivial, mas arrisco a ideia de que “rabo de boi” constitui uma das obras maiores do génio censor português. Como solução, reabilita-nos inclusive do gesto irreflectido do padre madeirense que mandou capar todos os antúrios dos arranjos florais da sua igreja (true story). “Rabo de boi” não denuncia qualquer pulsão pornográfica do censor. “Rabo de boi” não vem com a infantilidade dos branqueamentos totais – penso num “surpresas de bovino”. “Rabo de boi” conservou ainda algo de vagamente censurável, o que cria  uma ilusão de espontaneidade, isto é, de ausência de censura - a este tipo de solução, nos antípodas do radicalismo, não basta querer, nem coragem, é preciso o mesmo virtuosismo que guia o braço do jogador de snooker bem sucedido na intenção de falhar uma tacada por um triz. É um nome tão rico que tem ainda o mérito de nos distrair de um facto irrefutável: aquela sublime carne andou enxotar as moscas que circundavam a poia da vaca. Ou do boi.

publicado por Vasco M. Barreto às 20:03
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

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publicado por Vasco M. Barreto às 12:11
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