Sábado, 11 de Agosto de 2012

Não há férias das palavras

À Sofia, cúmplice até na urgência das palavras.

 

É o crepúsculo dos dias de férias e do intervalo que me impus às palavras que quero e gosto de escrever. Mas foi uma ausência falsa, é sempre para quem tem esta inquietação das frases, dos fonemas, dos signos que, como bichos benignos, tomam contam de nós. Às vezes de forma mansa e paciente; outras, como uma tempestade sem aviso, que nos dói e queremos mitigar com o que está mais à mão, porque estamos terrivelmente tristes ou à beira do abismo de uma felicidade. Assim estas férias: mesmo sabendo a imensa sabedoria e superioridade do silêncio, mesmo aproveitando a lua e as estrelas limpas que se me oferecem, mesmo adormecendo sob o chilrear dos meus filhos ao longe – mesmo assim, a urgência pelo consolo ou pelo permanente desafio de superar esta magnífica impossibilidade que é dizer, escrever o que se sente. E tanto, e tudo por dizer, durante todo o dia, dos primeiros raios de sol até à hora em que converso a sós com Deus no meu quarto, utilizando essas «palavras arranhadas pelo uso», para seguir o conselho e a frase lindíssima do padre Tolentino Mendonça.

 

Rilke, nas famosas e muito citadas Cartas A Um Jovem Poeta, assegura que sentir esta necessidade diária é o que garante a natureza daquele que quer realmente escrever. Não sei: dias há que na alma se me tem posto uma muito pouco literária preguiça. Mas o regresso é de facto inevitável, mesmo que no final do dia nada tenha sido escrito. Como agora, em que a banda sonora que o vento me traz é uma versão manhosa de “Can’t Take My Eyes Off Of You”, cortesia de uma banda que abrilhanta as festas da aldeia vizinha (serão os Nautilus? Os Lords?). Gostaria de dizer que escrevo ao som do Conversations With Myself, do Bill Evans, como tantas vezes o fiz. Dá patina de escritor, fomenta a minha persona que escreve. Mas não. Hoje é o que há, o que sou. E por isso mesmo abandono-me às palavras alheias, não por desleixo ou artifício. Apenas porque há tanto escrito que está cheio de mim, de nós, tantos auto-retratos feitos por outras mãos. E com vossa licença, o que vos quero dizer e não consigo foi escrito por Nuno Júdice e está incluído no essencial Fórmulas Para Uma Luz Inexplicável. Abandono-me, pois.

 

ÀS VEZES

 

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que

as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído

de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar

de frente com essa sombra que não sabíamos que nos

perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,

e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,

em tudo o que nos rodeia,encontramos essa impressão de

que não sabemos onde estamos, como se o caminho para

aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo

devesse ser-nos , pelo menos, familiar. A solução é pegar

no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha

elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo

que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal

como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para

que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou

tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu

amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos

que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua

a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,

e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto

desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

 

É isto. Adormecerei, sorriso palerma em riste.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 23:58
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Domingo, 29 de Julho de 2012

Aspirações

 

A good ad should be like a good sermon: It must not only comfort the afflicted, it also must afflict the comfortable.
Bernice Fitz-Gibbon

 

 

 

E quando pensamos que nada mais nos pode surpreender, eis o último reduto: nós próprios. Um tipo distrai-se e de repente bate com o nariz na sua própria personalidade, de forma tão surpreendente como dolorosa ou tragicómica ou tudo.

Assim o que me aconteceu recentemente: enquanto o mundo andava justamente preocupado com o bosão de Higgs (não sei o que é), a crise europeia (ouvi falar) ou a excelência académica de Miguel Relvas (não sei de que falam! Juro, senhor doutor ministro!), eu andava entretido e fascinado a decifrar o anúncio televisivo da Depuralina.

 

Para o microscópico nicho universal que não faz ideia do que estou a falar, explico: Depuralina Aspira Gorduras Total é (e cito) «um produto completo no combate às gorduras». Dito desta forma, a fome também o é. Mas para o leitor picuinhas ou interessado, uma pesquisa simples informá-lo-á dos alegados atributos da marca em questão. De qualquer modo, não é o produto em si (ou a sua eficácia, que desconheço em absoluto) que é o assunto destas linhas: será mais o modo, hum, criativo, como o tentam vender.

 

Fiquemo-nos para já pelo registo descritivo do spot televisivo: vários humanóides de corpos perfeitos – vindos claramente do planeta Photoshop – exibem o seu corpo exemplar em fato de banho.Os homens, com uma simetria de linhas que faria o Homem de Vitrúvio de Da Vinci parecer um sem-abrigo (o que de certa forma parece, dado o corte cabelo) cruzam-se com mulheres belíssimas, que os olham lascivamente apesar dos Speedos de 1974  que eles ostentam; estas fêmeas, por seu lado, têm elas também um formato tão imaculado que faz o espectador implorar pela mediania – ou, talvez mais saudável, valorizar as imperfeições da mulher que ama. Tudo isto enquanto a voz off, de forma conveniente, vai assinalando as vantagens do que se está a vender e, como é natural, a esperança de que todos os cidadãos poderão ter aquele aspecto.

 

Ora tudo seria normal se ficasse por aqui. Anúncios que prometem a boa forma física – e a alegada qualidade de vida consequente – não variam muito. Mas não, não: aqui vai-se mais longe. Alguém pensou que não bastaria mostrar o estado ideal a que o consumidor de Depuralina poderia chegar. Não, isso está visto, usado, os iogurtes magros e os produtos cosméticos fazem o mesmo. Era preciso uma analogia. E qual?, perguntam os leitores. Felizmente é fácil imaginar a sessão de brainstorming dos criativos, onde deveria pontificar um neo-literal:

 

«Mostrar corpos perfeitos não chega, pá. Temos que ir mais longe. Vá, todos juntos: o que é que a Depuralina faz?»

 

[copy junior, a medo]: «Hããã...aspira as gorduras?»

 

[director criativo, triunfante]: «É isso. Genial. Tão simples. Leões de Ouro, Cannes, La Croisette, aqui vamos nós!»

 

O resultado já todos sabem: temos um anuncio em que a Leni Riefenstahl filmou pessoas com aspiradores. A sério. Corpos nazis, perfeitos, lascivos. Mas todos com um aspirador ao colo. Podem chamar-me romântico mas se a Gisele Bundchen me olhasse com inequívoca concupiscência de Hoover debaixo do braço eu fugia a sete pés.

E é este o mistério que me atormenta, amigos. Porque é que se chama ‘criativo’ a alguém que acha que o melhor modo de exemplificar o verbo ‘aspirar’ é colocar aspiradores? E se a analogia de venda são de facto os aspiradores, porque não aparecem aquelas belezas arrastando um Nilfisk industrial, daqueles que pesam uma tonelada e são populares nas unidades hoteleiras de todo o mundo?

Tudo coisas que me ralam. Tantos problemas que me assolam, tantos dilemas, tantas aflições reais que tenho de apaziguar; e no entanto, sendo macérrimo, continuo na dúvida sobre que aspirador comprar.


publicado por Nuno Miguel Guedes às 01:42
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Domingo, 8 de Julho de 2012

Hoje não escrevo nada




«Heaven knows, it's got to be this time.»

Ceremony, New Order



Hoje não escrevo nada. 

Reinvidico mesmo, até à vitória final, esta aparente contradição: a de escrever afirmando que não escrevo.


Hoje não escrevo nada porque não existe caligrafia, vocábulo em sarcófago por descobrir, força invencível que mo leve a fazer. Não existe demiurgo, deus maior ou doméstico, que mo possa justificar.


Não há amor, paixão, obra de arte que me arrebate e me empurre estas palavras.


Hoje não escrevo porque, receio, estou (sou? que se fodam as ontologias, é tarde e estou ébrio),e dizia, para que não se percam: estou feliz.


E peço imensa desculpa, mas quando se está feliz não há vida para mais nada.





[texto escrito num lindo guardanapo e intimado a dizer pelas melhores razões na estação Baixa - PT. A epígrafe foi a dança que mereci e confirmou tudo mais tarde]
publicado por Nuno Miguel Guedes às 04:06
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Domingo, 1 de Julho de 2012

Manobras de bastidores: uma celebração sinusítica

Há uns dias atrás, numa das poucas aparições boémias a que tenho direito com o meu amigo e co-arrendatário desta casa - o Nuno Costa Santos - falámos, imagine-se, deste blogue. Era tarde, provavelmente. Falta de conversa, quem sabe. A minha aposta, como tive o fôlego de dizer ao Nuno na altura, era que não podíamos sair do estabelecimento em que estávamos. Não porque estivéssemos, ufanos e ébrios (escolhei a ordem e a relação causa-efeito, já confessei tudo à polícia) com duas cervejas servidas em copos de vidro; era mais porque o Nuno ostentava melancomicamente uma resma de livros que incluía Peter Brook e uma compilação dos melhores monólogos do século vinte. A sério. Não se anda no Cais do Sodré assim.

 

Mas no meio dos risos, dos trinta sketches inventados e esquecidos (retive este, porque a culpa é minha: "o que diz Molero de Ravel"), a reiterações à beira da lágrima pela constatação da felicidade alheia ("à beira" porque um homem não chora com livros na mão)  e da contínua celebração da amizade que acontece nos lugares mais impróprios e em que astrologicamente falando tudo parece conjugar-se (quantos dos meus leitores terão ido ao nightclub  Roterdão a horas obscenas e terão sido brindados por um barman intelectual que propõe «shots Zizek"?), a coisa veio parar a este lugar. 

 

Que éramos desorganizados. Irregulares. Com os mais disciplinados e regulares a zangarem-se justamente com os preguiçosos. Mas depois. Depois um tipo distancia-se, lê e vê as idiossincrassias que fazem esta chafarica funcionar. Eu, por exemplo sou dado a homilias.

 

«Sou o  sinucínico de serviço, Nuno», balbuciei maravilhado com o meu trocadilho antes de cair do banco do balcão.

«O caraças. És um romântico na clandestinidade», respondeu o Nuno atrás do shot Zizek e dos ensaios do Peter Brook, com o Jel a carregar nos Smiths.

 

Se vos conto isto, leitores, não é porque é verdade (e é). É porque precisamos destas palavras para a vida e da vida para estas palavras. É porque os afectos é que movem esta treta toda. É porque o sacana do coração, por mais fato e gravata que se vista, não se pode alugar. É para que se perceba, se dúvidas houvessem, que aqui há gente dentro.

 

«E se fizéssemos um livro?», perguntou alguém, talvez o barman ou a Máquina da Preguiça.

«Primeiro janta-se. Depois pensamos se ofendemos os leitores de um modo tão definitivo», disse alguém que gostaria que tivesse sido qualquer um de nós mas sou eu, agora e aqui, feliz nesta memória.

«Boa ideia», concordámos em nome de toda a gente.

 

Não sei se irá acontecer. Há um jantar por marcar. Mas no pior dos cenários - nós decidirmos que sim e uma editora que vá ao Roterdão nos aceitar - sabei isto, amáveis leitores: não queremos que nos comprem. Queremos que saibam o grato que estamos (falo por todos, certo?) por poder fazer estes malabarismos de palavras que são pouco menos que as nossas vidas.

 

De qualquer forma, aconteça o que acontecer, fica já apontado que a ideia não foi minha.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:52
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Domingo, 17 de Junho de 2012

A vida não tem atalhos

 

(a S.C)

 

 

 

Não sei se vos acontece, leitores, e é mais do que provável que não estejam interessados. Mas já que aqui posso estar, suplico indulgência para estas simples palavras.

 

Acontecem estes pensamentos em contraciclo, quando os dias estão cheios de nada que nos impõem ou cheios de tudo o que nos apetece: o Euro, o euro, os festejos do santo lisboeta que foi erudito e recluso mas que insistem em celebrar fazendo simulacros ébrios de manifestações na Síria. Os dias dos piqueniques com marca na mais bela praça da capital, o péssimo equipamento alternativo da selecção nacional, as contestações públicas porque sim, as contestações privadas porque enfim, a indignação desorientada que transforma o indignador na cousa indignada.

E entretanto a vida. Num relapso, numa repetição de uma finta, num olhar que escapou às câmaras - a vida. No meio desta Babel que amamos e odiamos, poder olhar para o que nos acontece, poder olhar para os outros, poder olhar para o tempo.

Aviso: por feitio e necessidade consegui fazê-lo. É um exercício perigoso, anti-social e tão mal-visto como ter o contacto pessoal do Miguel Relvas. Mas é necessário. O exercício, não o Relvas. Parar, por segundos que sejam, na feira popular do nosso quotidiano e olhar para única invenção humana que nos conseguiu escravizar:o tempo. O inventor de todos nós, Shakespeare (sim, sou Bloomiano, obrigado a todos) avisava exemplarmente no Henry IV: "But thoughts, the slaves of life, and life time's fool.And time, that takes survey of all the world, time must have a stop".

 

Decerto, mas qual tempo, de todos os que vivemos? O dos amantes, tão diferente e tão rápido em relação a quem arrasta os passos pelas manhãs?  O tempo do que sabe que vai morrer? O que espera em vão o encontro que nunca irá acontecer? O que se esquece do prazo do IRS? O tempo que destrói o amor, como avisava Vieira?

 

A vida é feita de todos estes tempos e nós, no nosso egoísmo, não paramos para os observar e disfrutar. A vida não tem atalhos. E se não nos entregamos com tempo a olhar para os caminhos que os tempos nos oferecem, passamos ao lado do que é realmente importante. Porque o tempo não é o nosso amo, é apenas a derradeira incógnita. Se não o olharmos nos olhos, mesmo quando nos fere, perdemos o jogo. Não é o tempo que tem que parar: somos nós. Ou então brincamos a alguma coisa a que abusivamente chamamos de vida.

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:00
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Domingo, 3 de Junho de 2012

Alguns aforismos sobre cartas, para uso das crianças e do povo

 

As cartas são o lugar onde as palavras vão quando querem viver. É o habitar no silêncio de quem as recebe que as mantém vivas.

 

As melhores cartas são as que nunca foram escritas, tal como as melhores palavras são as que ficam por dizer.

 

Todas as cartas são poemas. As cartas de amor são poemas ridículos.

 

Uma carta sobre uma carta sobre antes do derradeiro desespero: «Late afternoon Friday my last sight/ of you alive./ Burning your letter to me in the ashtray/ with that strange smile». Ted Hughes escrevendo a si próprio com a dor da última visão de Sylvia Plath.

 

Todas as cartas, embora tenham data, nunca são datadas. Perduram na memória e renascem sempre que as relemos. Obrigam à ressurreição em vida.

 

Das pouquíssimas coisas certas ditas por Rousseau: «As cartas de amor começam sem saber o que se vai dizer e terminam sem saber o que se disse».

 

O nosso mundo é fundado sobre correspondência: Abelardo e Heloísa no Historia Calamitatum, Séneca a escrever a Lucílio, São Paulo para os Romanos e Coríntios.

 

«Nunca um escrito saiu de qualquer mão que se não tornasse um fruto vivo», avisava há quatro séculos D. Francisco de Portugal. Como explicar isto a uma geração que escreve «axo q t amo»?

 

Uma carta recebida é sempre uma ausência percebida.

 

O médico pode salvar vidas, o juiz pode julgá-las mas é o carteiro quem as transporta.

 

Uma carta de amor sincera e bem escrita pode facilmente redimir toda a Humanidade.

 

Soror Mariana Alcoforado, o jovem Werther: dois casos de amores bem correspondidos.

 

Qualquer carta de amor é uma utopia solitária.

 

As formas epistolares electrónicas do nosso tempo carecem da verdade do manuscrito. A mais arrebatada declaração transforma-se numa notificação das Finanças.

 

A caligrafia é o coração da carta. Assis Pacheco percebeu-o e proclamou a sua radical beleza: «Porque tudo se escreve com a tua letra».

 

Todas as cartas trazem consigo um destino mesmo que não tenham destinatário.

 

Não é por acaso que desconfio do Tarot: tentar perceber o destino nas cartas é uma violação de correspondência.

 

Nos romances epistolares que atravessam a literatura podemos encontrar um inventário completo das paixões humanas. Das Ligações Perigosas a Drácula, sempre humanos, demasiado humanos.

 

Todas as cartas que enviamos são o nosso testamento. Mas sempre que as escrevemos estamos a iludir a morte.

 

Quem escreve uma carta deixa sempre o corpo para enviar a alma num sobrescrito.

 

Nas cartas existe sempre uma gramática masculina ou feminina. Durrell dizia que as mulheres escrevem sempre as melhores cartas aos homens que estão a trair. 

 

Numa carta a ortografia deve ser um estilo de vida.

 

Todas as cartas são de jogar. Naquelas que são escritas jogamos apenas os dias.

 

 

[texto originalmente publicado na edição «Cartas» da revista Egoísta, em Março de 2012. Esta edição (e a «Viagens») venceu o Grande Prémio Categoria Revista dos Papies deste ano]

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:39
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Domingo, 13 de Maio de 2012

A vida tem morte a mais

Claro: somos crescidos, já sabemos como é. Nascemos, morremos, coisa natural, «é a vida» como somos ouvidos a dizer estupidamente nos velórios dos nossos parentes.

É a vida mas é o caralho.

Da vida rejeito a morte. Entendo-a, lido com ela, tenho até a dádiva da Fé. Mas não me obriguem a aceitá-la, não me obriguem a resignar-me num final tão chocho, tão previsivel, tão foleiro.

 

Eu escrevo zangado. Estes dias têm levado muitos que conhecia e privei. Leio dilacerantes declarações públicas de amor de um amigo e mentor e, mesmo através daquela sábia e terrível beleza, percebo o desespero, o náufrago envergonhado que anuncia a deriva que sempre sucede à perda.

O que nós contemos é demasiado para acabar. Acredito que a imortalidade possa ser uma grande maçada, ainda por cima sabendo que nós humanos não somos flores que se cheirem. Mas admitamo-lo: viver sabe a pouco, mesmo quando se morre de excesso de vida.

 

Não há refúgio possivel nestas alturas: leio Unamuno, leio Séneca, leio a minha Bíblia e não há santuário nem consolo. Depois passa. Mas volta, volta sempre.

Estou zangado. Apetece-me grafittar esta cidade que está luminosa com a frase do Sénancour: «Se é do pó que viemos e é para o pó que vamos façamos que isso seja uma injustiça». Mas em vez disso tenho de fazer um perfil jornalístico de alguém que conheci e gostei e reler as suas entrevistas antigas e voltar a reencontrá-lo nas palavras que sobreviveram ao pó.

Eu sei que a vida é injusta. Mas não me obriguem a aceitar a morte.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 02:21
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Domingo, 29 de Abril de 2012

Sementes


Acredito que há um pouco do que fomos naquilo que vamos sendo. O tempo, as ideias, as alegrias e as tristezas – tudo o que de forma não suficiente chamamos de ‘vida’ – vão ajudando na viagem, nas partidas, nos regressos e na surpresa das esquinas que vamos encontrando. Mas nunca, nunca seremos o que fomos.

 

Explico. Uma das minhas maneiras preferidas de me confrontar com o prefácio de mim é reler livros que de gostei muito na primeira vez que os li. O resultado deste exercício é sempre extraordinário: livro e leitor parecem e são diferentes sempre que lidos à luz do hoje. Há algum tempo fiz a releitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. A dada altura uma personagem de que agora não me recordo (a própria Alice?) resume tudo o que aqui foi escrito: «Mas não vale a pena voltar a ontem. Nessa altura eu era outra pessoa».

O tema que sobrevoa esta edição do Lisboa Capital República Popular, «Ser solidário» fez-me voltar a ontem – e por consequência, a outra pessoa que fui. Não me consinto – porque acho inútil e aborrecido – qualquer tipo de nostalgia que não seja a do instante que agora mesmo passou. Mas foi inevitável, perante esta frase, lembrar tempos, lugares e músicas. Um disco que me marcou e confirmou o génio absoluto de Zé Mário Branco, que transcende ideologias ou visões da vida (e escreve-vos quem tem esses valores praticamente nos antípodas dos do cantor); uns versos que ainda hoje me guiam («Fazer de cada perda uma raiz/e improvavelmente ser feliz»);

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   dEraEr  Era o tempo dos concertos «Solidariedade com...». Nicarágua (contras e sandinistas, lembram-se?), Chile, pessoas, qualquer coisa. Os efeitos dos pós-revoluções começavam a assentar, o primeiro presidente eleito (ainda militar) ia para o segundo mandato e a democracia caminhava debilmente para uma normalidade qualquer. E essa pessoa que fui ia a todas, cantando o refrão de O Barco Vai de Saída, do Fausto enquanto acreditava sinceramente que estava a ser solidário e em comunhão com todos os que enchiam coliseus e outras salas. Não estava, sei-o agora. A minha militância era mais afectiva do que efectiva.

E houve aquela tarde de calor indolente, em que um amigo chamado Pedro Branco entra pela sala da Associação de Estudantes a que eu pertencia e lança o apelo: «O meu pai precisa de vozes para um coro de uma canção. Agora! Quem vem?». Fomos todos. O “pai” era – adivinharam – o próprio Zé Mário Branco. O resultado está registado e é com muito orgulho que me encontro na vozearia mais ou menos organizada que participa na canção Qual é a tua, ó meu?, incluída no mesmo disco.

 

Muitas versões de mim depois surpreendo-me a escrever sobre esses ontens que cantavam, de um optimismo quase absurdo mas sincero. E lamento, lamento tanto que a vida me tenha ensinado que o bicho humano gosta de praticar pouco o que louva. Não se trata de não acreditar na solidariedade; trata-se de acreditar (ou de constatar) que ela tem aparecido apenas na pior das situações ou instigada por campanhas massivas. Ela existe, eu sei. Há provas de pessoas e instituições que a praticam, sem medo nem vaidades. Mas por outro lado lembro que os mesmos que aderimos tão entusiasticamente na ajuda às vítimas do terramoto haitiano são exactamente os mesmos que os deixam agora no esquecimento. A media e a nossa consciência flexível faz o resto.

 

Parafraseando Dickens vivemos os piores dos tempos, vivemos os melhores dos tempos. A humanidade que teima em existir no ser humano vem ao de cima com as adversidades e todos os dias vemos exemplos notáveis de ajuda. Não me importo de dizer que eu próprio beneficiei com isso. Mas não consigo deixar de pensar na irritante sazonalidade dos bons sentimentos colectivos. Não é de resto de estranhar: o filósofo Emmanuel Lévinas (de certa forma um precursor e influência no pós-modernismo anunciado por Gilles Lipovetsky) esforçou-se para desenvolver a ideia da primazia do Outro, rejeitando assim todos os conceitos antropológicos que desde Descartes giravam à volta do ego. Dizia mesmo que a civilização ocidental encontra-se marcada pela redução do Outro ao Mesmo e que seria urgente um «humanismo do Outro», onde a violência de um rosto alheio nos convocaria ainda com mais força a sermos Nós. Infelizmente a nossa sociedade empurra para um isolamento, o que equivale a uma espécie de permanente angústia relacional, o que no limite nega uma das principais características do que é ser humano: a comunicação. É espantoso verificar como esta ideia se transformou na regra da humanidade ocidental , com as excepções a virem apenas em situação de crise. A solidariedade como virtude praticada em uníssono é impossível pela própria natureza humana. Cepticismo antropológico? Sem dúvida, mas um cepticismo que pela minha parte aceita mais o ‘talvez’ do que o ‘não’.

 

Apesar de tudo estes não podem ser os dias do pessimismo. São dias de acção, sob pena de tudo se perder. Iniciativas como a LCRP ajudam a pensar em valores universais e colocá-los em prática. E espero – meu Deus, como eu espero – que quem sou hoje e isto vos escreve esteja completamente enganado naquilo que aqui diz acreditar e que o outro que fui ontem possa regressar em força e confiante.

 

 

(texto publicado no jornal que acompanhou a edição deste ano do Lisboa Capital República Popular)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 19:06
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Domingo, 25 de Março de 2012

Cronicar é preciso (viver também é preciso)

E de repente é tão estranho e tão bom regressar às palavras. Um tipo que as cultive precisa disso: desses arbustos grafados por onde espreitamos os outros, tão paternalistas como imbecis, uma espécie de BBC Vida Selvagem da natureza humana onde nos esforçamos por  esquecermos que também nós somos feitos dessa parca natureza. Mas parece não haver nada a fazer, as palavras insistem em ser ditas mesmo que pouco valham.

 

Para mim a ausência desta casa foi imposta pela matéria-prima da escrita - a vida. No meu caso: a vidinha. Como diria o hippie talentoso enquanto tocava no seu piano branco em directo da sua mansão branca onde lá fora o esperava o seu Rolls Royce branco:"imagine no possessions". Desculpem, a citação era outra, da autoria do mesmo: a vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer outros planos. Certo. A vida, com sorte, é o que nos acontece quando não fazemos planos. E contra-ataco com o que dizia um tipo que era tudo menos hippie milionário (google it): a vida é o que acontece nesse acontecer. E nessa altura não há paciência para escrever porque pura e simplesmente não é verdade. A perda, a morte, a separação,as finanças, a raiva, a tristeza, a extrema alegria, o quotidiano - tanta coisa que impede qualquer crónica sincera. É preciso distância e tempo. 

 

Mas passada a tormenta, a atenção e a vontade regressam. Estamos sentados num restaurante e ouvimos uma extraordinária conversa de um casal que se separa.E em francês (onde estavas, Rohmer?). Dizia ele, desesperado:«Eu tenho outras, sim. Mas não como tu». E ela , olhando o muito pouco existencialista bacalhau à braz que degustava:« Eu sei de mim. O problema são as outras». Frederic Forrest com o olhar triste em One From The Heart, a desculpar-se pateticamente perante uma Teri Garr resoluta:«It was nothing.It was just a little something». Só lhe valeu uma canção do Tom Waits.

 

Nessa altura o cronista percebe que está pronto a falar com alguém, que a sua vidinha é igual a tantos outros e diferente de todos. E chega a casa com esta urgência vulgar e inútil de contar o que nós somos. O que quem escreve é no momento em que escreve. 

 

A crónica não é um diário nem deve ser. Explico-me: há dois dias fui assaltado. Nada de grave, telemóvel e pouco mais. Mas deu tempo para perguntar, quase evangelicamente.«Fazem isto para quê?». Resposta óbvia:«Porque precisamos». Talvez a crónica (ou escrever, ou criar), por vezes, seja este assalto a nós mesmos. Porque precisamos. 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 08:00
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Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Old ideas

Primeiro queria falar do novo  - é sempre novo, sempre novo - disco de Leonard Cohen. O deslumbre é tão forte que me esgota a adjectivação. Talvez fale do disco - melhor, estou certo que o farei - quando terminar de o ouvir e de o ler. Agora só o posso antecipar. Mas uma coisa leva à outra,as palavras existem à espera de serem usadas e reusadas. E encontrei estas, nascidas há pouco para habitarem outro lugar, vi que estava a falar de Cohen sem falar dele. E por isso essas palavras voltam a nascer aqui. Preguiça? Cohen justifica até a preguiça.

 

O silêncio das palavras

Já o escrevi e disse centenas de vezes. Não porque quero matar de tédio os meus escassos interlocutores mas apenas porque considero uma das poucas verdades em que acredito, impermeável à passagem dos dias. E a verdade é esta: tudo tende para o silêncio, porque é ele que tudo contém. A vida, a arte: tudo almeja o indizível. As palavras são uma triste mediação porque nunca conseguirão dizer o que realmente se sente. Para quem faz da escrita a sua vida elas são a mais bonita das impossibilidades.

 

Neste sentido, a poesia – a palavra poética – será o que mais próximo ficará desse lugar tão secreto que queremos partilhar. A poesia é uma investigação da verdade e da alma, uma depuração constante e exigente que no seu melhor nos alimenta sempre com o que não se escreveu e ficou por dizer. E aí é que nós estamos, e aí é onde está o poeta.

 

Nem o que escrevo é original: desde sempre houve quem sentisse e comprovasse este paradoxo de não se poder dizer o que se sente: de Wittgenstein a Beckett, passando por Fernando Pessoa ( «O poeta é um fingidor»...) a constatação do silêncio como derradeiro lugar da alma parece evidente.

 

Faz então sentido dizer poesia? Faz. Mesmo preferindo a leitura para mim mesmo, sei que a palavra é a última feitiçaria que nos resta, o vestígio de magia a que ainda temos direito. Capaz de levantar corações, incitar revoltas, gerar ficções, criar manifestos, suicídios, paixões inexplicáveis.

Por isso sempre me encontrarão perto dessas cerimónias em que a palavra anda à solta, sem medo e sem dono. A poesia é uma utopia solitária e a única que me interessa neste mundo. Agarro-me a ela tantas vezes que se confunde com a vida. E sempre com a esperança que a magia funcione, mesmo sabendo que não há resposta à pergunta em verso de João Miguel Fernandes Jorge: «como hei-de prometer as coisas».

 

 

 

 (publicado no magazine do SlamLX nº3, dedicado à Slam Poetry)

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:23
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