Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

O meu amigo Leonardo

Tenho o “Vientos de Cuaresma” do Leonardo Padura a olhar para mim. Fui buscá-lo a uma estante e pousei-o na mesa à minha frente. O Padura está no meu altar pessoal. Nunca lhe chegarei a agradecer ter-me apresentado ao Mário Conde, o detective angustiado, meio estóico, meio epicurista, meio sonhador, meio desiludido, amante de rum e de boa comida. O Conde é um tipo ambíguo, sem certezas, perdido num mundo que conhece mas que não compreende, como todos os meus heróis. É, como o seu criador, alguém que vive entre o desencanto e a esperança, perdido no combate entre o medo que lhe foi vestido como uma segunda pele mas sem desistir de o combater ou, pelo menos, de o enfrentar.

Das centenas de livros que há na casa onde estou agora a escrever foram os dele que me chamaram da estante onde estão encavalitados. Podia ter pegado num livro dum autor que não conhecesse ou a minha atenção podia-se ter virado para uma qualquer obra dum escritor de que goste mas que ainda não tivesse lido. Mas não, peguei num do meu cubano favorito. Um livro que já li e de que tenho uma memória ainda muito viva. Vou pegar nele e lê-lo de novo. Vai ser bom saber o que vai acontecer na página seguinte, ser uma espécie de deus conhecedor do destino de cada personagem, não estar ansioso por saber o fim da história. Vou lê-lo como uma criança a quem a mãe conta todas as noites a mesma história, não por falta de imaginação mas para que ela se sinta segura, para que se evite a excitação ou o sobressalto duma qualquer novidade. Os amigos, e os livros do Padura são um amigo muito chegado, servem também para isto. Para nos confortar simplesmente com a sua presença, para não nos questionarem quando nos olhamos ao espelho e vemos um enorme ponto de interrogação igualzinho a nós, para nos contar uma história que conhecemos de cor para sentirmos que pertencemos a alguma coisa, que temos uma história, um passado, para nos transportarem para o nosso espaço nem que seja por breves instantes e que nós saibamos não passar duma ilusão. O Leonardo vai-me contar uma história e pode ser que eu adormeça em sossego com um sorriso nos lábios e uma esperança no coração.

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:59
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

É sempre a mesma história, filho

O meu filho Sebastião gosta de histórias. Gosta de as ler e gosta de as contar. Diverte-se a escrevê-las como só se divertem aqueles que não têm obrigação de as escrever.

Outro dia, o meu rapaz entrou-me pela minha sala adentro com aquele ar só dele, como quem pede desculpa por estar a incomodar mas não pode deixar de o fazer. O método é sempre o mesmo: entra devagarinho, estica o pescoço por cima da minha cabeça, finge que se interessa pelo que estou a fazer, faz um comentário qualquer acerca da música que estou a ouvir, conta um episódio da escola mais para cumprir o que julga fazer parte do seu papel de filho e, inconscientemente, abana a cabeça.

Os olhos e aquele abanar de cabeça chegam para dizer quase tudo acerca dele. Aqueles olhos pequenos, rasgados, muito afastados, parecem ímanes. Curiosos, ávidos, mas sempre focados. Marca os objectos, as pessoas, as situações como se naquele momento o mundo parasse e nada mais existisse senão o seu alvo de atenção.

O abanar de cabeça é o seu gesto de passagem. É como quem diz, vamos ao que interessa.  Uma coisa do género “Eu sei que há umas tretas que é suposto eu dizer ou fazer, e até não me incomoda nada fazê-lo, mas agora já chega”.  

Confessou-me andar um bocadinho angustiado. Disse-me que andou a passar os olhos pelas coisas que já escreveu e está sem assunto. Pior, pensando que só tem quinze anos, como diabo irá cumprir o seu sonho (do momento, claro está) de ser contador de histórias se a partir de agora, segundo ele, se vai repetir vezes sem conta.

São tão poucos os momentos em que nós como pais nos sentimos úteis que quase fiquei feliz com a angústia do meu rapaz. Só quem nunca ouviu um pedido dum filho, quem nunca se confrontou com a obrigação de indicar este ou aquele caminho, quem nunca ralhou, quem nunca contrariou ou consentiu, pode avaliar o alivio que se sente quando se sabe exactamente o que dizer, quando não se tem um pingo de dúvida acerca do conselho certo.

A vida dum pai é feita de angústias, dúvidas, medos. As mais pequenas decisões, os mais pequenos gestos fazem-nos perder noites: será que dei o conselho certo? Fui justo quando lhe berrei? Será a melhor escola para ele? Estou a dar um bom exemplo? Servirei para alguma coisa? Estou a condicioná-lo?  

Só me apetecia agarrá-lo e cobri-lo de beijos. Agradecer-lhe a pura felicidade que me estava a dar naquele instante. Eu sei a resposta, sei mesmo. Eu e toda a gente que gosta de histórias. 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:01
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Nota-se muito que estou a tentar deixar de fumar?

Acabo de ver uma beata. Não, não é uma daquelas senhoras de missa diária, muito devotas e castas. A beata a que me refiro também é poluente, não tanto como as ditas matronas que não contentes em estragar a paisagem com as suas fuças amarelecidas de incenso e os dedos cheios de artroses provocadas por tercinhos e novenas andam a ajudar a semear de atletas cor-de-rosa as varandas cá do burgo.

A beata era de cigarro, uma purisca (sei dizer mas não sei como se escreve) amarela, linda, satisfeitinha por ter visto o branco do cigarro dar tanto prazer ao saudável e belo cidadão que o fumou.

Também tenho sonhado com salas com gente bem disposta a fumar umas cigarradas valentes enquanto bebem uns copos. Cigarros fumados a dois depois de muito carinho. Cigarros molhados de tantas lágrimas. Cigarros raivosos. Cigarros nervosos. Cigarros fumados só por serem cigarros.

Hoje não há crónica, não há cigarros.

publicado por Pedro Marques Lopes às 12:47
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

O Mestre Telê Santana

Em vez da historieta introdutória seguida do corpinho intermédio e da tirada final, mato já a crónica: viva o amor.

O Telê Santana, nos anos 70 e 80, era unanimemente considerado o melhor treinador brasileiro. Ainda hoje é considerado um dos maiores treinadores brasileiros de todos os tempos, mas para o adepto comum de futebol foi o tipo que perdeu o campeonato do mundo de 82 com o melhor grupo de jogadores jamais reunido.

Há quem despreze o bom do Telê por ter perdido o campeonato, eu idolatro-o por ter tido a coragem de o perder. Sim, senhor, coragem. A coragem cega, irracional, suicida que o amor dá. Vejo o Telê naquele personagem, dum livro e dum autor que não recordo o nome, que sabia estar a ser envenenado pela sua amada e mesmo assim bebia sofregamente o veneno que ela lhe dava todas as noites.

Pois claro, o grande Telê não sabia que o Júnior não era defesa esquerdo. Também não sabia que era impossível ter um meio campo com o Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico. Pois, pois. O homem que ganhou o campeonato mineiro para o Grémio retirando a hegemonia duma década ao Inter, o mago que transformou os italianos do Palmeiras numa equipa de respeito, que fez do São Paulo o melhor time do mundo, não sabia que nem que a vaca tossisse ganhava o Mundial com aquelas estrelas todas. É, o Santana era ceguinho. Não era, com certeza, ele que estava no banco quando o Brasil por um triz não se apurou para Espanha com exactamente os mesmos jogadores com que se apresentou na prova. Por favor. Ás tantas era um clone dele a orientar a equipa em 86, a tal que chegou à final com um conjunto de jogadores que nem para os calcanhares da de 82. Vão mas é lamber sabão.

O homem sabia que ia perder. Deve ter perdido noites inteiras de sono, angustiado, a antecipar os apupos, os insultos, as críticas. Que podia ele fazer? Faltar ao respeito aos deuses do futebol e atirar o Júnior para o banco, ou o Falcão, ou o Sócrates, ou o Zico, ou mesmo o Toninho? Vê-los ali todos juntos não valia bem um campeonato do mundo ? O Telê sabia que sim. Não há taça, torneio que compensasse um passe rasgado do Falcão, um nó cego mágico do Zico, uma revianga do Júnior, uma correria – sempre de costas direitas – do Sócrates. Ali, como se estivessem de novo num pelado a brincar ao futebol.

O Telê amava demasiado o jogo para nos privar de tudo aquilo. Há mais, muito mais, no mundo do que a vitória e a derrota. A arte, a beleza, valem milhões de vezes mais que uma taça, e o Mestre sabia-o.

Viva o grande Telê Santana.

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:59
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Eu, luxo? Deus me livre

Estava o George Best, fantástico jogador de futebol, numa suite, no melhor hotel do Mónaco, acompanhado de duas moçoilas recentemente vencedoras dum concurso mundial de beleza e acaba o champagne. O bom do George telefona para o serviço de quartos e pede mais Dom Perignon. Chegam as garrafas, e o empregado reconhece o jogador dos seus tempos de infância em Belfast. Olha para os destroços duma noite, digamos, tempestuosa, as raparigas nuas, o Best meio bêbado e sai-se com esta: “Ó meu querido amigo, quando é que a tua vida  começou a correr mal?” Conta o George Best nas suas memórias que andou a matutar naquilo uma série de dias. “Então, estava eu num sítio magnífico, com duas beldades na cama a comer e a beber do bom e do melhor, e o tipo que me veio trazer mais bebidas, que ganhava num ano o mesmo que eu num dia diz-me que a minha vida estava a correr mal?”

Pois é, isto do luxo, bons hotéis, excelentes restaurantes, vinho de primeira, carros caríssimos, iates, é tudo uma grande porcaria. Não há ninguém que goste dessas coisas péssimas. Os ricos detestam. Passam horrores por serem obrigados a viver com elas. Basta ler uma entrevista numa dessas revistas que ninguém compra mas que se vendem como pãezinhos quentes para podermos constatar isso: “Odeioooo o luxo. Caviar? Não, detesto isso. Gosto mesmo é de castanhas piladas”. Carros? Pois, tenho este Ferrari, mas do que eu gostava mesmo era do meu Diane a cair de podre. Ai o que eu gostava da minha tenda e dos meus fins de semana na praia de Pedrouços, agora tenho de navegar nesta porcaria de iate e passar férias em hotéis de cinco estrelas em praias paradisíacas. Ai que saudades da minha barraca na Pedreira dos Húngaros.”

Os pobres então é que nem lhes falem de luxo: “Eu? Luxo? Uns desgraçados esses gajos. Sempre cheios de problemas. Ele é divórcios, ele é filhos a ter acidentes com bólides, com brutais dificuldades para decidirem se hão-de ir fazer sky a Gstaad ou jantar no melhor restaurante de Nova York. E depois a maçada que deve ser tratar daquelas casas todas, dos barcos, das jóias. Organizar festas. Ui, Deus me livre”.

Luxo? Os tipos que editam revistas sobre luxo que me perdoem, mas o que lhes terá passado pela cabeça para dedicarem papel e mais papel a uma coisa que toda a gente odeia? Apresentem-me uma pessoa que diga gostar de luxo e eu, que claro está também detesto, faço o sacrifício de morar num duplex de 600 m2 em Manhattan, andar de Rolls Royce com chaffeur e de comer trufas ao pequeno-almoço. 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:11
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Inquietação

Há uma canção dos James que diz que é necessário saber a verdade para acreditar. Disparate.

Nunca conheci crença que precise de qualquer tipo de  verdade. “Felizes os que acreditam sem terem visto”, dizia Jesus Cristo.  As crenças só são realmente fortes se desprezarem a verdade. Ou melhor, a verdade e a crença são as faces da mesma moeda. Nem há verdade sem crença, nem crença sem verdade. Se pensássemos serem realidades intrinsecamente diferentes estávamos a dar um carácter divino ao julgamento humano. Como se cada um de nós fosse capaz de conhecer a verdade ou o seu significado.

A verdade não é mais que uma opinião sobre as coisas. E nós dependemos dessas opiniões como do sol, do ar, da água, da comida. São elas – e são infinitamente mais do que imaginamos – que nos permitem ir sobrevivendo sem enlouquecer ou sem colocar em causa tudo o que aparentemente é fundamental para a nossa existência. Vivemos tão mais sossegados quanto mais firmes forem as nossas opiniões. Precisamos que sejam sólidas, à prova de contestação. Chegamos ao limite de não as testar, de não as discutir, de não nos aproximarmos de quem as possa pôr em causa. O risco é demasiado grande. Uma gota de dúvida transforma-se rapidamente num imenso rio de incerteza capaz de derrubar o dique que julgávamos impenetrável.

Ai dos que duvidam, dos que ousam olhar para o outro lado, dos que teimam em procurar, dos desassossegados. Esses apenas encontrarão mais perguntas, mais entroncamentos, mais e mais portas, mais e mais angústia, mais e mais  inquietação.  São esses, porém, que amo. Os que o Gide pensava serem os únicos em quem confiar: “Believe those who are seeking the truth. Doubt those who find it”.

 


publicado por Pedro Marques Lopes às 00:53
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Mrs Judd

Morreu-me um amigo. Rapaz da minha idade. Daqueles de que não se guarda uma única memória menos agradável, um ressentimento por pequeno que seja. Um tipo duma bondade desarmante, sempre pronto a descobrir algo de bom no mais refinado sacana. Morreu como viveu: sem um pingo de revolta contra a vida que tantas vezes o maltratou, nem contra o cancro que o devorou em meia dúzia de meses.

Deu o último suspiro nos braços da mãe. Quem o aqueceu quando nasceu, amortalhou-o. Não pode haver maior sofrimento. Toda a revolta, toda a tristeza, todo o desespero de quem o amou e tão cedo o perdeu é quase nada quando nós choramos por quem nos devia chorar.

Lembro-me sempre do meu avô, junto do meu tio morto, a gemer: “e agora, quem me leva?”

O único, o radical, o momento que muda definitivamente a nossa vida é o nascimento dum filho. E não, não é só por deixarmos de podermos ou não estar sós, de as consequências dos nossos actos deixarem de ser apenas nossas, mais que tudo é a consciência do tempo certo da nossa morte. Deixamos de fazer a contagem não em anos ou décadas, pedimos só que os nossos filhos nos sobrevivam. É provável que um filho traga a ilusão da eternidade, de alguma coisa nossa permanecer depois da nossa ida, mas a nossa racionalidade ou o nosso coração, eu sei lá, não nos deixa ir tão longe. Queremos apenas normalidade. Que no nosso leito de morte nos reste uma pequena e definitiva alegria: o meu filho fica.  

publicado por Pedro Marques Lopes às 01:29
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

A visita do casal

Reli isto do Rubem Braga e não consegui pensar em rigorosamente mais nada. Juro que não foi preguiça nem falta de tempo.

 

Um casal de amigos vem me visitar. Vejo que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.

É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. Da-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.

Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam; mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.

Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco, o conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?".

Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não uso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha, Rubem? Diz que quando engordo minha gordura vem toda parar aqui" – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?"

Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam da minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por me visitar. Estou meio comovido.

A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?"

Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?"

Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela.

 

 Do Rubem Braga

publicado por Pedro Marques Lopes às 16:11
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

A minha madeira nova

Comprei uma madeira três nova. Linda, a bichinha. Conto os minutos até ao próximo fim de semana. A partir de agora, saia bem o drive, e não há green de par cinco a que não chegue à segunda pancada. Vou dar descanso ao drive em muito par quatro. Pensando melhor, até sou capaz de arrumar esse cabeçudo que ultimamente só me tem dado desgostos.

Agora é que vai ser. Acabaram-se os tops miseráveis, os hooks vesgos, os slices tipo carro em aqua-planning. Basta tocar nesta maravilha para perceber que, com este balanço, o meu swing vai ter um ritmo que faria o João Gilberto morrer de inveja.

Não, não me venham com conversas cínicas. Não me recordem o dia em que me deram a pista de carros Scarletix, aquela que passados dois dias já tinha sido atirada para o armário dos brinquedos velhos e ficou a descansar em paz com o Action Man legionário e o capacete do Vickie. Não vale a pena lembrarem-me do dia em que levei os meus ténis Sanjo (botas, atenção) pela primeira vez à escola, os que  fariam as raparigas suspirar por mim, e que, numa semana, se tornaram apenas mais um par de ténis rotos. Da mota, do carro, do computador portátil, do DVD e de todas as coisas que iam dar uma nova dimensão às nossas corriqueiras vidas.  Do novo emprego ou do novo negócio, que se tornou rotineiro como todos os empregos e negócios.

Vivemos na ilusão da mudança, de que um objecto ou uma decisão mude radicalmente a nossa vida ou até nos mude como pessoas. E apesar de no fundo, no fundo, sabermos que no essencial nada muda, não conseguimos deixar de sentir um frémito, uma pequena esperança de que aquela madeira três nos faça baixar o handicap, que aquele livro faça de nós um homem novo, que aquele emprego nos realize absolutamente.

Pode ser que não possamos viver sem essa ilusão, que seja isso o que nos faz levantar todos os dias com a esperança de que nos conseguimos mudar ou alterar significativamente o mundo à nossa volta.

Eu não tenho dúvidas: a partir de Sábado começa a minha contagem descendente para o Seniors Tour. Treme Fred Couples.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:49
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Amanhã

Ando a tentar deixar de fumar há mais de trinta anos. Estou convencido que no dia posterior ao meu primeiro cigarro decidi deixar de fumar. Neste momento tenho um cigarro posado no cinzeiro e os pensos de Niquitin à minha frente. Amanhã ia ser o dia em que o tabaco deixaria de me dar dores de cabeça, em que ia começar a subir dois lances de escadas sem ter de parar a meio, em que ia deixar de ter lancinantes ataques de tosse de manhã, em que a minha asma acalmaria, em que o meu carro deixaria de ser um cinzeiro ambulante, em que os meus filhos me iam agradecer não viver numa permanente névoa. Recebi, porém, um telefonema. Era um convite irrecusável e que obriga, para mal dos meus pecados, a muito trabalho. Não dá para cumprir a tarefa sem cigarros. O problema é que todos os trabalhos, todas as mais corriqueiras actividades são importantíssimas e infazíveis se imaginar que não vou ter o tabaco como parceiro.

Tem sido assim toda a minha vida: passo noites em claro a pensar no mal que o tabaco me faz, lembro os amigos que morreram com cancros provocados pelos cigarros, faço a mim próprio promessas solenes. Levanto-me, tusso e passado uns minutos, em raros dias umas horas, lá acendo o primeiro dos muitos cigarros diários. Os cigarros são a prova provada da minha fraqueza, da minha falta de força de vontade. Já tive depressões por não conseguir deixar de fumar. Escusado será dizer que durante as semanas de depressão continuava a fumegar.

Para o mal, nunca para o bem, os cigarros são a única coisa constante e permanente na minha vida. Lembro-me dos cigarros sugados nas escadas da maternidade onde nasceram os meus filhos, daqueles consumidos antes dum negócio importante, dos que me ajudaram a pensar quando decidi mudar de vida. Os cigarros estiveram lá sempre: nas alegrias, nas tristezas, nos momentos de tédio, nos de euforia, nas minhas vitórias, nas minhas derrotas.

Nos dias em que estou particularmente cretino e que por milagre não estou com falta de ar chego a pensar que há algo no meu subconsciente a impor-me fidelidade a algo que nunca me abandonou – quando mais racional sei que é um produto causador de dependência. É verdade, a minha estupidez atinge esses níveis.

É amanhã, é amanhã.

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:00
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