Sábado, 13 de Dezembro de 2008

Clint

 

Nunca cheguei a tempo aos meus heróis. Fui fã de Nélson Piquet no momento em que surgiu Ayrton Senna, de Nené e de Fernando Gomes aquando da aparição de Paulo Futre – e na altura em que a rapaziada sonhava com o chicote de Indiana Jones, eu reparava na velocidade a que Bogart disparava frases afiadas para no fim ficar sem a miúda. Nunca cheguei a tempo aos meus heróis.

Os homens de quem aprendi a gostar não eram imbatíveis: tinham conhecido a vitória e depois tinham tido de aprender a viver com a derrota. Esse homens ganharam a minha atenção por uma razão: pareciam humanos.

De entre eles há um que quanto mais defeitos, incoerências e obras mal conseguidas lhe conheci ao longo dos anos, mais apreço lhe ganhei: Clint Eastwood. A Cinemateca teve a excelente ideia de fazer um ciclo com a obra de Clint e teve a igualmente excelente ideia de fazer um livro dedicado ao ciclo. Teve, porém, a infeliz ideia de me convidar para escrever um texto para o livro – o que aceitei de imediato para logo a seguir entrar em depressão: o que raio teria eu para dizer acerca de Eastwood?

É que Clint, para mim, não é uma questão de cinema. Esteja à frente ou atrás da câmara, Clint representa uma ideia de homem: mais ou menos fascista, mais ou menos beberrão, mais ou menos violento, mais ou menos mulherengo, mas com um simples mote: “É a minha vida. E tenho de vivê-la à minha maneira, ou então mais vale não viver” (paráfrase de uma fala do anti-herói de “Honky Tonk Man”). Isto, por mais seco que aquele homem pareça, é um ideal romântico: fazer o que se tem a fazer mesmo que isso implique perder.

Não creio que os homens que Eastwood representa e filma sejam, com algumas excepções, casmurros por indiferença ao outro; a casmurrice é um fechamento em si próprio, como se aqueles homens não aguentassem viver entre os outros, não conseguissem aceitar a pressão das convenções – o que automaticamente implica que Eastwood (na tela) seja mais frágil do que aparenta.

Acredito mesmo que há uma espécie de Homem-Eastwoodiano – alguém que não cria, apenas mantém. Por norma mantém-se apenas a si próprio, agarrando-se a uma solidão mediada e justificada ora por um ideal moral ora por um falso amoralismo (o que vem dar ao mesmo).

O que me agrada nas personagens a que Eastwood empresta o extraordinário rosto é o pudor, o pudor em falar de uma ferida que apenas lhe podemos adivinhar. Julgo que é daí que vem o conservadorismo das suas personagens: é uma forma de evitar a repetição dessas feridas – no cinema de Clint, toda a mudança é tida por potencialmente danificadora. Esse conservadorismo é uma forma de permanecer num lugar inatingível pela dor, um lugar onde o outro não tem acesso – tanto física como moralmente (daí que muitas vezes a moral de uma personagem de Eastwood nos pareça anacrónica ou ultrapassada).

Clint pode ser um realizador que sabe que lente usar e em que ângulo deve colocar a câmara, mas antes de mais é um rosto. O rosto de um homem que transporta uma falha e cujos labores e esforços se dirigem, essencialmente, para a tarefa de ocultar essa falha. Nem que o preço dessa ocultação seja o isolamento, a derrota ou a tragédia. Um homem só se torna anti-herói depois de ter visto o seu momento passar. Talvez por isso cheguei a tempo a Clint.

publicado por João Bonifácio às 09:34
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Um pénis na Bertrand

Hoje aconteceu-me uma coisa estranha. Estava numa Bertrand, a olhar para capas de livros de modo a adiar a inevitável ida ao Jumbo, quando de repente dei com o mais inesperado dos livros: “The Book Of Big Penis”. Em edição de 30 por 30 centímetros.

 

A minha primeira reacção foi largá-lo. Depois voltei a pegar nele, verificando se alguém conhecido estava a ver-me com aquilo na mão. Aquilo, note-se, é assunto sério - tão sério que a editora é a Taschen. Um pénis grande é uma espécie de tótem da masculinidade. Parece tão auto-confiante que nos faz perder a nossa escassa confiança e ganhar raiva ao mundo e ao pénis que nos calhou. A partir do momento em que vemos um tememos que seja toda a gente assim menos nós e anda-se pela rua desconfiado, com receio de que as pessoas saibam que não temos um. É como se não tivéssemos tomado banho e temêssemos que toda a gente o notasse. Eu não via um pénis grande desde que na adolescência passara meia-dúzia de tardes a ver pornografia. 

   

É preciso explicar: há 18 anos eu não percebia muito de raparigas. (Ainda não percebo. Só aprendi a aceitá-lo.) Sabia que gostava (do cheiro, da forma como por vezes a alça do soutien ficava cai não cai de um ombro, do modo como uma coxa encurvava para a epifania de uma nádega) mas não falava com elas nem percebia como provocar uma (chamemos-lhe) aproximação. A pornografia era o único contacto possível que um rapaz baixo, escanzelado e demasiado tímido podia ter com as raparigas. Era uma espécie de prémio de desconsolação para os ausentes de lábia.

 

Mas não era para quem gostava de (e queria) mulheres. Porque tinha demasiada pila. Além disso, ver pornografia deprimia-me, ao ponto de ter chegado à única conclusão a que um autista com acne podia chegar: tu não és como estes tipos; logo, tu nunca vais ter sexo. Nunca vais ter porque não és assim. E mesmo que venhas a ter, e por mais vezes que o tenhas, nunca o terás assim. Porque aquilo é um dom. É uma autoridade natural que paira sobre todos os outros pénis. Podes esforçar-te muito, mas aquilo é a natureza. E tu não podes vencer a natureza. (Isto era um monógolo mental.)

 

Enojado e deprimido, deixei de ver pornografia. Por causa dos pénis. Sorte a minha: sem pornografia, desesperado, vi-me obrigado a perseguir mulheres. No fundo só tenho a agradecer aos pénis grandes, que não via há 18 anos.

 

Abri o livro e lá estavam eles na sua arqueada glória. Constatei com alegria que já não sentia tristeza ou inferioridade por não pertencer ao clube dos eleitos. Fechei o livro e fui às compras. Num breve monólogo que mantive comigo mesmo, disse-me que um adulto heterossexual estar a folhear calmamente um livro com imagens de pénis numa Bertrand em pleno sábado à tarde era sinal de crescimento. (Mas não o suficente para a Taschen se lembrar de mim na segunda edição.)

publicado por João Bonifácio às 02:29
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Sábado, 29 de Novembro de 2008

Flores para o meu tio

À conta de um tio fui, durante quatro ou cinco anos, benfiquista.  Até que numa noite de 1979 vi pela primeira vez um jogo do Benfica, numa (rara à época) transmissão televisiva. Os encarnados perderam, mas para mim não se tratou apenas de uma derrota, antes da falência do imaginário em que a minha infância se edificara.

O tio dissera "O Benfica vence sempre" a minha vida inteira - e aquela derrota revelava que o tio mentia. E se o tio mentia, também os outros podiam mentir. Aos quatro anos, ser enganado era o equivalente moral a perder (ou a ter de comer peixe). A minha infância estava arruinada.

O maior adversário do Benfica que eu conhecia era a minha avó. Portista ferrenha, desligava o rádio sempre que havia relato dos vermelhos. Como gostava da velhota tornei-me do Porto - e o Porto, inexplicavelmente, desatou a ganhar.

 

Aquilo que começou por birra tornou-se maior. Em 85, o Porto foi eliminado da Taça das Taças por um obscuro clube inglês, o Wrexham. Quando, antecipando a derrota, desliguei o rádio, o meu pai ligou-o de novo e obrigou-me a ouvir o relato até ao fim. Eu queria ser pós-moderno, ter uma relação aberta com o clube, ele forçou-me a um casamento: "Se és adepto para a vitória, também tens de o ser para a derrota".

Ouvi o resto do relato em luta contra as lágrimas, deitei-me ciente do que teria de enfrentar no dia seguinte, na escola: na terrinha não havia mais de três, quatro portistas e o resto eram animalescos adeptos de clubes inferiores; esperava-me uma humilhação.

Fim-de-semana após fim-de-semana, o Porto ganhava e à segunda-feira hordas de mouros apontavam-me dedos acusadores. O argumento de cada um era o mesmo do dos outros: "O meu pai conhece um senhor que conhece outro senhor que sabe que isto é tudo corrupção". Mas se o meu tio me tinha mentido, os pais deles também lhes mentiriam, de certeza.

 

Em 87 saí a meio da aula de preparação para a Comunhão Solene, com uma desculpa esfarrapada, para ver a final da Taça dos Campeõesa. Estava convencido que Cristo, a ter voltado à Terra, era canhoto e chamava-se Futre.

A raiva que eu tivesse ao Benfica desapareceu nesse dia, porque ganhar a sério era muito melhor que ver o Benfica perder 7 a 1 com o Sporting. A partir daí comecei a desejar que o Benfica ganhasse nas competições europeias. Vibrei com o 3-1 ao Arsenal. Com o 4 a 4 em Leverkusen. Com a bicicleta do Micolli em Anfield Road. Fiquei triste pelo penalty falhado do Veloso.

 

Quando na quinta o Benfica começou a levar golo atrás de golo do Olympiakos, lembrei-me daquela noite de 79. Depois aconteceu algo de extraordinário: Quique Flores, o treinador, não arranjou bodes expiatórios. Disse que derrotas daquelas não acontecem sem razão. E com uma hombridade tremenda, pediu desculpas aos adeptos.

Talvez se há 29 anos tivesse havido um Flores eu ainda fosse benfiquista. Talvez eu não tivesse descoberto que os adultos mamipulam os miúdos apenas por medo que eles sejam diferentes de si. Não vale a pena recordar mais a mentira do meu tio - cresci, observei o mundo, tornei-me adulto, e perdoei-o. Na quinta-feira à noite, para ser mais exacto.

publicado por João Bonifácio às 03:51
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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Em defesa da nação

 

Ninguém pode dizer que os portugueses não são cosmopolitas. Em qualquer lugar do mundo sentem-se em casa, em qualquer do mundo aceitam a cultura local e mostram a portuguesa com um à vontade e confiança que só verdadeiros cidadãos do mundo possuem. Nas Olimpíadas cumpriram com as normas chinesas: chegaram a horas às provas (algo impossível de acontecer por cá) e em troca, de forma generosa, deram a provar a essência da nação: arranjaram desculpas para os seus desaires, culparam árbitros, o tapete, aquele roupão do judo, a temperatura da água, os ténis, o cheiro dos pés do adversário e o vento. A direita deve estar orgulhosa com esta extremosa demonstração de patriotismo.


 

Mas houve um homem que desiludiu. Que se mostrou avesso às mais nobres tradições nacionais, que não aceitou o peculiar protocolo português, que deixou ficar mal os colegas numa lamentável demonstração de falta de solidariedade. Pôs-se em bicos de pés, algo que fica mal a um português, por tradição e ADN baixo e humilde. O nome do espécime é Marcos Fortes. O rapaz – convém sermos verdadeiros – ainda tentou por instantes estar ao nível dos seus colegas e, fiel ao espírito da nação, conseguiu, não sem nobreza, ficar num dos últimos lugares da prova de lançamento do peso.


 

Mas um latagão não é (não pode ser) um bom português. Um bom português come sardinha, é pequeno, bebe vinho, levanta cedo, é humilde. E rezingão. Quando lhe perguntaram as razões do seu desaire (que no fundo não é mais que uma vitória moral e há que realçar o esforço do atleta, até conseguiu levantar o peso e lançá-lo, não se pode pedir mais) Marcos Forte traiu os colegas, a pátria, o devir nacional. Não culpou os árbitros. Não disse que tinha rinite alérgica e que o ar de Pequim lhe fazia mal. Não disse que tinha uma dor de cotovelo que o atrapalhava. Não: o infiel afirmou, e passo a citar, “Já cheguei à conclusão que de manhã só estou bem na caminha”.


 

Marcos Fortes podia ter-se contentado com a vitória moral que lhe era garantida pelo simples facto de ter aparecido na prova com a fatiota oficial dos atletas portugueses. Não é tarefa menor e sabem os deuses da costura que o forte da pátria nunca foi a moda. Custa envergar aquele maiô. Mas Marcos, egoísta, querendo exibir-se, resolveu não justificar a sua derrota, não inventar desculpas. E com o desplante de um americano usou o humor. Teve graça. Deu a entender que prefere dormir a trabalhar. Quase parecia um estrangeiro.


 

Perante o desplante de usar humor numa situação séria espero que, quando Marcos Fortes regressar ao nosso país, lhe retirem a nacionalidade. Que o tratem como um ilegal e o ponham a trabalhar nas obras sem direito a assistência social. É preciso restituir os valores nacionais. Nós vivemos com pouco mas reclamamos. Somos mais burros, mais incultos, mais imprestimáveis que toda a Europa mas temos desculpas que fazem corar de inveja o mais inventivo dos argumentistas americanos. O acto de Marcos Fontes é repugnante. Mandem-no para a América. Ele que vá escrever os monólogos de um qualquer Conan O'Brien. Mas que não venha para cá com a sua honestidade e o seu humor. Nós não queremos cá dessas coisas.

publicado por João Bonifácio às 18:12
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Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Amor letão

Excepto quando o filho adoece, vem a dias fixos: segundas e quintas ao início da tarde a chave roda por fora da porta e empanca porque a minha está, por dentro, a tomar o lugar de quem quer entrar. A minha chave não é apenas uma chave que está por dentro da porta: é uma chave que diz que há um dono para aquela porta. Eu levanto-me, abro a porta, ela entra e fica sempre as mesmas horas. Ao fim do mês sei de antemão a quantia que tenho de lhe pagar.

Ela é a empregada. Os amigos sabem tudo sobre a minha vida mas não sabem o nome da minha empregada. E eu não sei o nome da empregada deles. Ninguém sabe o nome das empregadas que os outros empregam. Reparem: empregam. A palavra tem duplo sentido: dar emprego; usar. Como toda a gente, eu emprego-a. Seria um escândalo dizer que a uso para executar uma tarefa que acho menor. Dou-lhe um emprego – e isto traz-me a vaga noção de não ter descido a fasquia em que os meus pais me colocaram, de não ter traído as expectativas da família.

Mas quando em conversa com amigos me refiro à empregada, faço questão de lhe atribuir a graça que os pais lhe deram. Não por um qualquer humanismo paternalista, não por reconhecer uma identidade a esse vago ser que uso. Trato-a pelo nome à conta de uma difusa culpa a que alguém chamou burguesa, palavra que não percebo mas que parece ditar uma boa parte dos meus comportamentos e da minha culpa.

A burguesia não existe, dizem-me. A pós-modernidade acabou com isso, dizem-me. Isso são rótulos, dizem-me. Eu aceito. E enquanto aceito, anualmente aumento o “salário” à tipa que uso para afagar o meu ego social (e, de rabo para o ar, encerar o meu chão). Meio cêntimo à hora, um euro à hora. Ela agradece-me muito. Diz que o senor Juáu ser muito bom com Laryssa. E eu penso que sim, que lhe ofereço condições admiráveis, nem sujo muito para ela não ter canseiras excessivas, por vezes até me dou ao trabalho de ser eu a comprar o “detrejent” que ela diz ter acabado.

E sinto que não sou só eu, não estou só nisto de ser boa pessoa, não sou um tonto ingénuo, os meus amigos também aumentam as suas empregadas cujo nome nunca decorei. Não por culpa burguesa, mas por humanidade para com esses pobres seres vindos de países culturalmente subnutridos, que mal sabem lavar a loiça e deixam tudo fora do sítio – são todas iguais estas empregadas, dizemos por vezes, com a consciência tranquila de sabermos que a burguesia não existe, a pós-modernidade acabou com ela, o mundo mudou e nós somos melhores, mais sofisticados e mais humanos que os nossos pais. Dizem.

publicado por João Bonifácio às 14:51
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Profissão: falta de fé

Não me recordo qual veio primeiro: se a Comunhão Solene se a Profissão de Fé. Tenho vagas imagens de colegas de escola aprumados em minúsculos fatos brancos, azuis, cinzentos, até prateados, meninas de vestidos - julgo que todos brancos -, meninas que anos mais tarde e vários números de copa acima tiveram a minha admiração, secreto carinho e povoaram os meus sonhos na exacta medida em que nunca me cumprimentaram. Deixo-lhes aqui o meu perdão.

Eram miniaturas dos pais, aqueles miúdos, com as roupas escolhidas pelos progenitores, a forma de sentar nos bancos da missa, quem cumprimentar - tudo segundo as regras dos pais. E havia a fotografia: a pose, o endireitar das costas que simbolizava a rectidão do lar. E as flores que as raparigas seguravam nas mãos: jarras, gladíolos, quando muito rosas brancas que as rosas rosa podiam lembrar carne.

Tenho a certeza que não comungámos solenemente: lembro-me de ficar entre duas raparigas, desatento ao desenrolar do evento, incapaz de seguir o guião trabalhado até à exaustão durante semanas. E lembro-me de como o ar de inocência que as meninas tinham ensaiado para as fotografias antes da cerimónia desapareceu mal nos sentámos nos bancos: cócegas uns aos outros, pequenas tropelias, orações ditas com palavrões sussurrados pelo meio. E a piscadela de olho de K: não se imagina que uma rapariga de nove anos saiba piscar o olho (assim) ou eu não sabia piscar o olho (assim). Mas sabia que não se devia piscar o olho (assim).

Algures nessas cerimónias comprometemo-nos com comportamentos aceitáveis, prometemos erradicar a mentira do mundo, ajudar os pobres, dizer a verdade aos pais, não pecar por actos, palavras e omissões. Não nos desviarmos de um caminho.

Essas promessas resultaram num certo ódio que até hoje mantenho à palavra "caminho" tal como à palavra "omissões". Suporto, tenho compaixão, quase carinho pela mentira, pela agressão, pela traição, pelos pecadilhos - que estão quase sempre ligados directamente aos instintos primários. Mas tenho dificuldade com a omissão, com essa omissa, impossível de determinar linha, entre verdade e mentira que os humanos traçam e retraçam e apagam diariamente - e que é quase sempre fruto da mesma aprendizagem social que nos dizia como sorrir para a câmara fotográfica.

E ainda hoje me assombra uma expressão que é o exacto oposto do rosto ao espelho: Profissão de Fé. Não lhes bastava Economia Paralela da Fé. Ou Biscates da Fé, Recibos Verdes de Fé. Nem sequer Emprego de Fé ou Trabalho de Fé. Tinha de ser Profissão: uma contrato com horários, eventual recompensa, hierarquias marcadas, função social. O que fizemos desse contrato? Qual foi o resultado da nossa entrada nos quadros vitalícios da função pública do Bem?

MA fez doutoramento na Escócia, O na Holanda, L é advogado, R desistiu do curso e herdou a carpintaria do pai, vi-o há umas semanas, tem dois filhos, é feliz, ou diz sê-lo. K abortou pela primeira vez aos 15, I engravidou aos 16 e o pai foi de caçadeira a casa do namorado oferecer a mão da filha em casamento. L escondeu a barriga até entrar no hospital para parir o puto e a mãe teve um enfarte quando soube. (Sobreviveu.) T morreu de sobredose, R de acidente de automóvel.

Podemos ter tido o sucesso dos primeiros, o azar dos segundos. Podemos acabar a arrumar carros como um tipo do bairro do Lamarão cujo nome não me recorda, ou ter o mesmo fim de um moço - acólito - que se suicidou de tiro de caçadeira. E podíamos ter aprendido a jogar futebol decentemente ou a estrelar um ovo. Essa pequena volatilidade dos destinos (um espermatozóide mais sacaninha, um copo a mais antes do volante) é tão óbvia e real que não assusta - e o mais certo é acabarmos quase todos numa omissa linha entre os primeiros e os segundos.

Mas há uma coisa que os que por azar e idiotice dos pais tiveram uma educação católica têm de temer: a Profissão de Fé.

É que um tipo pode deixar a carpintaria para tornar-se pintor - mas não consta que se livre das farpas que lhe atravessaram as mãos.

publicado por João Bonifácio às 01:59
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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Jornal

Quando eu era miúdo havia uma regra lá em casa: ninguém podia pegar no jornal antes do meu pai acabar de o ler. O jornal podia estar ali esquecido e solitário num canto, que até o velhote se sentar no cadeirão e desfiar cada uma das filas de letrinhas, aquele maço de folhas era só dele.

 

Quebrei a regra algumas vezes. Mas, porque não queria chateá-lo, comecei a deixar o jornal na sua quietude, ainda que algumas vezes sofresse pelo seu abandono. Apetecia-me acarinhá-lo, dizer a cada notícia: não estás só, eu estou aqui e vou ler-te. Mas não podia. Arranjei outro método de leitura: o meu pai sentava-se no cadeirão, abria o jornal, dobrava-o ao meio na página que queria e eu lia a página oposta. À medida que ele ia lendo, eu ia lendo na ordem inversa - uma espécie de generation gap literário. Como isto o irritava ele passou a ler o jornal sem o dobrar, de modo que eu só lia as manchetes da primeira página e a crónica da última. Acabei por me tornar um popularucho com ambições intelectuais.

 

Hoje também sou um homem de rituais. Todos os dias vou à mesma pastelaria de manhã e todos os dias tudo se processa da mesma maneira. Compro o jornal, sento-me na mesma mesa (ou desejo uma doença grave a quem se senta na minha), peço a coisa X e Y para comer e Z para beber. X, Y e Z só são alterados de muito em muitos anos. Vou mirando as páginas entre dentadas, café, cigarro e a passividade agressiva do relógio que me vai dizendo que já devia estar a trabalhar.

 

Mas nunca estou só. Por trás de mim está o senhor M. O senhor M, empregado de mesa, não é como o senhor F, igualmente empregado de mesa. O senhor F sabe tudo sobre o mundo e até fala francês, o senhor M é surdo e só sabe de bola. Sabe graças a mim, que todos os dias de manhã compro A BOLA. Não quero saber de notícias sérias, quero um relaxante muscular, uma côdea de sossego inane: as tricas do Olhanense, a rótula do Edinho, as ambições do Manó, a reportagem sobre a senhora que lava as toalhas no Sertanense. E o senhor M também quer.

 

Como ele é surdo, cada vez que comenta uma notícia grita ao meu ouvido. Como ele é surdo não vale a pena dizer-lhe para não gritar. Também não vale a pena dizer-lhe que não gosto que esteja por trás de mim a ler. Podia perguntar a um amigo psicanalista o que me incomoda tanto em ter um velhote por trás de mim a ler o meu jornal mas tenho medo da resposta.

 

Hoje ocorreu-me que mesmo tendo estado contra a regra do meu pai durante anos, agora ando, contrafeito, a imitá-lo. Está dentro de mim: não quero que estejam nas minhas costas a ler o que é meu. Deu-se-me uma certa tristeza quando me apercebi disto. Nem li bem o jornal. Dei-o ao senhor M, que se pôs a lê-lo enquanto comentava aos gritos a acusação de corrupção que o Moitense de Baixo fez ao Moitense de Cima.

publicado por João Bonifácio às 15:05
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Subir ávores

Quando era miúdo gostava de subir às árvores. Costumava equilibrar-me nos ramos mais frágeis e por vezes caía. Tenho impressão que aqui e ali me aleijava e sei que a dada altura deixei as árvores em sossego. Certo é que caí. Lembro-me que, nesses tempos, quando me punham figos à frente, eu comia 40 de seguida. Mas também recordo que não queria comer melão à sobremesa. Quando provei, adorei. Deixei os figos de lado e comecei a comer melão como um doido.

 

Fiquei doente de tanto melão, cheguei a ir parar ao hospital com tanto melão, e ganhei medo ao bicho. Também era incapaz de comer frango frito, que uma vez me fizera vomitar - sem que por um segundo me ocorresse que o problema não fosse do frango frito, mas de quem o cozinhou e como. Nunca culpei o cozinheiro nem o estado da comida. Pensei sempre que o meu estômago era fraco. E assim afastei-me um pouco das pessoas que tinham bom estômago. Passei a comer apenas pescada cozida - mas tinha dias que só me sentia bem com muita doçaria. Comia à socapa, sozinho, e apesar de as análises não acusarem excesso de açúcar no sangue, de cada vez que ficava mal disposto eu pensava que era dos doces e sentia uma certa culpa.

 

Já não sei se não queria comer melão pelo seu aspecto, ou se apenas me irritava que toda a gente na família gostasse tanto. Talvez me apetecesse ter um gosto só meu, uma mania só minha, que me definisse, nem que fosse por exclusão. Certo é que houve doçarias solitárias que me deixaram um sabor amargo, mas também é possível que eu não tivesse sabido escolhê-las. E certo é que hoje, um pouco menos ágil, não subo a árvores. Convivo bem com isso, apesar de já não me lembrar se comecei a ter medo de cair ou se apenas me aborreci de trepar. Ou se gostava de cair.

publicado por João Bonifácio às 20:10
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Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Shiny happy people

Li isto no Público de ontem. Eric G. Wilson, catedrático de Literatura Inglesa nos EUA, publicou um livro polémico, "Against Happiness: In Praise of Melancholy", em que diz que a América procura, a qualquer preço, fugir da tristeza. EGW defende que a melancolia potencia a criatividade - duvido que a maior parte dos melancólicos raie o génio, mas adiante.

 

Dentro das "vítimas da felicidade" que Wilson menciona parece-me haver, grosso modo e usando exemplos do autor, diferentes graus: a classe média-baixa que corre para "centros comerciais", usa "livros de auto-ajuda" e frequenta "igrejas e seitas"; a classe média-alta que frequenta "ginásios" e aderiu à moda da "comida saudável"; e as classes altas que encerram "a vida dentro de condomínios fechados".

 

Não sei dos EUA, mas cá uma espécie de sub-grupo merece observação. São bandeiras, não da felicidade, mas do eterno bem estar consigo mesmos. Nunca têm dúvidas, sabem que camisas usar, conhecem os vinhos certos, os restaurantes que é "obrigatório" frequentar. E falam muito das festas em que "estava toda a gente".

 

Estão de acordo com a sua época, fazem da zona cinzenta de qualquer questão moral um imenso arco-íris. Não têm propriamente ideologia, antes um modo de vida que para eles é superior e o único aceitável - o que não deixa de ser curioso em profissionais da extrema relativização. É gente que não hesita: faz. Interessa-lhes o agora e o amanhã será o dia da vitória - para eles não há passado: o que fizeram, fizeram sem culpa, porque são auto-proclamados transgressores. E a transgressão não é bem transgressão, é um código de comunicação entre a espécie. Unir o hedonismo à indiferença aos restantes humanos é para eles um imperativo estético. 

 

Pouco me importa se transgrediram ou alcançaram o que quer que seja. Sei que têm uma admirável incapacidade em mostrar dúvida, medo, auto-reflexão. E sei que não é o pudor que os mantém calados sobre o que lhes é íntimo. É que, na realidade, são incapazes de não obedecer à risca (e ao risco) as regras da sua pequena comunidade. Na realidade, são eles as verdadeiras vítimas. E inspiram-me pena.

publicado por João Bonifácio às 00:24
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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

...

Aos domingos não me apetece nada. Costumo atirar moral aos pombos, observar a hipocrisia do tempo talhada nas estátuas, admirar o arco do braço de um homem à volta dos ombros de uma mulher no jardim da Estrela.

 

Há domingos diferentes, no entanto. Em que me apetecem coisas. Coisas pequenas. Às vezes apetece-me  "hurry home to you/
put on a slow, dumb show for you"
.

publicado por João Bonifácio às 18:02
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