Sábado, 31 de Março de 2012

Fachada

O seu nome é Fachada. B Fachada. Anda aí há uns tempos (desde “Viola Braguesa”, de 2008) e tem uma virtude que causa desespero, melancolia, ressentimento: trabalha muito e bem. Para usar o jargão crítico que convém sempre a estas circunstâncias, faz parte de uma novíssima vaga da música portuguesa, que é demasiado vaga para estar aqui a sistematizá-la em unidades e características. Fachada tem lata, descaramento. Lírico e irónico. Tanto cantarola cançonetas de amor como destila sarcasmo nas esquinas. É – passe o palavrão – um cantautor multifacetado nos temas e na instrumentação. Compõe, escreve, canta e tanto se safa bem com as guitarras clássicas como com os synths. E com os metalofones. E com as garrafas de água (é verdade). O que lhe interessa é passar musicalmente a sua visão do mundo – ele que, mestre na auto-paródia com sentido, sentenciou no temazinho de “Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado”, primeiro longa duração: “Vou trabalhar que nem um cão para fazer cada canção/ vou ser bastante puritano para fazer dois discos por ano/ a ver se me torno de vez no Frank Zappa português”. E a verdade é que, Zappa ou não Zappa, Fachada não tem sido só fachada. Tem cumprido a promessa. Os discos vão saído – e depois do referido álbum, onde pontuam crónicas de costumes como “Zé!” (“Chamo-me Zé!/ Vim para aqui a pé e agora tenho um cadilac”) e valsas (aparentemente) púdicas como “O Ciúme e a Vergonha”, já saiu mais um mais ou menos do mesmo tamanho onde o apuro na produção não fez apagar a verve romântico-irónico-literário-qualquer-coisa das composições e respectivos verbos.

 

O álbum “B Fachada” traz, numa versão mais clean e apresentável ao sogro, temas orelhudos, de fazer bater o pé no chão, como “Estar à Espera ou Procurar”, e poemas sobre o hobby do divórcio como “Kit de Prestidigitação” (“Já só tenho um rim para te emprestar/ o coração tu já levaste na pensão alimentar”). Mas não faltam também supremos hinos amorosos como “Cantiga de Amigo” e a lindíssima “Velha Europa”, que traz um verso que é um programa de solidão e saudade: “Perguntei ao vento se trazia um cabelinho teu”. Sim, mais uma vez Fachada assegura quase tudo na epopeia – dos primeiros rascunhos às segundas e terceiras e quartas vozes. A sua obra já se amontoa cá em casa - e inclui um incorrecto álbum para crianças e o sonoramente sujo EP “Há Festa na Moradia” onde pontuam canções em que se sente a gratidão por alguns compositores de música popular portuguesa como Fausto e Sérgio Godinho. E uma refinada atitude de sardónica arrogância, algures entre o gesto zombeteiro em relação aos meios intelectuais-artísticos lisboetas e um terno interesse pela tradição rural lusitana, cada vez mais ignorada pelos ruídos, sonoros e humanos, das urbes.

 

E é justamente com ruralidade que começa o disco recém-editado de doutor Fachada. “Deus, Pátria, Família”, trilogia outorgada e defendida no seu bairro e no seu tempo por um personagem política de apelido Salazar e agora também o último fôlego de uma alma que ainda só vai (escândalo) na década dos 20. O galo que abre o novíssimo disco é um bicho provocador. B não veio aqui para jogar ao Farmville. Veio para partir a louça. Para comunicar ao mundo a sua visão desse mundo. E – é a vida - nem sempre tem adjectivos bonitos para dizer. O disco só tem uma música – que dura 20 minutos. E o que fica da sua audição é o supremo desabafo sobre o decadente estado da histórica Nação lusa, cada vez mais dependente de amadorismos, esmolinhas e jogadas de pseudo-charme vindos do estrangeiro. Há aqui ironia, mas, mais do que ironia, há sarcasmo. Topem a letra: “Portugal está para acabar/ É deixar o cabrão morrer/ Sem a pátria para cantar/ Sobra um mundo para viver/ Chegam flores do estrangeiro/ Já escolhemos o coveiro/ Por mim é para queimar/ Mas não quero exagerar”. Imagine-se uma alma sensível a ouvir isto. A conversa não é a do incitamento neorealista à luta nem ao malhanço nos “poderosos”. É a constatação conceptual (conceptualmente emocionante) de uma identidade que vai falindo e aquele tipo de atitude provocadora (e precisamos tanto dela!) de quem, habitando um prédio que se deixa cair melancolicamente em ruínas, diz que o melhor é mandá-lo abaixo. É, sim, é o mais patriótico dos gestos. Aquele que destrata a família porque a ama profundamente. Em termos formais está tudo bem trabalhado: quando Fachada grita as suas “brutalidades”, não o faz à maneira de um trash metal festivaleiro. Não. Há leveza e elegância na forma como diz - e na instrumentação de baile que acompanha as palavras. O que lhes dá mais força. O que lhes imprime o efeito de um “acordem!”. Mais uma provocação do bardo e cidadão fachadês. Que, em jeito de ambígua nota final, afirma encontrar no privado as águas onde as naus, agora transformadas em barquinhos para casais, podem em tranquilidade navegar: “Ninguém quer mais que ser um pai babado”.

 

 

(texto publicado na revista "Dicta & Contradicta")

publicado por Nuno Costa Santos às 02:33
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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Estou com estes

Perdoem-me este quadro a preto e branco, mas entre o cinismo e a ingenuidade, escolho a segunda. Prefiro escolhas ingénuas a grandes análises problematizantes. Já me embrenhei no campeonato das problematizações, sim, já gastei muita saliva e muito teclado de computador a pôr entraves a tentativas de tornar isto um lugar mais aceitável, habitável e transmissível para os novos. Mas deixei-me um pouco disso e espero não voltar à condição. Não me peçam por exemplo para não acreditar em qualquer gesto de solidariedade pessoal e social. Não me enredem em problematizações sobre "o dinheiro todo e os interesses que estão por detrás das organizações humanitárias". Não. Por favor. Não me digam que pedir melhores condições para os pobres é "um desporto da burguesia bem pensante". Deixem-me ser crédulo e estar do lado de quem faz. Quero morrer criança, como a Agustina. Acreditando que aquilo dos contos de fadas pode existir um pouquinho na vida de todos os dias.

 

Sim, prefiro enganar-me a aderir ao cinismo, essa prisão cada vez mais perpétua para tanta e tanta gente generosa mas bloqueada. Acredito na prudência, que é outra coisa. Mas numa prudência que quer construir, não aquela que paralisa. Não a que passa a vida a colocar entraves. Não a que azeda a mais genuína das intenções. É um pouco como dizia o Ferreira Fernandes no outro dia, a propósito daquela iniciativa de um conhecido festival sobre os sem-abrigo que "davam" acesso à internet, muito criticada pelos fóruns: "Entre os chiliques dos apóstolos do dever ser e os dadores de soluções, mesmo que transitórias e pueris, estou com estes". Eu também estou com quem tenta uma solução, mesmo que contingente, mesmo que com fragilidades e flancos abertos.  Com quem faz vídeos sobre os senhores da guerra, mesmo que estes já tenham desaparecido do mapa, com quem denuncia crimes contra gente indefesa, mesmo que depois se venha a saber que recebeu fundos de organizações inacreditáveis. Estou com aqueles que atravessam a rua para ajudar um cego, mesmo que depois o cego seja um falso cego e acabe a rir-se na cara deles. Como tantas vezes acontece.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 23:46
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012

O decantador

Acontece-me ouvir o último de Leonard Cohen, "Old Ideas", ao mesmo tempo que leio um livro sobre o bicho ("Leonard Cohen - O Eterno Regresso", Guerra e Paz, que comprei recentemente a preço de saldo). É como se estivesse a tentar percebê-lo com duas bússolas - como se estivesse a seguir o rasto do homem e do personagem no cruzamento dos maturados versos de "Old Ideas" com as suas próprias palavras e com as conclusões do autor do livro, Marc Hendrickx. Há dados que já sabia. Mas sabe bem voltar a sabê-los, voltar a encontrá-los, num lento processo de reconhecimento que tenta respeitar a boa lentidão das procuras de Cohen.

 

 

 

 

 

Há, sim, há muitas camadas em cada uma das canções de "Old Ideas". E há, o mais difícil de tudo, frescura. São frescas estas ideias velhas. Como se Cohen estivesse a cada passo a libertar-se da ganga e dizer as palavras que merecem ser ditas, porque essenciais.  Estão aqui alguns temas antigos - o amor, da carne e do espírito, o regresso e a compaixão, o pedido de compaixão para todos nós. E uma pintura irónica sobre tudo isto. O sofrimento foi transformado noutra coisa. São palavras sábias aquelas que são ditas por este "lazy bastard". Não lhe importam as opiniões, mas aquilo que sobrevive depois do verbo fácil: "Não preciso de organizar nenhum sistema que se respeite a si mesmo ou de exprimir um ponto de vista claro". Cohen chegou àquela fase em que percebe a relatividade de muitas das opiniões que defendemos inflamadamente, como se disso dependesse a nossa identidade. "Tudo o que tenho de fazer é dar informações, de tempos a tempos, com a maior clareza possível".

 

"Old Ideas" traz mais uma vez a sua impura clareza. A sua incapacidade para plagiar dogmas, tradições e religiões por ter uma lente muito própria, uma forma muito sua de decantar o mundo. É o homem que esteve no mosteiro mas que sabe - e diz - que o seu ligar é a rua, é a vida. Para falhar melhor, como dizia o outro. E cantar o falhanço  - e o gesto de se levantar e olhar em frente - com aquela elegância que se lhe conhece.

publicado por Nuno Costa Santos às 21:43
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Valeu

 
 
Rubem Fonseca, em pé, dizendo coisas sérias com a maior das levezas. É isso que é a melhor comunicação, sobretudo em eventos literários. Sem maldade, meteu-se com todos - até com Eduardo Lourenço, que sorriu, pouco intelectual e muito homem. Humanizou a literatura e a vida, Rubem. Chamou-nos loucos.  Tirou-nos daquele ar sério em que queremos à força toda ser metidos. Despenteou o ambiente e a literatice. Podia ter feito o arzinho do escritor premiado que diz umas frases vagas e poéticas para impressionar a assistência e ter umas manchetes neutras nas secções de cultura dos jornais. Não. Colocou um picante seu, citou - muito citou ele - mas citou como quem tem um bate-papo com a tradição literária para melhor entender o ofício da escrita. E, já agora, passar esse entendimento a quem o quisesse ouvir. A ideia não foi falar para dentro. Quis falar com os que estavam à frente e com os que estavam em cima. Com novos e velhos.  Sem medos de ferir este e aquele com os seus apartes cómicos. Chamou, com humorística ternura, "meninos" aos que estavam na mesa.  Falou, além da loucura e da alfabetização, da motivação que é preciso para escrever. Teve verve. Rubem foi na Póvoa uma pessoa e uma personagem, daquelas que fazem falta a um mundo de estantes muitos direitas e de livros muitos arrumadinhos. Sim, nisto não houve Acordo algum. Se Valter Hugo Mãe foi há uns meses ao Brasil para fazer chorar os brasileiros, Rubem Fonseca veio agora a Portugal para nos fazer rir - ele que é descendente de portugueses.  Valeu.
publicado por Nuno Costa Santos às 22:57
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Dorme, meu pequenino

Percebo bem este rapaz. Também sofro desse que pode ser considerado um dos males maiores na humanidade. Já sofri mais, é verdade, mas ainda posso entrar na categoria, nem que seja por solidariedade e compaixão. Os insones (e os ex-insones, sempre disponíveis para voltar à tribo dos acordados), deviam fazer parte de uma organização secreta. De uma maçonaria de inquietos. Os insones de cada bairro deviam poder encontrar-se todos de madrugada numa sala e falar demoradamente dos seus dramas, dos sonhos que acabaram de ter, dos problemas do universo, do Aimar e do Miguel Relvas.

 

Ser insone não é para meninos, não. Faz pensar na tortura do sono - só que determinada pelo pior dos PIDES, a nossa cabecinha, os nossos nervos e inquietações, algumas delas pouco evidentes. Muitas vezes o insone não percebe por que é insone. Ele até tem a vida resolvida. Aconteceu-lhe ser assim e faz de tudo para não o ser.  Não é muito vulgar encontrar alguém que se gabe de ter insónias, que chegue ao trabalho e diga: "Pessoal, sabem uma coisa? Sou dos piores gajos a dormir lá do bairro!". Não há maior especialista na arte do zapping. Não há melhor crítico de TV de programas obscuros, de documentários sobre inanidades. Não há tipo que leia mais as piores tretas - aqueles anúncios que ninguém lê nos jornais e revistas - do que o insone profissional. O insone já não conta só carneirinhos. Conta até pulgas. E nada.

 

Precisam de ajuda, de companhia. Ninguém se lembra dos insones deste mundo. Onde está o voluntariado para fazer companhia a quem, como o George, se levanta cinco vezes por noite? A Associação Insone Amigo? Gente capaz de ir a casa de gente apijamada que está de olhos abertos quando o resto do prédio sonha que isto da Troika já passou e que voltámos a poder ver as entrevistas do Daniel Oliveira sem ter a palavra "austeridade" a passar no rodapé mental.  Se calhar o insone só precisa de alguém que lhe passe a mão pela cabeça e diga:"Vá, meu pequenino, toca a dormir". E "dãobalalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração". Se calhar é só isso. Não custa nada.

publicado por Nuno Costa Santos às 19:34
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Vá lá, Passos

Vamos por partes. Primeiro o "piegas". Há muito que não se assistia a uma declaração tão utópica na vida pública portuguesa, possivelmente mais utópica do que os discursos de Vasco Gonçalves nos idos anos 70. Pedir aos portugueses para não serem piegas é como pedir à Senhora Dona Merkel para ser uma sentimental. À Cátia da Casa dos Segredos para ser uma literata. Ao Cristiano Ronaldo para ser humilde. Não cola. Não dá. É delírio. O óbvio, sim, o óbvio: a pieguice é aquilo que caracteriza uma boa parte da Nação, mesmo que estejamos cada vez mais diversos e variados. Exageramos no sentimento, somos fiteiros por natureza, choramos por ninharias, berramos emocionadamente por coisas sem importância. Demoramos horas a despedirmo-nos de quem vamos ver no dia a seguir. Sabemos todos disso.

 

Depois a exigência. Foi pedido aos portugueses para serem mais exigentes. Aí, senhoras e senhores, meninos e meninas, jogadores da bola e leitores de Georg Trakl, penso que há margem de manobra. Sim,  também eu quero a minha - permitam-me o palavrão - comunidade mais exigente consigo. Mais solidária. Mais compassiva. Mais atenta aos velhos abandonados. Mais capaz de ajudar quem não se consegue ajudar. De manga mais arregaçada para contribuir. Mais disciplinada (vá, um nadinha).  Mais exigente consigo para depois poder ser mais exigente com os outros, inclusive o Governo da Nação, que, sabemo-lo, tem falhado nalgumas exigências importantes (em relação a nomeações, ordenados e deslumbres com capitais e mercados). Sou dos que acham que as pessoas, sobretudo aquelas que atravessam nebulosas e dificuldades, precisam de uma palavra, sim. Mas não de uma palavra de professora primária com a régua na mão a falar aos meninos mal comportados. Em vez disso, precisamos de uma primeira palavra piegas do primeiro ministro, até aqui demasiado metálico na postura. Que peça exigência e esforços e uma nova atitude mas demonstre ao mesmo tempo proximidade e empatia com quem habita a vida de todos os dias e não tem espaço na lancheira para ideologias. Qualquer gesto de aproximação por parte de Passos Coelho será um gesto piegas, mundano, convivial, nosso. Vá lá, Passos, o país precisa do teu lado Massamá.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 13:47
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Um rapaz dos jornais

(Esta semana passo a minha vez de escrever ao texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias e que é uma homenagem maior à arte de escrever nos jornais - notícias, reportagens e isto que andamos para aqui a respirar em modo sinusítico, crónicas).

 

 

 

 

"Morreu frente a um quiosque...

 

Esta semana, o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco faria 75 anos e foi homenageado. Ele morreu em 1995 - à montra ou dentro de uma livraria, a lenda varia. O crítico José Mário Silva diz que o escritor galego Torrente Ballester lhe dedicou frase épica: 'Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.' Trabalhei no semanário O Jornal, um dos jornais de Assis, mas não fomos amigos. Amigo foi José Cardoso Pires que, convidado a testemunhar num aniversário da sua morte, recusou: 'Não falo. Tenho muito mau perder.' Assis tinha olhos que sorriam, rasgados, na redação conheci camaradas fascinados pelo seu charme e sei que a amargura pela perda do amigo poderia ser dita por muitos (embora frase tão exata só de Cardoso Pires). Esta semana houve biografia (Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, de Nuno Costa Santos), documentário e muitos textos em jornais. Fiquei com a sensação de que o jornalista levou uma abada do poeta (não peço perdão pelo futebolês, Assis também foi cronista desportivo) - versos evocam-se melhor. E por isso estou aqui a protestar. A notícia certa seria: 'Morreu frente a um quiosque...' Um dia, com ele vivo, Miguel Esteves Cardoso escreveu: 'Obrigado a Assis Pacheco pelo favor de nos escrever.' MEC falava do jornalista, fazedor de textos efémeros e em papel para o lixo. Agora, lidos os jornais e revistas da semana, e com ele morto, meço o favor que perdemos todos.

 
Ferreira Fernandes, jornalista, 5.02.2012".
 
publicado por Nuno Costa Santos às 23:00
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Quem acerta com os botões?

"(Quem acerta co'os botões/

deste velho? Venha a cidade/

ajudá-lo a abotoar/

que não faz nada de mais!)

 

Alexandre O'Neill, "Velhos de Lisboa"

 

 

O Hugo Gonçalves tinha um blogue chamado "Abram os Olhos". É um título que me faz cada vez mais sentido. Não para os noticiários internéticos e televisivos mas para a vida que corre nas ruas. Sim, os olhos costumam estar disponíveis (uns oferecidos eles!) para "as notícias da actualidade" e encerrados para a rua onde vivem. Estas notinhas vêm a propósito de algumas exclamações que se ouvem nas esquinas a propósito dos velhos que têm aparecido mortos em casa. Há choque, pavor e até às vezes indignação. Como é que é possível? e que tais. Como é que foi possível? Estranho seria se não o tivesse sido, minha senhora. Se calhar até foi por causa dessa desatenção à rua, a tal que pouco aparece nos títulos e nas aberturas de telejornal, a não ser que um canguru perneta tenha sido por lá visto com a "Dica da Semana" debaixo do braço. Sem o extraordinário e sem o bizarro, a rua - onde vivem velhos mas também novos e crianças e gente com e menos guito - não é, digamos, considerada. E depois vai morrendo gente sozinha que só é encontrada uns meses depois.

 

São velhos. Mas podiam ser novos, daqueles que congelaram as possibilidades. Eles podem aparecer, podem - digo-o sem vontade de impressionar mas com a consciência de  que enquanto a crise é elegantemente analisada nos espaços de informação há quem vai começando a gritar sem quem ninguém ouça. Desça à rua não a poesia (que essa nunca de lá saiu) mas uma qualquer utopia comunitária, cada vez decisiva nos domésticos territórios onde o Estado não consegue chegar. Vizinhos a tratar de vizinhos. Vizinhos a perguntar por vizinhos. Vizinhos - aqueles que o podem, são muitos - a visitar quem não tem visitas. Talvez assim deixe de haver tantas surpresas e exclamações com notícias como esta. É isso: há muita boa gente a precisar de ajuda com os botões.

publicado por Nuno Costa Santos às 19:15
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Isto está muito complicado

Aqui no bairro a especialidade - sabemos disso - é protelar.  E todas as alturas de ano ajudam a essa causa de deixar para daqui a sete meses o que podia ser feito hoje. Pensei nisso agora que passámos as épocas do Natal e da passagem de ano. Queria combinar alguma coisa com alguém e népias. Nada feito. Porquê? Por causa desta mensagem automática: "Sabes que isto nesta altura do ano é uma confusão, é uma série de jantares". Sei, sei que é assim. Mas também sei, não sem alguma rezinga, que entre os repastos familiares há intervalinhos - e não são tão exíguos quanto isso  -em que o cidadão pode dar-se ao luxo de oferecer dois minutos de atenção a quem o procura. Digo eu.

 

Mas o problema é que, como sabe o sinusítico leitor, o período a seguir também serve para o campeonato das desculpas. Lanço, já em Janeiro: "Então, quando é que nos encontramos?". A resposta sai, quase tão automática quanto a anterior: "Sabes que isto do início do ano é um bocado complicado". Porquê, pergunta-se. "Há uma grande ressaca das festas de Natal e de ano novo". Pois. À sugestão: "Pode ficar para o próximo mês?" respondo com um "ok" medianamente esperançoso. Chega-se a Fevereiro e brotam novíssimas desculpas. "Mas eu não sabia que gostavas do Carnaval?", arrisco. A resposta: "Não, não gosto. Mas aproveito e vou com a Eliana dar um giro à terra dos pais dela". E, pimba, lá se vai, perdida entre confetes e melancólicas buzinas, mais uma oportunidade.

 

Depois, pronto, depois é a Páscoa. "Sabes que isto". Sei, também tenho família. E depois chega, qual onda pré-veraneante, o generoso período "antes das férias", em que o importante é "despachar uma série de coisinhas que ficaram pendentes durante o resto do ano". E o Verão, meus queridos, é para ir a banhos, não para os compromissos da amizade. Na mui chique rentrée, há a desculpa da rentrée. Onde há sempre muita tarefa para executar, muita época nova para preparar, muito entusiasmo para consumir. E a reentrée, aqui no bairro, vai de Setembro a Dezembro, que é como quem diz chega ao Natal dos Hospitais com uma pinta que só visto.

 

E prontos. Até à próxima. Vida.

publicado por Nuno Costa Santos às 11:49
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Sábado, 7 de Janeiro de 2012

Momentos de céu

 

Vi apaixonadamente o filme de Miguel Gonçalves Mendes, "José e Pilar". Para mim já ganhou o óscar. Não precisa de lá ir para ganhar o óscar. Já ganhou: pela beleza, pela profundidade, por dizer e mostrar aquilo que só os melhores atributos do amor, como a entrega e a paciência, podem dar. Escrevi há meses uma nota na coluna do Provedor da "Ler" sobre o assunto - e talvez tenha sido isso que tenha justificado o convite para fazer esta apresentação. Nessa nota elogiei não só a homenagem maior ao sentimento amoroso que é aí feita mas também alguns momentos de transcendência como aquele em que Saramago é filmado a ter a ideia para escrever "Caim". Ficou por dizer que este é também um filme sobre a possibilidade de um homem que esteve à beira da morte se restabelecer, se reerguer. Depois de surgir de cadeiras de rodas, quase sem falar, aparece numa conferência com a voz clara a fazer uma das declarações amorosas mais bonitas que já alguma vez ouvi e  vi. Que inclui, claro, gratidão, esse sentimento cada vez mais remoto e que convém ser recuperado como quem recupera o melhor disto tudo.

 

Saramago voltou à vida no belo filme de Miguel Gonçalves Mendes. Um homem volta à vida depois de ter estado a beirar a morte. Permitam-me trazer um pouco do meu sangue e citar a frase de uma personagem e de um livrinho que para aí andam: "O problema não é saber se há vida depois da morte. É saber se há vida antes". Encontro nestas duas personalidades muito diferentes que revelam aqui a sua visão do mundo e da existência uma consagração rara dessa ideia. Ela mais enérgica, ele mais reservado e lacónico. Unem-se por um património comum, o da valorização da vida, do milagre da vida, como dizia Saramago, um homem que se dizia ateu.

 

Este livro, tal como o filme, é um objecto de instantes. Relembro vários, aqueles em que se celebra a intensidade dos pequenos gestos: o instante em que Pilar diz que é preciso entrarmos nas cozinhas para não nos distanciarmos da realidade, para podermos levar connosco o cheiro do tomilho, no fundo o cheiro do amor; o instante em que Pilar fala do trabalho invisível do tradutor e lembra o elogio (invejoso, de uma boa inveja) do escritor Carlos Fuentes pelo facto de Saramago viver com alguém que traduzia em simultâneo aquilo que ia escrevendo, no andar de baixo da casa; o instante em que Saramago aparece em cena a servir cafés, vindo da cozinha (sim, não é só Saramago a ter a sorte de viver com quem o traduz, também Pilar tem a sorte de viver com quem lhe serve o cafezinho); o instante em que Saramago vai ver Pilar a Sevilha e encontra-a na televisão de um café, a apresentar um programa; o momento que fala da existência não de uma relação a dois mas de três: os dois que participam e a união que constituem; o instante em que Saramago revela que o momento mais importante da sua biografia foi ter conhecido a mulher e aquele em que diz que o amor não se sabe o que é; a forma como Pilar fala da vida e das suas possibilidades: "Viver, cuidar da terra, aprender, distinguir Beethoven de Bach, ler, estudar, ajudar os que necessitam, beber vinho".

 

"José e Pilar", o livro, é sobre esse terceiro que é a relação que criaram José e Pilar mas também é um livro sobre José e Pilar em separado, sobre os seres humanos únicos que são e serão sempre. Gosto da organização dos capítulos intercalando as vozes de cada um deles e as línguas em que falavam originalmente. E gosto muito do empenhamento de Miguel Gonçalves Mendes, que faz perguntas sem ponta de cinismo. Tal como o filme, este é um livro não cínico, de quem anda à procura, como todos nós, mesmo que não o assumamos. Miguel partilha a sua intimidade nas perguntas e isso é bonito, além de nos permitir aprender mais. Criou duas obras com amor e coragem. Neste livro em particular, a coragem de fazer perguntas,  algumas delas menos cómodas, que só ajudam a iluminá-lo ainda mais. Uma delas é sobre a morte. Mesmo quando falam da morte, José e Pilar celebram a vida, a vida antes da morte. "É preciso levar a morte a ver a vida". Ou na versão de Saramago, autor de um verso que diz tudo: "Não o medo da morte mas esse mais humano, de não viver bastante". E diz, quando confrontado com a ideia de transcendente, que de vez em quando temos momentos de céu. "O amor pode ser um momento de céu, uma paisagem, uma página de um livro, um poema, uma grande obra de pintura". Acrescentaria, sem atrevimento nenhum, o amor de José e Pilar também foi e é um pedaço de céu, agora partilhado com quem o quiser visitar. Saramago disse que tinha crescido como pessoa depois da relação com Pilar. Eu, leitor, à procura, tal como o Miguel, cresci a ler este livro. Obrigado por isso!

 

 (Versão escrita da apresentação do livro "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, Quetzal, feita em Dezembro na FNAC Chiado).

 

publicado por Nuno Costa Santos às 10:23
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