Segunda-feira, 5 de Março de 2012

a vida celebrada a 23 nós

Era uma manhã de Novembro quando o telefone tocou. A proposta era simples e irrecusável: escrever um diário de viagem a bordo daquele que é um dos dois maiores navios de cruzeiro do mundo: o “Oasis of the Seas”. 362 metros de comprimento, 220 mil toneladas de peso, capacidade para 6296 passageiros e 2196 tripulantes. Uma proeza da engenharia naval que já mereceu documentário no Discovery Channel e que caminha para o estatuto de lenda. E, de repente, essa imagem feita de uma praia rodeada de coqueiros, ao som de brindes e batuques, rompeu o Outono depressivo, o fluxo contínuo e monocromático de notícias sobre a crise. Era a salvação em oito dias de fuga.

 

Isto foi dois meses antes de o capitão do Costa Concórdia lançar o pânico na indústria dos cruzeiros; a viagem só se concretizaria agora, na semana que passou, quando outro navio da Costa Cruises fez disparar o alarme sobre aquela que é, na verdade, a forma mais segura do mundo de viajar. Mais do que a aviação. Mais do que a velha bicicleta. Estatisticamente, há tão poucos acidentes em cruzeiros que é mais provável irmos desta para melhor fulminados por um raio. Medo? Guardo-o para quando atravesso o Marquês de Pombal.

 

O “Oasis” é uma cápsula onde cabe um pouco de todo o mundo e, ao mesmo tempo, uma pequena nação à parte e em movimento. A Royal Caribbean, empresa proprietária, é norte-americana, mas foi construído na Finlândia e tem bandeira das Bahamas. O capitão é norueguês, mas há tripulantes de outras 70 nacionalidades. Os passsageiros, sabe-se lá; vêm de toda a parte, mas com um mesmo objectivo: celebrar. Todos os dias, um “Happy Birthday” pendurado na porta dum quarto denunciava um aniversariante. Um grupo de convidados vestido do mesmo branco que a noiva desfilou três dias pelo navio comemorando um casamento. Outros estavam em lua-de-mel, faziam anos de casados, festejavam a licenciatura do filho, a reunião dos antigos colegas de liceu, et cetera. Celebração, pois, é a palavra-chave que ocorre ao diarista no regresso a casa, com tudo o que ela implica: um ambiente de euforia permanente, a simpatia e a disponibilidade que os rostos arquivam o resto do ano nas caves de si, um navio que cruza as águas caribenhas como uma bolha de ilusão onde não entram rotinas nem urgências.

 

Os cruzeiros não são baratos, mas, aparentemente, são a garantia de qualquer coisa sem preço: estar longe. Num mundo onde cada vez mais parecemos legalmente obrigados a atender o telefone e responder a emails onde e quando quer que estejamos, “longe” significa a libertação instantânea e incondicional de tudo isso. A meio do mar, muitas vezes não há rede telefónica nem internet – e, quando há, ninguém precisa de o saber. Ao meio do mar, não chegam jornais e quem ligar a televisão fá-lo à sua responsabilidade. Ao meio do mar, não chegam notícias nem a parafernália da publicidade, de modo que o que vem à superfície são as pessoas – as pessoas e o agora.

 

Claro, dir-me-ão, também podemos desligar o fio do mundo num esconderijo remoto no interior do país. Esse seria, aliás, o meu conselho médico: exílios regulares em aldeias e casas de campo. Mas aí não há restaurantes de autor, bares de jazz, clubes de comédia, cinemas e teatros, piscinas e jacuzzis, ginásio e pista de jogging, spa e casino, lojas, salas de jogos, biblioteca e discotecas, paredes de escala e simuladores de surf, até um jardim em pleno mar com plantas exóticas e recantos de leitura (algo, porventura, ainda mais exótico) e, sobretudo, uma porta principal que, a cada manhã, se abre para um porto diferente. Não. O “Oasis” é o exílio com estilo. Não se pode fazer sempre, mas pode fazer-se uma vez na vida – para celebrar a vida inteira.

 

Mas, chegado ontem a casa (um dia antes da minha mala que, aparentemente, decidiu ficar mais 24 horas algures entre Miami e Madrid), o que a memória guarda são, acima de tudo, as pessoas. Mais do que os sete bairros do “Oasis”, mais do que as palmeiras e água cristalina das Caraíbas, são as histórias das pessoas que trazemos na bagagem e que nenhum controlo alfandegário pode retardar ou obstruir.

 

Theo, bahamiano que faz verdadeiro stand up comedy enquanto guia os turistas no ferry que liga Nassau a Paradise Island. O taxista que canta repetidamente “Twist & Shout” como a última novidade do mundo da música enquanto conduz a sua carrinha escolar adaptada ao turismo pelas colinas de St. Thomas. Nick Maley que, depois de dar vida ao master Yoda da “Guerra das Estrelas”, se retirou para as piña coladas das praias de St. Marteen. Morgan, o empregado de mesa que, no “Oasis”, continua a rondar a sua Jamaica natal, enquanto equilibra pratos de sobremesa na cabeça e sonha ser capitão. Ronny, o filipino que há nove anos trata dos quartos e questões burocráticas dos seus passageiros e que espera lá estar ainda, daqui a dez anos, para nos receber numa próxima viagem. Aquela pequena amostra do mundo em que vivemos que decidiu tirar a mesma semana de vida para celebrar a bordo do mesmo navio e cujos nomes nunca saberemos. Os noivos e convidados do interminável casamento branco. Os bebés nos seus carrinhos e os homens e mulheres com quem se cruzavam e que determinaram que as cadeiras de rodas não lhes roubariam o prazer de viver. Os loucos que faziam slide sobre o navio. O misterioso Robinson Crusoe que fumava ininterruptamente no antepenúltimo deck enquanto todos se banhavam na piscina e preparavam para as noites de gala. As mulheres de vestido de noite e salto alto que subiam nos mesmo elevadores com homens de roupão e chinelos a caminho do jacuzzi. Os viciados do casino, os heróis da pista de jogging, Bruce Gordon e o seu quarteto jazz, Simeon e as melhores piadas do Caribe. E por aí afora, até chegarmos aos oito mil habitantes daquele país temporário onde tudo quanto nos liga ao tempo é uma placa indicando o dia da semana nos elevadores, trocada manualmente a cada meia-noite dum fuso horário fictício.

 

Regressado a Lisboa, estranho que o elevador do escritório não me informe do facto de ser segunda-feira e não haver mar do lado de lá da varanda. Os calções de banho voltam para a gaveta por mais um trimestre. Cá fora, fica estendida a certeza de que, uma vez por outra, todos merecemos celebrar a vida a bordo da lonjura.

publicado por Alexandre Borges às 17:38
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

carnavais

Indigna-me que se tenha acabado com o feriado do Carnaval a pretexto da crise económica. O feriado do Carnaval deveria ter sido abolido simplesmente porque sim. Aliás, a bem da civilização, seria mesmo de considerar abolir o fim-de-semana que precede o Carnaval. Ou todo o mês de Fevereiro, não fosse o Diabo tecê-las.

 

Vejamos: que acontece no Carnaval? Geralmente, machos de todos os bandos aproveitam a deixa para, alegadamente, se vestir de mulher. Haveria com certeza muito a dizer acerca do que espoleta este comportamento, mas quedemo-nos pelo resultado: estas criaturas não ficam parecidas com mulheres. Nos casos melhor sucedidos, parecem o fruto do amor proibido entre o Batatoon e a Belle Dominique.

 

As crianças mascaram-se de bruxas e super-heróis, os pais gastam uma fortuna com fatos que jamais voltarão a ser vestidos e os que não vão na lenga-lenga mandam os filhos para a escola com um daqueles apetrechos que consistem duns óculos de cientista louco, acoplado a um nariz de taberneiro, rematado com um bigode à Toni, traumatizando a criançada até ao fim dos seus dias (sei do que falo, aconteceu-me na segunda ou terceira classe).

 

As mulheres vestem-se de princesa, fada, anjo, qualquer coisa que lhes permitiria uma noite perfeita de romance e sedução se ao menos um dos homens das redondezas não estivesse vestido de travesti.

 

Uns e outros atiram água e adereços mal-cheirosos e dançam ao som das piores canções da História (Como é que é, Sinusite? Quero ouvir: “Eeeeeeeeeehhhhhhh, meu amigo Charlie…”) em sítios adornados com balões que espirrarão saliva desconhecida quando forem rebentados – que serão – e fitas coloridas, ítem produzido sabe-lá onde e com que fim, tão útil como – vamos ver – um rebobinador de dvds.

 

Fora isto, há um estranho clima de guerra entre as 320 localidades que reclamam para elas o título de Carnaval com mais tradição do país. Aí, o festival de horrores atinge os píncaros: dos cabeçudos passeados de ano em ano (as figuras de Cavaco e Soares já devem ter mais Carnavais na espinha do que a Xuxa), estrelas recrutadas em reality-shows mesmo antes de voltarem para a sarjeta acenando do topo de carros alegóricos que fazem uma chaimite parecer um clássico da elegância automóvel e jovens roliçadas seminuas que se saracoteiam entre a cacimça e a pneumonia.

 

À margem, há um grupo de intelectuais que não participa no espectáculo. Diz que não gosta do Carnaval, excepto – atenção – o de Veneza. O Carnaval de Veneza?! Mas alguém saberá o que acontece no Carnaval de Veneza além de a malta se vestir à filme de época e pôr umas máscaras – admito – giras?

 

Por fim, quem souber que responda para esta caixa de comentários: no Carnaval, festejamos exactamente o quê? (respostas do género “a vida” ou “a alegria” serão automaticamente reencaminhadas para o site do Ministério da Saúde) Qual é a efeméride? O acontecimento? A razão? Aonde nasceu isto? Que tem a ver connosco? Por que não celebramos também o dia de acção de graças e o ano novo chinês e a tomada da Bastilha?

 

Era preciso alguma desculpa para acabar com isto?

 

P.S.: De repente, imaginei o Hugo lá no Rio a catequizar a multidão: “Deviam ver como é que a gente faz isto lá em Ovar…”

publicado por Alexandre Borges às 01:26
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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

descansem em paz as meninas do karaoke

É um tempo que parece agora absurdamente distante. Um tempo anterior à incontinência televisiva dos concursos de talentos, quando o adolescente mais delirante não sonhava ser conhecido para lá do final da rua.

 

Nesse tempo de dois canais, anterior à fnac, à playstation e às boxes, às guerras de anúncios entre supermercados com pessoas pretensamente normais, à internet, aos telefones móveis e aos comments, a interactividade com os meios de comunicação resumia-se aos discos pedidos e o karaoke irrompeu como inimaginável vanguarda da tecnologia.

 

Nesse tempo, dizia – atenção que isto não é exactamente nostalgia – não havia grande escolha, mas, como sempre, enterrados no presente até ao pescoço, não éramos então capazes de o perceber.

 

É a recordação desses dias que volta com a notícia da morte de Whitney Houston, acidente há tanto à espera de acontecer (pelo menos desde que um tablóide revelou uma foto da casa de banho da cantora que me fez pensar que o tipo que vivia então comigo era, afinal, uma fada do lar).

 

Era o princípio dos anos 90, em que um só indivíduo conseguia dominar as listas de venda de discos durante mais de um ano e ainda acumular com recordes de bilheteira nos cinemas. Em que Fernando Pereira era o grande artista português e Kevin Costner o equivalente fin de siècle de George Clooney (eu avisei que isto não era um exercício nostálgico).

 

Nesses dias, parece-me agora, havia uma grandeza qualquer nos serões de karaoke. Deprimentes e épicos como só os serões de karaoke conseguem ser. Havia uma inconsciência de si que fazia com que todos fossem um pouco mais espontâneos, ridículos e comoventes. Ninguém tinha concorrido aos “Ídolos”. Ninguém tinha cinco mil amigos no facebook. Havia poucas lojas de marca. Uma pessoa avançava sem rede, com o pullover do avô e os ténis de imitação, as calças reviradas para cima e o cabelo à jogador da segunda B, e subia ao palco para cantar o “Blaze of Glory”. E isso era o auge. Isso era o momentum. Isso era o tudo ou nada.

 

Com sorte, passávamos com suficiente. Se não se tropeçasse no fio do micro nem distribuísse perdigotos pela primeira fila, se a jovem que queríamos conquistar não tivesse saído nesse preciso momento acompanhada dum jovem, já teria sido memorável.

 

Depois, porém, vinha sempre uma garota. Uma moça em que nunca tínhamos reparado, ar confiante, celebrada em antecipação pelas amigas, que chegava lá, entrava numa comunicação cósmica com que a Whitney e lá ia daquilo. “I Will Always Love You” ou “The Greatest Love Of All” ou qualquer coisa com “Love” e muito fôlego.

 

A sala ia abaixo,  Whitney Houston deixava o corpo da jovem que voltava para o seu lugar no anonimato e já ninguém se lembrava do nosso “Blaze of Glory”.

 

Agora, sabendo das notícias, só consigo recordar-me disto. Do pullover do avô. Dos dois canais. Das Whitneys do fim da rua.

 

Pergunto-me se lamentarão não ter havido, no tempo delas, tanto concurso de talento. Ou se, ilusão por ilusão, continuam a preferir os serões de karaoke, onde ninguém sonha saltar para o mundo de Sinatra, mas fazer precisamente o contrário. Trazer Sinatra para ali, entre minis e a província, canções do Tony Carreira e gente normal que compra nos supermercados promovidos por quem a tenta, sem sucesso, imitar.

publicado por Alexandre Borges às 01:28
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

previsão para o estado do tempo

Andei largos anos enganado com a ideia de que era o tempo a quintessência da vida. Julgo ter descoberto, por estes dias, justamente o contrário: a falta de tempo é que deve ser adorada como um deus.

 

É a falta de tempo que esculpe a verdadeira arte da sobrevivência. Sem tempo, não pensamos e, não pensando, não nos pomos perguntas e, não nos pondo perguntas, não fazemos aparecer problemas onde eles mais gostam de florescer: no nada. Sem tempo, vamos directos ao assunto, dispensamos conversas de circunstância, rodriguinhos, eufemismos e adiamentos. Se a conversa difícil vai doer, mais vale que doa já – e duma só vez.

 

Sem tempo, escapamos impunemente aos baptismos da prima, ao aniversário do coleguinha, à conversa do vendedor. Só nos detemos nas notícias realmente importantes, saltamos o suplemento de imobiliário e o dos empresários empreendedores. Dispensamos gastar dinheiro em livros que jamais leremos. A televisão é ligada em circunstâncias e com finalidades cirúrgicas (nunca mais programas de debate desportivo – só jogos do Benfica, em rigoroso directo e exclusivo). Todos os telefonemas que se podem resolver com um sim ou não assim serão tratados. Todos os emails de que não dependa o futuro da civilização ficarão sem resposta.

 

Sem tempo, um tipo descobre aquilo de que realmente precisa e aquilo de que quer mesmo cuidar. De quem lá está quando há e quando não há tempo, dos bichos de estimação que não têm culpa, das palavras dos amigos que não dispensa (incluindo certos escritores de canções e livros e filmes, a que se devem subtrair as revelações promovidas pelos especialistas a génios do mês).

 

O tempo é maravilhoso, mas demasiado fácil de perder.

 

Na falta dele, um tipo é  mais lúcido. Só leva o que tem de amar.

publicado por Alexandre Borges às 19:45
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

uma conspiração de inocentes

Em Portugal, há sempre alguém que nos anda a lixar. Ou são os políticos, ou os banqueiros, ou os empresários, ou a polícia, ou o árbitro, ou os espanhóis, ou os alemães, ou os chineses, ou a agência de rating. Mas também o patrão. E o colega do lado. E o vizinho de baixo. E as finanças, e o médico, e o professor, e o tipo da oficina, e a mulher da lavandaria, e os gajos da EDP, e os da TMN, e o homem das obras, e o canalizador. E a maçonaria, e os ricos, e a função pública, e os grevistas, e as fundações, e os empreiteiros, e os juízes, e os farmacêuticos, e os jornalistas, e os gajos da igreja, e os comunistas, e os tipos da direita, e os taxistas. Ui, os taxistas. Para já não falar do azar, e do tempo, e da geografia.

 

Há uma conspiração cósmica para nos tramar. Especificamente a nós. Povo indefeso, honesto, trabalhador, bem formado, talentoso, incompreendido, injustiçado.

 

Que pena. Que pena que tenhamos tantas qualidades e nos falte a capacidade de colocar, por um momento, a absurda hipótese de estarmos na valeta por culpa própria. De sermos, quem sabe, um batalhão de derrotados, invejosos, preguiçosos, comichosos, queixosos, queixinhas, saudosistas não se sabe de que tempo, luminárias que – ó injustiça! – ninguém foi capaz de entender e dar o valor e a oportunidade. De termos, porventura, nascido geneticamente impreparados para a auto-crítica e para a auto-ironia e para o acto de contrição e para que o único orgulho de que sejamos capazes seja o orgulho da virgem ofendida. Por já só sabermos ser felizes neste papel, do insulto atirado da arquibancada, do miserabilismo, do pobrezinho, de quem comprou a paz da própria alma com o mito de que o universo esteve montado desde sempre para nunca nos deixar vencer.

 

Notícia de última hora: no derrotismo que matou Portugal, só um suspeito esteve lá, todo o tempo, no local do crime: o português.

publicado por Alexandre Borges às 00:12
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

os clássicos

Guardo pela música erudita a mesma distância respeitosa que mantenho com todas as coisas que não compreendo. Nunca fomos devidamente apresentados, de modo que não me aproximo muito. Constrangido pela diplomacia tácita que se presume entre estranhos, há anos que me mantenho caladinho sobre um assunto, mas, depois de há dias me ter passado pela mão o enésimo programa da Gulbenkian, decidi que era de mais. Há muito ano que me cruzo com folhetos e programas eruditos e é sempre a mesma cantiga. Não. Chega. Um dia, um homem rebenta. Cá vai: há ali uma coisinha sórdida de pensão barata, não há? Umas cabeleiras de revista Gina, umas maquilhagens de telefilme erótico dos eighties, uma provocaçãozinha soft porn, não é?

 

Nada como experimentar, caro leitor. É folhear o próximo folheto gulbenkian/casadamúsica/óperadesãocarlos que venha com o jornal. Ou topar os anúncios nos suplementos culturais. Ou fazer uma breve incursão pelas capas dos discos na secção de música clássica da discoteca das redondezas. Está lá tudo. Chapadinho. Tirado a papel químico. Sim, porque, aparentemente, há um mesmo senhor que faz todo o marketing de toda a música erudita vai para século e meio. É tudo igual. Foto dos artistas, artistas vestidos para um casamento, elas de grandes vestidos de noite e decotes transbordantes, eles como se já tivessem nascido de smoking, elas de cabelo armado, eles penteadinhos como na primeira comunhão, ambos maquilhados para lá dos limites legais, a olharem para a câmara e a sorrirem, a sorrirem muito, aquele sorriso de anúncio mon chéri, ou do genérico do “Barco Do Amor”, quando os actores se voltavam para a câmara e pareciam surpreendidos com o facto de estar alguém a filmar. Às vezes, um maluco ou outro surge de mãos nos bolsos e laço desfeito, primeiro botão da camisa aberto, mas sempre a sorrir, o estupor, com ar negligé, como se alguém cuja vida é tocar Brahms desde os três anos de idade pudesse ser negligé.

 

Não dá. Não se acredita. Não haverá nem uma ideiazinha melhor? Um conceito, uma metáfora, uma subversão? Faz lembrar aquelas pastelarias que têm fotografias dos pratos, não vá uma pessoa não saber o que é um bitoque. Um tipo compra um disco do concerto para piano nº 2 do Rachmaninoff e, quem diria?, a capa tem um tipo apoiado num piano, de smoking, penteadinho e a sorrir como um figurante dum anúncio de dentrífico que faz maravilhas pela placa bacteriana.

 

Chega. Acabou-se. Ou bem que actualizam essa comunicação ou assumem, duma vez por todas, ao que vêm. A prima donna esborracha o pianista e a orquestra vira para a orgia.

publicado por Alexandre Borges às 02:27
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

mensagem de ano novo

Não foi por isso. A vida não tem corrido mal. Também não sei quando foi. Algures, por causa de qualquer coisa, tornei-me um pessimista rabugento. Nota-se muito nestas épocas do ano. De ser o chato que inunda as caixas de mensagens alheias com épicas mensagens de felicidades ao mono que não tuge nem muge foi um passinho. Falta o deslumbre. A frescura – a do Português de Portugal e a do Português do Brasil – de acreditar. Um tipo deixa-se ir nisto. Nesta máquina de despertadores, tarefas, listas de supermercado e doenças pontuais. E dá por si a cumprir os mínimos olímpicos na hora de brindar.

 

Só que este ano aconteceu uma coisa estranha. Isto de sentir a fé dos amigos. De receber as mensagens e os mails e os telefonemas e neles perceber que as pessoas importantes não estão a cumprir calendário. Que cada uma à sua maneira criou um postal de boas festas que, por uma vez, não poderá ser usado todos os outros anos, para todas as outras pessoas. São discursos de aqui e de agora, entre nós. Mensagens com a lucidez que compreende o presente, que fogem às palavras habituais, que não fingem o que não acontece, certas do tempo que vivem, capazes de descobrir razões para celebrar e inspirar em quem as lê um pouco da mesma confiança que derramam sobre o princípio do futuro. Auto-irónicas, humorísticas, socialmente incorrectas. Poderosas.

 

Não fossem os meus amigos e cairia no erro de pensar que o pessimismo é coisa de adulto, como o aumento galopante de visitas à farmácia ou o brutal desaparecimento do nosso interesse por discotecas com mais de duas pessoas à espera para entrar. Pessimismo é coisa de parvo, mesmo que, no fim, o pessimista esteja quase sempre certo. A pessoa madura sabe disso tudo, mas também sabe que não há nenhum gozo nisso. O prazer vai no risco de estar errado.

 

Bom ano.

publicado por Alexandre Borges às 23:50
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

de coração de interiores

É uma angústia que, volta e meia, me assalta: manter a salvo do caos doméstico um recanto de casa que dê bom cenário para entrevistas.

 

Soa mal, mas um tipo tem de estar preparado para tudo. Toda a espécie de gente dá entrevistas para a televisão. Um dia, vai ser a nossa vez. E, nesse dia, não queremos o estendal da roupa em fundo enquanto explicamos o imperativo categórico de Kant. A secretária cheia de papéis, incluindo facturas, talões do euromilhões e A Bola da semana passada a distrair a atenção do telespectador da nossa perspectiva acerca da falência do pós-modernismo. Os bonecos da infância de que o coração não nos deixa libertar, plantados na estante do ikea, em frente a uma colecção de livros saídos no Correio da Manhã e à foto das férias em Milfontes a perturbar a seriedade do nosso argumento segundo o qual se acaba rapidamente com as marchas de indignados plantando uma barraquinha de distribuição gratuita de ipads2 na praça do lado.

 

A gente vê. Não há sumidade que não tenha o seu canto das entrevistas. Há a sala, a marquise, o quarto da criançada e o canto das entrevistas. Só os livros mais obscuros, só as melhores lombadas, só a melhor estante, as fotos com as personalidades mais distintas (pode ser com a sogra, desde que tenha um ar presidenciável). E um tipo olha em redor e aflige-se. Para onde é que eu mando os senhores da televisão, no dia em que cá vierem?

 

Já aceitei a evidência de que os gatos passarão em frente ao plano. Que o Tomás virá a correr se, porventura, o dono discorrer sobre S. Tomás de Aquino e que a Mia se queixará, a qualquer momento, da falta de atenção, rebolando-se pelo chão, mordendo a canela ao entrevistador ou insistindo em descobir o que existe no fundo da lente da câmara. Tudo bem. Os gatos de Manuel António Pina não o impediram de ganhar o Prémio Camões.

 

Mas inquieto-me. Onde se farão as entrevistas no dia em que só tivermos livros electrónicos e mp3? Em que tudo for um grande ficheiro virtual? Até a roupa do estendal. Até os bonecos da infância. Até a infância.

 

Calma, penso depois. O ikea vai aparecer com os seus cantinhos de entrevistas pré-montados. Talvez os senhores da televisão os consigam simular com efeitos digitais. Talvez a Mia nunca saia da frente da lente e se torne o primeiro gato do mundo a teorizar sobre o imperativo categórico de Kant.

 

Ficaremos ricos, eu e ela. E estas coisas deixarão de nos apoquentar.

publicado por Alexandre Borges às 02:16
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

o desgosto dos outros

Convenhamos: seria fácil zurzir o gosto nacional. O naperon no televisor, o azulejo do lado de fora de casa, os cortejos carnavalescos seminus em pleno Inverno, a praia artifical de Mangualde com o horizonte pintado num cartaz, isso tudo. Não somos “junk”, como diz a Moody’s; somos kitsch. Autêntico, inofensivo, vaidoso kitsch.

O que há de lamentável no gosto português não é isso, mas alguns portugueses. Aqueles que se julgam bafejados por um sopro divino que os deixou acima da criação. Que sentenciam qualquer conversa com o fatal “só neste país”.

Esta espécie cretina não escolhe classes sociais. Encontra-se tão facilmente em táxis como vernissages. Distingue-se pelo discurso bilioso, descrente, incapaz de uma só ideia. Nunca sai derrotada porque nada defende e, como nada defende, não pode ser atacada.

Mal-amados, rancorosos, protagonistas da própria farsa, os portugueses-que-não-gostam-que-esse-facto-se-saiba citam um único português: o cosmopolita Eça. Pena o ego toldar-lhes tal modo a visão que jamais percebam quanto se divertiu Eça caricaturando-lhes os antepassados.

Condenados a viver entre os simplórios compatriotas, dão-lhes o que têm de melhor: a mesma azia que, um dia, os há-de levar. Nessa altura, o país que odiaram repetirá os elogios fúnebres do costume, concluindo, inevitavelmente, ter ficado mais pobre.

É que, debaixo dos adereços foleiros, conservámos as boas maneiras de velhos senhores e criados. Protegemos os nossos, sobretudo os fracos.

 

Publicado na The Printed Blog #1.

publicado por Alexandre Borges às 07:53
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

o escrevedor

O Pedro é um herói pessoal. Por conhecê-lo, na sua basta carne e algum osso, sei que não foi romanceado, amaciado por biógrafos, desinfectado de contradições. Está tão cheio delas como de livros as estantes que tem em casa, e mais os discos, a revista aberta – casualmente na crónica por ele assinada –, os filmes vistos ou por ver, debaixo da televisão que transmite um jogo que põe frente a frente o Futebol Clube do Porto e outros fulanos quaisquer.

 

O Pedro é o tipo que fez o que todos os outros arranjam desculpas para adiar: mudou de vida. Ali à beira dos 40 anos, com a doença a querer puxá-lo cobardemente para o lado de lá, meteu os pés à parede e começou de novo, com a folha em branco. Arriscou expor-se ao ridículo de se tornar um quarentão principiante, perder dinheiro, cometer erros, descobrir se tinha talento que chegasse para patrocinar a sua paixão, confrontar-se com o fracasso. Deixou os negócios e foi aprender a escrever da única forma possível: escrevendo. Sujeitando-se ao escrutínio de quem é complacente com jovens líricos e impiedoso com calmeirões ruidosos em busca do tempo perdido.

 

Venceu. Acertou o compasso entre quem é e a sombra de quem queria ser. E fê-lo sem perder nada pelo caminho. Pelo contrário. Continuou a ter a porta aberta para os amigos, a mesa cheia para repastos e conversas, uma história na ponta da língua a propósito de qualquer assunto, uma recordação, a espontaneidade de enfant terrible que disfarça o trabalhador sério que se prepara e documenta como poucos.

 

Sobretudo, debaixo da personagem tagarela e vaidosa, permaneceu o matulão companheiro, cheio de ternura e atenções, cultor de amizades e heróis literários, incertezas e questionamentos que o hão-de continuar a trazer à suave superfície da felicidade.

 

A vida é mais fácil com tipos como o Pedro por perto. O mínimo que um gajo pode fazer é não cometer a ingratidão de a deixar passar sem nunca lho ter dito.

publicado por Alexandre Borges às 01:20
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