Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

O dom das lágrimas

Há alguns dias vi um homem chorar.

Podia ter sido numa manifestação, ou numa destas recentes catarses colectivas organizadas onde se lamenta e se protesta os dias que correm. Podia ter sido num funeral. Podia ter sido um indigente, à mercê do amor de ocasião.

Nada disso. O que rodeava este homem, de cabelos grisalhos e olhos cinzento-avermelhado era uma atmosfera de festa. Uma conjuntura improvável para algo raríssimo nestes dias: apresentar as lágrimas em público, perante estranhos e sem medo nem vergonha. De facto, com gratidão.

 

O cristianismo primitivo está cheio de apelos a essa água salgada que nos escorre dos olhos. As lágrimas, para os primeiros cristãos, sempre foram uma bênção que era necessário pedir. Algumas das mais belas e poéticas orações suplicam justamente pelo dom da lágrima. A natureza humana, na sua patética soberba, sempre se recusou a si própria: daí o recurso à intervenção divina.

 

O tempo, esse monstro por nós criado, tratou de anular o poder da lágrima. Sinal de fraqueza, de cobardia. Excesso de romantismo reservado a literatura histérica ou, mais recentemente, adaptado e difundido apenas como consequência de situações catastróficas ou dramáticas, de preferência com um directo televisivo às oito da noite.

 

O valor da lágrima – o dom de chorar – parece ter-se perdido para uma qualquer obrigação de sofrer ou rejubilar para dentro e em privado. Não choramos as nossas perdas – amores, mortes – quando elas acontecem e como deveríamos fazê-lo. Preferimos o luto civilizado na ilusão de que tudo dói menos. Mas dói e não passa. Desconfiamos dos adultos que choram ao ver um filme ou se sentem atingidos por uma canção. Toleramos o choro dos outros, com o insuportável paternalismo e relação de poder que este verbo traz.. Mas tolerar é suportar.E suportar não é respeitar, que é algo que obriga a uma atitude de olhos nos olhos, de igual para igual.

 

As lágrimas, sobretudo se vertidas em público, incomodam. Subvertem, fazem-nos passar ao lado, interpelam-nos ao ponto de mudarmos de passeio como evitamos o bêbedo que sabemos que nos vai incomodar. As lágrimas despem-nos.

 

E sabendo isto, ver um homem, com cerca de sessenta anos, chorar no meio de um bar, no meio de um ambiente de festa desbragada. Não se está preparado para isso. Eu não estava, pelo menos. Consegui perguntar porquê, oferecer o consolo estúpido de quem não entende. O homem – um irlandês de meia idade, de férias em Portugal – respondeu naturalmente, com um sorriso já húmido:«Porque esta música [uma balada tradicional irlandesa] e vocês [portugueses] me fazem sentir em casa e com saudades de casa. Nunca senti nada assim. E ainda não bebi nada!» .As lágrimas corriam, já misturadas com o riso.

 

Acredito que as lágrimas são as jóias visíveis da alma. Acredito, mas não o pratico à vista de todos. Chorar é reduzirmo-nos ao pouco que somos no maior que poderemos ser, e é por isso que é tão difícil como necessário. Daí esta crónica surgir como pobre redenção, ao mesmo tempo que lembro a inveja e a lição que este homem me deu, e que me fez chorar com ele cantando o Wild Rover

Parafraseando uma velha canção, a vida é a nossa festa e podemos chorar se quisermos. É tempo de querer, fazer e agradecer, sob pena de algo humano desaparecer de nós.

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 19:01
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Domingo, 21 de Outubro de 2012

Famosas últimas palavras

 

                                                                                                                                                        Ao Filipe Homem Fonseca

 

 

 

Estes são os dias de Gaspar: por todo o lado, tudo o que se escreve é profundo, sério, sentido, indignado. A realidade cresceu sem darmos por isso e não há nada mais feio do que uma realidade adulta, que assina papéis  e nos empurra para a «unmagnificent lives of adults» (para citar os The National).

 

Esta crónica não escapa a este zeitgeist cinzento (ou se calhar escapa, mas  para isso terão de lê-la até ao fim). Para já, proclamo esta coisa leviana: deveríamos preocupar-nos mais com a nossa fugaz mortalidade. Palavra de honra. Não é que não tenhamos sido avisados: na Bíblia, o imperativo "Vigiai!" exorta-nos a viver cada dia como se fosse o último, frase aliás cunhada pelo  filosófico imperador Marco Aurélio nas suas Meditações. O livro do Eclesiastes insiste que a vida não passa de «vento e ilusão». Zenão, Epicteto, Séneca: os Estóicos passaram a sua vida a preparar-nos para a morte. Não há desculpas, enfim.

 

Mas, mesmo assim, não chega. Descobri há pouco que é preciso ter cuidado com o modo como somos lembrados. São muitos os exemplos de gente que pensou nisso antes e mandou gravar nas suas lápides epitáfios notáveis: Mel Blanc, o homem das mil vozes, de Bugs Bunny a Daffy Duck, tem no seu túmulo "That's all, folks!". Sinatra, o optimista "The Best is Yet To Come"; um anónimo o brilhante "I told you I was sick"; um pistoleiro do Velho Oeste teve direito ao genial "Here lies a man named Zeke, the second fastest gun in Silver Creek"; ou o meu preferido, do grande W.C.Fields: «All things considered, I'd rather be in Philadelphia".

Só que isto não nos prepara para os dias. Se é verdade que podemos ir desta para qualquer outro lado a qualquer momento, devemos ter cuidado com o que poderão ser as nossas últimas palavras. Esta extraordinária constatação - que apresento aqui em rigoroso exclusivo mundial - surgiu em animada conversa de amigos, em que a dada altura um de nós, que confessara a sua admiração por uma bonita mulata que estava nas redondezas, disparou: «A mulata bazou?»

 

Ora bem. Acompanhem-me aqui, por favor. Imaginemos que este querido amigo, pouco depois de proferir esta espantosa frase, era vítima de um AVC fulminante (longe vá o agoiro). Qual o seu legado, o que iria ficar? «A mulata bazou?». Não pode ser. E logo a seguir, mesmo depois de termos concordado com o cuidado que devemos ter, alguém deixou escapar um «Da última vez que me entusiasmei acordei em Santo António dos Cavaleiros». Inadmissível. Imagine-se o velório: «Estávamos a beber um copo e ele disse Da última vez que me entusiasmei ,etc...». É feio, é feio.

Cuidado com as últimas palavras, meus queridos amigos. São últimas por alguma razão. Tentem florear, dar um ar barroco e memorável a cada fraseado. Ou então, que o façam com força e raiva, para compensar a injustiça desta nossa breve passagem. Eu estou a pensar seguir esse modelo no próximo ano, quando me for pedido o pagamento do IRS e eu disser, para a História, «pago mas é o caralho!".

publicado por Nuno Miguel Guedes às 20:29
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Domingo, 14 de Outubro de 2012

Vontade de viver

Desconheço se é por adubamentos em falta, por não ter tempo para falar com plantas, se por pujança do calcário na água ou sobejo de cloro, mas a verdade é que lá em casa não frutificam árvores das patacas. O único supervivente vegetativo que sobrevém fotossinteticamente à minha inépcia será um cacto fortuito mais caprichoso.

A minha fonte de rendimento é, unicamente, o trabalho o que oblitera, visivelmente, os meus rendimentos.

A juntar à labuta contraproducente e à desflorestação da varanda, soma-se a minha incapacidade para a poupança que só é comparável à facilidade com que deixo escapar fundos por entre os dedos.

 

Às vezes tenho a nítida sensação de que o dinheiro foi uma invenção para que continuo impreparado. Sou incapaz de lhe dar a volta pois, nitidamente, não resulta comigo. Não fui incluído no projecto nem constei do esboço. Estou aquém do desígnio. Faço parte das excepções, das contra-indicações. Ou, pelo menos, até hoje não compreendi o conceito.

Há anos que percebi que nunca conseguiremos manter uma relação séria. Sempre de costas voltadas, incapazes de partilhar o mesmo espaço, dividir o mesmo leito e ter contabilidade comum.

O litígio deu origem a divórcio, sem possibilidade de reconciliação.

 

Podia procurar frases batidas que jogassem a meu favor mas, a verdade é que o meu problema em relação a poupar dinheiro é que embora perceba a necessidade, não vejo como. Há um corte epistemológico entre o “porquê” e o “como”. 

 

Tenho esperança de que um dia acorde enfartado e a não precisar de comer, a odiar beber, a não ver necessidade em andar vestido e ler, pronto para dar filhos para adopção e de proventos salvaguardados.

Um dia em que não sonho com carros com porção de cavalos suficientes para abrir uma coudelaria ou anseios gourmet.

 

Percebo que sozinho não vou conseguir, pelo que a opção é acabarem-me com as vontades ou tudo quanto corteje intenção e objectivos próprios.

Operem-me. Arranquem-me o hipotálamo à bruta. Violentem-me o tálamo. Despedacem-me o hipocampo. Limitem-me as circunvoluções cerebrais. Fiquem-me com um hemisfério com opção para dois lobos. E vendam-me tudo quanto seja neurónio.

Aproveitem para arrebatar o resto. Vive-se bem sem pulmões e rins. Fígado, logo veremos! Levem-me pernas e pés para não ter de desembolsar dinheiro com calçado.

Estou determinado. A gente arranja-se com pouco se se puser a isso. E sem vontade de comer, beber, de me vestir, de cultura descurada, sem filhos e casa, as dificuldade económicos ficariam resolvidas. Acabar-se-iam as minhas lamurias acerca de impostos. Nunca mais ninguém me ouviria falar em escalões de IRS. Terminariam as preocupações com o IMI. Estaria de acordo em relação a mais austeridade. As agências de rating seriam minhas amigas. E o governo independentemente de qual teria, sempre, o meu apoio não obstante as medidas. Seria, sem dúvida, uma pessoa melhor. Preferível, pelo menos. Andaria mais leve, sem necessidade de usar carteira e porta-moedas.

 

Salvem-me! Acabem-me de vez com os egoísmos das vontades. Apetecer é desnecessário. Querer é pouco vantajoso. Desejar, ambicionar, aspirar, pretender é inútil. Mais do que isso é escusado e supérfluo.

Quem vegeta não desembolsa porque não come, não bebe, não lê e não precisa de filhos.

Jejum, desidratação, perda de hábitos de leitura são a minha estrada para Damasco. O meu roteiro para o aforro. Serei o sem-abrigo, maltrapilho, sem amigos e filhos com quem gastar dinheiro, amealhando e de punhos cerrados e dentes à mostra contra a vontade amputada. Progressos contabilizados em côdeas, lêndeas, meias sardinhas, arrobas por consumir e volumes por ler.

 

Não será fácil. Prevejo amuos, arrufos e agastamentos. Urgências de mudança e renúncia a hábitos antigos. Mas, estou preparado para a briga e já vejo a conta bancária a aumentar. Dilatando de economias. Novos cartões de crédito exclusivos à vista. Já estou com o livro de cheques preparado.

 

A vontade é forjada, maquinada, fabricada, criada, engendrada só para nos arruinar economicamente. É atrevida, afoita, insolente, desaforada, rabiando constantemente com o bom-senso. Pesa-nos no bolso. E faz-nos errar escolhas.

Quanto mais cedo o percebermos melhor.

Ponham-na de castigo. Puxem-lhe as orelhas. Cortem-na aos bocadinhos. 

Pensando bem, o melhor será tirá-la toda. Arranquem-ma. Incinerem-na. Façam-na desaparecer.

Certifiquem-se antes de lhe voltarem as costas de que foi, completamente, extirpada!

Mas, já agora, deixem-me um restinho. O que é necessário para querer viver.

publicado por Carlos M. J. Alves às 14:54
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

Ovelhas negras precisam-se!

"É um povo pacato, que aceita pacificamente as coisas desde que tenha esperança", afiançou, angustiado,  mas sem apanhar ninguém de surpresa, Ramalho Eanes sobre os portugueses, por altura  das comemorações do 5 de Outubro. 

Pergaminhos antigos por culpa dos quais nada caiu na lama.

 

Independentemente do ângulo, o português é pacato e bem-intencionado. Aceita pacientemente, amocha, aguenta-se.  

Iludido, é sossegado, ordeiro, pacífico e bonzinho. Ganhou fama de não estrebuchar, não dar estrilho [por troca directa com a esperança?!].

Capaz de ser bom aluno, de comportamento exemplar, acomoda-se na carteira do fundo para passar despercebido e cala sem consentir, por culpa dos seus brandos costumes.

Mesmo no maior dos desagrados ferve em banho-maria. Rabuja em silêncio. Para dentro.

Vai na onda e alinha com o resto do rebanho. Um cordeirinho que se põe a jeito para os lobos esfaimados à espreita. Ou que acaba, inocente, no matadouro.

Pelo bom jeito o português deixa-se ir ao sabor da melodia. Habituado a afinar sempre pelo mesmo diapasão, trauteando entusiasmado a música de sempre.

Não é de dar murros na mesa ou de a virar. Tem temperamento de monge tibetano.

 

O português encolhe-se cabisbaixo. Definha sitiado, vivendo em regime de aceitação geral do descalabro reinante. Não se acobarda e é capaz de suar a camisola, mas resigna-se. Não precisa de mais mundos novos, já deu os que tinha a dar. Ocupado a arrumar a casa, Portugal não lhe pertence até pagar as contas. Mas tem costas largas, pele grossa e lombeira de Atlas para o suportar.

É contido nas revoluções, não é insurrecto por natureza, mas por necessidade. Acredita, pueril, até ao fim, contido, não por defeito, mas feitio. 

Não é “povão”, é Zé-povinho. Não é chocante dizer que se fica pelo manguito e abdica da contestação organizada.

 

Pelo menos andam convencidos disso e muito mais. Dão-no como garantido. E aproveitam-se. Acodem pela pacatez geral. Elogiam-lhe a submissão. Castigam o comportamento económico adolescente que os próprios propiciaram. Desesperam ante a possibilidade de mudança. Os demagogos, os miserabilistas, sabujos, os que nos entregam sem luta, os defensores de mais do mesmo, do cortar a direito, os vencedores de ocasião, especuladores do erário público, adoradores do memorando, os que nos representam pelo melhor soldo, os que nos delapidam, os que acham que manifestação sonora não passa de zumbido.

 

"O povo português revelou-se o melhor do mundo", constatou elogioso o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, para estupefacção das bancadas parlamentares que se lhe opõem. Em que pensaria quando o afirmou? Na  pacatez habitual?

 

Desenganem-se. O povo português sente-se. É filho de boa gente. Sofre. Lança maus-olhados  à troika e, caso se justifique, chega a vias de facto com quem o maltrata. Cospe azedume pelos que o desrespeitam e aperta os gasganetes aos cretinos que o menosprezam. Gosta que o ouçam. Detesta orelhas moucas e cabeças enterradas na indiferença.

 

Portugueses somos todos nós: aqueles a quem lançam areia para os olhos, os que acabam sempre a pagar, precários, a prazo, fora da validade, enxovalhados, empurrados para fora, tributados, desfeiteados, cortados, desempregados, falidos, hipotecados. Descendo, ruidosamente, orgulhosos, avenidas e transbordando nas praças. Convencidos de que a esperança é uma coisa que nos impingem para nos manterem calados. Descontentes, atulhados de promessas e fartos de ser bonzinhos. As alcateias foram surpreendidas pela força dos acontecimentos. 

 

Desiludam-se os que acham o povo português pacato. O português que se resigna é o mesmo que se agiganta ao sentir-se desprezado. O português saturado de austeridade, de se ver tratado como Zé-povinho, distraído do essencial, embalado por conversas de circunstância e discursos inúteis, já não se contenta com manguitos, agita-se, aflito das costas, atarracado, com escolioses insuportáveis de um mundo pesando-lhe em demasia e  apercebe-se que isto só lá vai com ovelhas negras, escapando ao grupo e balindo desalinhadas. Um povo de lusíadas intrépidos que tomam por zézinhos.

Tudo o resto é conversa de político. Fiem-se!

 

O tempo é de ovelhas negras. Fora do trilho. 

Essa é pelo menos a minha esperança. Mas, não será a de todos?

publicado por Carlos M. J. Alves às 21:02
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Breve crónica de Outono

Chegou o primeiro cheiro do Outono, súbtil. E com ele o nevoeiro lânguido dos olhares, o desejo do conforto, a mudança de discos no armário, a luz tépida, os dias castanhos, a civilidade dos gestos, a infinita preguiça, o prazer do domingo, a camisola de malha, o cheiro incrível das folhas na província, as estradas vazias e a urgência do sábado de manhã, os corpos pálidos e os sorrisos discretos, a informação de trânsito, as janelas fechadas, o sabor das primeiras gotas que caem sempre na mão, as geleias e o abandono da frescura, o lugar do morto, os olhos a fechar nos fins-de-tarde no transporte público e as correrias em frente das escolas, a noite a ser noite, o amor interrompido, o sossego da casa, as montras cheias, a ausência do céu, as vozes quentes e os cobertores, a disponibilidade para os livros, o elliott smith, as tendências suicidas e o cinismo.

Agora sim, podemos ser felizes.

publicado por jorge c. às 13:47
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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

O absurdo

Uma manifestação que conte com a minha presença ficará, certamente, na história. Um conservador não simpatiza muito com combustível revolucionário e é pouco tolerante à revolta contra o sistema. Porém, o absurdo pode provocar a necessidade de manifestar um desacordo tal, que até pessoas lúcidas como eu alinham na indignação em massa.

 

Não deixa de ser curioso que a manifestação de Sábado tenha descido a Av. da República. É como uma homenagem à soberania popular e à cidadania. Parte da função de qualquer cidadão é fazer chegar a mensagem ao poder que o caminho escolhido não é muito apreciado. E foi por isso que me juntei a ela. Foi um dia feliz. Quando o poder político percebe que a insatisfação é demasiado ampla para ser ignorada, nasce um momento republicano glorioso em que o governante percebe que o seu poder conhece limites.

 

Contudo, nem sempre percebe. 

 

Memória de Elefante foi o primeiro romance português que li. Era muito novo. Talvez por isso o tenha abandonado a meio, voltando a ele mais tarde. Houve, no entanto, uma passagem que me seduziu e que me fez regressar a ele algumas vezes. Nessa passagem, quase no início, discorrendo sobre uma relação amorosa passada e acabada, Lobo Antunes cita O que diz Molero. "Como um cego que espera pelos olhos que encomendou pelo correio". Fiquei com esta imagem na cabeça durante anos. É provável que tenha sido o meu primeiro contacto com o absurdo ou, pelo menos, o meu primeiro fascínio.

 

Quando alguém persiste num erro, é nesta imagem que penso. Como se a salvação chegasse por encomenda, enquanto deixamos o corpo estagnar angustiado. Mas as partes do corpo não podem sair à rua e as pessoas podem. E essa coisa é que é linda.

publicado por jorge c. às 00:05
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

Grande, grande era a Cidade

Segundo mensagem automática, estiveram ausentes do seu escritório, durante 15 dias, os cidadãos portugueses. Quinze dias sem respostas, com papelada a aguardar despacho, repousando num sono profundo de, pelo menos, dez dias úteis. Boas férias! Goza muito e gasta pouco! Fico a aguardar resposta, com os melhores cumprimentos, não quero saber.

 

Recuperado do coma induzido - o seu posto de trabalho - lá vem ele, todo lampeiro, a pairar como uma libelinha, leve e bronzeado, não se apercebendo do que o espera. Mas depressa tem de despertar. Acorda, Zé! Está na hora da cidade, das pressas e das urgências, do trânsito real e o trânsito da rádio, das notícias agressoras, dos programinhas da manhã e da musiquinha revivalista, das centenas de emails, das satisfações e dos compromissos.

 

E quando a noite cai, já quase nem se vê o céu natural. Já não há o "nosso Alentejo" e todas essas referências serôdias do escravo da urbe. Qual nosso, qual quê?! Qual casinha rústica, qual quê?! Qual comidinha típica, qual quê, seu cristóvão colombo de Odivelas?! Que a vida não se esgota nos 22 dias de férias, nem o mundo fica suspenso depois do teu adeus, até ao meu regresso. E o povo, esse macaquinho de zoológico que entretém turistas, também és tu, no teu meio. Ah! matéria única de entretenimento ou de pesquisa antropológica.

 

Regressam tristonhos. Acabou-se o que era doce, já que estamos numa de chavões. Então e a cidade? Vamos acabar com essa tristeza ridícula. É preciso reconciliarmo-nos com a luz artificial da cidade, essa verdadeira conquista. Viva o brilho das avenidas e as ruas cheias de gente; os teatros e os cinemas; a música nos passeios; os restaurantes sem lista de espera; a diversidade toda, deste e do outro mundo. Sai de casa, companheiro, que os dias nunca são iguais. E a cidade também merece o melhor de ti.

publicado por jorge c. às 11:00
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Aqui que ninguém nos ouve

 

Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

 

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

 

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

 

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

 

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.

publicado por Vasco Mendonça às 21:50
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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

Se não há amor como o primeiro, o que dizer da prática conduzir à perfeição?

Frases feitas quem as não usa? São uma tentação feroz que, facilmente, nos alicia e a que, irreflectidamente, nos rendemos. 

 

Uma frase feita não inova. Inferioriza, repisa e não serve para reforma. Com ela o mundo não pula nem avança. Estagna. É um desperdício de tempo. Embora, também, sirva para o ganhar. Não dá em nada. Ou adianta muito pouco. Dar-lhe atenção é favorecê-la. Um desmazelo.

 

Em relação  a frases feitas há as que são verdade, mas, também, há as outras, as mais perigosas, as que são só meia. Exigem um cuidado redobrado, para o qual não existe sinalética.

 

Por regra, a frase feita fixa-se e transmite-se por processos parasitários de acomodação. São uma retórica repetitiva. Para gente pouco corajosa e ávida de comodismo. 

 

A frase feita tem fôlegos de felino e expediente de profissional da propaganda médica. Permanece. Já deu provas e depois ficou a viver de rendimentos. É uma velha glória. Uma estrela jarreta a polir os óscares ganhos e a viver por conta do antigamente.

 

Podíamos falar indefinidamente sobre elas. Frases feitas há muitas! De todas as épocas e proveniências. Para todas as necessidades e de todos os géneros. 

São inocentes, ou não? Bem, isso depende da perspectiva.

São um engodo. Acha-se. Isso é certo. Suspeita-se. É fácil cair nelas. Aliás,    os gostos não se discutem e  há gente para tudo. Perdão! Que exagero. Dúvidas houvessem… Já risquei! Não voltarei a usar mais nenhuma frase feita, embora esteja consciente de que quando menos esperamos... Digamos que a excepção confirma a regra. Pronto, pronto, adiante... evitemos as picardias.

 

A seu favor? As frases feitas sustentam expectativas. Alimentam a falta de imaginação e não exigem investimento.

 

Contra si? O que têm para dizer é insuficiente. Não acrescentam. É chover no molhado. Na melhor das hipóteses confirmam. E servem, habitualmente, propósitos básicos de quem, ainda, tem menos para dizer. Ficam-se por insinuações. Dispõem e disponibilizam informação limitada. Comunicam pouco sobre as coisas. Mas, muito sobre nós. Pelo menos mais. Ilustram um perfil. Nesse pouco que dizem quando não dizem, exclusivamente, de nós afiançam:

 

Não há amor como o primeiro

 

Será? Não escondo a minha desconfiança.

Abrisse eu uma excepção para uma frase feita e diria que:

 

O primeiro milho é dos pardais

 

Então, não há amor como o primeiro? Fosse isso rigoroso e estávamos todos casados com o anjinho de asa anafada que se sentava, confidente, na berma da secretária da professora que parecia ter o exclusivo da eau de toilette bien être de 500ml. Aquela a quem se surripiava os totais das divisões na escola primária e se lançava ais enamorados. A que nos conquistou, inocente, as fronteiras sentimentais em estruturação e passou a salto pela veia cava e aurículos acima, esburacando ventrículos e depois todo o nosso coração, até este não passar de um queijo suíço impróprio para consumo. Lívidos. Logo desde o primeiro dia de aulas, amarfanhando-nos, zombeteira, a sintaxe amorosa irremediavelmente.

 

Quem quer correr o risco de ficar com a joia resplandecente que aos seis anos dava todas as garantias potenciais de se transformar numa Audrey Hepburn e que acabou uma matrafona da pior espécie de marroquinaria? Uma crisálida arrepiando caminho de borboleta, directamente, para traça.

 

O primeiro amor é um risco. Uma página para virar rapidamente. Anos mais tarde em encontro fortuito respira-se de alívio por se ter passado ao próximo. Confirma-se que se acredita numa coisa e depois sai outra. Vá lá acertar! Pior do que não saber ao que se vai é não adivinhar como é que fica. 

 

Felizmente não levámos a sério a frase feita e fomos tacteando inseguros as cercanias, incitando-nos com um "Next!" mental.

 

Não há amor como o primeiro?

Não me parece. Sobre o primeiro amor alardeamos uma apoteose falsa.

Para o primeiro amor ninguém está preparado. Ao segundo, em plena convalescença, já se sabia ao que se ía. O terceiro já conta com a experiência do par anterior. Mas, o primeiro... serve de preparação ou ensaio. É a volta de aquecimento.

Com o primeiro amor engasgamo-nos em pasmo. É um gole traiçoeiro.

Com ele o impacto é imprevisível e de tal ordem que não se tira tudo a limpo. Esse é, aliás, o maior problema. Como afirmar que não há amor como o primeiro quando houve pormenores que nos escaparam, situações de que nem nos apercebemos, embaraços que podiam ter sido evitados, compromissos que eram escusados. Cilindrados pelo encantamento e ultrapassados pelas circunstâncias.

 

Só concebo alguém dizer que não há amor como o primeiro se especular que a partir desse momento foi a desgraça, a miséria, uma desigual e infrutífera continuidade, incomparável com o arrebatamento inicial. Quanto aos restantes mortais, penso que só podia progredir.

 

Não há amor como o primeiro?

Não me fio numa frase feita. Não serve para nada. Não é um bom avaliador e, muito menos, assegura largada tranquila. É um passo atrás.

Em relação às questões do amor, em especial. Uma frase feita carece de prática. 

No que me diz respeito, acho que me fico pelo último. É a opção mais acertada.

Lamento a frase feita mas, reconsiderando momentaneamente, quem ri por último ri melhor.

Além do mais, XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX. Desculpem! Acho que já perceberam a ideia geral. Poupo-vos a mais uma frase feita.    

publicado por Carlos M. J. Alves às 08:11
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Um caminho para chegar a casa

Cheguei a Istanbul sem saber muito bem porquê. Fui. Enquanto seguia para o centro da cidade, o movimento nas ruas pareceu-me assustador e selvagem. Perto de Taksim, um homem atravessa a rua na diagonal, seguido de mais três ou quatro pessoas que ignoram em absoluto a circulação dos carros. Criam a sua própria dinâmica e seja o que Alá quiser. Estamos em pleno ramadão, o que poderá correr mal?

 

O calor e a humidade estufavam o meu corpo quando o táxi me deixou em Beşiktaş. Nessa noite, acabaria por jantar em Eminonu e foi então, no meio desse centro conservador, entre mesquitas e bazares, entre vendedores de rua e turistas, que comecei a ganhar consciência da cidade onde estava.

 

Istanbul nasceu para servir de colónia a Byzas, devido ao sobrepovoamento. Ao longo da sua história, viveu uma terrível dificuldade em tornar-se independente. Foi palco de disputas que, mais do que desenvolver, destruíram a cidade. Pelo menos até Constantino, que nela encontrou o entreposto comercial estratégico ideal para fazer crescer o império. O imperador foi, talvez, o primeiro a perceber a sua relevância geográfica. Também Justiniano se apaixonou por Istanbul, concedendo-lhe autonomia, sofisticação, estrutura e regras.

 

Porém, talvez tenha sido o sultanato a marcar aquilo que hoje são os turcos. Apesar de alguns reformistas terem dado um passo significativo na moldagem das idiossincrasias, tais como Abdul Hamit ou Mahmut II, o conservadorismo dos Sultões, a sua imponência e totalitarismo, deram à Turquia e a Istanbul uma cultura de mitomania e - sejamos honestos, mas simpáticos - de alguma aldrabice. 

 

Não haverá muita diferença entre os embaixadores de então e os empresários que chegam hoje a Istanbul para beneficiar de excelentes factores comerciais. Tanto uns como outros tinham de condescender com a magnitude do poder, mostrar alguma subserviência e depender, depender muito. Nas ruas, a lógica é a mesma, desde os serviços mais simples, como a inspecção rodoviária. Foi precisamente aqui, neste serviço, que me apercebi da importância do pequeno poder, da posição dominante serôdia e saloia e, também, da pequena corrupção patente. O que é que eu fui lá fazer? Ora, nem eu sei, muito bem. Fui. 

 

Mas, nem o fosso entre os mais pobres e os mais ricos, que em Istanbul é tão grande como as margens que o Bósforo separa, impede que estes fenómenos e trejeitos sociais se prolonguem para os mais abastados. Há construções absurdas, cedências de passagem, prestação de vassalagem, prioridades invertidas. Que a beleza aparente da cidade turística não te cegue. Que a limpeza das ruas não te engane. Que a segurança que sentes na rua não te deslumbre.

 

Conheci um homem chamado Ozan. Este homem contou-me, com naturalidade, que os turcos não querem ser europeus mas, antes, americanos; que não querem a organização norte-europeia da União dos 27, os seus métodos, a sua burocracia. Os turcos, segundo Ozan, querem continuar a desenrascar-se neste sistema selvagem de esquemas e manobras de diversão. Querem, no fundo, a conservação total da sua identidade. Falou-me disto com a mesma paixão com que os turcos espalham as bandeiras herdadas de Ataturk por toda a parte.

 

Foi então que encarei Taksim e Gayreteppe e vi uma cidade a crescer ao seu ritmo, esquizofrénico, é certo. Vi rapazes e raparigas, confiantes e sofisticados. Libertei-me, enfim, do etnocentrismo que tantas vezes esmagou os povos e os condicionou. Passeei pela cidade como passeio em Lisboa que, no fundo, não é assim tão diferente. 

 

Quando dei o primeiro mergulho, em Porto Côvo, lembrei-me de Ozan e do seu sonho em banhar-se no Oceano Atlântico. Senti-me, como diz Vila-Matas, no centro do mundo. Estava, agora, de regresso a casa.

publicado por jorge c. às 00:49
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