Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

a vida ou assim

Não há, leitor, pergunta mais opressiva. Acontece amiúde, não passa de moda, não escolhe géneros nem idades nem classes sociais. Dá-se muito em férias, no regresso à terra ou em dias de puro e simples azar. Esbarramos numa cara conhecida que não víamos há muito, ultrapassamos as interjeições de surpresa e agrado (“Oh!”, “Ah!”, “Olholhó”), seguimos pela berma das pertinentes questões que tentam aquilatar da nossa existência efectiva (“Mas se não é o…”, “És mesmo tu?”, “Não acredito!”), arrebatamo-nos em abraços, beijinhos e sólidos pancadões nas costas e vamos embater de frente na cruel interrogação: “E o que é que tens feito, pá?”

Isto já terá sido estudado. Haverá gente por esse mundo que tem engatilhada a resposta perfeita, súmula e síntese, breve e sumarenta, honesta e não totalmente desinteressante. Mas o memorando nunca me chegou à caixa do correio.

Fico engasgado como quem é apanhado numa maldade. “Há… Pois… Eu… Bem… Quer dizer… Tanta coisa, né?” Mas o interlocutor permanece suspenso, de olhar brilhante, na expectativa de pormenores. “Pá, escrevo, né? Escrevo. Televisão, jornais, essas coisas.” “Mas casaste?”, pergunta o estupor. “Não.” “Filhos?” “Gatos.” “E aonde é que estás a morar agora?”, indaga, misericordioso, dando-nos uma última oportunidade de exibir algo novo. “No mesmo sítio”, balbuciamos, derrotados.

O final, já se sabe, dá-se apressadamente. Querendo poupar-nos a maior martírio e em nome da amizade que no passado nos unira, o velho conhecido abrevia umas palavras de circunstância e despede-se com um inevitável: “A ver se combinamos um café ou assim.”

Ou assim. Sabemos, naquele instante e com visceral certeza, que esse café nunca será marcado e que, naqueles brevíssimos minutos, hipotecámos grande parte do interesse que, em tempos, despertámos no dito indivíduo. Retomamos o percurso que fazíamos de ombros baixos. Há uma qualquer sensação de vazio e absurdo. De repente, não sabemos o que andámos a fazer com a vida.

É suposto um tipo dizer o quê, exactamente? Que ganhou o Nobel? Que agora vive na estação orbital? Que não casou, mas tem uma vida sexual de fazer inveja ao Cristiano Ronaldo? A partir de que ponto se sentem as pessoas satisfeitas com a resposta? “O que é que eu tenho feito? Pá, nada de especial. Resolvi o conflito israelo-palestiniano e inventei a cura para a SIDA. O costume, sabes como é.”

Ou não será uma questão de grandeza, outrossim de minúcia? “O que é que tenho feito? Ora, vamos cá ver. Não nos vemos desde 87, portanto… No plano sentimental, andei com a Sabrina, depois com a Júlia e acabei encalhado na Maria Alice. Fui à Índia, a Sevilha e a Porto de Mós. Já não estou farto de Paul Auster. Ando a ler o Camilo, mas só os primeiros livros…” Etc e tal.

Deveríamos andar com cópias do currículo para distribuir aos velhos conhecidos quando descarregassem a questão? Ou fazer-nos acompanhar de um biógrafo oficial? Facultar um dvd à laia de “best of”, qual concorrente de reality-show acabado de expulsar da casa?

Ignoro. Da próxima vez, pelo seguro, disparo eu, assim que veja um tipo conhecido a vir pela rua e antes que ele tenha a menor hipótese de sequer ajeitar os lábios para proferir um som: “Temos de combinar um café ou assim!”

E atravesso a estrada. Bardamerda para as biografias instantâneas.

publicado por Alexandre Borges às 07:46
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