Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

fenomenologia da miss

Recordo, com saudade e algum tesão, as eleições da Miss Portugal. Era ainda no tempo em que o Festival da Canção era o acontecimento televisivo do ano e nada se lhe podia comparar, mas o concurso da Miss ocupava um honroso segundo patamar de nobreza. Era apresentado pelas mesmas peças de mobília, tinha ainda mais candidatos e uma vantagem: ninguém cantava. Por outro lado, não havia a chatice dos júris distribuídos por continente e ilhas, com os seus telefonemas cheios de feedback e vozes reais, contra a higiene inodora dos locutores de carreira. A coisa resolvia-se autoritária e aristocraticamente com um júri corajoso, cinzento, mudo e presente em estúdio.

Gostava de imaginar como tinham ali chegado algumas das candidatas. Para estarem ali aquelas, que aspecto teriam as trezentas não seleccionadas que também haviam, num momento de delírio, recortado o cupão do Correio da Manhã? Seriam mulheres, ao menos? E recordo-me da tese das pressões. Porque nunca ganhava a candidata preferida lá de casa, falava-se em pressões. Havia pressões para que ganhasse a Laudelina, de Porto de Mós, e não a Eulália, do Pedrógão Grande. Claro. Eram os interesses. Sabe Deus que poder ficava nas mãos da Miss ‘87 – Jesus. É melhor nem pensar.

Mas o coração da coisa, o cordão umbilical do meu amor àquela organização era um acontecimento muito específico: a eleição da Miss Simpatia. A Miss Simpatia é uma categoria como já não há. Era o lastro, a substância, a faceta séria da coisa. Ali se comprovava, à saciedade, a não-futilidade da eleição. Não estamos aqui a votar apenas a beleza física, não; também nos preocupamos com o interior. A Miss Simpatia já sabia, no momento em que lhe punham a faixa, que estava perdida. Não ganharia mais nada. Era simpática, queridinha, fofa, muito bonita por dentro – que pena ser tão lingrinhas. Ou marreca. Ou estrábica. Ou isso tudo ao mesmo tempo.

De algum modo, reconhecia-me nela. Sim, leitor. Creio que eu próprio fui sempre a Miss Simpatia. Um amor, um querido. Os colegas gostavam de mim à brava. E as raparigas. Que pena, pensariam elas, que os rapazes giros não fossem como eu.

Ostentar a faixa a dizer “simpatia” era o atestado final de fealdade. Um insulto da mais fina elegância. Mas elas sorriam, vinha-lhes a lágrima ao canto do olho, e pousavam, de mão na anca cavada pelo fato de banho encomendado a uma funcionária de uma retrosaria da Baixa, para os fotógrafos da sua interioridade.

Era lindo e cruel. Não sei se ainda se faz. Desde então passei a dar mais atenção às antipáticas raparigas que costumam fazer a capa das revistas masculinas. Manias…
 

publicado por Alexandre Borges às 14:10
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