Domingo, 15 de Março de 2009

O barbeiro

Fotografia: Pedro Cláudio

 

A MAN'S gotta do what a man's gotta do», diria John Wayne ou outro como ele. A frase parece redundante, mas não é; e o pior é que está a cair em desuso. Hoje, os homens já não fazem o que têm de fazer, mas o que pensam que toda a gente faz. Mais grave ainda: vão onde toda a gente vai, mesmo que isso signifique ir a um «cabeleireiro unissexo».

 

Das modernas perversões, não consigo imaginar nenhuma pior do que os cabeleireiros unissexo. Não é só a perda de mais um universo masculino - é o abandalhamento de um ritual de iniciação. Ir ao barbeiro desde menino, acompanhado pelo pai, é um dos hábitos mais saudáveis para a educação de um rapaz. Logo em pequeno aprende a conviver com conversas sobre mulheres, política e futebol enquanto é acarinhado por aquele que, a partir desse momento mágico, irá ser o seu barbeiro. Ao longo dos anos, o barbeiro torna-se cúmplice na vida do adolescente: fala-lhe dos estudos, da vida, conta anedotas, pergunta-lhe como estão os pais, estimula namoros e pequenas marialvices. Aos poucos, o rapazinho vai sendo capaz de acompanhar e começar as conversas que ouvia quando pequeno, e a partir daí nasce uma grande amizade. Agora, expliquem-me como isto é possível num «cabeleireiro unissexo».

 

O genuíno barbeiro-amigo tem de possuir várias características. Primeiro, é bastante recomendável que seja herdado, isto é, que o nosso pai já tenha sido (ou ainda seja) cliente habitual. Depois, um verdadeiro barbeiro deve ter obrigatoriamente um engraxador que saiba tudo sobre futebol e uma ou mais manicuras que independentemente da idade sejam tratadas por «meninas». Pessoalmente, não gosto de barbeiros localizados nas zonas novas da cidade (o meu é na Rua dos Correeiros, aqui em Lisboa), mas admito que se trate de uma posição radical.

 

O homem civilizado, o que não vai a cabeleireiros unissexo falar de estilismo e da dança no ACARTE, tem uma fidelidade canina ao seu barbeiro. Cada vez que, por motivos de força maior, vai cortar o cabelo num estabelecimento desconhecido, sente cada golpe de tesoura como uma traição amorosa e um sentimento de culpa do tamanho do mundo. Francamente, nos tempos que correm, é assim que cada vez mais deveria ser.



[crónica publicada na revista K, nº19, 1992. Não tive de retirar uma única linha ou de alterar seja o que for.A foto é a que ilustrou o artigo na sua edição original]

publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:02
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