Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Porto

Ia começar esta croniqueta dizendo que apesar de ter nascido no Porto e ter passado lá uma pequena parte da minha adolescência, poucas coisas me tinham  marcado e que me considero quase um original alfacinha.
Começa este cidadão a alinhavar as ideias para que a coisa seja mais ou menos legível e acontece-lhe o mesmo de sempre: o que parecia ir para um lado acaba sempre por ir para o outro.

Apercebo-me do provincianismo da coisa, nada, aliás, que o leitor não descobrisse nas primeiras linhas. Está bem. Vivo desde os cinco anos na cidade de Lisboa com umas intermitências pouco significativas, tenho dois ou três amigos no Porto, vejo-me em palpos de aranha para ir da Rua da Restauração para a Rua Santo Ildefonso, não gosto de Super Bock, sofro ataques de asma cada vez que passo a ponte da Arrábida e, last but not the least, estou sempre a dizer mal da cidade.

As tripas ou as francesinhas não contam – gosto tanto de tripas ou francesinhas como de sopa de tomate com carne frita à moda de Fronteira -, o FC Porto também não. O meu mais antigo, vivido e eterno amor não é exclusivo dos tripeiros e, com pena minha, há um clube da segunda circular – só de me lembrar do nome fico agoniado – que tem quase tantos adeptos no Porto como em Lisboa.
O sotaque também não é para aqui chamado. Isso tem a ver com a minha fraca personalidade: dois diazitos em Setúbal e já digo que vou à Tróia com um assento tão grande nos erres que até a minha garganta fica irritada ora, por maioria de razão, basta meia hora de Porto para que os vês desapareçam da minha fonética.

Vou deixar de lado o arrepio que sempre sinto quando passo a ponte e olho para a Foz do Douro, a mesma angustia ansiosa de um inevitável pecado que o ar displicente das encostas ou o cinzento mortal da cidade me provoca. Também não será só pelos cafés. Aqueles espaços de tectos altos e mesas mancas, de espelhos já foscos com empregados de mesa com bandejas redondas velhas e rombas.

Para mim o Porto é a expressão: “onde é que paras?”. É aqui que a cidade deixa de ser  só britânica e burguesa para ser só o Porto, o meu Porto.
Mais do que se querer saber onde é que se vai beber café ou beber uns finos, quer-se saber qual o espaço onde dado cidadão se movimenta, quem são os seus amigos, qual o seu círculo, os seus interesses, no fundo, quem é o tipo que temos à nossa frente.
Nada a ver com a pergunta “em que é que trabalhas?”, frase de apresentação tipicamente anglo saxónica, e que reduz o individuo à sua função laboral, como se o trabalho consumisse o homem e tudo o resto fosse consequência da tarefa. 

“Um cimbalino, faz favor, Sr João” 

publicado por Pedro Marques Lopes às 22:42
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