Domingo, 30 de Novembro de 2008

Aviso: contém alma. Manter longe das crianças.

O clima já não pode servir de desculpa para estes momentos. O cinzento do céu, o azul proibido e laminar de Lisboa, combinado com o frio que estimula a memória não são para esta crónica chamados. A verdade é que precisamos destas alturas – instantes em que regressamos ao nosso passado através de objectos, músicas, cartas, cheiros. O Proust a que temos direito.
 
Se o escrevo agora foi porque me aconteceu várias vezes, e como posso, generalizo a experiência. Há alguns dias regressei ao prefácio de mim, cortesia de velhas revistas, postais, fotos, discos e memorabilia vária. É um ritual que não tem hora certa, mas sei que se irá repetir. E reparem: não é por nostalgia. Não me interessa voltar a viver o que vivi. Mas tocar, ler, sentir o meu passado é uma arqueologia dos afectos que me sustém. Recompõe o meu mísero cosmos pessoal, como um deus a criar o universo. Ser o demiurgo de mim mesmo: eis a minha mais nobre e patética ambição.
 
É também, reconheço, um desporto perigoso. Se bem que o passado seja de facto um país estrangeiro onde é bom ser reconhecido quando lá se regressa, esquecemo-nos na comoção de voltar a ver o que fomos e com quem estivemos que há zonas onde não podemos voltar. Aquele poema. Aquela canção. Aquele rosto. Aquela felicidade, hoje estúpida e improvável.
 
Para mim é um  disco. É certo que tenho muitos que me sinalizam a vida, outros que ainda não conheço que farão o mesmo. Outros ainda que tomo em vez de ouvir, como remédios para a alma (que linda paráfrase para 'Sinatra). E depois há os discos proibidos, quebrar o vidro só em caso de emergência, contém excesso de alma e tristeza, manter longe das crianças.
 
Aconteceu. Resolvi arriscar a ouvir Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen - para mim o disco mais tristemente belo do universo. E não aguentei. Sei de cor aqueles passos (outra...) mas mal soaram os primeiros versos de Avalanche fui asfixiado pela beleza negra e senti que não ia aguentar nem mais um segundo. Estava demasiado feliz para o ouvir e ainda pouco triste para precisar dele. Cobarde, fugi.
 
Tenho a certeza de que todos têm os seus estimulantes de memória pessoal de que se aproximam com algum receio. O meu é este mas nem por um minuto o dispenso. Está ali, à minha frente, à espera do dia em que eu tenha o pudor suficiente para me apresentar à extrema beleza.
 
publicado por Nuno Miguel Guedes às 00:18
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