Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

De que me servem os dedos se não posso usar anéis?

Para que me serve o fígado se não posso beber? Ou os brônquios ou sei lá que parte do aparelho respiratório se não aguenta uns cigarritos? E qual é o imbecil dos meus órgãos que não está a cumprir a sua função e me engrossa o sangue? Será possível a um músculo qualquer que abraça, o meu coração (um toque de romantismos quando se fala deste órgão lamecha fica sempre bem), deixar de ser preguiçoso e trabalhar decentemente?

Há aqui uma espécie de greve de zelo que está a destruir o meu sistema produtivo, um complot de várias partes do meu corpo para destruir o meu bem estar. E, vamos lá a ver se nos entendemos: quem define os objectivos da minha existência sou eu. Isto da minha vida não é propriamente uma democracia em que o meu corpo é o parlamento que decide em cada situação o que é bom para mim. Eu dou a suprema honra ao meu corpo de lá habitar e depois: “Eh pá, desculpa lá, mas a partir de agora não há mais vodka para ninguém”, diz a minha espécie de Fenprof biliar. Mas o que é isto? Já chegamos à Madeira ou quê? Será que tenho de reunir uma espécie de concertação corporal para que sejam decididos os copos que posso beber, os pratos que posso comer, as drogas que posso consumir ou se posso fumar?

Nunca ninguém ouviu da minha (lá está) boca dizer que estou a negociar com o meu parceiro, ou sócio, intestino grosso uma evacuação ou que determinada membrana deve assumir certo perfil. Nada disso, esses órgãos são meus e eu não tenho de lhes dar confiança.

Esta mania das negociações é só uma maneira de disfarçar a enorme incompetência que grassa no meu corpo. É bom que estes pedaços de carne, de certeza com um aspecto nojento, percebam qual o papel deles: ajudar à minha alegria e bem-estar. Porque diabo os cidadãos que gostam de ginástica e comida macrobiótica são bem tratados por esses Mários Nogueiras e eu, que as detesto, sou humilhado e ofendido?

E que dizer dos comentários irritantes desses apreciadores de soja liquefeita quando me dizem que vou ter mais saúde e sentir-me melhor se trocar uns percebes e um branco seco por um sumo de cenoura depois de uma hora de body-pump?

Quer dizer, anda um indivíduo a ler Platão, a ver Visconti, a ouvir o Toy para depois um qualquer pâncreas, que salvo melhor informação tem a alma de um gambuzino, me dizer que o body-pump é melhor que um branco seco? É isso que estes tontos querem dizer?

Vamos é ganhar juizinho e toca a trabalhar que aqui o rapaz  tem que fazer.

publicado por Pedro Marques Lopes às 10:23
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