Domingo, 25 de Maio de 2008

Para morrer é já por ali

 

 
Como se já não tivéssemos problemas suficientes, ainda temos que suportar durante toda a nossa vida essa entidade vaga mas omnipresente a que se convencionou chamar «sabedoria popular». É um conceito difícil de entender ou justificar, porque começa por ter que definir o que é sabedoria e o que é popular. Mas hoje é fim-de-semana e nem sequer quero ir por aí. Digamos que bastará olhar para a forma cristalizada dessa sabedoria - os provérbios – para perceber que dali não vem nada de bom nem sequer fascinante. Como é que uma pessoa pode aderir sem medo ao sábio truísmo de que «grão a grão enche a galinha o papo»? Ou «sol na eira, chuva no nabal»? Enfim, digamos que o povo não é exactamente um Oscar Wilde.
 
Mas que la hay, la hay. Escrevo do meu refúgio situado algures no velho oeste lusitano, onde Portugal ainda não é PortugALL. É um lugar rural, perto da costa e no meio de outras tantas aldeias muito semelhantes. Tenho muito prazer em deambular de terra em terra, ensinando aos meus filhos o que posso ensinar; mas hoje reparei que o povo e a sua sabedoria vingaram-se. De uma forma quase opressiva, todas estas aldeias fazem questão em lembrar a quem passa de quão efémera é a nossa passagem neste mundo, do pouco que valem as honrarias terrenas e as vaidades seculares. Perguntais como: imagens religiosas à beira da estrada, graffittis filosóficos? Não. Os romanos tinham a célebre inscrição Feriunt omnes, ultima necat (« Todas ferem, a última mata») gravada nos seus relógios de sol para lembrar que minuto a minuto o fim se aproxima. Nestas aldeias existem setas de direcção a dizer «cemitério».
 
Reparem: não é uma ou duas – são muitas e estão por todo o lado. Se tiver um acidente grave por estas bandas pode ter dificuldades em saber a direcção do posto médico mais próximo, mas pode estar descansado que para o cemitério é já por ali.
Ao principio um tipo até agradece, elogia o respeito pelos mortos que estas gentes têm. Mas após passar pela 24ª placa a indicar o caminho correcto para a última morada um gajo chateia-se. A última coisa de que quero ser lembrado depois de um opíparo almoço regado com um soberbo Quinta das Cerejeiras é da minha condição de mortal. Mas não. Sai-se do restaurante e pimba!, «cemitério». Mentes mais perversas (ou contemplativas, ainda não sei) chegaram a fazer esta espantosa sobreposição de placas: «Jardim de infância»/«Lar 3ª idade»/ «Cemitério». Mas quem é que vive aqui, meu Deus?
 
A verdade é que começo a perceber que habito um país de filósofos, uma reserva existencialista primitiva e genuína, que escapou a St. Germain- Des- Prés. Mas mais uma vez nada disso serve a quem prefere acompanhar as caracoletas assadas com uma imperial em vez do sentimento trágico da vida.   
 
 
 
publicado por Nuno Miguel Guedes às 01:28
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