Como se já não tivéssemos problemas suficientes, ainda temos que suportar durante toda a nossa vida essa entidade vaga mas omnipresente a que se convencionou chamar «sabedoria popular». É um conceito difícil de entender ou justificar, porque começa por ter que definir o que é sabedoria e o que é popular. Mas hoje é fim-de-semana e nem sequer quero ir por aí. Digamos que bastará olhar para a forma cristalizada dessa sabedoria - os provérbios – para perceber que dali não vem nada de bom nem sequer fascinante. Como é que uma pessoa pode aderir sem medo ao sábio truísmo de que «grão a grão enche a galinha o papo»? Ou «sol na eira, chuva no nabal»? Enfim, digamos que o povo não é exactamente um Oscar Wilde.
Mas que la hay, la hay. Escrevo do meu refúgio situado algures no velho oeste lusitano, onde Portugal ainda não é PortugALL. É um lugar rural, perto da costa e no meio de outras tantas aldeias muito semelhantes. Tenho muito prazer em deambular de terra em terra, ensinando aos meus filhos o que posso ensinar; mas hoje reparei que o povo e a sua sabedoria vingaram-se. De uma forma quase opressiva, todas estas aldeias fazem questão em lembrar a quem passa de quão efémera é a nossa passagem neste mundo, do pouco que valem as honrarias terrenas e as vaidades seculares. Perguntais como: imagens religiosas à beira da estrada, graffittis filosóficos? Não. Os romanos tinham a célebre inscrição Feriunt omnes, ultima necat (« Todas ferem, a última mata») gravada nos seus relógios de sol para lembrar que minuto a minuto o fim se aproxima. Nestas aldeias existem setas de direcção a dizer «cemitério».
Reparem: não é uma ou duas – são muitas e estão por todo o lado. Se tiver um acidente grave por estas bandas pode ter dificuldades em saber a direcção do posto médico mais próximo, mas pode estar descansado que para o cemitério é já por ali.
Ao principio um tipo até agradece, elogia o respeito pelos mortos que estas gentes têm. Mas após passar pela 24ª placa a indicar o caminho correcto para a última morada um gajo chateia-se. A última coisa de que quero ser lembrado depois de um opíparo almoço regado com um soberbo Quinta das Cerejeiras é da minha condição de mortal. Mas não. Sai-se do restaurante e pimba!, «cemitério». Mentes mais perversas (ou contemplativas, ainda não sei) chegaram a fazer esta espantosa sobreposição de placas: «Jardim de infância»/«Lar 3ª idade»/ «Cemitério». Mas quem é que vive aqui, meu Deus?
A verdade é que começo a perceber que habito um país de filósofos, uma reserva existencialista primitiva e genuína, que escapou a St. Germain- Des- Prés. Mas mais uma vez nada disso serve a quem prefere acompanhar as caracoletas assadas com uma imperial em vez do sentimento trágico da vida.
De
J.C. a 25 de Maio de 2008
talvez ... bem talvez antigamente essas setas tivessem uma inscrição do tipo " centro de saúde " ou mesmo " posto médico " e uma vez que "posto médico encerrado pelo governo " ocupa muito espaço ... talvez tenham optado por " cemitério ".
jmack
Bem, o que se pode dizer sobre essas horas que ferem até que a última mate é que "enquanto o pau vai e vem, folgam as costas".
Ora aí está uma sabedoria popular que não está mal vista, Funes. Ou na forma erudita, «Se do pó viemos e para o pó havemos de ir, façamos que isso seja uma injustiça».
De
miguel a 23 de Junho de 2008
O melhor da sinalética rodoviária ainda continua a ser o "outras direcções".
Seta à direita com "Torres Novas/Outras direcções"
Grande Abraço, Nuno! Estou aqui a a ler-te há horas.
Abraços, Miguel do Porto.
Grande Miguel! Saudades do "fim de semana alcoolico" portuense. Dá azeitonotícias!
Grande abraço,
N.
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