Se estamos aqui para nos conhecermos melhor, estimado leitor, importa que comunique esta minha tão implacável como essencial característica: a minha caixa de correio electrónico é onde os forwards vão quando morrem.
Exactamente: venham de onde vierem (pais, irmãos, filhos, amigos, credores, Gisele Bündchen ) e contenham seja o que for (anedotas, correntes, conselhos espirituais em .pps, cães abandonados, pedidos de órgãos para transplante) todos os mails em forward têm a sua sentença marcada: morte imediata sob a cruz do ‘delete’.
É uma praga, bastante pior do que o junk mail porque vem disfarçado de gente que conhecemos. E todos os que conhecemos podem albergar um perigoso forwardista, daqueles incontinentes informáticos que mal recebem um qualquer documento passam-no imediatamente a cerca de 350 pessoas que raramente estão interessadas. E um dos mistérios desta vida é este: quem é o primeiro forwardista? Quem começa esta epidemia imparável, que nos maça a qualquer hora e em qualquer lugar? A minha tese é que se trata de um individuo muito solitário, sem qualquer espécie de vida amorosa, que está escondido mais ou menos a seis quilómetros de Mondim de Basto. Mas admito estar enganado.
Todos já sentimos esse travo amargo de ser apenas mais um na imensa multidão da lista de endereços de um forwardista. E quando não estão ao computador ocupam-se a inventar mensagens de Natal e Ano Novo que depois enviam por sms durante a quadra. É uma espécie de versão tecnologicamente avançada da publicidade ao domicilio, sem ter a campainha da porta tocada quando estamos no banho.
E no entanto tudo seria tão mais simples se os forwardistas tivessem a decência de fazer uma só coisa: mentir. Uma mentira branca ou duas. Talvez começar por colocar todos os outros endereços no Bcc, para nos poupar à solidão entre a maralha; e depois usar o velho truque de direct marketing que é o emprego do vocativo no inicio de todas as mensagens. Cria a ilusão perfeita de que é só para nós. Por exemplo, assim
«Querido Nuno( ou Maria ou João ou etc, conforme o destinatário), lembrei-me de ti e resolvi contar (e a seguir vem a mensagem tipo)
AS MELHORES 584 ANEDOTAS SOBRE FLATULÊNCIA! (…)»
Estão a perceber? Não seria melhor e mais bem aceite um forward assim:
«Grande Guedes, cuméqueé? Tudo a andar? Olha, por falar nisso
VAMOS AJUDAR O PILOTO!
O Piloto precisa de dono com urgência! Em cachorro foi rejeitado pela mãe e atropelado 4 vezes por um camião de 16 rodados e (…)»
A sério. Não custa nada e pode fazer maravilhas pelas relações humanas. Pelo menos enquanto não for abatido pela cruz do delete. Pense nisso, leitor. E já agora, quando puder faça um forward desta crónica a todos os seus amigos.