Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

descansem em paz as meninas do karaoke

É um tempo que parece agora absurdamente distante. Um tempo anterior à incontinência televisiva dos concursos de talentos, quando o adolescente mais delirante não sonhava ser conhecido para lá do final da rua.

 

Nesse tempo de dois canais, anterior à fnac, à playstation e às boxes, às guerras de anúncios entre supermercados com pessoas pretensamente normais, à internet, aos telefones móveis e aos comments, a interactividade com os meios de comunicação resumia-se aos discos pedidos e o karaoke irrompeu como inimaginável vanguarda da tecnologia.

 

Nesse tempo, dizia – atenção que isto não é exactamente nostalgia – não havia grande escolha, mas, como sempre, enterrados no presente até ao pescoço, não éramos então capazes de o perceber.

 

É a recordação desses dias que volta com a notícia da morte de Whitney Houston, acidente há tanto à espera de acontecer (pelo menos desde que um tablóide revelou uma foto da casa de banho da cantora que me fez pensar que o tipo que vivia então comigo era, afinal, uma fada do lar).

 

Era o princípio dos anos 90, em que um só indivíduo conseguia dominar as listas de venda de discos durante mais de um ano e ainda acumular com recordes de bilheteira nos cinemas. Em que Fernando Pereira era o grande artista português e Kevin Costner o equivalente fin de siècle de George Clooney (eu avisei que isto não era um exercício nostálgico).

 

Nesses dias, parece-me agora, havia uma grandeza qualquer nos serões de karaoke. Deprimentes e épicos como só os serões de karaoke conseguem ser. Havia uma inconsciência de si que fazia com que todos fossem um pouco mais espontâneos, ridículos e comoventes. Ninguém tinha concorrido aos “Ídolos”. Ninguém tinha cinco mil amigos no facebook. Havia poucas lojas de marca. Uma pessoa avançava sem rede, com o pullover do avô e os ténis de imitação, as calças reviradas para cima e o cabelo à jogador da segunda B, e subia ao palco para cantar o “Blaze of Glory”. E isso era o auge. Isso era o momentum. Isso era o tudo ou nada.

 

Com sorte, passávamos com suficiente. Se não se tropeçasse no fio do micro nem distribuísse perdigotos pela primeira fila, se a jovem que queríamos conquistar não tivesse saído nesse preciso momento acompanhada dum jovem, já teria sido memorável.

 

Depois, porém, vinha sempre uma garota. Uma moça em que nunca tínhamos reparado, ar confiante, celebrada em antecipação pelas amigas, que chegava lá, entrava numa comunicação cósmica com que a Whitney e lá ia daquilo. “I Will Always Love You” ou “The Greatest Love Of All” ou qualquer coisa com “Love” e muito fôlego.

 

A sala ia abaixo,  Whitney Houston deixava o corpo da jovem que voltava para o seu lugar no anonimato e já ninguém se lembrava do nosso “Blaze of Glory”.

 

Agora, sabendo das notícias, só consigo recordar-me disto. Do pullover do avô. Dos dois canais. Das Whitneys do fim da rua.

 

Pergunto-me se lamentarão não ter havido, no tempo delas, tanto concurso de talento. Ou se, ilusão por ilusão, continuam a preferir os serões de karaoke, onde ninguém sonha saltar para o mundo de Sinatra, mas fazer precisamente o contrário. Trazer Sinatra para ali, entre minis e a província, canções do Tony Carreira e gente normal que compra nos supermercados promovidos por quem a tenta, sem sucesso, imitar.

publicado por Alexandre Borges às 01:28
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

andamos é a colocar demasiados likes na vida

Também eu me junto à trilogia das crónicas sobre o tempo, esse bem indefinido e homogéneo de cuja falta nos queixamos tanto. Esse tempo que tanto anda nas bocas do mundo que já se tornou habitual queixarmo-nos dele logo a seguir ao passou-bem. Até fica mal dizer que não, está tudo bem, andamos cheios de tempo. Isso é coisa de pessoas pouco ambiciosas, sem interesses e projetos, vida social ou seriedade. Habituámo-nos e queremos seguir os exemplos das personalidades que muito aparecem e muito fazem, conseguem ser médicos/advogados/engenheiros de sucesso, comentadores, professores universitários, consultores e presidentes de assembleias-gerais de clubes e de associações profissionais e ainda qualquer coisa numa administração. Estão a par de tudo, vão a congressos e jogos de futebol, leem e viajam muito, e de vez em quando lá lhes sai mais um livro da manga. E nós? Não temos tempo para isso.

 

Andamos a ser enganados, é o que é. Tal como as adolescentes que acreditam nas modelos que dizem sempre, mas sempre, que não têm quaisquer preocupações com a dieta pessoal.

 

Mas não são apenas os especialistas do tudo que nos trocam as voltas. Somos voluntariamente enganados, e com prazer. É o ruído que nos lixa, mas nós deixamos. Queremos perder a nossa capacidade de concentração, porque há chats a exigir atenção imediata, mails que necessitam de ser constantemente consultados não se vá perder algo, mensagens que não aceitam respostas atrasadas. Quem disse que as novas tecnologias nos iriam permitir poupar tempo? É urgente estar atualizado – este mesmo texto foi interrompido vezes sem conta para acompanhar o resultado do Arsenal e, já que por ali andava, ler outros artigos do Guardian. Não temos coragem de perder um acontecimento, parar é morrer e tal. Afogueamo-nos na tal teoria que exige que nos mantenhamos ativos e produtivos, a viver cada dia como se fosse o último (mas ninguém aceita que eu queira viver o meu último dia sentado a ler o jornal).

 

Porque a verdade é que nós temos tempo… necessitamos é de parar para conversar com ele. Desligar com jeitinho a correria determinada rumo a algo que se desconhece. Em vez de andarmos mergulhados nos acontecimentos em segunda mão devíamos tirar um tempinho para arrumar o quarto das emoções. Ou para ficar à janela a observar a neve a cair.

 

(continuo a esforçar-me por escrever segundo o novo acordo ortográphico)

publicado por Ricardo Correia às 18:35
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Vá lá, Passos

Vamos por partes. Primeiro o "piegas". Há muito que não se assistia a uma declaração tão utópica na vida pública portuguesa, possivelmente mais utópica do que os discursos de Vasco Gonçalves nos idos anos 70. Pedir aos portugueses para não serem piegas é como pedir à Senhora Dona Merkel para ser uma sentimental. À Cátia da Casa dos Segredos para ser uma literata. Ao Cristiano Ronaldo para ser humilde. Não cola. Não dá. É delírio. O óbvio, sim, o óbvio: a pieguice é aquilo que caracteriza uma boa parte da Nação, mesmo que estejamos cada vez mais diversos e variados. Exageramos no sentimento, somos fiteiros por natureza, choramos por ninharias, berramos emocionadamente por coisas sem importância. Demoramos horas a despedirmo-nos de quem vamos ver no dia a seguir. Sabemos todos disso.

 

Depois a exigência. Foi pedido aos portugueses para serem mais exigentes. Aí, senhoras e senhores, meninos e meninas, jogadores da bola e leitores de Georg Trakl, penso que há margem de manobra. Sim,  também eu quero a minha - permitam-me o palavrão - comunidade mais exigente consigo. Mais solidária. Mais compassiva. Mais atenta aos velhos abandonados. Mais capaz de ajudar quem não se consegue ajudar. De manga mais arregaçada para contribuir. Mais disciplinada (vá, um nadinha).  Mais exigente consigo para depois poder ser mais exigente com os outros, inclusive o Governo da Nação, que, sabemo-lo, tem falhado nalgumas exigências importantes (em relação a nomeações, ordenados e deslumbres com capitais e mercados). Sou dos que acham que as pessoas, sobretudo aquelas que atravessam nebulosas e dificuldades, precisam de uma palavra, sim. Mas não de uma palavra de professora primária com a régua na mão a falar aos meninos mal comportados. Em vez disso, precisamos de uma primeira palavra piegas do primeiro ministro, até aqui demasiado metálico na postura. Que peça exigência e esforços e uma nova atitude mas demonstre ao mesmo tempo proximidade e empatia com quem habita a vida de todos os dias e não tem espaço na lancheira para ideologias. Qualquer gesto de aproximação por parte de Passos Coelho será um gesto piegas, mundano, convivial, nosso. Vá lá, Passos, o país precisa do teu lado Massamá.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 13:47
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Ora pois, bigodes femininos e outro lugares comuns

Não foi a primeira vez nem será a última que ser português no Brasil provoca reacções como “Ora pois, pá”, “Então e a terrinha?” ou apenas as piadas de sempre sobre as limitações do raciocínio lusitano. Sou paciente e compreensivo. Mas ontem, numa mesa da Academia da Cachaça, um publicitário brasileiro começou a conversa comigo dizendo: “Estive em Lisboa, não gostei muito.” Não sendo representante do Turismo de Portugal, tentei defender a minha cidade sabendo, como sei há muito, que todos temos as nossas razões e que cada um come do que gosta. Seguiu-se mais uma queixa: “Trabalhei com um português, ele era um pouco…”, e fez o gesto de meter as mãos junto da cabeça, perto do olhos (as palas dos burros?), e desenhou um caminho a direito, como quem diz, “incapaz de sair fora de um pensamento linear.” Também falou da falta de sentido de humor dos portugueses. Considerei a possibilidade de, em seguida, ouvir que a minha namorada tinha bigode e o meu pai era padeiro.

 

Depois de viver em vários países – melhor dizer cidades – percebi que há uma permanente comparação entre o lugar de onde vimos e o lugar onde estamos, uma espécie de confronto, de conflito, que também experimentamos, de maneira mais suave, num fim-de-semana prolongado em alguma capital estrangeira: “Isto é o Chiado cá do sítio”, “Estes gajos conduzem muito pior que nós”, “Em Portugal não há disto.” Talvez seja insegurança, talvez seja falta de pé, mas por mais viajado que seja um ser humano, desconfio que, em algum momento, vai ceder ao impulso das comparações, das generalizações e dos lugares comuns.

 

Eu já o fiz, claro, e ontem, diante daquele publicitário, o meu esforço para não ser essa pessoa foi inconsequente. Tentei perceber quão profundo era o conhecimento do meu interlocutor sobre Lisboa – nitidamente inferior ao meu conhecimento do Rio de Janeiro. Talvez essa bazófia tenha feito de mim pior pessoa e um companheiro de conversa menos interessante. Mas eu, tantas vezes crítico do meu país – dentro e fora de fronteiras – senti o meu pundonor lusitano manchado. Talvez isto me sirva de atenuante: o meu despeito não era tanto o espumar da boca de um skin head, o nacionalismo primário de achar que somos bons porque sim, era antes um desejo de verdade e uma hipótese de destruir todas as ideias feitas do meu interlocutor. Que se faça justiça.   

 

Disse-lhe que os portugueses podiam ser mais fechados que os brasileiros, menos abertos à mudança e à novidade, mas que não podiam ser acusados de falta de criatividade ou sentido de humor. Como pode ser linear e pouco criativo um povo que inventou instrumentos e técnicas de navegação marítima, que produziu poetas com múltiplas personalidades e que aplica amiúde a palavra “desenrascar”, vocábulo original e desconhecido em terras de Vera Cruz, ainda que aqui se tenha herdado um certo jeitinho para o desenrascanço.

 

Sobre o humor português, disse-lhe, mais altivo do que gostaria: “Então e Eça de Queirós?”

 

Ele insistiu, contando uma história que julgo ter ouvido antes na boca de outro brasileiro – por vezes torna-se difícil perceber o que é um episódio real e o que é uma piada que entrou no leque de histórias tidas como verdadeiras. Disse-me que um amigo brasileiro perguntara num restaurante, numa aldeia de Portugal, se fechavam ao domingo. O dono disse que não. Claro que o brasileiro foi lá no domingo e o restaurante estava fechado. Voltou dias mais tarde para descodificar o mal-entendido e perguntou: “O senhor disse que não fechava.”

E o português, supostamente de palas nos olhos, pisando a linha a direito, incapaz de pôr o cérebro a carburar fora da caixa, respondeu:

“Se ao domingo nem sequer abrimos como é que vamos fechar?”

 

O que eu não disse na altura – porque só me lembrei agora –, é que o episódio só favorece o português. A sua resposta não foi resultado de um pensamento rigidamente linear. Era mais: “Os brasucas andam a fazer piadas com a maneira como interpretamos as coisas? Então eu já trato disso." E quando o brasileiro lhe perguntou se fechavam ao domingo, ele pensou, “É já este. Vens cá bater com o lombo no domingo que até arrotas a presunto. E quando cá chegares ainda te presenteio como um belo e irrefutável exercício de lógica: Se ao domingo nem sequer abrimos como é que vamos fechar?”

 

The joke is on you, duderino.

 

O que eu, de facto, disse ontem à noite: que era injusto caracterizar todo um povo com base numa história como aquelas. Se assim fosse, os brasileiros seriam como a garçonete que bloqueou a moleirinha quando ouviu as palavras “vodka tónica”.

 

“Oi?”

 

“Vodka e água tônica” - mudei a fonética do “o” para sotaque brasuca, não fosse esse o motivo da interrogação.”

 

“Tem não.”

 

“Mas eu estou a ver ali uma garrafa no bar. Vodka tem” – o cardápio do restaurante oferecia uma longa lista de bebidas com vodka. “Não tem tônica, é isso?”

 

“Tem tônica, sim.”

 

Depois de mais alguns momentos de incompreensão mútua, a empregada foi lá dentro e regressou com um copo com gelo, um copo com vodka, um copo vazio e uma lata de água tónica.

 

Na semana seguinte aconteceu exactamente a mesma coisa, embora com outra garçonete.

 

É fácil generalizar a partir de episódios como este. E da mesma maneira que hoje recuso as generalizações sobre portugueses no Rio, muitas vezes em Lisboa iniciei discussões após ouvir as habituais queixas sobre os brasileiros: são todos bandidos, putas, vão-te enganar, não são teus amigos verdadeiros, é tudo superficial.”

 

Sim, é verdade que tento ser o cavaleiro da justiça entre povos, mas também é verdade que não sou ainda o homem, livre do jugo do orgulho, que gostaria de ser.

 

Reconheço agora que a história da vodka tónica foi uma pequena vingança contra o meu interlocutor e tudo o que desgosto no Rio. Confesso agora que, por mais que tente relativizar as diferenças entre países e culturas, por mais que recuse as generalizações, também eu sou vítima desse campeonato, mais ainda quando alguém começa a conversa comigo (acabáramos de ser apresentados), dizendo que os portugueses não eram a faca mais afiada do faqueiro – mais ou menos como receber alguém em casa pela primeira vez e dizer de entrada: a sua mãe é lerda da cuca e um bocado perra de ideias.

 

Tudo piorou quando ele disse: “Você pode passar trinta anos em Lisboa e nunca ser lisboeta, mas você mergulha nas águas de Ipanema e passa a ser carioca.”

 

Fosse isto uma série cómica e teria soado a buzina da resposta errada. Se há cidade que converte estrangeiros em seus, é Lisboa. E ainda que o jeito de ser carioca seja muito apelativo e fácil de aceitar, também tem um lado obscuro de desleixo, laxismo, uma desatenção pelo espaço urbano e pelo outro, um lado que não seduz de imediato todos os gringos que caem nas águas de Ipanema.  

 

Ontem, aconteceu comigo o que aconteceu, há dez anos, em Nova Iorque. Nessa noite, tinha um interlocutor americano crítico feroz de Portugal – muito mais feroz que o publicitário brasileiro. Durante a discussão, apontei o dedo a algumas coisas que me desagradavam nos Estados Unidos – estávamos na era Bush filho. O senhor perdeu as estribeiras. Como podia um estrangeiro criticar a nação que o recebera. Escusado será alongarmo-nos aqui sobre questões de liberdade de expressão num país que tem a liberdade de expressão entre os fundamentos da sua nacionalidade, que ainda faz bandeira disso, e que foi levantado do chão por emigrantes.

 

O que me interessou nessa noite em Nova Iorque foi erguer, por fim, a guarda e contra atacar, seguro que a minha capacidade crítica e de intervenção não tem nacionalidade nem poderá ter fronteiras.

 

Quando chegamos a um país estrangeiro, há um período de latência, uma certa vergonha, a incapacidade de falarmos de igual para igual. Não sabemos como funcionam as coisas, não temos a informação suficiente, mais ou menos como quando estamos diante de um médico ou de um técnico informático. Mas chega um momento – aquela noite em Nova Iorque, a noite de ontem no Rio – em que saímos das cordas, qual Muhammad Ali no Zaire, e percebemos que temos o direito e a obrigação de dizer “Alto e pára o baile”.

 

Sempre que me mudei para outra cidade foi por amor (e tesão) por essa mesma cidade. Nunca isso foi impedimento para ver o que estava errado e o que gostaria que fosse diferente. Nesse combate já caí, como ontem, na disputa mesquinha, nas comparações desnecessárias, nos ataques fundamentados em clichés e generalizações.

 

Mas ontem trataram Lisboa com desdém, e ainda que aceite tranquilamente que nem todos se enamorem da cidade, é melhor que mostrem um pouco de respeito. É que eu posso ser parte menino da Linha, parte nova-iorquino, parte madrileno, parte carioca ou mouro ou até de Ayamonte. Mas a parte no meio – o dentro mais dentro – sei-o agora, como nunca soube antes, é de Lisboa.

 

A guarda está outra vez em cima. Come out and let’s dance ou, por outras palavras, vai uma cabeça à Caixodré?

 

 

publicado por Hugo Gonçalves às 13:22
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

Quoque tu, Pedro?

Um homem é sensível. Temos os nossos momentos de inabalável resistência e vigor. Mas, há alturas em que a melancolia nos toca (de forma absolutamente legal) e vacilamos num sentimentalismo com características de andropausa. Isto é coisa para todas as idades. Aparece como uma espécie de intervalos lúcidos dentro de uma vida de solidez emocional. Dos oito, por aí adiante.

 

Porém, contudo e todavia, existe por aí uma tendência generalizada para esconder este lado fofinho da humanidade; esta inevitável circunstância de se estar vivo, que é sentir as merdas, levar a peito e deixar-se levar pelos misteriosos desígnios do coração. A pessoa que sente vê-se castrada pelo ostracismo dos que sentem mas que não o dão a entender.

 

Só por causa disso, vou agora postar uma canção de um senhor que sentia tanto, que acabou por trocar a heroína por um hara-kiri perfeitamente executado em casa da sua senhora. Atentai:

 

 

Está, assim, na hora do cinismo ir embora. Precisamos de mais lamechice, para que se restaure a independência das emoções. Calma, meus maricas, também não é preciso tornarmo-nos todos Emo's, de repente. Basta, apenas, deixarmos as pessoas sentir como bem lhes apetecer e largarmos a velha máxima de que os homens não choram numa qualquer repartição de finanças, como naquele poema do Manel da Fonseca (um comunista do pior).

 

E logo quando precisávamos de reforçar este movimento nacional pela lamechice, vem o Sr. Primeiro-Ministro da República Portuguesa acusar o seu pobre povo de pieguice. Não que eu goste de falar de actualidade, mas estas coisas revoltam-me. Acusar uma pessoa de explorar e expressar as suas emoções é como querer obrigar-nos a fazer hara-kiri. Ora, eu só faço hara-kiri voluntariamente, como aquele cavalheiro ali de cima.

 

Exijo uma revolução pela lamechice. É urgente.

publicado por jorge c. às 00:33
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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Vai tu

Não há escriba que meia volta não escreva sobre a falta de assunto. Quando isso acontece, o bom do cidadão desfaz-se em desculpas e, num registo mais ou menos irónico, mais ou menos auto-complacente, faz desfilar uns quantos assuntos sobre os quais poderia discorrer mas resolve deixá-los para outra altura. A crise da sociedade ocidental, o número de ogivas nucleares do Paquistão, o euro, a reforma do sistema judicial, o número de desempregados, temas que podem mudar radicalmente o nosso futuro. Possíveis importantes reflexões, digo eu.

Se o escriba não for um cronista, o problema não é grave. Ele há dias. Um javali ao lume, uma febre irritante, uma tentativa para deixar de fumar, aquela falta de paciência mortal que nos faz estar um dia inteiro a olhar para uma mosca. Ora valha-me Deus, os cortadores de carnes verdes também têm os seus problemas, porque diabo um tipo que escreve para lhe poder comprar os bifes não pode ter os seus achaques?

Num cronista, a falta de assunto é coisa para muito maior preocupação. O cronista vive de roubar histórias à porteira, ao empregado do café, ao taxista. Depende da sua vontade de estar acordado, de olhar para um anúncio num jornal e ver uma história, de passar por uma rua e de ver que há um grupo excursionista que se chama “Vai tu”. O cronista quando não tem uma história está doente. Não daquelas doenças de médico e symposium, tem uma doença profissional que só ele pode curar. O cronista deixou-se levar pelos assuntos aparentemente muitíssimo importantes e esqueceu-se da importância do quotidiano para o seu mister. Pior, o cronista está esquecido dum segredo que só a ele foi revelado: não há nada mais importante no mundo que o quotidiano.

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:59
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Um rapaz dos jornais

(Esta semana passo a minha vez de escrever ao texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias e que é uma homenagem maior à arte de escrever nos jornais - notícias, reportagens e isto que andamos para aqui a respirar em modo sinusítico, crónicas).

 

 

 

 

"Morreu frente a um quiosque...

 

Esta semana, o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco faria 75 anos e foi homenageado. Ele morreu em 1995 - à montra ou dentro de uma livraria, a lenda varia. O crítico José Mário Silva diz que o escritor galego Torrente Ballester lhe dedicou frase épica: 'Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.' Trabalhei no semanário O Jornal, um dos jornais de Assis, mas não fomos amigos. Amigo foi José Cardoso Pires que, convidado a testemunhar num aniversário da sua morte, recusou: 'Não falo. Tenho muito mau perder.' Assis tinha olhos que sorriam, rasgados, na redação conheci camaradas fascinados pelo seu charme e sei que a amargura pela perda do amigo poderia ser dita por muitos (embora frase tão exata só de Cardoso Pires). Esta semana houve biografia (Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, de Nuno Costa Santos), documentário e muitos textos em jornais. Fiquei com a sensação de que o jornalista levou uma abada do poeta (não peço perdão pelo futebolês, Assis também foi cronista desportivo) - versos evocam-se melhor. E por isso estou aqui a protestar. A notícia certa seria: 'Morreu frente a um quiosque...' Um dia, com ele vivo, Miguel Esteves Cardoso escreveu: 'Obrigado a Assis Pacheco pelo favor de nos escrever.' MEC falava do jornalista, fazedor de textos efémeros e em papel para o lixo. Agora, lidos os jornais e revistas da semana, e com ele morto, meço o favor que perdemos todos.

 
Ferreira Fernandes, jornalista, 5.02.2012".
 
publicado por Nuno Costa Santos às 23:00
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

A hard day's night

A cidade é - nós somos - o tempo que temos para aproveitar. Quando esse tempo é curto ficamos presos, tensos, desorientados e asfixiados. Seria necessário fazer uma greve de nós próprios para não descurar dos amigos, dos lugares, do Domingo, dos livros e, até, das notícias. Até para fazer a revolução como deve ser não há tempo. Gostava imenso de me indignar, mas a minha agenda para esta semana está preenchidíssima.

 

Os motivos da falta de tempo não interessam. O mais importante é aquilo que deixamos de fazer. De repente, não queremos saber e trornamo-nos ingratos, reactivos e abandonamos a vida e tudo o que nela nos faz respirar. É aí que nasce o cinismo e a resignação.

 

Até para esta crónica, como se torna evidente, há falta de tempo. O tema é banal e as frases não fluem. A inexistência de ideias começa a debater-se com o pouco texto produzido e mesmo esta frase demora mais do que o habitual a ser construída. Lá fora, parece estar tudo igual. Não há um único movimento inspirador.

 

Há uns dias, fiz uma viagem, não muito longa. Já não conduzia há algum tempo. Não me recordo de ter pensado em alguma coisa concreta. Porra, isto parece uma composição. Mas, adiante. Encontrei outros lugares no meio das serras e de um grandioso céu. Se calhar basta isso.

 

Talvez, hoje, quando chegar a casa e colocar um disco na aparelhagem, talvez assim que inventar o amor e as saudades, consiga entrar num outro lugar e ganhar um pouco mais de tempo para respirar. Logo se verá.

 

 

P.S.: Só agora reparei na útlima crónica do Alexandre. A falta de tempo é uma coisa tão triste quanto isto.

publicado por jorge c. às 10:35
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Casa

 

“Vê se vês terras de Espanha

areias de Portugal

olhar ceguinho de choro.”

 

 

para  Gonçalo Salgado

 

 

Não lhe chamemos visão que, de místico, isto não tem nada. Digamos antes que, na ribanceira do sono, me apareceu a memória de algum lugar onde já estive sem saber ao certo qual. Era uma rua de pedra, uma rua cor de terra como só há em Espanha, com luzes acesas nas casas, nos bares, nos corações da gente callejera que oferece cigarros e bebe e conversa até altas horas. Um desses lugares onde parávamos nas viagens pelo sul da Europa, comendo franguinhos assados numa pensão para poder beber cervejas em discotecas da moda. Por exemplo, o fiasco de um final de ano em Cáceres, com baratas a subir as paredes de um bar – Faunos – que rapidamente se revelou um prostíbulo da subcave do bas-fond, o que levou um dos nossos amigos a disparar porta fora receando as investidas de uma marroquina que, até hoje, suspeitamos chamar-se Muhammad ou mesmo José Luís. E aquela estação de comboios onde se comiam churros a desoras, o portuga da malandragem que nos serviu de guia e que, soube-o anos mais tarde, montou um negócio de sites porno. E a erva de produção caseira, transportada numa lata de Herbalife, quando eu ainda não fumava – soubesse o que sei hoje e esses dias em Cáceres teriam sido muito mais doces, mais de fumo e risota imparável.

 

Esta semana falámos, por email, e quando tu devias ir deitar os teus filhos e eu devia estar a cozinhar os bifes de frango, estávamos antes a trocar emails disparatados exactamente como quem troca piadinhas na aula de Biologia da Dina – numa dessas aulas, com a barriga em desarranjo, fui duas vezes à casa de banho para, no regresso, ouvir o coro: “Cagão, cagão”. Tenho a certeza que também gritaste. Eu teria feito o mesmo.

 

Nesses emails falámos de trabalho mas logo te puseste a dizer que tinhas um treinador igual para cada um dos nossos amigos – e até foste buscar o Marinho Peres ao fundo do baú.

 

O que ter quero dizer é isto: esqueci-me, durante muitos anos, o que era uma casa. Sabes que andei por aí, de cidade em cidade, de pessoa em pessoa, dizendo que a minha vida cabia em duas malas de viagem, um slogan de t-shirt que achava tão dogmático como acessório para conversas de engate. Talvez seja da idade, talvez seja o segundo acto disto que andamos para aqui a fazer, talvez tenha sido o inferno de alugar um apartamento no Rio, quatro meses e cinco casas depois, um nomadismo que me traumatizou, fui enganado, enrolado, fiquei especado, perdi, preyboy.

 

Mas exactamente no dia do teu aniversário, entro por fim na casa onde viverei, espero, por uma longa temporada. É um dia importante para mim, o céu amanheceu tão azul que uma nuvem se dissolveria caso arriscasse aparecer no horizonte. Uma daquelas manhãs em que sabemos que tudo rolará impecavelmente, manhãs com o mesmo aroma das manhãs de praia quando éramos crianças e a maré baixa era campo de futebol, cenário de guerra de areia, território de piscinas. Numa manhã destas sabe bem ter uma casa, ser parte de um bairro, falar com o vizinho quando vamos ao pão, como aconteceu há umas horas, assim que pus o pé na rua e me lembrei que era o teu aniversário.

 

Nessa viagem matinal pensei em ti e soube, já o sei há algum tempo, que ter uma casa me fazia falta. E não falo apenas do apartamento na Gávea que, espero, visitarás e onde repetiremos as mesmas histórias de sempre – os estaladões do professor de francês Sales Gomes, o capotanço de tequila  algures no Algarve, as desventuras do Guilherme Pancadas, do Fernando Jabum, do senhor Herculano que tomava conta dos balneários e transpirava bagaço.

 

Não falo apenas do meu apartamento. Falo de todas essas coisas, das conversas sobre o Marinho Peres às cenas de pancadaria com forcados de Santarém, mas também aquilo que, ao longo dos anos, por orgulho macho ou apenas porque sim, não foi preciso dizer.

 

É nas tais ruas de Espanha que cruzámos vezes sem conta de copo na mão e a esperança de algo extraordinário, no pelado do Vale de Santa Rita onde as tuas qualidades de central incluíam golos em cantos e pontapés de canela, nos reencontros em que a parvoíce é o veículo de comunicação mais usado, nas recordações do senhor António da mercearia, que conduzia de cabeça à banda, do senhor Henrique, que nos treinou com a famosa táctica do fole, do setôr Bagaço, que mandou a turma inteira para a rua, é em tudo isso que também se encontra agora alicerçada a minha casa.

 

Talvez tenha sido necessário ter viajado milhares de quilómetros, durante anos, para perceber a importância de um porto de abrigo. Tu já o sabias muito antes de mim.

 

Parabéns, com cadeiras pelo ar e gajos pendurados nos candeeiros.

publicado por Hugo Gonçalves às 12:46
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