Sábado, 7 de Janeiro de 2012

uma simples história de início de ano

Mesmo os mais cínicos não terão conseguido suprimir uma ou outra resolução. Pode mesmo ter sido uma muito pequena. Dar o lugar aos idosos no autocarro, por exemplo. Ou deixar de roer as unhas. Não conseguimos escapar às últimas semanas do ano, que nos pedem análises aprofundadas, e ao novo ano que se anuncia fresco e sorridente a todas as oportunidades de recomeçar a vida. Os ginásios aproveitam, as montras das livrarias enchem-se de guias de autoajuda. Consiga finalmente o emprego da sua vida. Deixe de fumar sem engordar. Perca peso sem deixar de fumar. Mude a sua vida em sete dias (o que faremos durante os restantes?).

 

Queremos – a maioria de nós – ser boas pessoas. Eu quero e gosto de aproveitar este período de digestão natalícia para umas quantas reflexões, inconclusivas se calhar. Um dos primeiros passeios para clarificar ideias colocou-me desde logo à prova: a tarde já tinha escurecido, na Londres invernal a tarde está quase sempre escura, e chovia muito, estupidamente muito, quando a chuva londrina costuma ser simpática e discreta. Junto à paragem na minha rua, um miúdo estava deitado no chão, ao lado uma rapariga com olhar perdido. Tal como as pessoas à minha frente, olhei, hesitei, mas continuei.

 

Quantas vezes vimos cenas semelhantes e prosseguimos? Muitas vezes por estarmos absortos nos nossos problemas ou atrasados para um encontro, uma reunião. Ou por não sabermos como ajudar. Considerando a forte ligação de alguma cultura inglesa às bebidas alcoólicas, habituamo-nos a ver cenas parecidas no final de noites de festa.

 

Se calhar por isso prossegui caminho. Mas acabei por voltar. Porque tinha tempo. Ou porque era o início do ano, não sei. Deitado no chão molhado, o miúdo repetia que queria ficar ali a dormir. A namorada tinha dificuldades em falar e em dizer para onde queriam ir. Ele balbuciava que nunca mais iria beber na vida - também ele tinha feito as suas resoluções. Estavam os dois com medo de voltar para casa. Numa imagem, toda a vulnerabilidade de dois miúdos de 14 anos, há umas horas tão durões nos seus fatos de treino. Com a ajuda de um vizinho e muita paciência, optamos por levá-los a casa do pai dele, parece que seria o único capaz de entender a situação. Encharcados, iniciámos a nossa marcha insegura até ao bairro vizinho de Islington.

 

Acho que a história tem um final feliz, depois de percorrermos os corredores infindáveis de um bairro social e entregarmos o rapaz ao pai e ajudarmos a rapariga a encontrar a sua paragem de autocarro. Com mais engenho até se poderia converter numa história de Natal. Assim, apresenta-se apenas como uma simples história de início de ano, numa época em que estes gestos conseguem adquirir mais importância.

publicado por Ricardo Correia às 12:38
link do post | comentar

Momentos de céu

 

Vi apaixonadamente o filme de Miguel Gonçalves Mendes, "José e Pilar". Para mim já ganhou o óscar. Não precisa de lá ir para ganhar o óscar. Já ganhou: pela beleza, pela profundidade, por dizer e mostrar aquilo que só os melhores atributos do amor, como a entrega e a paciência, podem dar. Escrevi há meses uma nota na coluna do Provedor da "Ler" sobre o assunto - e talvez tenha sido isso que tenha justificado o convite para fazer esta apresentação. Nessa nota elogiei não só a homenagem maior ao sentimento amoroso que é aí feita mas também alguns momentos de transcendência como aquele em que Saramago é filmado a ter a ideia para escrever "Caim". Ficou por dizer que este é também um filme sobre a possibilidade de um homem que esteve à beira da morte se restabelecer, se reerguer. Depois de surgir de cadeiras de rodas, quase sem falar, aparece numa conferência com a voz clara a fazer uma das declarações amorosas mais bonitas que já alguma vez ouvi e  vi. Que inclui, claro, gratidão, esse sentimento cada vez mais remoto e que convém ser recuperado como quem recupera o melhor disto tudo.

 

Saramago voltou à vida no belo filme de Miguel Gonçalves Mendes. Um homem volta à vida depois de ter estado a beirar a morte. Permitam-me trazer um pouco do meu sangue e citar a frase de uma personagem e de um livrinho que para aí andam: "O problema não é saber se há vida depois da morte. É saber se há vida antes". Encontro nestas duas personalidades muito diferentes que revelam aqui a sua visão do mundo e da existência uma consagração rara dessa ideia. Ela mais enérgica, ele mais reservado e lacónico. Unem-se por um património comum, o da valorização da vida, do milagre da vida, como dizia Saramago, um homem que se dizia ateu.

 

Este livro, tal como o filme, é um objecto de instantes. Relembro vários, aqueles em que se celebra a intensidade dos pequenos gestos: o instante em que Pilar diz que é preciso entrarmos nas cozinhas para não nos distanciarmos da realidade, para podermos levar connosco o cheiro do tomilho, no fundo o cheiro do amor; o instante em que Pilar fala do trabalho invisível do tradutor e lembra o elogio (invejoso, de uma boa inveja) do escritor Carlos Fuentes pelo facto de Saramago viver com alguém que traduzia em simultâneo aquilo que ia escrevendo, no andar de baixo da casa; o instante em que Saramago aparece em cena a servir cafés, vindo da cozinha (sim, não é só Saramago a ter a sorte de viver com quem o traduz, também Pilar tem a sorte de viver com quem lhe serve o cafezinho); o instante em que Saramago vai ver Pilar a Sevilha e encontra-a na televisão de um café, a apresentar um programa; o momento que fala da existência não de uma relação a dois mas de três: os dois que participam e a união que constituem; o instante em que Saramago revela que o momento mais importante da sua biografia foi ter conhecido a mulher e aquele em que diz que o amor não se sabe o que é; a forma como Pilar fala da vida e das suas possibilidades: "Viver, cuidar da terra, aprender, distinguir Beethoven de Bach, ler, estudar, ajudar os que necessitam, beber vinho".

 

"José e Pilar", o livro, é sobre esse terceiro que é a relação que criaram José e Pilar mas também é um livro sobre José e Pilar em separado, sobre os seres humanos únicos que são e serão sempre. Gosto da organização dos capítulos intercalando as vozes de cada um deles e as línguas em que falavam originalmente. E gosto muito do empenhamento de Miguel Gonçalves Mendes, que faz perguntas sem ponta de cinismo. Tal como o filme, este é um livro não cínico, de quem anda à procura, como todos nós, mesmo que não o assumamos. Miguel partilha a sua intimidade nas perguntas e isso é bonito, além de nos permitir aprender mais. Criou duas obras com amor e coragem. Neste livro em particular, a coragem de fazer perguntas,  algumas delas menos cómodas, que só ajudam a iluminá-lo ainda mais. Uma delas é sobre a morte. Mesmo quando falam da morte, José e Pilar celebram a vida, a vida antes da morte. "É preciso levar a morte a ver a vida". Ou na versão de Saramago, autor de um verso que diz tudo: "Não o medo da morte mas esse mais humano, de não viver bastante". E diz, quando confrontado com a ideia de transcendente, que de vez em quando temos momentos de céu. "O amor pode ser um momento de céu, uma paisagem, uma página de um livro, um poema, uma grande obra de pintura". Acrescentaria, sem atrevimento nenhum, o amor de José e Pilar também foi e é um pedaço de céu, agora partilhado com quem o quiser visitar. Saramago disse que tinha crescido como pessoa depois da relação com Pilar. Eu, leitor, à procura, tal como o Miguel, cresci a ler este livro. Obrigado por isso!

 

 (Versão escrita da apresentação do livro "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, Quetzal, feita em Dezembro na FNAC Chiado).

 

publicado por Nuno Costa Santos às 10:23
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

roquenrola

Tenho pensado no Like a rolling stone. Os dias do aborrecimento, da angústia grosseira da normalidade, do tédio standard, provocam-me uma certa nostalgia pateta. Oh, once upon a time you were something! Agora és invisível. Não tenho grande pachorra para ataques de nostalgia. É um bocadinho como a gripe: trata-a antes que seja tarde e fiques de cama. Porém, neste caso, a sensação de que as coisas já foram melhores nasceu de duas conversas. Numa delas, as pessoas falavam sobre o seu trajecto de vida, profissional. Ora, eu não tenho um, de facto.

 

A minha vida passou-se, sobretudo, naquela outra conversa. É uma conversa comum que surge sempre com a mesma questão: o que é o rock'n'roll? Apesar de não ter uma resposta concreta, perfeitamente definida, arrisco dizer que passei por lá e que esse foi o melhor período da minha vida. Não porque tenha saudades mas, porque foi a única altura em que não me senti invisível, em que me sentia em casa - essa certeza confortável que é sentirmo-nos em casa.

 

Todas as noites, a vibração das cordas nos dedos, as palavras ditas como um reflexo, os olhos fechados e o corpo livre. Todas as noites, de roda no ar, no red line, bebendo cada copo como se fosse o derradeiro; o cheiro do tabaco na pele e a inquietação a ser exposta sem limites. É um estado único, onde não existe pragmatismo, cálculo ou objectivo. Existe, apenas, instinto e a ideia de que hoje pode ser o último dia, sem aquelas mariquices do carpe diem. Dentro desse estado fui invencível, porque livre. Nunca conseguirei descrever tão bem o estado de rock'n'roll como este refrão de Probot:

 

Rock out, make it quick
My, my, my, let it rip
Rock out, feeling good.
Break your heart. Shake your blood.

 

Está tudo aqui.

 


 

Para o Vidal e para o Xinas

publicado por jorge c. às 12:03
link do post | comentar
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

O morro e o asfalto

Há um mês e meio, quando subi o Vidigal pela primeira vez, havia homens com metralhadoras na rua enquanto outros despachavam saquinhos com drogas – pastilhas, maconha, cocaína. Faltavam algumas semanas para a invasão da polícia e aplicava-se ainda a lei dos traficantes. Não era um estreante em favelas (também não era um perito), sabia que a maioria dos seus habitantes não quer nada com o crime. Mas, enquanto passageiro pendura no dorso de uma moto, foi impossível não reparar primeiro nos soldados do tráfico, que seguravam armas automáticas, enquanto a vida de bairro corria normal, como pano de fundo, com crianças a jogar futebol, senhoras carregando compras e uma das melhores vistas do Rio de Janeiro. 

Ia encontrar-me com Gonçalo Pires, um português de 28 anos, habitante do Vidigal, opositor dos lugares-comuns sobre as favelas e conhecedor da tendência que os jornalistas de fora têm para ver apenas homens com armas. Gonçalo não tem telemóvel – “Era muita informação”, justificou-se –, por isso combinámos um encontro através do Facebook. Explicou que era preciso subir o morro de mototáxi, ir para o Bar do Carlão, na rua 3, e perguntar onde vivia o portuga. Gonçalo partilha um apartamento com o amigo e sócio alemão, André Koller. Chegou a São Paulo em 2005, trabalhou como designer, viajou pelo Brasil durante um ano, tem uma prancha de surf e um skate: “Vim para o Rio sem grandes perspectivas, estava farto do trabalho de escritório. Precisava do mar.” Na varanda de sua casa é o mar que aparece: uma vista de quarto de hotel cinco estrelas com direito a ilhas tropicais no horizonte. Gonçalo chegou ali há dois anos, depois de viver no chique bairro do Leblon e de trabalhar para grandes companhias. Montou a sua empresa de design e web design – “Vidigalo”, um estúdio de comunicação visual – e trabalha a partir de casa. Numa favela carioca, um português e um alemão desenvolvem projectos para empresas de todo o mundo.

Por insistência do jornalista e porque a invasão policial estava para breve, Gonçalo falou do tráfico: “Os bandidos já sabem, estão todos a bazar. Não vai haver tiros como no Complexo do Alemão no ano passado.” Dias mais tarde, as autoridades informaram aquilo que os locais já sabiam: Rocinha, Vidigal e a Xácara do Céu, favelas contíguas na zona sul do Rio de Janeiro, com uma população total em volta dos 150 mil habitantes, seriam ocupadas pelas forças policiais que, pela primeira vez, ficariam depois da invasão, instalando uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). 
Em Novembro de 2008, a secretaria de Segurança do Rio instalou a primeira UPP no morro de Santa Marta. Desde então, a polícia entrou, ocupou e permaneceu em mais 18 favelas. O resultado imediato: os cabecilhas do tráfico fogem ou são presos, e deixa de haver bandidos armados na rua. 

Gonçalo pensou fazer um stencil com um polícia a pilhar uma televisão. Queria espalhá-lo pelo Vidigal antes da ocupação. Como outros habitantes da comunidade, Gonçalo tem esperança que o paradigma da corrupção seja alterado mas ainda desconfia da polícia. Conhece o acordo entre bandidos e fardados: os primeiros pagam bem, os segundos não entram no morro. São frequentes as notícias sobre a “banda podre” da polícia: um oficial que mandou matar uma juíza, um agente que fazia parte da escolta de um traficante, as declarações do chefe da Rocinha, Nem, que, depois de capturado, anunciou que metade do dinheiro do tráfico era para a polícia – e tudo isto só no último mês.

Gonçalo lembra-se da invasão do Complexo do Alemão, em 2010, com tanques do exército, tiroteios, traficantes que escaparam por um túnel e uma transmissão em directo para todo o Brasil. Foi a mais mediática das invasões, uma prova da determinação do Rio em limpar-se perante a comunidade internacional antes do Campeonato do Mundo de Futebol (2014) e dos Jogos Olímpicos (2016). Mas quase um ano depois, o Complexo do Alemão não tem ainda uma UPP e os habitantes queixam-se dos abusos e dos roubos da polícia. 

 

No dia antes da ocupação do Vidigal, os bandidos que não tinham mandado de captura estavam na praia, era dia de folga. Nem, o líder do grupo criminoso Amigos dos Amigos (ADA), que controlava a Rocinha, o Vidigal e a Xácara do Céu, foi preso dias antes da invasão. Gonçalo nunca chegou a fazer o stencil e, durante ocupação do Vidigal, na madrugada de 13 Novembro, não se disparou um tiro.

Na primeira vez que entrei no Vidigal após a ocupação, foi fácil perceber o que tinha mudado da noite para o dia. Além da presença do Batalhão de Choque da Polícia, com camuflados cinzentos, coletes à prova de bala e metralhadoras, os mototáxis estavam parados onde antes era uma “boca de fumo” – entreposto de venda de droga. Fui informado que passara a ser obrigatório o uso capacete. 

Não havia traficantes armados na rua. Mas o tráfico continuava, muito mais silencioso e escondido. O próprio secretário de segurança, José Beltrame, disse que as UPP não servem para acabar com o tráfico. Em primeiro lugar, são a entrada do Estado em territórios dominados pela magistratura dos traficantes há décadas. Pretendem tirar as armas da rua e evitar cenas impunes de violência como aquela que aconteceu num baile funk, no Vidigal, quando visitantes chegados da Rocinha se desentenderam com um local. Pertenciam todos ao mesmo grupo criminoso, ADA, mas o bate boca acabou com dois homens abatidos a tiro de pistola. 

Na última vez que subi o Vidigal, antes de escrever este artigo, encontrei três portugueses, sem t-shirt, descendo a ladeira. Gonçalo ia almoçar com amigos. Um deles, Diogo, é dono de confeitarias no Rio. João estava apenas de visita mas, tal como Diogo, procurava terrenos e casas para comprar no Vidigal. Gonçalo apresentou-os a alguém que sabe do mercado imobiliário do morro. O homem, sogro de um português que vive no Vidigal, ofereceu ajuda: “Se eles percebem que vocês são gringos vão aumentar o preço. Falem comigo que vou junto.” Há quem diga que os preços duplicaram num ano, que já tinham começado a subir com a perspectiva da pacificação. Um barraco de tijolo, quarto e sala, pode custar 20 mil euros. Mas há prédios no Vidigal. E moradias que podiam aparecer em revistas de arquitectura. Um desses prédios, bem alto, na parte baixa do morro, tem a cobertura à venda: 840 mil euros.

Na procissão de cumprimentos e conversas que são os passeios com Gonçalo – parece que conhece toda a gente no Vidigal – apareceu alguém da VDGTV, televisão local, vista por 50 mil pessoas, com quem a empresa de Gonçalo colabora – a sua empresa também está envolvida num projecto de formação profissional no Complexo do Alemão e adoptou o sentido de entreajuda da comunidade como manual para o negócio: “Vivi dois anos no Leblon, não conhecia um vizinho. Aqui, se o meu fusca (volkswagen carocha) avariava, vinham logo oito pessoas a correr para me ajudar. Ninguém faz nada sozinho, uma 
pessoa só não dá em nada.” 

O orgulho de morar no Vidigal é honesto, a gratidão também: “Desde que vivo aqui que o meu trabalho mudou. Podes ir ver as coisas que fazia em São Paulo e os meus projectos desde que estou no Vidigal. Nota-se a diferença. É muito diferente criares alguma coisa depois de duas horas de trânsito, em São Paulo, dentro de um ônibus, ou acordares com esta vista e ires trabalhar depois de uma surfada.” 

Gonçalo e André, europeus emigrantes de longa duração no Brasil, querem participar da mudança no Vidigal, sabendo que umas coisas continuarão na mesma enquanto outras podem transformar-se demasiado depressa. Só a Rocinha terá obras no valor de 310 milhões de euros até 2014. Muitas casas receberão, pela primeira vez, saneamento e abastecimento de água, bem como serviço de correio, limpeza das ruas e recolha de lixo – no primeiro dia em que os serviços municipais trabalharam na Rocinha, foram recolhidas 135 toneladas de lixo. 

Agora, sem traficantes armados, com a presença da polícia e a promessa de ruas urbanizadas, aproveitando ainda a localização privilegiada na geografia do Rio, o eixo Rocinha, Vidigal e Xácara do Céu pode tornar-se na próxima zona da cidade a sofrer o aumento dos preços e a especulação imobiliária. E há quem tema que a normalização da favela seja também sinónimo do aumento do custo de vida, levando os habitantes a mudar-se para a periferia. 

André Koller, 37 anos, que se mudou para o Vidigal antes do burburinho mediático, não tem ciúmes dos novos namorados do morro. Durante um almoço, lembrou os anos, antes da sua chegada, quando os ADA disputavam o Vidigal com o Comando Vermelho, numa constante guerra entre facções, com execuções, tiroteios e cabeças expostas. Num português carioca com leve sotaque germânico, André disse: “É normal que estas pessoas queiram aproveitar o momento e ter uma vida melhor. Foram muitos anos… Quem cresceu aqui joga com as cartas que lhe foram dadas, não pode escolher. Na Alemanha a maioria das pessoas pode escolher as cartas. Lá temos todos mais ou menos a mesma vida, a mesma educação, as mesmas hipóteses. Lá toda a gente tem um Golf, aqui é uma festa ter um Golf. Eu adorava carros, tinha um Mercedes. Agora tenho uma moto velha. Vim para aqui para ter uma vida diferente, mas percebo que as pessoas queiram ter coisas. Eles não entendem porque não estou na Alemanha, dizem-me que a vida dos alemães é um sonho. Para mim o sonho é isto.”

André saiu de Hamburgo para São Paulo em 2001, diz que gosta do espírito de vizinhança do Vidigal, fala sobre o homem que lhe entrega pão à porta e que não aceita gorjeta, do vigor e juventude do bairro: “Aqui há muita fome de vida.” 
De acordo com um levantamento feito pelo jornal “Globo”, nos últimos três anos as UPP reduziram os homicídios a metade e houve menos 11 mil assaltos nos bairros circundantes a favelas com UPP. O Vidigal e a Rocinha esperam agora as UPP Sociais para aplicar políticas de saúde, educação e assistência social – algo que não aconteceu em outras favelas, como o Complexo do Alemão, e que leva os críticos a apontar um favoritismo das autoridades em relação às favelas da zona sul, onde se hospeda o turismo do Rio e onde o mercado imobiliário tem mais potencial. 

O jornalista Zuenir Ventura escreveu “Cidade Partida”, um livro que popularizou a expressão “o morro e o asfalto”, e que tratava do fosso entre as favelas e o resto da cidade, uma separação intensificada na década de 80 quando a polícia deixou de entrar nas favelas. Numa entrevista, Zuenir Ventura disse: “Uma vez, vi a cena de um menino de dois anos que teve desidratação. O traficante chegou e o levou para o hospital. Vai explicar para a mãe do menino que ele é um malfeitor... Esse vácuo do poder público, naquele primeiro momento, foi ocupado pelo tráfico.”

O aslfalto não visitou o morro durante anos. As autoridades foram substituídas pelos traficantes. Os moradores da favela aprenderam a viver assim, mas a violência e a pobreza estigmatizaram as pessoas que todos os dias saem do morro para ir trabalhar no asfalto – porteiros, empregadas domésticas, caixas de supermercado. É verdade que há cada vez mais estrangeiros a participar no quotidiano e desenvolvimento da comunidade. Mas também é verdade – apesar do medo e até dos preconceitos classistas – que há cada vez mais habitantes do asfalto a frequentar o morro.

Diz-se que esta cidade não é apenas o que se vê do Pão de Açúcar. A favela – não é novidade – também não é só homens armados, estrangeiros com capacidades de adaptação, motocicletas desgovernadas, bailes funk e polícia corrupta. E quem visita o Vidigal percebe que alguma coisa está a mudar: um fim-de-semana depois da ocupação, Djs europeus tocaram no ponto mais alto do morro; toda a gente passou a usar capacete nos mototáxis, há portugueses a sondar o mercado imobiliário. A favela, como o resto do país, também quer aproveitar a crista da onda da prosperidade e do orgulho brasileiro.

Na última vez que estive em casa da dupla luso-germânica, André chegou com roupa de corrida, feliz por ter subido ao topo da Rocinha, aproveitando uma vista antes só desfrutada pelos bandidos, que tinham o cume do morro como quartel-general. São mudanças simples e ao mesmo tempo magníficas. O Rio menos partido, mais inteiro, menos asfalto e morro. 

Hugo Gonçalves, no Rio de Janeiro

Texto publicado na revista do jornal Sol.

publicado por Hugo Gonçalves às 13:46
link do post | comentar
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

O meu amigo Leonardo

Tenho o “Vientos de Cuaresma” do Leonardo Padura a olhar para mim. Fui buscá-lo a uma estante e pousei-o na mesa à minha frente. O Padura está no meu altar pessoal. Nunca lhe chegarei a agradecer ter-me apresentado ao Mário Conde, o detective angustiado, meio estóico, meio epicurista, meio sonhador, meio desiludido, amante de rum e de boa comida. O Conde é um tipo ambíguo, sem certezas, perdido num mundo que conhece mas que não compreende, como todos os meus heróis. É, como o seu criador, alguém que vive entre o desencanto e a esperança, perdido no combate entre o medo que lhe foi vestido como uma segunda pele mas sem desistir de o combater ou, pelo menos, de o enfrentar.

Das centenas de livros que há na casa onde estou agora a escrever foram os dele que me chamaram da estante onde estão encavalitados. Podia ter pegado num livro dum autor que não conhecesse ou a minha atenção podia-se ter virado para uma qualquer obra dum escritor de que goste mas que ainda não tivesse lido. Mas não, peguei num do meu cubano favorito. Um livro que já li e de que tenho uma memória ainda muito viva. Vou pegar nele e lê-lo de novo. Vai ser bom saber o que vai acontecer na página seguinte, ser uma espécie de deus conhecedor do destino de cada personagem, não estar ansioso por saber o fim da história. Vou lê-lo como uma criança a quem a mãe conta todas as noites a mesma história, não por falta de imaginação mas para que ela se sinta segura, para que se evite a excitação ou o sobressalto duma qualquer novidade. Os amigos, e os livros do Padura são um amigo muito chegado, servem também para isto. Para nos confortar simplesmente com a sua presença, para não nos questionarem quando nos olhamos ao espelho e vemos um enorme ponto de interrogação igualzinho a nós, para nos contar uma história que conhecemos de cor para sentirmos que pertencemos a alguma coisa, que temos uma história, um passado, para nos transportarem para o nosso espaço nem que seja por breves instantes e que nós saibamos não passar duma ilusão. O Leonardo vai-me contar uma história e pode ser que eu adormeça em sossego com um sorriso nos lábios e uma esperança no coração.

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:59
link do post | comentar | ver comentários (1)

mensagem de ano novo

Não foi por isso. A vida não tem corrido mal. Também não sei quando foi. Algures, por causa de qualquer coisa, tornei-me um pessimista rabugento. Nota-se muito nestas épocas do ano. De ser o chato que inunda as caixas de mensagens alheias com épicas mensagens de felicidades ao mono que não tuge nem muge foi um passinho. Falta o deslumbre. A frescura – a do Português de Portugal e a do Português do Brasil – de acreditar. Um tipo deixa-se ir nisto. Nesta máquina de despertadores, tarefas, listas de supermercado e doenças pontuais. E dá por si a cumprir os mínimos olímpicos na hora de brindar.

 

Só que este ano aconteceu uma coisa estranha. Isto de sentir a fé dos amigos. De receber as mensagens e os mails e os telefonemas e neles perceber que as pessoas importantes não estão a cumprir calendário. Que cada uma à sua maneira criou um postal de boas festas que, por uma vez, não poderá ser usado todos os outros anos, para todas as outras pessoas. São discursos de aqui e de agora, entre nós. Mensagens com a lucidez que compreende o presente, que fogem às palavras habituais, que não fingem o que não acontece, certas do tempo que vivem, capazes de descobrir razões para celebrar e inspirar em quem as lê um pouco da mesma confiança que derramam sobre o princípio do futuro. Auto-irónicas, humorísticas, socialmente incorrectas. Poderosas.

 

Não fossem os meus amigos e cairia no erro de pensar que o pessimismo é coisa de adulto, como o aumento galopante de visitas à farmácia ou o brutal desaparecimento do nosso interesse por discotecas com mais de duas pessoas à espera para entrar. Pessimismo é coisa de parvo, mesmo que, no fim, o pessimista esteja quase sempre certo. A pessoa madura sabe disso tudo, mas também sabe que não há nenhum gozo nisso. O prazer vai no risco de estar errado.

 

Bom ano.

publicado por Alexandre Borges às 23:50
link do post | comentar
Domingo, 1 de Janeiro de 2012

Liberdade, razão, generosidade e coragem

Os últimos dias de Dezembro são os mais livres. É a sofreguidão de antecipar o balanço do ano e a memória curta a libertá-los da História, e é o equilíbrio entre as frustrações do ano findo e o optimismo do renascimento vindouro a dar-nos – enfim, a dar-me, que cada um sabe de si – uma sensação de imponderabilidade, como a bola lançada ao ar no exacto momento em que já não sobe e ainda não desce. Mas, por estes dias, também senti a vã obrigação de escolher a “figura do ano”. Sem hesitar, a palma vai para Yasuteru Yamada, o reformado engenheiro japonês de 72 anos que tentou recrutar um grupo de companheiros do autodenominado (mas não são terroristas) “Skilled Veteran Corps” para dar uma mãozinha nos trabalhos de contenção da fuga radioactiva provocada pelo acidente na central nuclear de Fukushima. É longo o eco desta notícia na cabeça do ocidental, por causa de Hiroxima e Nagasáqui, mas também porque o Japão é o país em que um forte sentimento de honra deu ao mundo um ritual de suicídio violento (o harakiri) e que na Segunda Guerra Mundial criou a carreira com menores perspectivas de futuro. Inevitavelmente, um idiota útil perguntou se Yamada era um “kamikase”, ao que o nosso homem respondeu com o invejável eufemismo nipónico, lembrando que no caso dos aviadores mártires não havia grande “gestão de risco”. Yamada frisou sobretudo a lógica: na sua idade, o efeito mais pernicioso da radiação (um cancro que demora décadas a manifestar-se) seria muito menos dramático do que num indivíduo mais novo, com uma esperança de vida maior. Daí o absurdo de comparar a decisão racional, mas generosa e corajosa, de um cidadão livre com o horror de um sacrifício pela pátria que só a propaganda de Estado fez passar por voluntário.

 

No "i", a 2 de Janeiro de 2012.

publicado por Vasco M. Barreto às 08:04
link do post | comentar | ver comentários (1)

Autores

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever