Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

The boceta kid

Antes

 

Pedrinho foi ver um Benfica Porto lá no boteco do Joaquim, na Cupertino Durão, fodido da carteira e sem um rolé de cama há meses. Mudara-se do Porto para o Rio com perspectivas de emprego e um filme editado na cabeça: mulheres morenas, de pernas malhadas e marcas de biquíni; mulher loiras com lábios devotos ao sexo oral e tanta ternura depois, como malícia antes; mulheres mulatas, japonesas, negras como o café da manhã, mulheres que compensassem a sua adolescência casta e a idade adulta com pouca quilometragem – três namoradas, duas visitas a prostíbulos do Porto.

 

Pedrinho era do Boavista e estava-se a cagar para o jogo. Tinha combinado com JP, um belenenses com cartão de sócio, que também dispensava o clássico, mas que gostava de cervejas baratas e confusão ao fim da tarde. Sem prestarem atenção no ecrã ou sequer nos outros portugueses com cachecóis ao pescoço e “filhadaputa” na ponta da língua, JP e Pedrinho puseram-se a sorver cachaças e chopes, acabando, como sempre, dedicados ao tema que mais desassossego provocava a ambos: boceta.

 

“Eu sou movido a boceta, tenho de admitir. O meu motor de arranque são gajas. Sou assim desde pequeno, não consigo estar num bar só com homens, fico inquieto.” JP interrompeu o discurso e ficou a olhar para uma milf que regressava da praia comendo um picolé. “Estás a ver o que te digo. Basta sair à rua. Sabes o que disse Buñuel?”

 

“O toureiro?”, perguntou Pedrinho.

 

“O gajo do cinema, que fez aquele documentário sobre os pobrezinhos ali perto de Salamanca, e que matou uma cabra para tornar aquilo mais dramático.”

 

“Não faço ideia.”

 

“Caga nisso. O Buñuel tinha 70 anos e disse: ‘Com esta idade ainda não me livrei do tirano.’ Entendes? Isto é uma tirania.”

 

“Não entendo.”

 

“O sexo, a boceta, o pau duro, um gajo ir ao supermercado e entrar no corredor dos produtos de beleza só porque viu uma gaja boa passar.”

 

“Que romântico.”

 

“Por falar nisso. Quantas quecas é que já te valeu esse romantismo desde que aterraste no Rio?”

 

“Não sou como tu. Não gosto de pegação. Não é a minha cena.”

 

“Tu és um mestre Jedi. Como é que consegues suportar os meses de abstinência?”

 

“Nunca ouviste dizer que a espera intensifica o prazer.”

 

“Essa foi a coisa mais gay que te ouvi dizer nos últimos dois dias.”

 

“Estou aborrecido.”

 

“Jogo de merda.”

 

“E tu, tens triunfado?”

 

“Ontem foi lá a violinista a casa.”

 

“E então?”

 

“Foi fixe. Mas acho que não vou repetir.”

 

“Terceira vez?”

 

“Quarta.”

 

“Bate certo, é o teu padrão.”

 

Pedrinho foi ao banheiro, as solas das havaianas chapinharam na película de mijo e água e papel higiénico. Balançando diante do urinol, pôs-se a pensar que, quando saísse daquele boteco e entrasse na rua, tudo iria mudar. De peito inchado pela confiança da cachaça, almofadado pelo airbag alcoólico e sem medo da rejeição, Pedrinho decidiu que o que tem de ser tem muita força, acabavam-se ali as longas conversas e o cavalheirismo, ia partir directo para a sacanagem, pegação a toda a ordem, vamos varrer geral.

 

Depois pensou no conselho que JP lhe dera, semanas antes, durante uma festa: “Tens de saltar-lhes à boca. Não digas nada. Chegas lá e saltas-lhes à boca.” 

 

Pedrinho voltou a terra firme e passou pelas mesas do boteco, olhou as mulheres susceptíveis de serem beijadas após três cachaças e seis chopes (60 por cento das presentes), imaginou-se a saltar à boca de uma delas.

 

Mas logo se acagaçou, pensando que agarrar uma mulher, sem “com licença” ou “por favor”, e meter-lhe a língua na boca, era missão para os rangers de Lamego ou os forcados de Santarém.

 

Pedrinho estava habituado a cafezinhos e mais cafezinhos antes de receber um beijo nos lábios. Lidava melhor com programas tradicionais: cineminha no dia que era mais barato, lanches em pastelarias, um pé de dança numa discoteca e férias na loucura de Vilamoura – localidade onde, depois de muita insistência de Pedrinho e outros tantos copos de sangria, a sua namorada se masturbou para ele, pela primeira vez, em sete anos de relação. Nunca se falou no assunto. Muito menos se repetiu a prática. 

 

No boteco era diferente. Tudo era possível. Pedrinho sentou-se e informou JP da epifania resultante da sua visita ao banheiro.

 

“Eu sou como um jogador de futebol brasileiro na Europa, mas ao contrário.”

 

“Come again?”

 

“Não se diz que, por vezes, os jogadores brasileiros levam tempo a adaptar-se ao futebol europeu?”

 

“Ya.”

 

“O mesmo acontece comigo aqui, mas no campeonato do engate. Eu estou num processo de adaptação, mas chego lá.”

 

“É isso que eu gosto de ouvir. Hoje vais ser o Ronaldinho e eu o Ronaldo Fenómeno.”

 

“Não posso escolher outro?”

 

“Ok, podes ser o Mozer.”

 

No intervalo do jogo pagaram a conta e caminharam para lado nenhum. JP falava como numa palestra:

 

“Tem tudo a ver como a forma com encaras o determinismo biológico do teu género. Nós fomos feitos para espalhar a semente e um dia podemos até ficar obsoletos, mas enquanto aqui estivermos é melhor aceitar esta tirania do que reprimi-la. O sexo faz muito bem à saúde. Tens ideia da quantidade de doenças que a prática continuada de sexo previne?”

 

“Sífilis? Sida? Gonorreia?”. Pedrinho estava mais solto, esta seria a sua noite.

 

JP pegou no telemóvel, levantou uma mão para que Pedrinho se calasse, e abriu o livro da lábia chapa cinco:

 

“E aí, bonitinha, onde você anda? Está com amigas?”

 

 

Depois


Pedrinho apareceu no quarto de JP a meio da manhã, abriu as cortinas com intenção de causar danos nas córneas do amigo, e começou a desaparafusar o aparelho de ar condicionado. JP sentou-se na cama:

 

“O que estás a fazer aqui a estas horas?”

 

“Não sou eu, é o tirano.”

 

“Como é que entraste?”

 

“O tirano convenceu a tua companheira de casa que era um assunto urgente.”

 

Pedrinho já ia no quarto parafuso quando JP reparou na caixa de ferramentas.

 

“Que merda é esta?”

 

“O tirano veio cobrar. Uma das tuas amigas acabou lá em casa. A meio da noite pediu-me duzentos reais mais dinheiro para o táxi. Quando disse que não, que não tinha acordado nada com ela, apareceu-me um negão lá em casa.” Levaram-me o ar condicionado como garantia de pagamento.”

 

JP saltou da cama, abriu os braços em louvor ao universo.

 

“Tu não percebes? Tudo mudou. Olha para ti, cheio de auto-confiança. Entras aqui, nem se nota que estás de ressaca. Todo decidido. Tiras o ar condicionado da parede, falas alto, estás mais contundente. Não percebes o que está a acontencer? Isto é coisa de Mr. Miyagi, wax on, wax off. Tu estás finalmente preparado. Os teus níveis de masculinidade estão a bater ferros. As mulheres adoram isso.”

 

Pedrinho pousou o ar condicionado na cama. De facto sentia-se mais pujante desde que estivera com aquela mulher. O tirano precisava de ser alimentado.

 

JP enfiou-se nuns calções de banho. Não vestiu t-shirt: “Agora é uma questão de continuarmos com o programa de treinos. Vamos lá beber um suco à rua.”

 

Pedrinho olhou o amigo: “Achas mesmo que a minha sorte vai mudar?”

 

“E eu alguma vez te ia mentir sobre uma coisa destas?”

 

“Então vai andando que eu vou montar o aparelho outra vez.”

 

“Faz isso. Olha, tens aí vinte reais que me emprestes? Nice. És um bacano. E não te esqueças: wax on, wax off.”

 

 

 

 

publicado por Hugo Gonçalves às 16:01
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

gramava ser grego

Um estudo feito a pedido da Comissão Europeia no âmbito do “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações 2012” diz que os portugueses deixam de se sentir jovens aos 36,8 anos. Ou seja, um cidadão nascido a 1 de Janeiro de 1980 chega a Agosto de 2016, está muito bem a fumar uma ganza deitado numa praia à espera do nascer do sol, depois de ter saído do Kiss de Albufeira onde andou na mui nobre actividade da caça à bifa, quando de repente o raio da meia-idade o atinge.

Bom, não deve ser nada disso, mas nem me apetece discorrer sobre o bocejante tema do que é ser jovem, nem qualquer assunto sob a epígrafe “envelhecimento activo” me merece mais reflexão do que o esforço intelectual de pensar onde diabo pára o isqueiro para deitar fogo a qualquer página onde estejam as pomposas palavrinhas.

A história sobre o estudo vem no DN e deixou-me mal disposto. Um tipo olha para a página, lê que os portugueses perdem a juventude aos 37 anos e pensa: “a vida pode-nos não andar a correr bem mas somos uns optimistas apesar de tudo”. Afinal não. Perder a juventude aos 37 é fracote. Os nossos camaradas europeus perdem-na muito mais tarde, até os gregos só passam a ser tristes criaturas de meia-idade aos 50.

Como se isto não bastasse para um tipo ficar irritado, fui também esclarecido que perdemos o viço porque somos infelizes. Andamos lixados com os nossos amigos com as nossas famílias e andamos insatisfeitos com a vida. Somos os mais infelizes da Europa. Segundo os génios consultados é isto que explica perdermos a juventude tão cedo.

Se calhar por ter ficado deprimido não percebi bem a relação entre juventude e felicidade. Percebo bem a relação entre a felicidade e o amor, a amizade, o sol, até com o dinheiro, mas felicidade e juventude não atinjo.

Vou pensar nisto esta semana e depois digo. Sinto-me velho e muito infeliz, mas posso ficar feliz se alguém quiser, velho é que vou continuar. E, pensando melhor, até sou capaz de aprender grego.  

publicado por Pedro Marques Lopes às 09:24
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

uma conspiração de inocentes

Em Portugal, há sempre alguém que nos anda a lixar. Ou são os políticos, ou os banqueiros, ou os empresários, ou a polícia, ou o árbitro, ou os espanhóis, ou os alemães, ou os chineses, ou a agência de rating. Mas também o patrão. E o colega do lado. E o vizinho de baixo. E as finanças, e o médico, e o professor, e o tipo da oficina, e a mulher da lavandaria, e os gajos da EDP, e os da TMN, e o homem das obras, e o canalizador. E a maçonaria, e os ricos, e a função pública, e os grevistas, e as fundações, e os empreiteiros, e os juízes, e os farmacêuticos, e os jornalistas, e os gajos da igreja, e os comunistas, e os tipos da direita, e os taxistas. Ui, os taxistas. Para já não falar do azar, e do tempo, e da geografia.

 

Há uma conspiração cósmica para nos tramar. Especificamente a nós. Povo indefeso, honesto, trabalhador, bem formado, talentoso, incompreendido, injustiçado.

 

Que pena. Que pena que tenhamos tantas qualidades e nos falte a capacidade de colocar, por um momento, a absurda hipótese de estarmos na valeta por culpa própria. De sermos, quem sabe, um batalhão de derrotados, invejosos, preguiçosos, comichosos, queixosos, queixinhas, saudosistas não se sabe de que tempo, luminárias que – ó injustiça! – ninguém foi capaz de entender e dar o valor e a oportunidade. De termos, porventura, nascido geneticamente impreparados para a auto-crítica e para a auto-ironia e para o acto de contrição e para que o único orgulho de que sejamos capazes seja o orgulho da virgem ofendida. Por já só sabermos ser felizes neste papel, do insulto atirado da arquibancada, do miserabilismo, do pobrezinho, de quem comprou a paz da própria alma com o mito de que o universo esteve montado desde sempre para nunca nos deixar vencer.

 

Notícia de última hora: no derrotismo que matou Portugal, só um suspeito esteve lá, todo o tempo, no local do crime: o português.

publicado por Alexandre Borges às 00:12
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Arqueologia dos afectos

O fenómeno é comum e não perdoa. Pode resumir-se assim: o cidadão está tranquilamente embarcado na sua vidinha e sem que nada o anuncie ou preveja – paf!, leva com o passado afectivo na cabeça. Este acontecimento pode revestir-se de várias formas: um rosto reconhecido, uma música antiga,  um cheiro familiar, ou, para os mais proustianos, um bolo seco. O resultado pode variar desde um simples suspiro (“ah, belos tempos”), uma rejeição (“que besta que eu era!”) ou o puro e duro embasbacamento. Quando este último acontece – como foi no meu caso, que contarei a seguir – só um conselho: se embasbacar não conduza.

 

Passou-se isto durante o simpático trânsito de uma Lisboa que ainda acorda e que acorda geralmente de mau humor. Entre o tráfego ensonado, olhar ainda por nascer, a telefonia do carro faz o favor de anunciar: “E agora, uma memoria musical: Gabriela Schaaf, e Leva-me ao cinema.” Ora, meus amigos: aos 15 anos eu estava perdidamente apaixonado por Gabriela Schaaf: a voz, os olhos, as epaulettes correctíssimas e oh so eighties. Por ela fiz a primeira das muitas figuras de urso que iria fazer por causa de uma mulher (e de que nunca me arrependi): levantei-me de madrugada para estar na primeira fila do cinema Nimas, onde Júlio Isidro emitia em directo a sua Febre de Sábado de Manhã. Nesse dia, Gabriela iria cantar e eu tinha de lá estar. Estive; e num gesto em que ainda hoje me pergunto onde fui buscar as forças e a coragem, subi ao palco depois das canções e fui pedir um autografo. Deu-mo, com um sorriso e dois beijos. Regressei a casa a flutuar e com a sensação que o filosofo DiCaprio tão bem descreveu em Titanic: “I’m the king of the world!”

 

Não sou propriamente um tipo saudososista ou mesmo nostálgico. Acredito no hoje perpétuo e estou grato por viver agora mesmo, neste tempo. Mas que certas coisas afagam a alma, ah isso afagam. Por isso mesmo, consigo ver agora com maior condescendência o amor que as jovens teenagers (e em particular a minha filha) nutrem por um grupo de rapazolas com cara de imbecis que se chama One Direction. Cantam o que parecem – um pop desenxabido mas eficaz – e fazem sonhar as meninas (em particular a minha filha, que escreve neste momento uma fan fiction e cuja conversação se tornou monotemática). Ao principio indignei-me: um pai com tão bom gosto, um educador da classe melómana e ela faz-me isto? Mas a Gabriela devolveu-me à realidade: precisamos de passar por isso. Esta entrega desmedida e absurda prepara-nos para outras que mais tarde nos irão, com sorte, atravessar a vida.

 

Anos depois também ela fará a sua arqueologia afectiva e se enternecerá com a péssima música que estes rapazolas fazem. E eu ficarei contente. Por isso, rapazes do One Direction: não abram essa carta sem remetente – ela está armadilhada e fui eu que enviei. Mas isso foi antes: agora queria mesmo dizer-vos obrigado. E um beijo, Gabriela!

 

 

 

para a minha filha Leonor

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:12
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Sábado, 14 de Janeiro de 2012

algumas palavras que marcaram o ano

Deem-me mais umas quantas palavrinhas e eu despeço-me já do ano passado. Já está na altura de começar a aproveitar os novos dias, eu sei. Mas não queria deixar que os precedentes se fossem embora sem recordar uma das suas figuras. Não sei se será a personalidade do ano, se calhar porque uma homenagem deste tipo merece ser partilhada por tantos.


Tariq Jahan. Era dele que queria falar. Tariq Jahan, 46 anos, filho de imigrantes indianos e paquistaneses já nascido no Reino Unido. É o pai de um de três homens que morreram durante os motins de agosto, atropelados enquanto protegiam as lojas do seu bairro de Birmingham. Ficou conhecido pelo seu discurso à comunidade muçulmana em que apelou à calma e rejeitou o recurso à violência, logo no dia subsequente à morte do seu filho. As suas palavras pediam união entre as várias comunidades e evitavam a vingança. “I lost my son. Blacks, asians, whites – we all live in the same community. Why do we have to kill one another? Why are we doing this?” No barril de pólvora que é a segunda maior cidade britânica, ainda a cicatrizar das lutas entre as comunidades asiática e afro-caribenha em 2005, acredita-se que os seus apelos tenham sido decisivos para impedir confrontos raciais.


As mesmas palavras repetidas por um político ou um responsável da polícia não teriam tido sido ouvidas. Naqueles dias de enorme tensão, o discurso tão simples quanto inspirado, sobretudo corajoso, de alguém sem qualquer experiência como orador conseguiu pacificar uma multidão.


Marcou-me este momento de grande dignidade. O facto de Tariq Jahan ter conseguido manter-se lúcido e encontrar tanta paz interior num momento tão doloroso, em que os nossos instintos básicos anseiam por vingança, procuram por responsáveis. A força que é necessária numa altura destas para procurar a via mais sensata.


Estranhamente, lembrei-me dele por razões menos positivas, ao ouvir na BBC que tinha sido acusado de agressão numa discussão rodoviária, meses antes dos motins. Sim, Tariq Jahan não é um santo. Terá muitas facetas para além do herói, é imperfeito e não se resume à pessoa que discursou inspiradamente para toda uma comunidade. Mas conseguiu ser uma voz positiva, numa altura em que as imagens apenas transmitiam violência, pilhagens e incêndios.

 

 

 

(neste texto já me esforcei por escrever ao abrigo do novo acordo ortográfico)

publicado por Ricardo Correia às 23:38
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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

Sol de Inverno

Chamaram-lhe a idade da inocência. Acredito que o epíteto foi dado a uma geração muito específica, nascida no pós-guerra, crescida ao som do ié-ié da Madalena Iglésias e na melancolia da uma eterna Primavera. Longe da urbanizada e progressiva consciência política, uma juventude paternalizada, que delirava com a fatiota da Mocidade, sem querer, viveu um sonho; um sonho de bondade, generosidade, justiça, solidariedade e ternura. Lembro-me como a minha mãe se emocionava a cantar o Meu Primeiro Amor. Os seus olhos verdes enchiam-se de uma nostalgia lacrimosa e a voz tremia-lhe sempre que dizia "Ai quem me dera ter outra vez vinte anos". Depois olhava para o céu, já sem esperança mas, com fé e sem ressentimento. Nunca compreendi. Que tempo foi esse?

 

Às vezes, quando se encontra com pessoas da mesma geração, mesmo que desconhecidas, sinto nelas uma cumplicidade pouco habitual, quase como se viajassem no tempo, num instante, e se encontrassem numa dimensão especial, só deles, onde estamos impedidos de entrar por incapacidade onírica. Sinto uma profunda inveja desse momento da convergência das bondades, talvez só possível por ter existido naquele lugar estranho que foi o nosso país há 50 anos. Só possível porque uma geração ingénua, com um olhar doce e vestida com a mais profunda das bonomias aspirou a um mundo de amor.

 

Na geração dos meus pais estão algumas das pessoas que mais admirei na vida. Apesar do seu paternalismo crónico adquirido, sempre me deslumbrou aquela ternura que lhe é tão característica, as cantorias colectivas, o sorriso sincero e a honestidade. Quando eu for grande vou ser assim, prometi-me a mim mesmo. Mas, talvez por ter crescido numa época demasiado cínica, não me sinto numa geração cúmplice com a sua própria bondade, que se olhe dessa forma, que se reconheça. Ela existe, está lá e é igualmente generosa. Mas, não se reconhece.

 

Manuel António Pina, em entrevista à Ler deste mês, fala da prevalência da bondade sobre a própria poesia - a mais bela sugestão dos últimos tempos. Andamos a reivindicar esta necessidade há já algum tempo. A ONU estabelece o combate à pobreza como o mais relevante da Humanidade. Temos o ano do voluntariado e do envelhecimento. Porém, por mais determinação que exista, julgo que o problema está na incapacidade de compreender a natureza da bondade. É um factor emocional. Está, então, na altura de nos devolverem a inocência sem que seja preciso uma ditadura para a restaurar, como um sol num inverno ameno.

publicado por jorge c. às 11:38
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Mudar de vida

1

Ele quis ser primeiro-ministro durante muitos anos, mas a meio da legislatura já tinha olheiras de turno da noite e a cabeça afectada por dentro e por fora: a calvície acelerada, os cabelos brancos que, em vez de charme, anunciavam fadiga, sinapses que produziam sound bites, discursos de inauguração num quartel de bombeiros, em conferências de imprensa, em comícios de domingo. Ele quis ser primeiro-ministro, mas não aguentou a falta de horas de sono, as viagens de avião, a presença dos seguranças, o telemóvel em efervescência permanente.

 

Não tinha filhos nem mulher. Não teria tempo para eles e jamais conseguiria força para mudar fraldas, ajudar com a Matemática, sintonizar o relógio do leitor de DVD, namorar no sofá no intervalo de um filme. Havia demasiada gente a pedir a sua atenção para que quisesse uma família.

De manhã encontrava-se com embaixadores, almoçava com autarcas, participava na condecoração de atletas ao lanche, passava o pôr-do-sol com os assessores, no gabinete, preparando uma entrevista. Era maquilhado, desmaquilhado, não desligava o telemóvel durante o sono. 

 

 

2

Durante a visita à maior fábrica de enchidos do país, os jornalistas perguntaram-lhe sobre uma revolução que acontecia longe no mapa e ele repetiu o que outros líderes mundiais tinham dito nas notícias – uma mensagem produzida automaticamente, soando como a voz gravada que anuncia as estações de comboio. Lamentou a perda de vidas de inocentes e desejou a chegada da democracia, por fim, àquele território já tão fustigado. Entrou no carro e não se lembrava do nome do país em questão. Não sentia empatia pelos familiares dos mortos nem desprezo pelo ditador. Estava exausto e não conseguia sentir nada. Assustou-se. Durante o resto da viagem, ficou com uma perna dormente, depois um braço, os dedos deixaram de tocar os estofos. Fazia frio por causa do ar condicionado e a alta velocidade da comitiva oficial deixou-o tão enjoado como na noite em que ganhou as eleições na universidade e bebeu vários litros de vinho. Há anos que não bebia, não fumava, há anos que não esquecia as horas para falar e beber e comer com os amigos.

 

Entraram na cidade e o primeiro-ministro pediu ao motorista para parar o carro. Dispensou os seguranças, desligou o telemóvel, deixou para trás a gravata e o casaco, despenteou-se um pouco, ordenou que ninguém o seguisse. Caminhou debaixo do sol, sentindo na pele o vigor das temperaturas altas. Entrou no primeiro lugar bonito que encontrou.

 

 

3

Há anos que não ia ao Jardim Zoológico. Ficou a olhar os tigres durante quase uma hora, apreciando como se espreguiçavam e abriam a boca sem cerimónias e se empoleiravam nos vidros como se quisessem brincar com as crianças. Ele gostava de ter a vida dos tigres.

 

Não se deu conta das famílias gordas, equipadas de câmaras de filmar nos telemóveis, que o gravavam, sentado e com as mãos nos bolsos, nem se incomodou com os guinchos dos miúdos mal comportados. Quando os tigres pareciam dormir, avançou zoo adentro, passando pela aldeia dos macacos onde os habitantes se catavam mutuamente, um nepotismo símio, uma promiscuidade que lhe parecia familiar. Um dos edifícios da aldeia dizia “Hotel da Barafunda” e de repente, olhando para aqueles macacos, pensou quão parecido era o código genético dos macacos com o código genético dos humanos.

 

Invejou a placidez dos gorilas, deu folhas a girafas com línguas malabaristas, enterneceu-se com lémures, crias de leopardo e hipopótamos bebés. Junto do fosso dos leões pensou no que faria se uma criança caísse lá dentro. Estava outra vez com delírios de grandeza, os mesmos que o impediram de reconhecer que não tinha cabedal para ser primeiro-ministro. Esse não era o seu destino. Esqueceu o salvamento das crianças em apuros e foi ver o espectáculo dos golfinhos.

 

Ela era tratadora, muito bonita, aguentava mais de um minuto debaixo de água e dava beijos no focinho dos golfinhos. Os animais empurravam-na para o fundo da piscina e depois catapultavam-na para a superfície – um salto gigante acima da água que pôs o primeiro-ministro a bater palmas e a dizer “uau” como as crianças de infantário em visita de estudo na plateia.

 

Ele tinha cometido um erro e soube-o, com toda a certeza, diante do esplendoroso salto daquela mulher: não seria capaz de mudar o país nem de solucionar todos os anseios do seu povo. Não estava feito para aquilo. Sentia-se cansado, desiludido e encardido. Talvez o país lhe perdoasse se ele fosse para um alto cargo internacional, mas não entenderia que deixasse o poder assim, sem avisar, um desistente apaixonado por uma mulher que tratava de mamíferos aquáticos, uma mulher que ainda nem sequer conhecia. Os aliados no partido iriam desertá-lo, os inimigos dariam entrevistas para falar da irresponsabilidade do primeiro-ministro. Mas alguma coisa tinha de ser feita para não perpetuar o erro. Ele gostava muito de vê-la saltar acima da água.

 

Nessa noite, depois de informar o país da sua decisão, procurou informações sobre golfinhos na internet. No dia seguinte voltou ao zoo. Não sairia dali enquanto não soubesse o nome da tratadora. Caso fosse necessário mergulharia no tanque a meio do espectáculo. Já tinha feito coisas bem mais ridículas por causas menos importantes.         

publicado por Hugo Gonçalves às 12:11
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Este ano o Natal é lá em casa

Este ano o Natal é lá em casa. A casa dos meus pais, claro está. Aquela em que eu vivo é a nossa casa, a minha, da minha mulher e dos meus filhos. Quando eu era apenas filho também ia a casa pelo Natal, à do meu pai ou da minha mãe, onde viviam os meus avós.

O meu Natal é o regresso ao ninho. Onde me fiz homem, onde aprendi tudo o que de facto interessa. Pouco importa se a casa não é a mesma onde nasci e cresci. A casa é um local muito para além das salas, dos quartos, da rua, ou da cidade onde se encontra. É onde estão os meus, os meus eternos gurus, os meus heróis, aqueles a que eu pertenço e que me pertencem: os meus pais.

Juntamo-nos muitas vezes durante o ano, mas a noite de consoada é especial. Não porque a esmagadora maioria da minha família seja particularmente devota, não por causa da gritaria da rapaziada excitada com os embrulhos e as prendas que os entusiasmará por pouco mais de dez minutos, não pelas rabanadas, mexidos, aletria, ou mesmo pelo sagradíssimo bacalhau.

Dentro da euforia, das canções que permanentemente berramos, dos excessos etílicos, das histórias de sempre que repetimos para nos sentirmos mais seguros ou mais próximos, das eternas discussões acaloradas que acabam sempre com um berro do meu pai, dos comentários jocosos aos alfacinhas que trouxemos para a família e ao seu pouco civilizado hábito de comer o infame e seco peru, há sempre uma melancolia mais ou menos disfarçada.

Passei anos e anos sem entender o porquê dos olhos brilhantes do meu pai ou das lágrimas fugidias na minha mãe. Dos momentos de silêncio disfarçados com mais uma garfada na couve galega. Causavam-me estranheza aqueles instantes de tristeza profunda como se lhes faltasse um pedaço de alma, como se viajassem para um lugar longínquo. Não estão eles ao pé de quem mais amam? Claro que sim. Mas eles também tiveram um ninho, o tal espaço só deles e dos outros seus. Naqueles brevíssimos pedacinhos viajam para casa, para os que perderam, para os que estão noutras terras, para os que amaram e para os que continuam a amar. A minha angústia, a melancolia que também sinto vem de não lhes poder preencher esse espaço. Não posso, mas tenho todo o meu coração para lhes dar.

Bom Natal, mãe, Bom Natal, pai.

 

(crónica para a revista Life publicada em Dezembro do ano passado)

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:47
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

os clássicos

Guardo pela música erudita a mesma distância respeitosa que mantenho com todas as coisas que não compreendo. Nunca fomos devidamente apresentados, de modo que não me aproximo muito. Constrangido pela diplomacia tácita que se presume entre estranhos, há anos que me mantenho caladinho sobre um assunto, mas, depois de há dias me ter passado pela mão o enésimo programa da Gulbenkian, decidi que era de mais. Há muito ano que me cruzo com folhetos e programas eruditos e é sempre a mesma cantiga. Não. Chega. Um dia, um homem rebenta. Cá vai: há ali uma coisinha sórdida de pensão barata, não há? Umas cabeleiras de revista Gina, umas maquilhagens de telefilme erótico dos eighties, uma provocaçãozinha soft porn, não é?

 

Nada como experimentar, caro leitor. É folhear o próximo folheto gulbenkian/casadamúsica/óperadesãocarlos que venha com o jornal. Ou topar os anúncios nos suplementos culturais. Ou fazer uma breve incursão pelas capas dos discos na secção de música clássica da discoteca das redondezas. Está lá tudo. Chapadinho. Tirado a papel químico. Sim, porque, aparentemente, há um mesmo senhor que faz todo o marketing de toda a música erudita vai para século e meio. É tudo igual. Foto dos artistas, artistas vestidos para um casamento, elas de grandes vestidos de noite e decotes transbordantes, eles como se já tivessem nascido de smoking, elas de cabelo armado, eles penteadinhos como na primeira comunhão, ambos maquilhados para lá dos limites legais, a olharem para a câmara e a sorrirem, a sorrirem muito, aquele sorriso de anúncio mon chéri, ou do genérico do “Barco Do Amor”, quando os actores se voltavam para a câmara e pareciam surpreendidos com o facto de estar alguém a filmar. Às vezes, um maluco ou outro surge de mãos nos bolsos e laço desfeito, primeiro botão da camisa aberto, mas sempre a sorrir, o estupor, com ar negligé, como se alguém cuja vida é tocar Brahms desde os três anos de idade pudesse ser negligé.

 

Não dá. Não se acredita. Não haverá nem uma ideiazinha melhor? Um conceito, uma metáfora, uma subversão? Faz lembrar aquelas pastelarias que têm fotografias dos pratos, não vá uma pessoa não saber o que é um bitoque. Um tipo compra um disco do concerto para piano nº 2 do Rachmaninoff e, quem diria?, a capa tem um tipo apoiado num piano, de smoking, penteadinho e a sorrir como um figurante dum anúncio de dentrífico que faz maravilhas pela placa bacteriana.

 

Chega. Acabou-se. Ou bem que actualizam essa comunicação ou assumem, duma vez por todas, ao que vêm. A prima donna esborracha o pianista e a orquestra vira para a orgia.

publicado por Alexandre Borges às 02:27
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012

O Rei Peão

Parece que existe um cidadão finlandês que vive na China e dedica os seus dias a ensinar os condutores locais a respeitarem as passadeiras para peões. Num país onde os atropelos são de natureza vária e quase banais, isto requer coragem. O modus operandi do cavalheiro é simples: mal vê pessoas que esperam uma nesga de tempo para atravessar a rua, salta para cima da passadeira e coloca-se temerariamente em frente dos estupefactos condutores, que não viam uma coisa assim desde que um rapaz com um saco de plástico parou um tanque numa praça grande.

 

Este acto pedagógico e tresloucado dá que pensar, sobretudo agora em que ainda se vive na ressaca das «operações Natal» e «Ano Novo», onde as fatalidades nas nossas estradas são sempre tão trágicas como estúpidas. Apesar dos esforços de fiscalização ou de acções eficazes e criativas de educação dos condutores, como o faz a excelente ACA-M, tudo parece ser inútil. Mas a questão é esta: será que é tudo culpa de quem vai ao volante?

 

Não me parece. O peão nacional precisa de ir para a escola ou mesmo ser castigado. Digo-o com a consciência de que este discurso pode soar um pouco a Dr.Jekkil e Mr.Hyde, já que conduzo e também sou peão. Mas um rápido passeio pelas ruas de uma cidade (Lisboa, vá lá) chegará para perceber que o perigo também anda a pé. Num exercício simples – um trajecto de 25 minutos em que passei pelas zonas centrais da capital – consegui estabelecer algumas tipologias pedonais. Partilho-as agora com o planeta, certamente ansioso por conhecê-las.

 

1)      Os idosos kamikazes. Este é um grupo bastante comum. Reúnem-se em semáforos em que o sinal está vermelho para as viaturas e esperam pacientemente que o sinal mude para verde. Nessa altura, possuídos por um desvairado death wish, avançam muuuuuito leeeentaaaameeeente, entre o surpreso e o indignado. Os mais delirantes chegam a insultar os condutores, apontando para o sinal que exibe um vermelho para os peões.

 

2)      Os vanguardistas. Grupo de peões intelectuais que, desafiando séculos de ciência matemática, insistem em provar que a distância mais curta entre dois pontos é uma diagonal. Encontram-se sobretudo em grandes avenidas, onde tentam provar a sua teoria o mais longe possível de passadeiras e sinais.

 

 3)      Os legalistas. O humorista húngaro George Mikes dizia que os ingleses atravessavam a passadeira para peões como se transportassem a Magna Carta. Em Portugal, os peões legalistas atravessam ufanamente em qualquer lado como se isso fosse o seu direito constitucional.

 

4)      Os passeiofóbicos. Pertencem ao grupo dos que vendo um passeio completamente desafogado e livre de carros (o que vem a ser raro) preferem continuar o seu percurso pela estrada, de costas para o trânsito e em conversa amigável. Suspeita-se que alguns sofrem da ilusão de que fazem também parte do tráfego automóvel.

 

Há mais? Há, mas estou cansado. Descubra-os o leitor e sugira aqui na caixa de comentários. Eu tenho de me ir embora e circular com cuidado, não vá um pedestre abalroar-me a viatura.

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 11:00
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