Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

A falsa intimidade da internet

Peço desculpa pelo atraso. Tive uma semana agitada e resolvi aproveitar o feriado para passear pela cidade, no fim do Outono, pelo meio do frio. Durante a semana, para além do trabalho e do amor - esse peso constante do dia-a-dia -, assisti a duas apresentações de livros (adoro livros) e aproveitei para ver uns amigos. Confesso que a última coisa em que pensei foi escrever a sinusítica crónica a que me comprometi com os meus companheiros de blog e com o leitor. Há, também, os longos períodos passados no Facebook durante a semana, que nos estrangulam a reflexão profunda, dando lugar à frase simplória que acompanha o vídeo ou o artigo do Guardian. Mas, nada contra o Facebook. Tudo a favor. Grande ferramenta de distacção. Viva a distracção!

 

Porém, uma das minhas maiores preocupações da semana nasce de duas destas actividades que aqui vos descrevo: os livros e o Facebook. Uma das melhores formas de divulgação de um evento real é, hoje, o Facebook. A informação espalha-se como um vírus e chega a um grupo mais amplo de criaturas que, aparentemente, estão sedentas de conteúdos. Acredito que haja bem mais do que aparência. Mas, na verdade, a facilidade com que nos deixamos cair na superficialidade do conhecimento e da participação (já ninguém sabe o que isto é) é tal, que basta a breve sugestão de que adquirimos o conteúdo para a nossa imagem ficar salvaguardada.

 

Não compreendo, assim, como é que se pode dizer no Facebook que se vai a um evento e depois não aparecer. Perderam-se os valores. Dizer que se vai não é ir, porra. Sinto-me enganado. E quando um homem se sente enganado, alguma coisa tem de ser feita. Exijo a revolução pela sociabilização. Que vida tão agitada tem esta gente para se comprometer a estar presente e, depois, não dar sequer um arzinho de sua graça? (Breve exercício de retórica).

 

Em 2001, após a grande catástrofe, John Updike descrevia nas páginas da New Yorker o momento em que assistiu à queda das torres na televisão, no seu apartamento em Brooklyn. O escritor chamou a isso mesmo "a falsa intimidade da televisão". Ele estava ali. Quando olho para os condomínios da web, penso que podemos estar a viver uma nova era, a da falsa intimidade da internet. Amamos e odiamos, vamos a eventos, lemos e ouvimos mas, nunca de uma forma real e profunda. Não estamos em lado algum. É tempo, então, para fazer uma revolução: de sairmos, de facto, e participarmos na vida dos nossos; de estarmos presentes; de combater a superficialidade da existência. Não quero com isto dizer que estamos todos fechados em casa em frente ao monitor. Estamos, isso sim, a ficar com alma de monitor.

publicado por jorge c. às 23:44
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Rio Hard Core & Pulp Noir

Ray Cortese gostava de calor e de mulheres que se iam embora antes do amanhecer, mulheres entusiastas de quartos de hotel e de fumar na cama. Ray era um desses tipos duros como uma tira de couro onde se afia uma navalha. Praticou pugilismo em subcaves sem janelas, andou sozinho, a meio da noite, em bairros sem candeeiros públicos, foi atirador especial na guerra do Afeganistão. Cresceu nas ruas de Newark, filho de emigrantes portugueses, ágil nos esquemas, rápido de punhos, devorador de mulheres que cediam à sua mão, forte e precisa de atirador especial, segurando a cintura de um vestido, num canto escuro do bar, fumo nos olhos, álcool na língua, chamas nas virilhas.

 

Ray Cortese gostava de calor e de mulheres fáceis. Sentou-se numa esplanada da Avenida Atlântica, tirou o chapéu de palha – uma cópia tropical dos chapéus de detective que usava no hemisfério norte. Pediu um rum sete anos com gelo e uma rodela de lima. Enrolou um cigarro, cruzou as pernas, varreu todo o território em seu redor com olhos de matador profissional. Nenhuma daquelas pessoas suspeitava de como seria uma vítima dócil e sem hipóteses de fuga. Mesmo ao seu lado, estava um italiano balofo com olhos raiados de sangue e pele viscosa de suor. Tão bêbedo como um adolescente na sua estreia com tequila, o italiano babava para cima de uma negra de cabelos esticados até aos ombros. Seria tão fácil degolá-lo numa rua a caminho do hotel, dar-lhe um tiro na nuca com silenciador, oferecer-lhe uma cerveja com pozinhos que desfazem as entranhas e provocam gritos suínos de dor.  

 

Ray reformara-se, não matava mais ninguém, fosse em guerras, fosse num quarto de hotel nos Emirados Árabes, a troco de uma transferência para uma conta bancária numa qualquer ilha onde os narcos vão branquear dinheiro e os políticos vão esconder subornos.     

 

Ray passara por Lisboa nos primeiros meses da sua aposentadoria. Namorou uma fadista amadora, Rosa Maria. Não deu certo. Ela encharcava-se em vinho e oferecia-se aos guitarristas. Ray quis apontar-lhe uma arma, talvez dar-lhe uns tabefes, chegou a agarrá-la pelo pescoço. Mas Ray estava reformado e já não fazia mal a ninguém. Voou para o Rio de Janeiro.

 

Talvez viajasse pelo continente, costa a costa, do Rio a Santiago, só ele e um automóvel sem capota. Mas primeiro passaria algum tempo em esplanadas cariocas, fumando e bebendo, aproveitando a vista, deixando fortalecer a pulsão dentro de si, um crescendo musical, como uma orquestra, as cordas cada vez mais tensas, um constante rodopio de imagens de mulheres que se sentavam com turistas sexuais: pretas, brancas, sem peito, com bunda, safadas e tímidas, todas fazendo pela vida.

 

Ray não aguentava mais. Escolheu uma mulher jovem, longos cabelos de índia e boca de beijo na boca, lábios de negra e de fruta, corpo enxuto e olhos de quem gosta de aprontar. Ela quis sentar-se e pedir uma bebida. Ray perguntou:

 

“Como te chamas?”

 

E ela disse a primeira mentira da noite. No quarto de motel, ligou a rádio, sacou uma garrafa do minibar e disse a segunda mentira: “Vamos beber uma cerveja?” Ray não sentiu nada de estranho nas bolhinhas da cerveja gelada. Mandou-a tirar a roupa. Disse: “Fica assim, diante do espelho, agora toca-te. Mais devagar.”

 

Ray queria que ela tivesse prazer. Insistiu: “Estás a gostar?”

 

Ela não falou e veio sentar-se em cima dele, cavalgando-o sobre as calças, o púbis roçando no tecido. Ele agarrou-lhe os cabelos na base da nuca e disse:

 

“Quero beijar-te.”

 

“Então beija.”

 

Fade to black. O quarto escuro, uma nesga de luz entrando pela janela e alguém a bater na porta. Ray abriu os olhos e a cabeça estalou como um glaciar desmoronando-se sobre o oceano. Levantou-se, desequilibrou-se, mas caminhou para a porta.

 

"Quem é?

“Já passa da hora, senhor.”

 

“Que horas são?”

 

“Uma da tarde.”

 

Ray abriu a porta: “Onde é que estou?”

 

“Em Copacabana.”

 

Ray olhou para o quarto e viu a sua roupa no chão, a carteira aberta, sem cartões ou dinheiro.

 

“Filhadaputa.”

 

“Boa noite Cinderela”, disse o homem.

 

“O quê?”

 

“Você foi roubado, doutor. Boa noite Cinderela: é uma droga que deixa você apagado, sem memória, buraco negro. Quer que eu chame a polícia?”

 

“Não.”

 

“O motel está pago, o senhor pagou na entrada. Tem como ir para casa?”

 

Ray caminhou até ao hotel onde estava hospedado pela calçada de Copacabana. O sol a pique e o barulho de martelos pneumáticos, o bufar dos ônibus que ameaçavam atropelamentos e o corpo moído da droga, obrigaram Ray a entrar numa loja de roupa feminina com ar condicionado. Uma mulher trouxe-lhe um copo de água. Ray esperou alguns minutos, agradeceu e foi para o quarto de hotel planear o crime que interromperia a sua reforma.

 

Pediu o jantar pelo telefone. Filet com fritas, mal passado, e arroz com feijão. Bebeu uma cerveja gelada, tomou um duche e prendeu o revólver entre a base das costas e as calças.

 

Nas ruas de Copacabana encontrou ainda o mesmo barulho, mas agora distorcido pelo álcool servido nos botecos, suavizado pelas coxas das moças e pela maresia que saía da praia como nevoeiro para se colar na roupa e diminuir a visibilidade.

 

Ray sentou-se na mesma esplanada da noite anterior. Reconheceu caras e bundas, voltou a ver os turistas que procuravam carne fresca e se chegavam à frente com a carteira sempre que aparecia uma conta, subsidiando romances tropicais com os euros das suas pensões, ordenados e cartões de crédito.

 

Foi fácil a Ray saber onde morava Cinderela. Pagou, falou curto, não ameaçou, mas ficou claro que alguém se podia machucar caso um endereço não fosse escrito num guardanapo. Uma das mulheres alertou: “Vai não, esse lugar é perigoso.”

 

Ray entrou num táxi e mostrou a morada ao taxista, que se recusou a fazer aquela corrida: “O senhor me desculpe, mas aí eu não vou não.” Ray entrou noutro táxi e atirou uma nota de cem euros para cima do banco do pendura.

 

Uma hora depois entrou numa rua cheia de barracos, na zona norte do Rio. Havia gente num boteco feito de madeira e chapas de zinco. Não eram dez da noite quando Ray saiu do táxi e viu Cinderela grelhando linguiças num braseiro, dois miúdos descalços brincando na terra, e uma televisão gritando reality shows no interior do barraco.

 

Ray sentiu a coronha do revólver. Olhou para as crianças. Cinderela não hesitou um instante. Caminhou na direcção de Ray e pregou-lhe a maior bofetada na história da indignação das putas: “Como você se atreve a vir na minha casa. Meus pais estão lá dentro. Me respeite.”

 

Ray afastou a mão da pistola e caminhou para trás. Ela disse: “Passe lá amanhã, pelas nove, que eu lhe devolvo tudo.”

 

No dia seguinte Ray vestiu-se como se para o baile do liceu. Foi sentar-se na esplanada. Ia esperar por ela. Dependia de uma puta ladra para, muitos anos depois do primeiro tiro, voltar a acreditar nalguma coisa. 

publicado por Hugo Gonçalves às 16:41
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

O Mestre Telê Santana

Em vez da historieta introdutória seguida do corpinho intermédio e da tirada final, mato já a crónica: viva o amor.

O Telê Santana, nos anos 70 e 80, era unanimemente considerado o melhor treinador brasileiro. Ainda hoje é considerado um dos maiores treinadores brasileiros de todos os tempos, mas para o adepto comum de futebol foi o tipo que perdeu o campeonato do mundo de 82 com o melhor grupo de jogadores jamais reunido.

Há quem despreze o bom do Telê por ter perdido o campeonato, eu idolatro-o por ter tido a coragem de o perder. Sim, senhor, coragem. A coragem cega, irracional, suicida que o amor dá. Vejo o Telê naquele personagem, dum livro e dum autor que não recordo o nome, que sabia estar a ser envenenado pela sua amada e mesmo assim bebia sofregamente o veneno que ela lhe dava todas as noites.

Pois claro, o grande Telê não sabia que o Júnior não era defesa esquerdo. Também não sabia que era impossível ter um meio campo com o Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico. Pois, pois. O homem que ganhou o campeonato mineiro para o Grémio retirando a hegemonia duma década ao Inter, o mago que transformou os italianos do Palmeiras numa equipa de respeito, que fez do São Paulo o melhor time do mundo, não sabia que nem que a vaca tossisse ganhava o Mundial com aquelas estrelas todas. É, o Santana era ceguinho. Não era, com certeza, ele que estava no banco quando o Brasil por um triz não se apurou para Espanha com exactamente os mesmos jogadores com que se apresentou na prova. Por favor. Ás tantas era um clone dele a orientar a equipa em 86, a tal que chegou à final com um conjunto de jogadores que nem para os calcanhares da de 82. Vão mas é lamber sabão.

O homem sabia que ia perder. Deve ter perdido noites inteiras de sono, angustiado, a antecipar os apupos, os insultos, as críticas. Que podia ele fazer? Faltar ao respeito aos deuses do futebol e atirar o Júnior para o banco, ou o Falcão, ou o Sócrates, ou o Zico, ou mesmo o Toninho? Vê-los ali todos juntos não valia bem um campeonato do mundo ? O Telê sabia que sim. Não há taça, torneio que compensasse um passe rasgado do Falcão, um nó cego mágico do Zico, uma revianga do Júnior, uma correria – sempre de costas direitas – do Sócrates. Ali, como se estivessem de novo num pelado a brincar ao futebol.

O Telê amava demasiado o jogo para nos privar de tudo aquilo. Há mais, muito mais, no mundo do que a vitória e a derrota. A arte, a beleza, valem milhões de vezes mais que uma taça, e o Mestre sabia-o.

Viva o grande Telê Santana.

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:59
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o escrevedor

O Pedro é um herói pessoal. Por conhecê-lo, na sua basta carne e algum osso, sei que não foi romanceado, amaciado por biógrafos, desinfectado de contradições. Está tão cheio delas como de livros as estantes que tem em casa, e mais os discos, a revista aberta – casualmente na crónica por ele assinada –, os filmes vistos ou por ver, debaixo da televisão que transmite um jogo que põe frente a frente o Futebol Clube do Porto e outros fulanos quaisquer.

 

O Pedro é o tipo que fez o que todos os outros arranjam desculpas para adiar: mudou de vida. Ali à beira dos 40 anos, com a doença a querer puxá-lo cobardemente para o lado de lá, meteu os pés à parede e começou de novo, com a folha em branco. Arriscou expor-se ao ridículo de se tornar um quarentão principiante, perder dinheiro, cometer erros, descobrir se tinha talento que chegasse para patrocinar a sua paixão, confrontar-se com o fracasso. Deixou os negócios e foi aprender a escrever da única forma possível: escrevendo. Sujeitando-se ao escrutínio de quem é complacente com jovens líricos e impiedoso com calmeirões ruidosos em busca do tempo perdido.

 

Venceu. Acertou o compasso entre quem é e a sombra de quem queria ser. E fê-lo sem perder nada pelo caminho. Pelo contrário. Continuou a ter a porta aberta para os amigos, a mesa cheia para repastos e conversas, uma história na ponta da língua a propósito de qualquer assunto, uma recordação, a espontaneidade de enfant terrible que disfarça o trabalhador sério que se prepara e documenta como poucos.

 

Sobretudo, debaixo da personagem tagarela e vaidosa, permaneceu o matulão companheiro, cheio de ternura e atenções, cultor de amizades e heróis literários, incertezas e questionamentos que o hão-de continuar a trazer à suave superfície da felicidade.

 

A vida é mais fácil com tipos como o Pedro por perto. O mínimo que um gajo pode fazer é não cometer a ingratidão de a deixar passar sem nunca lho ter dito.

publicado por Alexandre Borges às 01:20
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011

socializações de pub

Sentemo-nos no pub para mais um passo rumo à integração na cultura britânica, à nossa frente uma enorme caneca. Ainda não é hora do almoço, mas o jogo de futebol já começou, enquanto o estômago se esforça por se habituar a estes horários etílicos. A ementa recomenda o tradicional assado de domingo e a tradição manda acompanhar um bife com molho de menta. Compremos antes um pacote de batatas fritas. A dúvida persiste: sabor a vinagre ou a cheddar e cebola caramelizada. Gostos não se discutem.

 

Tenho percorrido o bairro à procura de um pub local ao qual poderei chamar amigo. Algo como o café de esquina onde com um simples aceno à entrada se dá início à preparação do nosso café personalizado.

 

Já passei por salões distintos com cadeirões, lareira e conversas importantes, pelos locais de celebração da adolescência dos trintões e os inevitáveis Smiths e “Common People” no ar. Também já entrei nos antros da cultura dos excessos estudantis e nos estabelecimentos familiares onde várias gerações passam um domingo tradicional. Sempre acompanhados pela cerveja. Cada vez menos inglesa, é certo, agora substituída pelos sabores de overseas, mas sempre uma presença incontornável nos mais diversos tipos de convívio.

 

Hoje sentei-me no Quinn´s, gerido por descendentes de irlandeses chegados a esta cidade no início do século XX, como é comprovado pelas fotografias e os quadros na parede. Cheira a madeira e muitos anos de história e histórias para contar. O ambiente é mais duro, há marinheiros idosos com tatuagens e heróis da classe trabalhadora. Encontro um skinhead, mas não consigo perceber se é de extrema-direita ou anti-racista. Ouvem-se os cânticos de alguns apoiantes mais entusiastas do Arsenal, o clube mais importante da zona norte. O Chelsea aqui é detestado, como sinónimo de riqueza, nova e antiga. O Arsenal, por seu lado, encarna a figura do romântico perdedor, uma equipa que dá valor a um futebol estético, filosófico, mas que perde sempre nos momentos fulcrais. Acaba por ser fácil escolher quem apoiar, umas pitadas de idealismo não fazem mal a ninguém.

 

Quando o jogo acaba, já é quase noite lá fora e reparo como ainda não me consegui habituar à rapidez com que o dia é consumido. Almoça-se e quando estamos a acabar o café a luz é desligada. Escurece e começa-se logo a pensar nas compras para o jantar. Ou no próximo pub por descobrir. Porque ainda há tantas aulas de socialização britânica por completar.

publicado por Ricardo Correia às 20:39
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Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Laundry Blues

Modificado daqui

 

Espero não levantar suspeitas se vos dissser que lavar roupa é uma rotina com uma periodicidade suficientemente espraiada para não se tornar entediante. Tem também tempos de espera que servem a leitura. E há um elemento de regeneração no processo, o que me enche de esperança. Com a roupa lavada parece que tudo volta a valer a pena e não ficaria espantado se me dissessem que deixar os antidepressivos passa muito pela escolha de um bom amaciador.


Mas o lugar e o tempo também contam. Tenho ainda presente o efeito quase hipnótico das revoluções dos tambores das máquinas de uma lavandaria parisiense, algumas conversas que por lá troquei com os outros expatriados,  a força da natureza que era a mulher com a missão de limpar o chão e fechar a porta, e a série de vezes em que o tal encontro romântico  acidental na lavandaria não se concretizou. Aqui em Nova Iorque [escrevi isto  em 2007] há menos convívio, porque a lavandaria é na cave, e menos ansiedade, porque depressa aprendemos a esperar pouco dos vizinhos. Não me dou com ninguém e os instantes de alguma intimidade só ocorrem por acidente. Como quando trouxe um babete perdido na minha trouxa de roupa. Ou quando descobri uma meia minúscula entre os lençóis. Constatei então que a roupa de bebé tem especial vocação para fugir de casa e levantei uma hipótese: são os próprios bebés a colocar, com perícia, velcro nas suas peças de roupa, fazendo bandeiras de sinalização dos seus babetes e garrafas com mensagem das suas delicadas peúgas. Azuis e cor-de-rosa. Menino ou menina, todos se devem aborrecer com o  mimo resultante do excesso de desejo acumulado de parentalidade que caracteriza os casais contemporâneos. De resto, este texto é uma sublimação esse desejo de prole, para evitar ser baleado no Bronx no momento em que tento raptar um pretinho. Mas outros menos cuidadosos do que eu, ou sem vagar para a escrita, incorrem mesmo em comportamentos moralmente dúbios.


Encontrei um exemplo inesperado há uns dias, precisamente quando deixava a lavandaria. Num dos placards de anúncios, alguém anunciava (traduzo): "Adopção: casal sem filhos pretende adoptar uma criança com quem partilhar um futuro radioso. Pagamos as despesas médicas e legais. Vamo-nos ajudar mutuamente". Não sou ingénuo ao ponto de ignorar aquilo que algumas pessoas estão dispostas a propor para conseguir uma criança e o que outros estão dispostos a aceitar para ganhar umas massas. Porém, na minha inocência, nunca pensei poder ver tal anúncio num prédio de classe média de Manhattan. Não imagino nenhum dos meus vizinhos disposto a conceber uma criança por caridade ou para pagar as contas. Enfim, o mais provável é tratar-se de um anúncio para  as amas e mulheres-a-dias. Ou então é aquilo a que os técnicos chamam - creio -  uma campanha massificada. O certo é que me incomodou a hipocrisia ou o pragmatismo daquele "ajudar". Cheguei até a ter saudades dos tambores das máquinas de Paris, daquela desaceleração que parece um rewind e me transportava para os dias em que a peer pressure não era tão literalmente darwiniana. Talvez por isso tivesse aberto o frasco do amaciador já no elevador, encostado o meu nariz e inspirado com alguma intensidade. Um fulano que entrou nesse preciso momento lançou-me um olhar reprovador, mas uma das vantagens de viver num prédio no estrangeiro sem me dar com os vizinhos é a total ausência de vergonha no elevador, nos corredores, no átrio, nas escadas e nos patamares.

publicado por Vasco M. Barreto às 11:57
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

A Leveza de um Peso Pesado

 (Tem sido muita coisa junta - entre novas empreitadas literárias e colaborações dispersas - e por isso não consigo escrever esta semana uma croniqueta. Para a semana volto a abrir o Word para o embate. Enquanto isso não acontece, publico aqui um texto editado há uns mesitos na "Ler" sobre  Onésimo Teotónio Almeida que gostava de partilhar com os sinusíticos leitores).

 

 

 

 

 

O tempo em Lisboa está um pouco como o estado da Nação: pouco convidativo e manhoso. Vou ter com Onésimo Teotónio Almeida ao Hotel Dom Carlos, onde está hospedado, para com ele conversar a propósito do livro “Onésimo, Português Sem Filtro – Uma Antologia”, que compila textos seus de obras várias e de diferentes géneros – da crónica ao conto. Conta-me como é que surgiu a ideia do volume: “O livro reúne uma selecção de crónicas, diacrónicas, estórias ou contos e prosemas de cinco livros e resultou de um simpaticamente insistente convite da Cristina Ovídio, do Clube do Autor, que se ofereceu para fazer ela mesmo a selecção”. Na altura da proposta, Onésimo conheceu duas pessoas que, por coincidência, sem se conhecerem, se puseram a ler os seus livros. “Gente culta e muito lida, jovem mas amadurecida, o filósofo João Brás e a médica Ana Bernardo, e ocorreu-me propor à editora que a antologia fosse feita também com as sugestões deles. Foi, aliás, quase só esse o meu contributo, para além de um breve prefácio. Nem o título do livro é meu”. Pergunto-lhe como é que lidou com este olhar quase virgem sobre as suas intimidades. Responde assim, franca e espontaneamente: “Olhe, hoje são amigos. Pode parecer tratar-se de amigos feitos à pressa e não deve haver maneira de fugir a esse labéu, mas a verdade é que são amigos que muito prezo. Portanto, de três leitores fiz três amigos. Nos dias que correm, é uma taluda”.

 

A edição é uma espécie de Bíblia Onésimiana no registo não académico e não teórico. Ou por outra: está aqui o Onésimo da escrita, como ele próprio um dia apelidou, “em mangas de camisa”. O Onésimo dos textos bem humorados sobre Portugal e os portugueses, o Onésimo das prosas poéticas e intimistas, o Onésimo das ficções sobre a L(USA)lândia, o Onésimo que tem sempre uma nova história para contar com o seu nome. Conta-me três. Fico com uma, menos por avareza do que por falta de espaço: “Na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, o Miguel Real, que escreveu um amabilíssimo posfácio sem eu ter que lhe pagar nada por adjectivo, usou várias vezes o palavrão ‘onesimiano’. Todavia na sessão pronunciou-o sempre como ‘onemesiano’. É frequente. Por causa de mim frequentemente insultam o meu querido Nemésio”. A segunda aconteceu num programa da TVI. “Eu aguardava na recepção que me mandassem subir para uma entrevista com o João Paulo Sacadura, no seu ‘Livraria Ideal’, quando chegou uma doçura de moça que com sotaque nortenho me perguntou: É o senhor Osónimo?”.

 

Osónimo. Osínoro. Donésimo. Já foi chamado de tudo. Brinca com o assunto, por uma vocação, assumida desde muito cedo, para não sucumbir ao peso das seriedades excessivas: “Quando era jovem tinha dificuldade em conter o riso em situações sérias na altura em que via as pessoas assumirem posições corporais e terem gestos muito afectados e nada naturais porque na nossa cultura a seriedade exige um teatro corporal”. Cedo percebeu que para respirar não é preciso usar fraque: “Eu achava essas posturas ridículas porque tenho uma tendência natural para agir com naturalidade”.

 

Naturalidade é uma característica primordial em Onésimo. Não se pense que é característica única e que resume por completo o autor e a figura. Ouço-o falar com informalidade naquele hall de hotel e volto a achar o que sempre achei. O autor de livros tão diferentes como “Que Nome é Esse, ó Nézimo?” e “De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias” é um peso pesado que respira com leveza. Se quisermos, um peso pesado leve. Funde a seriedade e o rigor das universidades da  profissão e da vida e a leveza de quem há muito topou que a – abre aspas - existência não é para levar demasiado a peito.

 

Miguel Real, no posfácio, sublinhou que é um “homem dividido, do ponto de vista sentimental, entre a América da sua realização e o Portugal da sua formação". E entre uma escrita académica, fruto de um pensamento mais balizado e solene, e uma escrita descomplexada na qual pode exercer a ironia e o sarcasmo. Aceita isso ou vai já interpor uma acção judicial? “Dividido, não sei. Prefiro pensar que sou ‘somado’. Tenho os dois lados em mim e sinto-me bem. Há facetas boas nas duas vertentes e convivo com elas sem drama. O mesmo se diga relativamente à escrita propriamente académica e à crónica. Estou à vontade na praia e num jantar solene, apesar de a indumentária ser mais apertada”. Sobre a ideia de recorrer aos tribunais, responde desta forma: “Sim. Pelo menos devia. Como é possível ler tanto e fazer um retrato que apanha em cheio os traços de fundo como ele fez a meu respeito? Ele anda a enganar as pessoas fazendo-se passar por autor de tanto livro e tanto escrito quando isso é impossível porque estamos sempre a encontrá-lo por aqui e por ali a fazer palestras e sabemos que viaja imenso. Suspeito por isso que se trata mesmo de ludíbrio”. Ainda com a mão na massa do humor, remata com a seguinte conclusão, jogando com o pseudónimo e quem está por detrás dele: “O Miguel Real é a personagem pública que fica com a fama, mas quando ele sai deixa em casa o Luís Martins a trabalhar como um mouro. E esse sim é que escreve tudo”.

 

Ainda não havíamos falado da questão da terra açoriana, elemento fundador e determinante da sua identidade. Para onde quer que vá, leva consigo os Açores onde nasceu, ainda hoje bem vivos em si - nas histórias, nos amigos, no mar da infância. Num dos seus prosemas mais conhecidos, "Prosema ao Mar", confessa: "fora da vista de água eu sinto que me afogo". Pergunto-lhe se é mesmo forte essa apetência marítima ou se a constante evocação dos mares representa um cliché que os ilhéus têm de levar a sério se não ninguém os considera. A observação chega sem espuma: “Passei uns dias em Março nos magníficos desertos de Utah e fiquei deslumbrado. É verdade que avistava com frequência o rio Colorado. Já me tinha deslumbrado em tempos com o Grand Canyon. Mas admito que a prolongada falta de mar não me faz bem à saúde. Será cliché? Pode ser. O teste seria passar tempo de mais longe do mar e isso ainda não consegui fazer. Talvez um dia, quando não puder andar. Nessa altura respondo-lhe”.

 

O hotel até aí calmo torna-se subitamente ruidoso por causa da conversa entre uma guia com uma voz demasiado entusiasmada e dois turistas. O que nos transforma subitamente noutro tipo de seres insulares, como quase todos nós de vez em quando nas nossas vidinhas de todos os dias: almas rodeadas de ruído. A situação sugere-lhe um comentário: “Particularmente quem vive nas grandes cidades, como Lisboa, que adoro visitar, o barulho cansa-me. Mas Portugal tem no Alentejo profundo, na Beira, em recantos do Minho e Trás-os-Montes, nos Açores, em particular nas ilhas menos povoadas, espaços ideais de paz. Por mim, privilegio esses lugares com sacos de livros para ouvir os outros em silêncio”.

Onésimo conhece tantas histórias e anedotas que podíamos pensar que as colecciona em casa, numa pasta gigante – que um dia deixará à descendência desnorteada, sem saber o que fazer com tanto papel e papelinho. Nega a sugestão e explica porquê: “Eu não colecciono anedotas. Já o fiz e desisti quando em 1970, em Lisboa, me roubaram uma mala onde estava um ficheiro com cerca de duas mil. O que acontece é que eu ouço-as e, na conversa, por um processo natural de associação, recordo-me delas”. No fundo tudo não passa de um fascínio pelo humano: “Acho fascinante a vida e os tipos humanos que ela permite. Gosto de estórias por serem algo fora do comum, do cinzento, do banal. A minha sorte é poder lembrar-me delas sem esforço. E conto-as por impulso natural, que muitos considerarão – e justamente –  autêntico vício”.

 

E o vício lá veio. Quase no final da conversa, Onésimo exerce essa generosa pulsão de improvisado narrador. Provavelmente empurrado pelo tempo melancólico, faço-lhe uma pergunta meio nonsense de aprendiz de pastelaria, como quem anda à procura de uma luzinha num dia cinzento: “Qual é o sentido da vida, Onésimo?”. Sem querer, o professor e cronista põe-me no lugar, sublinhando que é uma pergunta frequente dos seus alunos do curso sobre A Formação das Mundividências. Fico caladinho e ouço: “Porque muitos alunos se matriculam no curso esperando respostas para perguntas semelhantes a essa sua, incluo entre as leituras do programa um excerto da autobiografia de Tolstoi precisamente sobre o sentido da vida. Eles debatem-no durante uma aula e, no final, eu digo-lhes: ‘Esta leitura tem um fim pedagógico’”. Toma lá que já almoçaste. A história, essa, tem, de forma visível, a assinatura de quem a conta: “Um ocidental foi para o Oriente à procura de um famoso guru. Passou dificuldades sérias no percurso, sofreu acidentes vários na escalada de uma montanha onde lhe indicaram vivia o guru. Ia mesmo perdendo a vida, mas lá chegou ao fim de meses à presença do dito guru. Fez-lhe então a pergunta: ‘Qual é o sentido da existência?’. E o guru, muito serenamente: ‘O sentido da existência é uma chávena de chá’. O ocidental não conseguiu esconder o seu desapontamento: ‘Então eu venho de tão longe atraído pela sua fama, gasto tempo e dinheiro, arrisco mesmo a minha vida para chegar até junto de si e lhe fazer a grande pergunta humana para ouvir em resposta que afinal o sentido da vida é uma chávena de chá?!’. E o guru, sem perder a serenidade: ‘Então o sentido da vida talvez não seja uma chávena de chá’”.

 

Talvez não, talvez não. A única certeza, pelo menos aquela que podemos assegurar no instante é a de que a conversa entre a guia e os turistas aumenta, misteriosamente, de tom – já se gritam localidades e destinos como se não houvesse amanhã e quem sabe século seguinte. Digo-lhe de megafone imaginário na mão: “Às vezes dá vontade de dizer ou escrever: ‘Eu até sei qual o sentido da vida mas não o consigo ouvir com este ruído todo’”. Onésimo Teotónio Almeida, português sem filtro e com um sentido apurado da contingência disto tudo, remata o bate-papo com uma nota meio a sério meio a brincar, conhecida especialidade da casa: “O ruído tem uma vantagem: não nos deixa ouvir as respostas dos outros e assim não temos outro remédio senão contentarmo-nos com a nossa”.

publicado por Nuno Costa Santos às 16:23
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

A cidade, às vezes

A cidade é uma puta. A cidade é open source. Na minha cabeça, uma canção desenha-a melancólica, lenta e silenciosa. Cá de cima, de onde a vejo, as luzes definem o espaço e pouco mais. E ali estamos, os dois, convergentes. Adaptados. Longe do ruído da movida, dos putos em Santos, das greves, dos fados, do vírus, das bichas histéricas, dos machões subtis, do lixo e do quotidiano. Cá de cima, a cidade em pleno descanso, como eu a quero, obedecendo ao som lânguido da canção.

 

No fundo da sala, uma mulher de pernas elegantes murmura sexualmente por cima de um piano transparente. Ela canta Summertime. É Dezembro, agora, e está calor cá dentro. É 1 de Dezembro e os espanhóis foram embora. A sala está praticamente vazia e a cidade também. A mulher continua a cantar. A cidade continua a moldar-se e a ficar cada vez mais vazia. A sala mantém-se. Quando é que a cidade descansa? Quando nós quisermos. Quando lhe dermos descanso e a olharmos em silêncio, com cobertores, e ela ficar quente como na canção Summertime, em Dezembro.

 

A mulher canta, agora, a última. Dou o último gole. Um último e amargo gole, com a angústia do fim momento. Na janela, os olhos reflectidos a projectar a cidade, a verem-na como gostariam que ela fosse, às vezes. A mulher ri-se, cúmplice com o piano transparente que ensaia uma melodia doce. A angústia volta a desaparecer. A cidade ronrona. Ali, de cima, na janela, ao lado do piano transparente e da mulher de pernas elegantes que murmura canções. Um último fôlego. And i say to myself, what a wonderful world. Acabou.

publicado por jorge c. às 11:29
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