Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Poemas de Shawn Corey Carter por Jay-Z

Nunca ninguém me perguntou porque é que gosto tanto de hip-hop. Ainda bem. Há quem ache que é uma pancada, houve quem achasse que era uma fase, e há meia dúzia de pessoas com quem partilho a afinidade. Mas se tiver que explicar porquê, sou capaz de me defender com os versos do Jay-Z da mesma maneira que um gótico justificará a cor de eleição com alusões a Baudelaire ou Rimbaud. Tanto eu como o gótico arriscamos fazer figuras tristes (mais o gótico) em nome de um universo que tem tanto de simbólico, figurado e caricatural como de sério e culturalmente relevante. Vamos a isso, então. 

 

A poesia é todo um compêndio de cabecinhas ruminantes e imaginativas acerca de problemas, da ausência deles, dos problemas dos outros, de coisas vazias, de coisas entupidas de significado, do que se passa ou do facto de não se passar nada. Às vezes é tudo isto ao mesmo tempo, como o comprovará uma pesquisa no Google por teses de doutoramento dedicadas à presença do não-metafísico na dimensão material da obra de João Cabral de Melo Neto. Se estiverem prestes a desistir deste texto, pensem antes numa daquelas séries televisivas que descrevemos como sendo "multi-camadas". Exigem um segundo, um terceiro, e um quarto visionamento. E as recompensas lá vão chegando, reforçando o nosso dom para o auto-elogio contido. Com Jay-Z, e o hip hop em geral, acontece um pouco a mesma coisa. Se aquilo - a música de pretos - nos bater à primeira, e se prestarem atenção às palavras, vamos descobrir um novo idioma, que pode ou não ser exclusivo do rapper. Pode também ser um idioma absolutamente idiota. Ou pode ser um idioma indecifrável que pura e simplesmente soa bem. Quem nunca citou Herberto Helder por causa das suas qualidades telúricas, que atire a primeira pedra. Qualidades telúricas são algo que o leitor encontra sempre que um escritor faz alusões a coisas próximas dos nossos pés, mas não as escreve por forma a podermos interpretá-las honestamente por aquilo que são: um vestígio ecoante de nada. Ah, e filisteu é o tipo que diz estas merdas.

 

Mas bom, estas coisas também acontecem no hip hop. Umas são mais divertidas do que outras. A poesia de Jay-Z, quando lá chegarmos e falarmos a mesma língua que ele, é surpreendentemente reconfortante e próxima do comum mortal. Se tivermos sido toxicodependentes, vamos desejar ter comprado droga a um tipo tão porreiro. Se formos desbocados na forma como verbalizamos sentimentos em relação às pessoas e ao mundo em geral, vamos encontrar alguém com um nível idêntico de bazófia. Se formos milionários, vamos descobrir que bebemos o mesmo champanhe ou que somos vizinhos no Lago Como. Finalmente, se gostarmos de banda desenhada, vamos descobrir um novo super-herói preto. Em todas estas narrativas há uma grandiloquência algo embaraçante e desligada do modelo de Estado-Providência no Sul da Europa (RIP), mas existe também uma micro-narrativa que é a nossa, por muito distantes que estejamos da vivência do poeta. E estamos. Aliás, como qualquer poeta proprietário de um Maybach que se preze, Jay-Z praticamente não fala de ninguém a não ser de si. Mas há momentos absolutamente gloriosos na narrativa egocêntrica de Shawn Carter que importa destacar e incorporar modestamente na nossa própria história. Seguem-se três deles.

 

If your having girl problems I feel bad for you son
I got 99 problems but a bitch ain't one

I got the rap patrol on the gat patrol

Foes that wanna make sure my casket's closed
Rap critics that say he's "Money Cash Hoes"
I'm from the hood stupid what type of facts are those
If you grew up with holes in your zapitos
You'd celebrate the minute you was having doe
I'm like fuck critics you can kiss my whole asshole
If you don't like my lyrics you can press fast forward

 

Jay-Z é um homem que tem 99 problemas. As mulheres não são um deles. É mais ou menos o oposto de Rui Pires Cabral, que tem 99 problemas e todos eles parecem estar relacionados com amores. Nestes 10 versos, Jay-Z lamenta os problemas amorosos de Rui Pires Cabral e desde logo esclarece que não padece do mesmo mal, resgatando o ouvinte do habitual mergulho num poço sem fundo. Os 8 versos seguintes são metáfora do ghetto atrás de metáfora do ghetto, mais fáceis de compreender se soubermos que gat é uma pistola, foes são os inimigos, money cash hoes é o rótulo a que colam qualquer preto bem sucedido no rap norte-americano, hood é o sítio onde o preto viveu, e whole asshole é a totalidade do ânus de quem discordar do Jay-Z. Quem não gostar, diz-nos, pode passar à frente. 

 

Showed love to you niggas
You ripped out my heart and you stepped on it
I picked up the pieces
Before you swept on it
God damn this shit leaves a mess don't it
Shit feelin' like death don't it
Charge it to the game
Whatever's left on it
I spent about a minute
Maybe less on it
Fly pelican fly
Turn the jets on it
But first I shall digress on it
Wasn't I a good king?

[Kanye West]
Maybe too much of a good thing, huh?

[Jay-Z]
Didn't I spoil you?
Me or the money, what you loyal to?

[Kanye West]
Huh, I gave you my loyalty

[Jay-Z]
Made you Royalty and royalties

[Kanye West]
Took care of these niggas lawyer fees

[Jay-Z]
And this is how niggas rewardin' me

[Kanye West & Jay-Z]
Damn

 

A poesia é métrica. É, de facto, mas essa métrica é também oralidade. Agora peçam a José Tolentino Mendonça, muito honestamente, um dos meus poetas preferidos a seguir a Jay-Z, Notorious B.I.G. e Ghostface Killah, para recitar um poema que acabou de escrever. É possível que o senhor trema como se estivesse a dar a primeira missa na Igreja de Santa Isabel. A grande diferença entre Tolentino e Jay é que este último não deverá vir a editar um "Poemas de Jay Z por Luís Miguel Cintra". É o homem que escreve e é ele que vai cuspir aquilo a seguir. Digo cuspir porque os rappers descrevem o acto de recitarem os seus poemas como "spit verses", uma imagem forte cuja origem desconheço, mas suspeito não se encontrar na época vitoriana. O que acontece nesta faixa de colaboração entre Kanye West e Hova (alcunha de Jay-Z, somos amigos) atinge proporções épicas a partir do minuto e quarenta e seis segundos. Os versos falam dos traidores a quem Hova pagou os charros, as garrafas de Cristal e as custas judiciais durante anos (toda a gente tem um familiar assim). Mas a forma como Kanye completa os pensamentos de Jay-Z e a coisa evolui a partir daí para a tríade loyalty-royalty-royalties é toda uma masterclass de poesia. 

 

I got this Spanish chica, she don't like me to roam
So she call me cabron plus marricon
Said she likes to cook rice so she likes me home
I'm like, "Un momento" - mami, slow up your tempo
I got this black chick, she don't know how to act
Always talkin out her neck, makin her fingers snap
She like, "Listen Jigga Man, I don't care if you rap
You better - R-E-S-P-E-C-T me"
I got this French chick that love to french kiss
She thinks she's Bo Derek, wear her hair in a twist
My, cherie amor, t£ est belle
Merci, you fine as fuck but you givin me hell
I got this indian squaw the day that I met her
Asked her what tribe she with, red dot or feather
She said all you need to know is I'm not a ho
And to get with me you better be Chief Lots-a-Dough
Now that's Spanish chick, French chick, indian and black
That's fried chicken, curry chicken, damn I'm gettin fat
Arroz con pollo, french fries and crepe
An appetitite for destruction but I scrape the plate
I love
Girls, girls, girls 

  

Jay-Z editou o tema "Girls Girls Girls" numa fase da vida em que ainda não adormecia ao lado de Beyoncé, o que ajuda a compreender a paleta cultural e amorosa aqui exposta. Não será o seu melhor poema, mas é um dos mais divertidos. E alarga-nos as vistas. Num país como o nosso, onde o marialvismo tem Rodrigo Moita de Deus e Victor Espadinha como representantes credíveis, o sexismo mundividente demonstrado por Jay-Z assume um tom inspiracional que, se estivermos dispostos a ouvir com atenção, fará de nós o João Garcia da discoteca mais próxima, em Lisboa, Miami ou Lloret Del Mar. Basta abrirmos o coração e aceitarmos as palavras de um poeta maior.

publicado por Vasco Mendonça às 23:46
link | comentar | ver comentários (1)

Breve história verdadeira sobre um portuga no Vidigal

O jogo da primeira mão entre Portugal e Bósnia passava na televisão de um bar no Vidigal. Os locais preferem dizer comunidade em vez de favela. O Vidigal fica bem perto da Rocinha, há até um caminho entre as duas comunidades. Três homens viam Cristiano Ronaldo na TV, havia cervejas nas mesas ao ar livre e uma vista para as ilhas Cagarras boiando no oceano. O meu amigo, habitante do Vidigal, entediado com o zero a zero, contou-me então a história de Nuno – nome fictício por razões que perceberão em seguida.

 

Nuno era menino de paitrocínio, tinha vindo para o Rio estudar ou estagiar ou fingir que procurava um emprego. Grande parte das divisas enviadas pela família portuguesa era gasta em sextas-cheiras, que passaram a ser também segundas-cheiras, terça-cheiras e por aí adiante, uma viagem para o abismo cocainómano do playboyzinho lisboeta. Nuno mudou-se para o Vidigal. Tinha um aluguer mais barato e estava perto dos seus abastecedores. O meu amigo contou que, certo dia, chegado de férias em Lisboa, subiu o morro e deu de caras com Nuno, metralhadora apoiada no braço, branco e magrelas e estrangeiro como mais ninguém naquele negócio. Nuno tinha entrado para o tráfico.

 

Nos botecos, nas calçadas, entre soldados e locais, rolava já a piada: se alguma coisa sujasse, o português seria o primeiro a ser entregue aos policiais. O meu amigo decidiu alertar Nuno. Disse-lhe que pensasse bem nos seus hábitos nasais e que ponderasse se fazia algum sentido um menino de Lisboa andar de fuzil nas favelas do Rio de Janeiro. Nuno não estava preparado para disparar aquela arma. Pirou-se sem beijinhos ou abraços, durante a noite, e deixou as suas coisas para trás. A casa foi pilhada pelos bandidos, que passaram a vestir a roupa de Nuno.

 

O jogo terminou zero a zero. A selecção aborrecida no Vidigal. O meu amigo disse-me: “Ainda podes ver aí bandidos com camisolas da selecção portuguesa e do Benfica que roubaram na casa do gajo.” Um desses traficantes matou dois bandidos da Rocinha num baile funk. O meu amigo estava lá. Ouviu os disparos. Os corpos, conta-se no Vidigal, foram pendurados de cabeça para baixo, o sangue drenado. Em seguida foram cortados em pedaços. Terminaram como comida para porcos. O tipo que os matou nunca mais mostrou a cara no Vidigal. O meu amigo diz que há um vídeo no Youtube onde ele aparece com a camisola da selecção portuguesa. Fui ver e é verdade. Mas não tem cara de bandido. Desci o morro e entrei numa van a caminho de Ipanema. Dias depois o Vidigal foi ocupado pela polícia. Ninguém morreu e a vida continua.

publicado por Hugo Gonçalves às 15:36
link | comentar
Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Eu, luxo? Deus me livre

Estava o George Best, fantástico jogador de futebol, numa suite, no melhor hotel do Mónaco, acompanhado de duas moçoilas recentemente vencedoras dum concurso mundial de beleza e acaba o champagne. O bom do George telefona para o serviço de quartos e pede mais Dom Perignon. Chegam as garrafas, e o empregado reconhece o jogador dos seus tempos de infância em Belfast. Olha para os destroços duma noite, digamos, tempestuosa, as raparigas nuas, o Best meio bêbado e sai-se com esta: “Ó meu querido amigo, quando é que a tua vida  começou a correr mal?” Conta o George Best nas suas memórias que andou a matutar naquilo uma série de dias. “Então, estava eu num sítio magnífico, com duas beldades na cama a comer e a beber do bom e do melhor, e o tipo que me veio trazer mais bebidas, que ganhava num ano o mesmo que eu num dia diz-me que a minha vida estava a correr mal?”

Pois é, isto do luxo, bons hotéis, excelentes restaurantes, vinho de primeira, carros caríssimos, iates, é tudo uma grande porcaria. Não há ninguém que goste dessas coisas péssimas. Os ricos detestam. Passam horrores por serem obrigados a viver com elas. Basta ler uma entrevista numa dessas revistas que ninguém compra mas que se vendem como pãezinhos quentes para podermos constatar isso: “Odeioooo o luxo. Caviar? Não, detesto isso. Gosto mesmo é de castanhas piladas”. Carros? Pois, tenho este Ferrari, mas do que eu gostava mesmo era do meu Diane a cair de podre. Ai o que eu gostava da minha tenda e dos meus fins de semana na praia de Pedrouços, agora tenho de navegar nesta porcaria de iate e passar férias em hotéis de cinco estrelas em praias paradisíacas. Ai que saudades da minha barraca na Pedreira dos Húngaros.”

Os pobres então é que nem lhes falem de luxo: “Eu? Luxo? Uns desgraçados esses gajos. Sempre cheios de problemas. Ele é divórcios, ele é filhos a ter acidentes com bólides, com brutais dificuldades para decidirem se hão-de ir fazer sky a Gstaad ou jantar no melhor restaurante de Nova York. E depois a maçada que deve ser tratar daquelas casas todas, dos barcos, das jóias. Organizar festas. Ui, Deus me livre”.

Luxo? Os tipos que editam revistas sobre luxo que me perdoem, mas o que lhes terá passado pela cabeça para dedicarem papel e mais papel a uma coisa que toda a gente odeia? Apresentem-me uma pessoa que diga gostar de luxo e eu, que claro está também detesto, faço o sacrifício de morar num duplex de 600 m2 em Manhattan, andar de Rolls Royce com chaffeur e de comer trufas ao pequeno-almoço. 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:11
link | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

noticiário pessoal

Foi no dia das últimas legislativas. O país mediático parado, o real entre uma coisa e outra, eu e uma trupe de amigos reunidos no restaurante do costume para acompanhar a noite eleitoral. Conversas monotemáticas, piadas de ocasião convertidas em posts, desconstruções de leituras dos resultados, observações sobre o futuro próximo, celebrações em geral. Entre tudo isto, constantes toques de telefone. Choviam chamadas e mensagens acerca das votações daqui e dali, parabenizações e lamentos, números em primeira mão e trocas várias de galhardetes, etc. Nisto, a enésima mensagem. Era de uma amiga com quem não me recordava de alguma vez ter discutido política. Incrédulo, julgando que a importância daquelas eleições teria sido tal que até a teriam movido a ela, dou com uma foto do filho de meses sentado no seu cavalo de madeira sobre a legenda: “O meu cavaleiro.”

 

Já tinha respondido aos amigos que deixavam o governo, felicitado os que entravam pelo círculo longínquo, trocado graçolas com abstémios políticos, só para aquela mensagem não tinha resposta. Vinha do espaço sideral e nem sempre temos a lucidez de saber falar essa língua das estrelas e doutras coisas extraordinariamente normais.

 

De igual modo, fui, na altura, incapaz de verter o assunto em crónica. Roçaria, sem dificuldade, a demagogia.

 

Meses depois, a história continua aqui. Acabei por responder ao postal de viva voz, mas, cá dentro, ele permanece pendurado no centro da minha noite das eleições. O cavaleiro dela, meu afilhado, no topo dos resultado nacionais, unanimemente eleito grande vencedor do serão. E quanto dias mais passam e os noticiários parecem encravados num mesmo groundhog day, menos temo a demagogia. Que importa quem ganha as eleições quando se tem um cavalo de pau?

 

Há pouco tempo, no dia em que caiu o governo grego ou o italiano ou em que Trichet se reformou ou em que o conselho europeu não deu em nada ou a cimeira do G20 fez o mesmo – já não me lembro, um dia importante desses em que nada acontece mas parece mesmo que aconteceu – o avô deste miúdo era internado num hospital às portas da morte. Nesse mesmo dia, enquanto o velho se preparava para ir, o puto deixava o baloiço e dava os primeiros passos, no seu jeito safado para roubar as atenções.

 

A história, claro, continua até hoje. Lá vai andando aos tropeções, recorrendo, sempre que pode, ao velho gatinhanço que domina com notável jogo de cintura. A mãe continua a mandar-me fotografias do cavaleiro apeado. O avô ressuscitou e está de volta a casa. O padrinho borrifou para as acusações de demagogia. Os noticiários continuam exactamente na mesma e tudo quanto podemos fazer é aceitar duma vez por todas que as coisas importantes nunca passam lá.

publicado por Alexandre Borges às 01:43
link | comentar | ver comentários (3)
Domingo, 13 de Novembro de 2011

Patrícia

Ciúme: uma abordagem prática (5)

 

Na presença de alguém mais velho do que ela, nunca se queixava da idade. Era só uma das suas múltiplas formas de empatia silenciosa, nem sempre bem entendidas. Sem palavras, o estúpido de cabeça oca pode passar por génio taciturno e o tímido pelo calculista que com o olhar todos transforma em cobaia.  Mas o silêncio de Patrícia era genuinamente bondoso e só por uma vez se aproximou de alguém sem curiosidade inocente. O casamento tinha terminado de modo traumático e estereotipado: numa improvável entrada em casa a meio da tarde de um dia útil, surpreendera-o com uma amiga comum diante da lareira e apenas esperou que fizessem biombo da pele de vaca onde se deitaram para logo de lhe anunciar que tinha até ao fim do dia, pois  o que dele ainda estivesse por lá de noite seria despejado pela conduta do lixo. A raiva aguentou-a durante uns dias, até se sentir invadida por um desespero profundo. Estava tão no limite físico do seu choro, que quando soube da morte dele num acidente de carro não conseguiu acrescentar mais nenhuma manifestação de tristeza. Mas ganhou a coragem necessária para ir ao enterro, onde se cruzou com a mãe dele. A senhora estava tão desfeita que parecia uma carpideira zelosa e Patrícia de imediato se sentiu na obrigação de a animar. Nunca tinham sido próximas, mas também não havia aquela antipatia latente tão comum entre a sogra e a nora. Nos dias seguintes, foi visita regular na casa da senhora. Tomavam chá juntas. Depois passou a aparecer também ao serão e viam televisão até a primeira cabecear de sono. Numa dessas noites, por estar a chover, Patrícia aceitou o convite para dormir em casa da senhora e a partir desse momento começaram também a tomar o pequeno-almoço com regularidade. E a almoçar fora com frequência. E a telefonarem-se mais de uma vez por dia. Era um convívio sem anedotas, sem risos e em que apenas a senhora chorava. Patrícia ouvi-a falar das tropelias do filho quando era criança e era incapaz de trazer informação à conversa, limitando-se a consolar a senhora. Bastava-lhe sentir a dor daquela mulher para não poder expressar a sua própria mágoa. E quando as amigas lhe diziam que tinha sido melhor para ela que ele tivesse morrido, Patrícia concordava, mas não pelas mesmas razões. As amigas invocavam uma espécie de justiça divina e a superior serenidade das viúvas quando comparadas com as mulheres atraiçoadas; Patrícia só pensava no privilégio que era poder privar com alguém ainda mais infeliz do que ela.

 

 


 

 

 

Abordagens prévias: 12, 3, 4.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática.

publicado por Vasco M. Barreto às 11:44
link | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 12 de Novembro de 2011

Correrias educadas na cidade

Avisaram-me que Londres corria muito, nunca parava de correr no anonimato. É verdade, ao final do dia sente-se uma ânsia nos olhares das pessoas, uma ânsia de chegar a casa. Andam determinados como se já tivessem perdido muito tempo. Como se conhecessem um sítio melhor.

 

Numa cidade com esta dimensão, o tempo é um bem demasiado valioso, há poucos minutos para doar, e os dias são sempre precedidos de uma enorme organização. Por isso, muitos escolhem a sua casa em função do local do trabalho, poupando assim desnecessárias horas em transportes. Na grande maioria das vezes opta-se também por ir apenas aos cinemas, aos ginásios e aos pubs que se situem numa área próxima. Um jantar num restaurante na zona sul quando se vive no norte? Parece muito complicado, é melhor aceitar o convite para o encontro a três paragens de distância. (Se calhar, até os amigos que decidiram ir viver para o outro lado da cidade passam a ser bloqueados nos facebooks da vida).

 

No centro, assiste-se a um remake, mais aburguesado, do filme A Saída dos Operários da Fábrica dos irmãos Lumiére, quando por volta das 17 horas massas de engravatados e saias-casaco marcham para a estação de metro mais próxima. Muitos deixam os fatos no trabalho, vestem uma roupa desportiva e vão a correr para casa, tornando desnecessária a ida ao ginásio. Por mim passam filas organizadas das pessoas com as direcções estudadas e os passos mecânicos, dividindo-se em faixas no passeio e replicando os comportamentos dos automobilistas vizinhos. Peões sonhadores com as mãos atrás das costas são rapidamente engolidos e convertidos.

 

Esmagados nas carruagens do metro, não se sente, no entanto, a agressividade que acompanha Nova Iorque, por exemplo. Graças à tão falada fleuma britânica, as pessoas conversam em tom de café, apesar de terem um braço estranho atravessado entre elas. Empurram-se educadamente e pedem desculpa. Nas plataformas, os chefes da estação conseguem controlar as multidões enquanto vão contando piadas ao microfone. No supermercado, os operadores de caixa não têm pressa e gostam de nos perguntar como está a correr o nosso dia, enquanto o meu gestor de conta fala mais de futebol comigo do que de dinheiros.

 

Apesar da correria, consegue-se sempre respirar descontracção e alegria (muitas vezes etílica). Afinal, em regra sai-se bastante mais cedo do trabalho do que em Portugal. Mas é verdade que a determinadas horas do dia a cidade corre. Mas corre sem perder a contenção nem queixar-se do stress. Corre para aproveitar melhor o dia. E corre para o pub para esquecer que corre.

 

 

 

publicado por Ricardo Correia às 13:08
link | comentar
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

O Monstro da Comédia

Como é que vai o humor em Portugal? Bem, obrigado. Está em forma e recomenda-se. Nunca houve tanto espaço para personalidades humorísticas tão diversas. Digamos que há lugar para todos, do mais popular Fernando Rochismo ao mais alternativo nonsense, picado de vídeos dos mais obscuros humoristas americanos e ingleses. O problema, sabemo-lo, é que o país também está assim. Portugal tornou-se num país voluntariamente humorístico. Com a mesma generosa amplitude de tendências. Há tanta gente a fazer humor por cá – entre humoristas profissionais, políticos, talhantes e pessoas com páginas abertas no Facebook – que o género pode um dia explodir por saturação.

 

O monstro está à solta – e, alimentado por uma variedade tão grande de cidadãos, dificilmente definhará tão cedo. Como digno monstro que é, começou por impressionar a populaça e acabará por provocar o mais gigantesco dos bocejos. Porquê? Porque fazer rir é, a maior parte das vezes, surpreender. E não há surpresa possível se toda a gente anda a fazer o mesmo com tonalidades diferentes. Antigamente havia o palhaço da turma, a figura que animava as hostes escolares, cinzentonas a acabrunhadas. Hoje o palhaço da turma é o tipo que não tem graça nenhuma da turma. É o facto de não ter graça que o torna tão original e único. E, paradoxalmente, tão engraçado.

 

Chegámos ao ponto. Vivemos o instante em que não ter graça e não tentar ter graça se tornou uma originalidade hilariante. Haverá personagem mais engraçada do que um resistente anti-humorista (versão actualizada do anti-fascista)? Haverá sujeito mais cómico do que aquele que no meio da galhofa fica seríssimo, resistindo, quase até ao limite da loucura, a embarcar no trocadilho mais à mão? Haverá pessoa mais delirante do que a que enche os seus territórios nas redes de sociais de sentenças sem qualquer ponta de humor e que perante o precipício da paródia com negros assuntos da actualidade dá catorze passos atrás?

 

Continuamos a ter uma falsa imagem de nós próprios. A melancolia já passou por aqui, sim – mas agora está atravessada de uma galhofa tão abundante e nova-rica que corre o risco de se tornar ineficaz. O país anda a precisar de um Hélio Imaginário da seriedade. Alguém tão desconcertante e ingenuamente sisudo, tão originalmente quadrado, que se torne por isso mesmo num surpreendente fenómeno internacional. Ficamos à espera para colocar o devido like.

 

(Publicado na "Printed Blog" de Setembro).

publicado por Nuno Costa Santos às 23:39
link | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Juízes em causa própria

Faço uma caminhada de 20 minutos todos os dias para o trabalho. Vivo, por estes dias, num bairro grande e funcional. Entre o bairro e o meu local de trabalho a rua transforma-se. Da segurança dos passeios, do comércio e dos serviços, passa-se, quase sem dar por isso, para o pânico de uma via feita preferencialmente para os carros. O passeio sereno dá lugar a uma caminhada cautelosa.

 

Se eu não reparasse nesta diferença teria, com toda a certeza, surpresas desagradáveis todos os dias. Ou então, estaria sempre a reagir. É isto que as pessoas fazem quando são surpreendidas pela mudança: reagem.

 

É natural que, no bairro, os carros respeitem mais os peões e que estes se sintam mais confortáveis e seguros. A tendência é a da prioridade dos peões. Porém, noutras vias, há uma indefinição das prioridades. Os carros acabam por assumir o domínio. Não compreendendo a mudança, os peões optam, pelo que tenho visto, por se tentar impor; desafiam os condutores lançando-se nas passadeiras como suicídas. Não me interessa falar, aqui, do incumprimento de regras tão básicas como as do limite de velocidade mas, antes, da incapacidade de nos adaptarmos à mudança e de reagirmos com uma atitude conflituosa.

 

É certo que as regras existem para garantir um cumprimento mínimo da civilidade. Contudo, nas zonas cinzentas, deveríamos ser mais flexíveis e evitar o conflito. A reacção por impulso reflecte o medo. O conflito torna-se o nosso melhor aliado porque ele define a linha entre a nossa vitimização e a diabolização do outro. Preferimos ser juízes em causa própria do que mediadores da nossa própria convivência.

publicado por jorge c. às 22:28
link | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

Monsieur Camus e o amigo português

No aniversário do Cristo Redentor, o Rio foi tomado por um caso grave de nevoeiro londrino e até as senhoras putas, que não viam um palmo diante dos olhos em Copacabana, recolheram a casa. Pecou-se menos nessa noite. O Redentor devia estar contente, afinal de contas era o seu aniversário, ainda assim resolveu cobrir-se de nuvens, e não apareceu em nenhuma das celebrações que a cidade organizou em seu louvor.

 

No outro dia, nas notícias, anunciaram que uma mulher grávida caiu de um nono andar e sobreviveu. Entrevistaram-na na cama de hospital. Estava bem, o filho impecável.

 

E há uma semana, por exemplo, um amigo viu o Saci Pererê enquanto bebia cachaças e comia uma feijoada num restaurante do Jardim Botânico. Tinha a certeza que era ele, com aquele barretinho vermelho e sorriso trocista, aparecendo e desaparecendo entre as sombras da mata. Além disso só tinha uma perna, o que reforça o testemunho do meu amigo. Tudo bem, era noite de Halloween e havia gente mascarada, mas o que lhe quero dizer é que nesta cidade acontecem coisas estranhas. Por isso, não me espantei muito quando lhe pedi fogo e ouvi esse sotaque franciú e me dei conta que estava a falar consigo. Também vi no Facebook que esta semana fazia anos. Veio ao Rio para festejar a data?

 

(Foi só então que me calei. Ele já tinha terminado o primeiro copo de cachaça. Eu oferecera a primeira rodada. Ele tocou com a língua nos dentes e um silvo disparou na direcção do garçon, que olhou, esperando o pedido. Ele levantou dois dedos. O garçon perguntou: “Salinas?”. Ele disse que sim com a cabeça.)

 

O Waldislei é fanático do Vasco da Gama. Trabalha aqui há vinte anos. Você gostava de futebol, não gostava?

 

(Eu insistia em utilizar o pretérito imperfeito, como se ele estivesse morto. Mas ele estava ali, fumando cigarros de enrolar, golas do casaco levantadas, um homem bebendo e comendo carne seca na mesa do Caranguejo, um boteco de Copacabana. O meu desconforto não estava relacionado com os pormenores sobrenaturais do episódio. Se me encontrava nervoso e falador e pronto a embebedar-me mais, foi porque em tempos fui grouppie de Camus – o primeiro escritor que achei que podia fazer um road trip com Steve McQueen e que, descobri mais tarde, morreu num acidente de carro.)

 

E se fossemos a outro lugar?

 

(Entrámos na orla e caminhámos pelo calçadão. O vento desapareceu assim que passámos pelo Arpoador, o mar abrindo-se aos barcos que esperavam para entrar no porto da prosperidade brasileira. Lá ao fundo, apesar de desfocados pela maresia, estavam o Hotel Sheraton e a favela do Vidigal. Fomos avançando em silêncio, amparados entre o som das ondas e o galopar do trânsito. Camus desapertou o casaco e decidiu ir pela praia, onde arregaçou as calças e tirou os sapatos e as meias. De cigarro na boca entrou mar adentro, molhou-se até aos joelhos e saiu da água directamente para o quiosque onde pediu duas cervejas de lata. “Bem geladas”, disse, tentando imitar um carioca da gema. Sorria, por fim, o escritor. Sorriu com o barulhinho bom da cerveja assim que o dedo abriu a lata. Sorriu ao ver passar um rapaz de bicicleta que puxava uma garota de patins. Sorriu diante de um jogo de vólei de praia entre equipas femininas com calçõezinhos que encolheram na máquina de lavar.)

 

Se quiser podemos ir até ao Vidigal, um amigo meu vive lá, bebemos mais umas cervejas, vai rolar uma festa lá perto. Tudo tranquilo, malta do bem. Há uns quantos franceses a viver no Vidigal.

 

(Fez-me a primeira pergunta da noite. Seguiram-se várias enquanto caminhávamos entre o posto 9 e o posto 11.)

 

“Que festa é essa?”

É uma festa numa casa antiga, uma vista animal, alto jardim, e paga-se para entrar. É organizada por gente de lá, da comunidade, mas é frequentada por muitos estrangeiros.

 

“Caminhamos?”

 

Podemos ir de van.

 

“O que é uma van?”

 

São veículos para quinze pessoas que por vezes levam vinte. Basta levantar o braço e a van pára para te apanhar ou largar em qualquer lado. Tudo isso com a emoção da velocidade e o privilégio de ouvir as conversas telefónicas dos outros passageiros. Só custa dois reais e trinta. Do Leme à Rocinha. Da Barra ao Centro. E algumas até oferecem ar condicionado.

 

(Entrámos numa van e Camus quis pagar ao cobrador que, com metade do corpo enfiado na janela, gritava para a calçada: “Vidigal, Rocinha, tem lugar sentado”. O escritor recebeu o troco e pôs-se a olhar pela janela. Decidi calar-me. Tinha prometido que não pediria um autógrafo, que não me armaria em stalker da Feira do Livro, que não declamaria a primeira frase de “O Estrangeiro” nem juntaria as mãos gratas, informando que “A Peste” me levou a ser escritor. A fase em que eu tinha sido grouppie de Camus não era apenas resultado do pretensiosismo do rapazote adolescente que descobrira um escritor. Eu admirava Camus como admirava o Homem-Aranha, o Sherlock Holmes ou algum detective privado numa série de TV. Mais do que escrever, queria ser como Camus – o sucesso precoce e o destino trágico dos ídolos têm um enorme poder de atracção nas mentes e nos corações jovens. Eu queria ser Camus e fumar aqueles cigarros e usar aqueles casacos e aparecer naquelas fotografias a preto e branco.

 

A van deixou-nos na entrada do Vidigal. Saltámos para a confusão, cheirava a churrasquinho e a gasolina. Expliquei como íamos subir o morro.)

 

Eu pago o mototáxi. Não se importa de ir sem capacete?

 

“Quais são as probabilidades de ter um acidente mortal duas vezes?”

 

Tem razão.

 

(Cada um saltou para a sua moto e os nossos condutores aceleraram morro acima, desviando-se de outros veículos e animais e pessoas, produzindo em mim – e aposto que em Camus - essa contradição entre o medo da queda e a voragem pela velocidade. Entrámos na rua onde vivia o meu amigo português, comprámos cervejas de garrafa no bar do Carlão e gritei para a janela.)

 

Rodrigo, Rodrigo, sou eu. Ele deve estar a dormir ou a tomar banho, vamos até ao fim da rua, tem ali um mirante, vai-se passar com a vista.

 

(O escritor acendeu novo cigarro e afastou um mosquito da cara. Eu disse: “Cuidado com o dengue.” Ele disse: “Não será um problema tendo em conta a minha condição.” E outra vez o silêncio seguido de um sorriso. Ele abriu uma das garrafas, usando o isqueiro para fazer saltar a carica, e bebeu e sorriu outra vez, os seus olhos voando sobre o Rio, sobre as luzes do calçadão que delimitam a costa, sobre a praia branca onde ainda há pouco ele tinha molhado os pés.)

 

Eu não disse que era uma vista do cacete? Vamos lá ver se o meu mano Rodrigo já abriu a pestana.

 

(Em pouco tempo chegaram mais pessoas, estrangeiros e locais, uma mistura de idiomas e sotaques, um festa antes da festa, mais cerveja e música, o escritor dançando com uma mulata, ouvindo histórias sobre o tráfico, bebendo mais, ouvindo mais histórias, sempre atento e com a mesma alegria que mostrara no mirante. Eu olhava para ele e era como se visse um menino sábio, uma criatura capaz de deslumbrar-se ainda com tudo mas detentora de clarividência e de paz, como se estivesse drogado ou tivesse super poderes ou fosse exactamente aquilo que eu gostaria de ser. Saímos de casa. Rodrigo não trancou a porta – “Aqui ninguém rouba nada”. O meu amigo portuga, que abandonara o corporate business de S. Paulo para montar a sua micro empresa na favela do Vidigal, começou a chinelar pela calçada e explicou ao escritor a origem do nome da festa onde íamos. “Lamparina. É a festa do Lamparina mas a maioria das pessoas que lá vai não faz ideia de quem era o Lamparina. Um dia foi dormir e não acordou.” O escritor perguntou-lhe a causa da morte. “Olha, porque se cheirava desde os 14 e já tinha uns 40. Mas cheirava como quem fuma cigarros.”

 

Passámos em frente a um bar – balcão, três mesas e seis cadeiras na rua – e alguém comprou alguma coisa ao mulato com uma bolsinha a tiracolo. O mulato, na sua esquina, era guardado por dois brothers com metralhadoras. O escritor cumprimentou toda a gente, parecia habitante da comunidade, vizinho de longa data. O Rodrigo disse-me: “Este teu amigo é cá um ninja.”

 

Entrámos na festa com um desconto conseguido pelo Rodrigo, que passou parte da noite a conversar com o escritor e a apresentá-lo aos convivas. Eu perdi-me. Havia muita gente nos dois níveis do jardim. Também me lembro de um longo corredor, com areia e velas, que ia desembocar no banheiro feminino. Encontrei o escritor nesse corredor.)

 

Não lhe faz confusão estar numa festa, na favela, no meio de gente que podia estar numa festinha em Berlim? Não o faz pensar? Não estou a dizer que está bem ou mal, mas não o faz pensar?

 

(Eu queria mostrar ao escritor que reflectia sobre as coisas, que me preocupava com a existência dos outros, que tinha interesses. Ele olhou para o lado e uma mulher, negra e magra como uma pantera que faz ginástica, saiu da casa de banho para os seus braços. Deixei-os a sós. E mais uma vez ele sorriu. Sobre a festa posso dizer que tinha muitas mulheres bonitas e bem vestidas e encantadas pela música e pela vista. O escritor dançou, bebeu e flirtou. Já era quase de manhã quando voltei a falar com ele.)

 

Vou andando.

 

“Eu vou também.”

 

Descemos o Vidigal a pé, a comunidade amanhecia e já cheirava a café e a pão na chapa. Meninas sofisticadas e meninas hippies desciam também, saídas da festa, cruzando-se com o ruído dos mototáxis e com as negras a caminho do trabalho na zona sul. O escritor entrou na primeira van que viu. Descemos na praia de Ipanema quando o sol, da cor da lava, aparecia sobre a pedra do Arpoador. Disse que tinha de ir ao supermercado. O escritor sacou de uns óculos escuros e perguntou: “Está aberto?”)

 

Está aberto 24 horas por dia. Tenho de comprar pão e água. Não beba água da torneira. Quer dizer, você deve poder beber e comer tudo que nada lhe faz mal. Quer alguma coisa?

 

(O escritor tinha a serenidade de um guerreiro Jedi. Queria falar com ele sobre as favelas, sobre o Rio, sobre a matéria-prima literária a cada esquina. Queria que ele tivesse orgulho de mim. E foi então que ele falou como se tivesse escutado os meus pensamentos. “Não te preocupes. Gostei muito desta noite. Não te preocupes tanto e com tantas coisas. Eu estou muito bem.” Ele sabia mais que eu, entendia mais que eu, está em algum lugar de lucidez que eu ainda desconheço. Bastou olhar para ele e percebi que não tinha de explicar-lhe nada sobre favelas ou sobre as idiossincrasias do Rio. Ele deslizava acima do meu conhecimento, fluido e silencioso como um jacto telecomandado.)

 

Podemos ir ali ao corredor dos doces? Tenho uma cena inacreditável para te mostrar. Quando vi isto pela primeira vez os meus olhos quase saltaram como nos desenhos animados. Vê bem isto e tripa. Ovomaltine para barrar no pão. O Brasil no advento da inovação. Felicidade pura e à colherada.

 

“É isso aí.”

 

(O escritor abriu o frasco, enfiou o indicador lá dentro, e lambeu-o.)

 

“É isso aí.”

 

(E depois voltou a sorrir.)

publicado por Hugo Gonçalves às 18:06
link | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Inquietação

Há uma canção dos James que diz que é necessário saber a verdade para acreditar. Disparate.

Nunca conheci crença que precise de qualquer tipo de  verdade. “Felizes os que acreditam sem terem visto”, dizia Jesus Cristo.  As crenças só são realmente fortes se desprezarem a verdade. Ou melhor, a verdade e a crença são as faces da mesma moeda. Nem há verdade sem crença, nem crença sem verdade. Se pensássemos serem realidades intrinsecamente diferentes estávamos a dar um carácter divino ao julgamento humano. Como se cada um de nós fosse capaz de conhecer a verdade ou o seu significado.

A verdade não é mais que uma opinião sobre as coisas. E nós dependemos dessas opiniões como do sol, do ar, da água, da comida. São elas – e são infinitamente mais do que imaginamos – que nos permitem ir sobrevivendo sem enlouquecer ou sem colocar em causa tudo o que aparentemente é fundamental para a nossa existência. Vivemos tão mais sossegados quanto mais firmes forem as nossas opiniões. Precisamos que sejam sólidas, à prova de contestação. Chegamos ao limite de não as testar, de não as discutir, de não nos aproximarmos de quem as possa pôr em causa. O risco é demasiado grande. Uma gota de dúvida transforma-se rapidamente num imenso rio de incerteza capaz de derrubar o dique que julgávamos impenetrável.

Ai dos que duvidam, dos que ousam olhar para o outro lado, dos que teimam em procurar, dos desassossegados. Esses apenas encontrarão mais perguntas, mais entroncamentos, mais e mais portas, mais e mais angústia, mais e mais  inquietação.  São esses, porém, que amo. Os que o Gide pensava serem os únicos em quem confiar: “Believe those who are seeking the truth. Doubt those who find it”.

 


publicado por Pedro Marques Lopes às 00:53
link | comentar | ver comentários (2)

Autores

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Últimos posts

Frangos & galetos

...

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Arquivo

Dezembro 2020

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever

Em destaque no SAPO Blogs
pub