Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

O meu coração ainda dói de ontem à noite


O país acordou com olhos de letra a vencer amanhã e um orçamento de guerra no colo. Podemos tropeçar de ternura pelo nosso país, mas ontem levámos uma rasteira. O trocismo seria menos grave, claro, se a maioria de nós não estivesse, às 20 horas de ontem, a tentar levantar-se. O país faz hoje lembrar uma casa de banho acabada de lavar: cuidado com o chão escorregadio. 

Olhamos para 2014 e não vislumbramos o fim da crise, ou a descontinuação dos sacríficios. Chocámo-nos durante décadas com os rituais de sacríficio auto-impostos por tribos distantes, narrados na televisão. Lembra-se dos filipinos vergastados em nome da religião, ou dos africanos com pedaços de bambu enfiados na boca? Agora imagine um português entre a espada e a parede. Melhor: um português trespassado pela espada a tentar escalar a parede. É você no segmento de curiosidades de um telejornal alemão.

Se por acaso vir uma luz ao fundo do túnel, desengane-se: quando lá chegar, vai encontrar o ministro Vítor Gaspar a delirar débitos e créditos alumiados por um manancial de boas intenções que não seremos capazes de engolir, porque nenhum de nós - nem mesmo o ministro - visualiza o final feliz desta história. Quanto à contabilidade da alma, essa, vai agora incorporar um passivo bem mais doloroso: já éramos um povo dado à nostalgia e ao fado, mas ainda não estávamos preparados para um sentimento tão totalizante e absoluto. Vamos todos sentir falta da vida que levámos até aqui.

Resta-nos manter a única atitude dignificante: sermos poor but sexy, e lutarmos ainda mais afincadamente por nós, pelos nossos, pelos nossos projectos, e por aquilo em que acreditamos, enquanto novas ideias, cabeças e mentalidades não tomam de assalto os centros de decisão deste país e lá fora. Apesar de tudo, ainda acredito que vai correr tudo bem. Só não me parece que, quando lá chegarmos, venhamos a agradecer aos decisores de ontem.
publicado por Vasco Mendonça às 11:28
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Punk love

Lili era uma menina de faculdade com tatuagens: no gémeo esquerdo (uma trepadeira com flores vermelhas) e nas costas (uma geisha decotada com peito avantajado). Roger era malandro da praia, dizia que tocava numa banda e carburava maconha com o entusiasmo do Santo Ofício acendendo fogueiras. Lili andava de skate, os pés descalços na lixa da prancha e as havaianas nas mãos. Ele, com corpo de capa de Men’s Health, corria sem T-shirt, exibindo a definição da sua anatomia para gringas que lhe compravam roupa, peruas infiéis no terceiro casamento e menininhas deslumbradas diante do poder do sexo com homens mais velhos.

 

Roger não ia para novo e o seu corpo, apesar do exercício diário, dava os primeiros sinais de decadência: duas cáries, um menisco maltratado por causa das peladinhas, problemas de estômago, uma unha encravada e catarro constante resultado de cigarros, whisky nocturno e do ar condicionado sempre a mil durante todo o ano. Lili, por sua vez, e apesar dos joelhos esfolados em várias quedas de skate, tinha o poder miraculoso das jovens teen: a constante renovação das células da sua beleza. Recuperava das ressacas sem sofrimento, arriscava-se em half pipes, competia com os rapazes na velocidade.

 

Roger não era homem de uma mulher só. Mas quando conheceu a lisura da barriga e do púbis de Lili, a tendência dela para ler Mônicas e Cebolinhas após um orgasmo, a despreocupação com a integridade do seu corpo, começou a agarrar-se ao vigor daquela mulher com atitude de menina radical inquebrável. Uma deusa dos rolamentos.

 

Roger foi abandonando todos os casos temporários de cama e as mecenas femininas do seu estilo de vida. Talvez aquilo fosse amor.

 

Lili apareceu certa tarde com os cotovelos rasgados e um lanho no lábio. Mesmo assim atirou-se para a cama e começou a despir-se, esticando a coluna como os gatos, atiçando a fome de Roger. Ele, em vez de despir a sua sunga gigolô, foi buscar água oxigenada e algodão. Soprou nas feridas e disse: “Você tem que se cuidar.” Ela respondeu: “Não gosta de um pouquinho de dor, não?”, e beliscou-lhe os mamilos.

 

Roger não quis sexo nesse dia. E sempre que Lili aparecia com mazelas da sua actividade sobre rodas, ele mostrava-se mais enfermeiro que devorador. Foi enchendo o armário da casa de banho com produtos farmacêuticos, analgésicos, gaze, pomadas cicatrizantes. Pedia-lhe: “Por favor, não estrague seu corpo.” Ela respondia: “Deixa de ser bobo, o corpo é para gastar.”´

 

Roger resolveu que a profilaxia era melhor que os curativos e comprou-lhe um capacete. Depois joelheiras e cotoveleiras. O seu medo era tão grande que lhe ofereceu uma protecção para os dentes. Ela, depois de abrir o presente, disse: “Será que consigo fazer sexo oral com isto?”

 

Roger andava diferente, mais atencioso e menos cafajeste. Todo ele era cuidado e betadine e protecções almofadadas para a única mulher da sua vida – deixou de atender velhinhas aperaltadas e de usar cartões de crédito de estrangeiras para comprar relógios. Só Lili lhe importava, só Lili ocupava os seus tempos livres. Começou a espiá-la de longe: Lili e os amigos teen em descidas perigosas, Lili e suas amigas em noites de balada, Lili, que aparecia cada vez menos lá em casa, obrigando-o a intensificar as operações de vigilância.

 

Se ela chegava, Roger apressava-se a investigar o seu corpo, procurando feridas. Ele queria Lili intacta e perfeita, chegou a ligar para os pais dela, um telefonema anónimo alertando para os males do skate. Mas Lili continuava a deslizar no calçadão, ouvindo punk rock no seu mp3, as solas dos pés dando impulso no asfalto, a sua velocidade cheia de curvas e pele morena chamando à atenção dos homens e das mulheres por quem passava. Lili não era só de Roger. O corpo era dela e de quem ela escolhesse. Lili fazia o que bem entendia com as articulações, com a boca, com as pernas que deixaram de enlaçar a cintura de Roger.

 

Depois Lili foi estudar para a Europa e Roger, como tantos outros cariocas nas estatísticas de atropelamentos, atravessou a rua com o semáforo vermelho. O ônibus, como tantos outros ônibus nas estatísticas cariocas, vinha em excesso de velocidade e indiferente às pessoas que atravessam a rua. Roger foi catapultado alguns metros. Os seus ossos quebraram como galhos num dia de trovoada. As suas vértebras estilhaçaram. O seu porte de macho ficou reduzido a metade. Roger pode ser visto hoje nas ruas da zona sul do Rio de Janeiro. Tem uma crista de duas cores e move-se pela rua, sentado num skate de prancha XXL, com capacete, cotoveleiras e joelheiras, as mãos fazendo as vezes dos pés. Um paraplégico radical. Lili ficou a viver na Europa e largou o skate. Agora é relações públicas de uma marca de roupa e casou-se com um cantor lírico. Roger é conhecido como o punk aleijadinho. Todos os botecos lhe dão chopp grátis. Há quem diga que alguma coisa ainda funciona da cintura para baixo. Ele não gosta de falar disso. Mas tendo em conta a forma como olha para as pernas das mulheres, no rés-do-chão do seu skate, é provável que o ônibus assassino não tenha escangalhado todas as partes importantes do seu corpo. 

publicado por Hugo Gonçalves às 17:59
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Amanhã

Ando a tentar deixar de fumar há mais de trinta anos. Estou convencido que no dia posterior ao meu primeiro cigarro decidi deixar de fumar. Neste momento tenho um cigarro posado no cinzeiro e os pensos de Niquitin à minha frente. Amanhã ia ser o dia em que o tabaco deixaria de me dar dores de cabeça, em que ia começar a subir dois lances de escadas sem ter de parar a meio, em que ia deixar de ter lancinantes ataques de tosse de manhã, em que a minha asma acalmaria, em que o meu carro deixaria de ser um cinzeiro ambulante, em que os meus filhos me iam agradecer não viver numa permanente névoa. Recebi, porém, um telefonema. Era um convite irrecusável e que obriga, para mal dos meus pecados, a muito trabalho. Não dá para cumprir a tarefa sem cigarros. O problema é que todos os trabalhos, todas as mais corriqueiras actividades são importantíssimas e infazíveis se imaginar que não vou ter o tabaco como parceiro.

Tem sido assim toda a minha vida: passo noites em claro a pensar no mal que o tabaco me faz, lembro os amigos que morreram com cancros provocados pelos cigarros, faço a mim próprio promessas solenes. Levanto-me, tusso e passado uns minutos, em raros dias umas horas, lá acendo o primeiro dos muitos cigarros diários. Os cigarros são a prova provada da minha fraqueza, da minha falta de força de vontade. Já tive depressões por não conseguir deixar de fumar. Escusado será dizer que durante as semanas de depressão continuava a fumegar.

Para o mal, nunca para o bem, os cigarros são a única coisa constante e permanente na minha vida. Lembro-me dos cigarros sugados nas escadas da maternidade onde nasceram os meus filhos, daqueles consumidos antes dum negócio importante, dos que me ajudaram a pensar quando decidi mudar de vida. Os cigarros estiveram lá sempre: nas alegrias, nas tristezas, nos momentos de tédio, nos de euforia, nas minhas vitórias, nas minhas derrotas.

Nos dias em que estou particularmente cretino e que por milagre não estou com falta de ar chego a pensar que há algo no meu subconsciente a impor-me fidelidade a algo que nunca me abandonou – quando mais racional sei que é um produto causador de dependência. É verdade, a minha estupidez atinge esses níveis.

É amanhã, é amanhã.

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:00
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

a graça

A graça, diz-nos a cultura cristã em que crescemos, não era qualquer coisa que dependesse nós. Era dada, em casos especiais, pelo Criador. E aquele que tinha a extraordinária felicidade de ser agraciado distinguia-se dos demais que se limitavam a agir de acordo com os seus instintos naturais (vale a pena lembrar aqui, obviamente, “A Árvore Da Vida”).

A graça era, pois, bênção. A bênção de não ter vistas curtas. De se elevar acima dos mais primevos ímpetos animais. De agir em nome do bem, dos outros, da totalidade, da vida. De ter esse traço de divindade que libertava o agraciado da contingência do eu, dos limites da individualidade, da circunstância de ser esta coisa para nascer e morrer.

A graça, hoje, significa outra coisa. Já não nos é concedida pelo Criador, mas pelo patrão, o empregador que nos pede que trabalhemos de graça (não será mera coincidência homónima. Por debaixo da palavra, está lá o mesmo apelo a agir não em nosso benefício, mas pelo de outrem). E a graça 2.0 , lamentavelmente, vulgarizou-se nestes dias de que já aqui falava o Nuno.

A propósito da crise que se apegou ao nosso tempo qual nome de baptismo, todos os dias há mais alguém que trabalha de graça. Sobretudo na área desses tipos giros da cultura, que basicamente escrevem umas coisas e devem fazer o que fazem por amor à arte ou, doutro modo, metiam-se mas era a fazer um trabalho a sério, tipo gestão ou consultoria.

Escrevem-se crónicas de graça, críticas de graça, entrevistas de graça, guiões de graça. Fazem-se locuções de graça, fotografias de graça, produções de graça. Canta-se de graça, representa-se de graça, cede-se os direitos de graça porque, sem isso, não há pão para malucos e se ninguém vir o que você faz, afinal, onde está  graça.

Isto, dizíamos, começou nos patrões, mas não é um problema deles; é dos agraciados. Os sonhadores que acham que, quando isto melhorar, vão começar a receber. E que, depois disso, serão aumentados. E que alguém, algures, ao longo deste tempo, está a reparar que eles estão a trabalhar de graça e vai reconhecer-lhes e recompensar, de algum modo, a dedicação.

Não vai.

O agraciado deve perceber logo o truque. Geralmente, falam-lhe em oportunidades, em aprendizagem, no luxo e na honra que será estar ali a produzir, ao lado deles, de graça. No fundo, o agraciado ainda tem de agradecer tudo o que lhe está a ser dado e envergonhar-se de, por um momento, ter pensado no vil metal. Que materialista, este agraciado. E tão jovem, Jesus. No que nós nos tornámos. Isto a culpa é nossa, diz o patrão no almoço de patrões, que os educámos assim.

O que o agraciado tem de compreender é que alguém está a ganhar dinheiro com o trabalho dele. O chefe, o administrador, o sumptuoso proprietário da marca que anuncia no produto que o agraciado concebeu de graça e que paga um décimo do que costumava pagar porque isto, sabem, não há dinheiro.

Curiosamente, o jornal continua a chegar ao mesmo preço ao consumidor final. Tal como o disco, o filme, a televisão, o espectáculo. O que é estranho porque, em tempos imemoriais, as pessoas que os faziam eram pagas. Não sendo, como não são, ou sendo pagas por uma percentagem residual do que outrora recebiam, como também são, isso deveria reflectir-se, algures, no custo final da coisa. Mas não reflecte. E isto leva-nos ao grande mistério do século XXI: esse dinheiro que é pago e ninguém recebe para onde vai?

Como há cada vez mais batalhões de ingénuos a trabalhar de graça, sobra cada vez menos espaço para quem não aceita ser agraciado pela bênção patronal da oportunidade e da honra e do espírito de sacrifício.

E assim vamos todos lentamente ao fundo, enquanto os empreendedores empregadores escrevem livros sobre como ter sucesso e esbanjam sabedoria e visão em conferências dedicadas ao tema: como sair da crise em doze passos suaves.

publicado por Alexandre Borges às 07:16
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Domingo, 9 de Outubro de 2011

Exortação do aniversário

Comecemos assim, para o leitor não fugir mais cedo do que é costume: neste dia, 9 de Outubro, celebra-se o nascimento de D. Dinis, rei de Portugal (1261); de John Lennon, músico extraordinário (1940); e o meu (1964). É nesta altura que o leitor avisado urra com razão «pelo amor de Deus!», invectiva a vaidade desmedida que transborda na blogosfera e refugia-se em coisas mais prementes, excitantes e reais, como o portal das finanças.

 

Hoje, o leitor avisado que se lixe. Até porque a ideia da crónica não é tanto falar do meu aniversário mas do estranho medo ou pudor de assumir um dia e as suas putativas celebrações. Encontro-o por toda a parte e das piores maneiras. A que mais me irrita são os que dizem - correcção: em regra as que dizem, muitas vezes mulheres jovens e bonitas - que deixaram de «fazer anos aos 30» ou aos 40 ou aos 50. Porquê este medo do tempo, a única coisa que criámos e ao mesmo tempo não conseguimos vencer? Será que idealmente aos 30 anos eu deveria deixar de viver? Que ficaria por ali? A história do «die young and leave a nice corpse» é das piores falácias modernas. Até porque quem a cita não pensa muito na palavra «cadáver». É, portanto, mentira: queremos sempre mais e mais, mesmo quando defendemos o contrário. A incapacidade de lidar com o tempo que passa - que no limite leva à negação ou ao botox, que juntos formam a mais triste das tautologias - é apenas a recusa do tempo presente e o dar primazia ao olhar do outro. Ou seja: ainda mais do que nos outros dias, quem renega a sua efeméride pessoal renega o hoje - e por definição, revela uma ingratidão profunda à vida.

 

É preciso que se perceba: a não ser para efeitos de Estado, a idade cronológica não interessa. Nunca irá corresponder à verdade.Deveria ser mesmo excluída dos bilhetes de identidade, tal como o estado civil, por excesso de invasão de privacidade. Mas para nós, que deveríamos ser os principais personagens das nossas vidas, estes dias deveriam ser celebrados sem limites. Quem amamos sabe que idade fazemos. E àparte uma ou outra piada jocosa, quando nos abraçam ou ligam a dar os parabéns estão a dizer «obrigado por aqui estares».  Por ontem, hoje ou amanhã. E haverá alguém que possa ter a arrogância de poder desdenhar quem ama?

 

Ao celebrarmos sem medo o nosso aniversário - em rigor o dia em que, sem ninguém nos pedir a opinião, fomos atirados para este maravilhoso mar de sarilhos - estamos no fundo  a fazer festivamente aquilo que todos os dias deveríamos fazer mal acordássemos:agradecer estar por aqui. Provavelmente apesar dos dias em que nos parece que caminhamos pelo avesso das coisas e nada tem salvação. Provavelmente sobretudo por esses dias.

 

Reparem: não são precisas grandes festas ou uma disposição pirotécnica. Basta estar junto de quem amamos. Ou por vezes procurar uma solidão que se deseja e que só enriquece. Basta - e isto sim, reconheço que é dificil - estar grato. Celebrar o nosso aniversário torna-se assim um privilégio e uma obrigação intima. Muitos são os que não fazem ideia do dia ou do ano em que nasceram, dirão. Mas procure-se então outro pretexto para celebrar o tempo que passa por nós. A ideia é agradecer, minuto a minuto.

 

Este ano, ao contrário de tempos antigos, não fiz grandes celebrações. Um amigo dizia que em consonância com a época dificil que atravessamos a única festa possivel é no Facebook.Boa blague, mas longe da verdade: o calor de quem nos quer bem, venha de onde vier, é a nossa festa. E não sabendo o que os anos me vão dar, proclamo: ainda não chega. E posso até citar, em snobeira intelectual de fim de noite, duas das minhas criaturas preferidas: o grande Jonathan Swift, autor do meu lema de vida «No wise man ever wished to be younger»; e o meu mentor pessoalíssimo, o sr.Sinatra, que resume tudo numa canção: «I'm gonna live till I die».

 

É altura de começarmos a estar gratos, caríssimos. Podemos começar pelo nosso aniversário para dizer 'obrigado'. E pois, a vida é uma merda, mas comparada com quê? 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 05:03
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

Discos Perdidos

A terminar as filmagens de um documentário com mais ficção do que se esperava. Esta é a minha crónica da semana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Costa Santos às 22:12
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

Mulheres

Um tipo entra no Rock in Rio para ver Stevie Wonder e dá-se conta que entrou no Shopping in Rio. Eram mais de 72 marcas a piscar-nos o olho dentro do recinto/parque de diversões: a montanha-russa Chilli Beans (óculos de sol), a roda gigante Itaú (banco), os camarotes Coca-Cola (remédio para a ressaca), a Rua do Rock com mais marcas e voyeurs de montras que Oxford Street. No palco, tocava ainda Ke$ha, cujo uso de um cifrão no nome não chega para desvelar o mau gosto da sua música ao vivo – um sucedâneo de Lady Gaga, um ídolo teen com mais maquilhagem e guarda-roupa do que afinação. Ela gritava: “Let’s party Rio”, e sentia-me numa discoteca ao ar livre, em Benidorm. Ke$ha guinchou o tempo inteiro enquanto os visitantes do Shopping in Rio esperavam em filas para receber um brinde (T-shirts, óculos de sol, poltronas insufláveis) ou avançavam como peregrinos hipnotizados para as barracas de cerveja (Heineken) ou de comida (Bob’s – hambúrgueres de franchize). Rock in Rio: uma espécie de Planet Hollywood + Hard Rock Café + Disneyland. Uma espécie de delírio futurista em que seremos alimentados, vestidos e entretidos por uma mega empresa universal.

 

O Rock in Rio não deixa de ser um assombroso feito de logística, trabalho, entretenimento e money making – a economia da cidade terá recebido cerca de 350 milhões de euros. Mas o Rock in Rio, que recebeu cem mil pessoas por dia, parece querer reduzir-se ao mantra contemporâneo da felicidade imediata: coma um hambúrguer, compre uma T-shirt, use o seu telefone para fazer fotos, receba coisas grátis e veja alguma celebridade no palco, não importa qual, até pode ser Ke$ha.

 

Não consigo encontrar apelo, beleza ou sensualidade em Ke$ha ou no Rock in Rio. São robots da adoração colectiva, produtores chatos de $, euros, reais e dólares, são chapa 5, produto mastigado, empacotado e aprovado para todas as idades. A ideia que tudo é comprável e a uniformização das coisas e das pessoas deixa-me aborrecido. Especialmente a uniformização de algumas mulheres. O Rio, capital das mulheres bonitas – olha uma loira alta e descalça num skate, olha uma mulata a cair na água, olha a executiva tão segura nos seus saltos –, o Rio que já criou mais poetas amantes do que qualquer outra cidade, também se vai deixando levar pelas capas das revistas, os vídeos MTV, o Photoshop, a lipoaspiração e o botox. Falo da uniformização dos corpos e das expressões faciais, uma traição à génese e ao milagre deste lugar: a diversidade, a mistura, a criatividade, a possibilidade.

 

Depois das roliças dos quadros renascentistas, das pin-ups pós II Guerra ou das magrelas com ombros de cabide Calvin Klein, surgiram agora as mulheres Fruta – tão trabalhadas como uma melancia esculpida para efeitos decorativos num buffet de hotel. Podem ter implantes nas mamas e na bunda, podem ter botox em vez de rugas sorridentes, podem ser tão bem desenhadas como uma heroína de BD, podem até vestir-se como Ke$ha, mas arriscam-se a ter o mesmo sabor plástico do Rock in Rio, provocando a mesma sensação descartável, rápida, que não deixa marca.

 

É por isso que peço a todas as mulheres que acreditem que uma estria, uma mancha, um peito descaído que não se pareça com uma perfeita bola siliconizada, enfim, que muitas das coisas que vocês insistem em eliminar com uma ferocidade castigadora, não vos faz ser menos mulheres do que aquelas que injectam produtos na testa e jejuam e se levantam às cinco da manhã para fazer ioga ashtanga. Acreditem, há mais verdade e tesão numa mulher de corpo vivido do que numa mulher de corpo encomendado.     

publicado por Hugo Gonçalves às 02:36
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Como explicar a alguém ou a si próprio a troca de um iPhone 4 pelo novo 4S

 

 

Sem grandes demoras, porque o problema é sério e requer medidas urgentes, vamos desde já ao que interessa. Há um novo iPhone no mercado. Obviamente, você quer ter um. Precisa por isso de um bom argumentário para justificar aos outros e a si mesmo a troca do iPhone 4 pelo novo 4S. Vou tentar ajudá-lo.

 

Primeiro que tudo, falemos dos argumentos a evitar.

 

1. O design.

 

Evite dizer que a apple o conquistou pela forma. Até um cego vê que o 4S e o iPhone 4 são praticamente iguais (e você é proprietário do segundo). Não vai parecer mais inteligente ou justificar a sua compra porque se apercebeu de diferenças nos ângulos e nas arestas do objecto. Qualquer tentativa de justificar a compra do 4S através do design será motivo de chacota pela certa, tanto de leigos como de designers.

 

2. As componentes de hardware.

 

Vamos aos factos: você não percebe puto de hardware. Se é verdade que, nesse aspecto, é acompanhado pela esmagadora maioria da população, não é menos certo que as novidades do 4S no que concerne o hardware não lhe permitem fazer nada que já não fizesse. Enumeremos as suas actividades diárias no iPhone 4, por ordem de importância: ver mails, enviar SMS, ir ao facebook, tirar fotos, jogar Angry Birds, publicar fotos, comentar fotos, gravar vídeos sem interesse, consultar a temperatura do ar, jogar Zynga Poker, ir ao maps sem um objectivo concreto, instalar apps porque sim, e finalmente telefonar a alguém. Caso não saiba, tudo isto já era mais ou menos possível no velhinho iPhone 3G. Assim sendo, evite falar do novo processador A5 ou da nova câmara de 8 megapixeis. Se tiver mesmo que o fazer, assegure que não há nenhum entendido a ouvir. Antecipe o rumo natural da conversa, que é ter de se justificar, e crie pequenas manobras de diversão como explicar a origem do nome Dual Core, quantas pessoas assistiram ao keynote, ou o nome dos fornecedores das lentes ou dos ecrãs utilizados pela Apple. Se algum espertalhão falar nos suicídios em série na Foxconn, a empresa que fabrica todos os produtos da Apple, trate isso com o mesmo cepticismo com que reagiu da primeira e única vez que viu o Zeitgeist no Youtube. É que francamente. Não há pachorra para estas teorias da conspiração.

 

3. A autonomia da bateria

 

Pelo amor da santa: não seja tenrinho. A Apple teve a fina ironia de anunciar que a bateria do novo 4S dura mais 1 hora em conversação do que a versão anterior (ATIREM OS FOGUETES!), e menos 100, repito, menos 100 horas do que o iPhone 4 em modo de stand-by (ESQUEÇAM OS FOGUETES). Portanto, se já é falso que o iPhone 4 dura 7 horas em conversação e 300 horas em stand-by, o panorama não parece muito auspicioso para o novo 4S. Enfim, se o tema tiver mesmo que vir à baila, reaja com aquele misto de serenidade e resignação que caracteriza qualquer utilizador de iPhone – sempre que alguém fala no raio da bateria.

 

4. “É o melhor iPhone até hoje”

 

Aqui já estamos a entrar no domínio do patético. Se você justificar a compra do novo 4S com frases proferidas por Tim Cook no keynote, então é um fanboy sem salvação. Não tarda nada estará a dizer algo como “o que está no interior é que conta” e a ser muito justamente gozado por toda a gente.

  

 

E agora os argumentos a favor de uma troca imediata do iPhone 4 pelo 4S. Não são muitos, mas são de boa vontade.

 

1. O interface de voz

 

Chama-se Siri, é um novo interface de voz, e pode muito bem vir a revolucionar o modo como você se relaciona com o seu iPhone. Viu o que eu fiz? Acabei de o colocar na vanguarda da tecnologia, a si e ao seu novo smartphone. Fazer parte do futuro é um argumento válido na medida em que você for capaz de lhe dar algum substrato funcional, no caso, identificar meia dúzia de coisas que pode passar a fazer de forma mais espectacular (vulgo funcional) com este interface de voz. O vídeo que aparece no início do post é bastante útil nesse sentido: pode perguntar o que quiser e o Siri responde. A malta jovem vai dizer que é brutal. Você vai dizer que lhe daria um jeitaço poder fazer aquelas coisas sem mexer no keypad. Se alguém vier com a lenga-lenga (bastante legítima) de que estas coisas nem sempre funcionam bem e são difíceis de configurar, devolva a crítica com uma ou duas notícias acerca de testes muitos positivos efectuados por alguns dos bloggers que já têm um 4S nas mãos. Ah, mais uma coisa: o Siri só está disponível no 4S. Isto vai desarmar qualquer um.

 

2. Notification center

 

Esta é de caras uma das coisas mais interessantes que a Apple apresenta no iOS 5, o novo sistema operativo. É um gestor/visualizador de algumas das funções prioritárias do seu smartphone que, acredite, vai mesmo dar muito jeito. Como é que eu já sei isto? Simples. Havia uma aplicação praticamente igual no Cydia, aquele repositório para a malta que fez jailbreak ao seu iPhone. Se quiser dar um cunho mais ético-filosófico ao seu argumento, detenha-se neste ponto e fale de como o novo notification center é, no fundo, a Apple a reconhecer o contributo da comunidade jailbreak – e de como isso é bonito nestes tempos conturbados que vivemos.

 

3. A iCloud

 

Você até já tinha ouvido falar desta história da cloud mas ainda não sabia o que era. Agora já sabe: é uma das coisas que o novo iPhone faz. Não que precise de saber mais, mas cá vai: a iCloud sincroniza os seus contactos, músicas, aplicações, fotos e muitas outras coisas entre dispositivos, ou seja, todo o conteúdo que lhe pertence encontra-se armazenado, protegido e prontamente acessível em qualquer um dos seus iPhones ou iPads. Imagine que deixou o seu novo 4S na sala e está no quarto a brincar com o iPad. Tudo o que tiver sincronizado com a nuvem a partir do seu iPhone estará igualmente disponível no seu iPad. É um mundo de possibilidades que se abre aqui, ao mesmo tempo que se resolvem questões de segurança e capacidade de armazenamento de dados – pelo menos é isso que dirá a toda a gente.

 

4. iOS 5

 

O novo sistema operativo da Apple apresenta 200 novas funcionalidades. Porque é que você vai trocar o iPhone 4 pelo 4S? Com 200 novas funcionalidades, só não vê quem não quer. Mas não se deixe galvanizar demasiado pelas duas centenas de novas razões para trocar de telefone: é que, no dia 12 de Outubro, o iPhone 4 também poderá fazer o upgrade para iOS 5, e toda a gente acabará por ser informada disso via iTunes. Nesta altura, porém, vai poder exercer a sua nova forma de superioridade A5 Dual Core com câmara de 8 megapixels e dizer coisas como a) “pois, este é mais rápido a fazer isso”, b) “sempre fui early adopter de produtos apple”, c) “bem, as fotos são mesmo super nítidas” ou d) “a sério? estranho, aqui funciona bem”. Você rejubila e a Apple agradece.

 

Texto publicado igualmente no Contentissimo, blog de tecnologices do autor.

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publicado por Vasco Mendonça às 01:46
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

A moda do avental

Aqui há atrasado recebi um mail a denunciar a minha participação numa conspiração maçónica. Fiquei um bocadinho aborrecido. Não propriamente pela história em si, a coisa era tão delirante que me chegou a faltar o ar de tanto rir. O que me chateou foi o autor não dizer que eu era maçom. Não sou, mas não tinha custado nada ao aldrabão – era só mais uma alarvidade – dar-me tão prestigiante título. É que eu sou um rapaz que gosta de andar na moda e ao que parece não há nada tão chic como pertencer à Maçonaria.

Ele é ministros, ele é candidatos à Presidência da Assembleia da República, ele é administradores da Caixa Geral de Depósitos, ele é proprietários de grupos de comunicação, chefes da polícia secreta, tudo gente do bom e do melhor. Tenho reparado nas fotografias das revistas sociais, e reparo nos membros do jet-set a fazer uns sinais estranhos que, de certeza, são códigos secretos para que os outros maçons os reconheçam – é preciso estar muito atento para reparar.

Aquela malta é mesmo muito especial, li numa edição da Notícias Magazine que têm uns apertos de mão secretos (nas semanas posteriores à circulação do tal mail, juro que senti umas mãozadas meio estranhas) e até enviam uns aos outros umas mensagens via telemóvel com umas letras e uns números que só eles conhecem. Mas se fosse só isso... divertem-se à brava os malandros. Brincam com umas espadas e uns compassos muito jeitosos, vestem uns fatos janotas, e fazem umas festas/reuniões onde, consta, simulam enforcamentos, empalamentos, esventramentos e falam línguas esquisitas. Parece que depois  daquela pândega toda ficam imbuídos dum poder esotérico.

Não admira que entrar nesse grupo não seja para qualquer um.  Diz também que arranjam uns empregos uns aos outros e organizam uns negócios entre eles e há mesmo quem garanta que não se sobe na vida se não se pertencer a este animado grupo, mas isso devem ser intrigas dos invejosos que não conseguem ir às festas deles.  

Diz o sr. Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal GLLP/GLRP (é assim mesmo, eles gostam destes títulos grandes), José Moreno, que a maçonaria é uma elite espiritual. Devo ter um enorme azar. A rapaziada que conheço e que me garantem pertencer ao clube estará preocupada com muitas coisas, menos com o bem-estar espiritual.

Não há dúvidas: quem não for da Maçonaria não está na moda. O que me espanta é os nossos empresários do pronto-a-vestir ainda não se terem apercebido desta realidade e não terem ainda lançado uma linha de aventais com os símbolos maçónicos. Uns mais leves para a Primavera-Verão, outros mais encorpados para o Outono-Inverno;  uns de tecido mais nobre para ocasiões especiais, outros para o dia-a-dia; uns com uns compassos e os sóis, outros mais discretos. Ora valha-me Deus: é contratar um génio do marketing que seja maçom, não devem faltar. Consta, aliás, que na Maçonaria a genialidade é mais basta que a chuva miúda.

Era sucesso garantido.

publicado por Pedro Marques Lopes às 01:04
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

em resumo

Parece verdadeiramente impossível explicar a uma mulher por que é que nós, tipos, temos necessidade de assistir ao resumo do jogo que já vimos. Aliás, não só ao resumo, mas aos diferentes resumos de cada estação televisiva, às entrevistas depois do jogo; mais a necessidade de – mistério supremo – comprar o jornal desportivo no dia seguinte.

Já tentámos. Oh, sim. Teremos dito qualquer coisa como: é tão necessário como os teus 45 casacos. Não funcionou. Ia dando guerra. Estás a insinuar que tenho demasiados casacos?, disse ela. Tenho pouquíssimos casacos. No fundo, segundo nos é dado perceber, as mulheres só têm um casaco. Um por ocasião. Um casaco de cada cor. Na cabeça delas, não têm por onde escolher. Têm apenas um casaco branco, um vermelho, um azul, um cinzento, um preto, um verde-seco, um casaco de cabedal, um casaco de antílope, um casaco militar, uma gabardina estilo inglês, um casaco para o frio glaciar, um casaquinho que dá com aquele vestidinho, um casaquinho que dá com aquela camisolinha, outro para aqueles sapatos, outro para a mala, um casaco adequado a vernissages em fim de tarde de Verão, um casaco para festas casual-chic, um casaco para casamentos formais, outro para casamentos informais, outro para casamentos em Maio, outro em Setembro, outro para casamentos de pessoas muito amigas, outro para casamentos a que só se vai por obrigação. depois, têm um casaco para vestir sobre cada um destes casacos. Um por cada. Só aquela combinação. Um drama. Uma predestinação.

Percebi, com efeito, que connosco é diferente. Nós não queremos variar; nós queremos sentir exactamente o mesmo. Queremos ver o golo vezes e vezes e repetir, cá dentro, tomados pelo júbilo, “que golaço!”. Temos um mecanismo qualquer que suspende voluntariamente a memória e fica assim sempre disponível para a perplexidade. Que maravilha! Olha-me para aquele passe, aquela visão de jogo, aquela finta, aquela determinação… Gostamos da segurança de saber o que vai acontecer. Não corremos o menor risco de ser surpreendidos. Sabemos que vamos explodir de alegria dentro de instantes e isso, por si só, basta para nos estampar um sorriso absurdo no rosto, o corpo como que levitando alguns centímetros acima do sofá, os braços preparados para se erguer no momento exacto em que a bola fará estremecer a rede.

Qual crítico contemplando uma obra de arte, somos sempre capazes de descobrir um pormenor novo, a simulação do lateral, a troca de olhares entre os avançados antes da tabelinha, o olhar desamparado do guarda-redes adversário. Tudo isso é vitoriado. Tudo isso arredonda o sentimento, enche-o, fá-lo durar.

Na verdade, há poucos sintomas que atestem tão cabalmente quão sensíveis somos. Quão subtis. Quão românticos. Não sei como faremos ver isto às mulheres.

Talvez vestindo um casaquinho especial em dias de bola.

publicado por Alexandre Borges às 03:15
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