Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

a barba do herói por fazer

Há uma relação intrínseca entre o boémio e a sua barba. O boémio usa barba de três dias. Até ao último minuto dessas 72 horas, é considerado barba feita. Mesmo que dê para arear panelas, acender fósforos, lixar caixilhos com ela. Acima dos três dias, sobe-se de nível: de boémio passa-se a professor Fernando Carvalho Rodrigues, Pai Natal, roady dos ZZ Top. Por esta ordem.

O boémio não faz isto por estilo, dar um aspecto negligé, imitar o Special One. Ainda Mourinho dava aulas de educação física na C+S do Portinho da Arrábida, já o boémio apregoava o look presidiário-chic. Fá-lo porque só uma a cada três manhãs salta da cama em tempo útil. Até lá, pode ser ameaçado com despedimentos, divórcios, ter a tia Natália a perguntar em lágrimas por que não usa a gillette mach 3 que lhe ofereceu pelo Natal em plena reunião de sócios da empresa. Ele não se comove.

A barbinha – diminutivo, note-se, muito másculo – diz com as olheiras, o cabelo despenteado que resta, o feitio refilão, revolucionário com a segurança social em dia, a inócua discordância com a normalidade. E é como um par de botas da tropa, as calças de ganga, um casaco de cabedal, uma edição de bolso do Bukowski: é parte da armadura urbana dentro da qual se esconde a vulnerabilidade do desencontrado.

E há mais. O boémio considera uma franca paneleirice o negócio em torno deste assunto. Antigamente, havia as gillettes com lâmina única, com um corte ao centro que se encaixava no cabo, after-shaves desenvolvidos em laboratório por pirómanos e uns lápis manhosos que se espetavam nos cortes e duravam uma vida. Depois e de súbito, vieram as lâmina-gémeas, as três lâminas flexíveis que se adaptavam ao rosto, as cinco daquela que, agora, anunciam o Henry, o Federer e o Tiger Woods. As brauns e as philishaves, os hidratantes, os esfoliantes, os cremes para antes e depois. O tanas. O homem que é homem – e o boémio é um – só quer fazer a barba, não ficar com a cara mais macia que o rabinho dum bebé. E quer viajar sem pagar excesso de bagagem e empenhar menos que o PIB de Andorra em despesas de higiene mensais. E, sobretudo, ele reteve a informação fundamental: amanhã, a barba vai crescer outra vez; portanto, para quê ter todo o arsenal dum samurai de roda dela?

A barba por fazer é, finalmente, a aproximação possível do boémio ao herói de aventuras clássico. Como poderia ele chegar a convencer uma mulher de ter qualquer coisa de rebelde sem causa, de Indiana Jones dos pequeninos, se andasse com a cara no lastimável estado dum promissor bancário, dum bem sucedido corrector da bolsa que arrisca diariamente a vida num novíssimo jogo da playstation?

 

[Crónica originalmente publicada em 2008 na revista Atlântico e aqui republicada e retocada por se achar o autor carcomidinho de trabalho.]

publicado por Alexandre Borges às 02:57
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Domingo, 23 de Outubro de 2011

João e Maria, José e Francisco

Ciúme: uma abordagem prática *

 

Uma das melhores formas de lidar com o ciúme consiste em eliminar a sua fonte. Dar-lhe um tiro na testa  é o exemplo que vem de imediato à memória, mas João procurava a chamada solução de compromisso. Como resolver o ciúme sem sofrer grandes penalizações sociais? João pressentia que a resposta se mantinha, embora numa interpretação menos literal. Havia uma natureza cirúrgica na eliminação da fonte que o seduzia, por possibilitar a restauração do amor. Mas demorou semanas a encontrar uma solução e, em retrospectiva, conclui-se que teve a sorte de ter nascido numa época em que a bissexualidade se banalizara. Porque a inspiração veio do relato de um amigo que se viu trocado por uma mulher. João reparou que o vasto conjunto de estados de alma por que passou o amigo incluía o conformismo, várias obsessões compulsivas  o espanto, a perplexidade e a raiva (a ordem é alfabética), mas não o ciúme. A conclusão pareceu-lhe evidente: o ciúme implica uma comparação, que só a pertença a um mesmo género concretiza, à semelhança das competições desportivas, em que os homens apenas competem com os homens e as mulheres com as mulheres. O namoro da nova namorada era um problema, mas de onde se excluía a namorada da namorada. Por redução ao absurdo, pouca diferença teria havido se a namorada se declarasse apaixonada por um vaso chinês da dinastia Ming (cópia ou original). Encontrada a essência da solução, João tratou de a aplicar. Maria trocara-o por José, um macho até prova em contrário, mas João percebeu que o importante era diferenciar-se de José a tal ponto que não haveria a menor tentação de se comparar. Foi sem dificuldade que encontrou em José um conjunto de defeitos físicos e de carácter que o aproximavam da condição de verme e o Zé volatilizou-se de imediato. A solução funcionou tão bem que Maria regressaria a João alguns meses depois, para dois anos felizes, até aparecer Francisco. Com a calma que vem da experiência, já depois de ter reunido os elementos necessários, João sentou-se pela manhã à secretária para estudar o dossier Francisco, mas ao fim dia estava por terra. Francisco era um gajo porreiro. Um tipo corajoso. Um homem de sucesso. Espirituoso. Inteligente. Talentoso. Charmoso. Atlético. Sólido. Belo. Alto. "E com cabelo", desesperou João, emendando in extremis o gesto de lançar as mãos à cabeça. Só no dia seguinte a solução lhe apareceu. O princípio mantinha-se e o que não podia ir pela desconsideração, iria pela promoção. Francisco estava tão acima de João que não era bem um homem, era uma entidade divina. Maria não se apaixonara, convertera-se. Veio o conformismo, várias obsessões compulsivas, o espanto, a perplexidade e a raiva (ainda por ordem alfabética), e dias depois João estava recuperado. Maria não voltou, mas até nisso João foi capaz de ver a prova de que não se enganara no juízo, pois não se abraça uma religião com leviandade.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 13:48
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Sábado, 22 de Outubro de 2011

Polaroids londrinas

“Smoke lingers round your fingers/Train, heave on to Euston/Do you think you’ve made the right decision this time?” – London (The Smiths)

 

Esta pergunta sobre a decisão correcta acompanhou-me nas minhas últimas semanas lisboetas, uma pequena angústia a lembrar-me se valeria a pena voltar a aventurar-me para outro país. Porque a vida (a “vidinha”) estava organizada em Lisboa, porque felizmente não era obrigado a sair por razões profissionais (tenho um trabalho que viaja comigo na mala de mão), porque era mais fácil ficar, porque já tinha na cidade as rotinas definidas, as caras conhecidas, os rituais antecipados.

 

No entanto, fundamental na decisão de sair tinha sido a vontade de retirar do sótão a energia para me adaptar a um novo lugar e descobrir novas paisagens e ideias (isso e a utilização excessiva dos diminutivos em Portugal, com tudo o que isso comporta). No fundo, um desejo de parar, observar com mais atenção e descobrir novos pormenores que se vão cruzando comigo na rua. Instantes banais desta cidade que pretendo captar e ir descrevendo em postais londrinos.

 

Como a imagem de um casal de idosos que arruma vagarosamente os seus produtos na sua merceearia numa rua para os lados de Portobello e as suas casas vitorianas impecavelmente arrumadas. Ele, de calças de bombazina e casaco de malha, elegante e altivo, representa a imagem feita, quase caricatural, de um “típico” cidadão britânico. Ela, mais pequena e bonacheirona, é uma das londrinas que pontua cada frase com “dear” e “love”. A sua frente de loja em madeira verde anuncia com orgulho, numa frase pintada à mão, que o negócio “E. Price & Sons” existe há mais de 60 anos. Adaptando-se ao tempo, vendem agora também “foreign fruitage”, no que parece ser a única alteração à decoração dos anos 50.

 

Mais à frente, na mesma rua, uma peixaria marroquina, um restaurante italiano, um mercado de rua e a sua alegre confusão de panos, panelas e especiarias. Ouve-se o muezzin a chamar para a oração e um grupo de muçulmanos entra numa mesquita discretamente instalada num dos prédios de dois pisos. Na próxima esquina, o “Café Porto” concorre com a “Patisserie Lisboa”, do outro lado da rua, pelo cenário mais português suave do dia, cada qual com as suas senhoras a comentarem as últimas do bairro e as páginas do Record (vendido por uma senhora chinesa na papelaria ao lado) prontas a serem discutidas.

 

São momentos de bairro que permitem parar para respirar uma tranquilidade que esta cidade – dinâmica, electrizante, por vezes agressiva, solitária também – por vezes esquece, na sua ânsia de alojar 8 milhões de pessoas de 270 nacionalidades diferentes, falar 300 línguas diferentes e levar diariamente para casa 3 milhões de pessoas no metro. Muito apertadas, é certo, mas estranhamente simpáticas.

publicado por Ricardo Correia às 16:40
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Não Sou o Keith Richards

 

A vida não está fácil para nós os que espirramos. Com a história da gripe somos logo olhados de lado pelos funcionários da repartição laboral ou familiar. Metidos de quarentena num quartinho dos fundos, temos por vezes de aguentar o espirro durante larguíssimas horas e só depois podemos soltá-lo epicamente como quem solta um Grito do Ipiranga nasal. Por estes dias espirrar é o supremo acto de liberdade. Há umas décadas as pessoas viajavam até Paris para poderem exprimir a sua opinião e pensar livremente. Hoje um tipo procura um exílio, bastante menos culto e literário, para poder manifestar a sua natureza alérgica. É desagradável. E chato. Deixem-me sofrer de rinite à vontade. Não quero ir para a clandestinidade dos que têm comichão no nariz.

 

O pior é que esta exclusão social é antiga, já pesa há muito bom ano. Experimentem andar de um lado para o outro com uma bombinha de asma no bolso. Uma vez, estava eu no local de trabalho, dei uma bombada de urgência e houve quem pensasse que me estava a drogar. Os olhos arregalaram-se, a boca encolheu-se como os indignados lábios de uma tia de província. Não, meus queridos, não sou o Keith Richards. Tenho menos charme: sofro de bronquite asmática e às vezes fico à rasca. Desculpem.

 

Vou-me sentindo cada vez mais sozinho nestes territórios sinusíticos - e a solidão do sinusítico assumido, acreditem, custa e muito. Anda tudo para aí a fazer jogging com a ficha clínica limpa ao peito. Assumimos pouco os defeitos, em particular os defeitozinhos de saúde. Somos todos corpos perfeitos, vendemos ar puro e pulmões imaculados no eBay, mesmo que tenhamos o pacemaker a carregar há duas horas. Chegou a altura de trazer os comprimidinhos contra a azia e o mau sono para cima da mesa. As clássicas bombas Ventilan e as outras, mais modernas, em tons rosa, que evitam a necessidade de usar as primeiras.

 

Estou farto de ser o hiponcondríaco do bairro. Gostava que todos os cidadãos do meu país assumissem as suas maleitas como homenzinhos que são. E que depois as comentassem como fazem as senhoras que passam o dia nos autocarros a queixar-se das dores nas costas.  Não vai ser fácil, sei. Esta sociedade que vende saúde compreende mal quem, pelo menos na aparência, vende falta de saúde. O contrário também é verdade, admito. Sempre que me vendem saúde peço logo o internamento. A saúde não é para ser vendida ou ostentada. É uma sorte e, como tal, deve ser usufruída com recato e gratidão. Agora, se me permitem, vou para dentro porque isto está a ficar frio.

 

(anteriormente publicado no 'i' e actualizado no momento em que o ministro da Saúde avalia se vai ou não reduzir a comparticipação dos medicamentos antiasmáticos).

publicado por Nuno Costa Santos às 19:26
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

O Esforço

(Há mais um sinusítico no terreno de jogo. Eis a sua primeira crónica)

 

A minha rua são dois pelotões de prédios que, ao longo de quase um quilómetro, se confrontam. Esta particularidade faz com que o som se concentre no meio da estrada e ali fique até o silêncio regressar. Ontem, ouvia-se uma guitarra. Era uma guitarra clássica que soluçava um reef de rock, competente, por entre as ingénuas cordas de nylon. Outras noites são os vizinhos que discutem, outros que celebram. De vez em quando ouve-se um pastor brasileiro a louvar a Deus num radiozinho estrategicamente colocado no parapeito de uma destas milhares de janelas. Há também gemidos e, por vezes, até, um choro tímido que entristece um subúrbio inteiro; há telefonemas amargurados, discussões feias, correrias tardias, despedidas à Casablanca e cenas tórridas à Nove Semanas e Meia. Há pormenores em toda a parte.

 

Quando o convite para escrever no Sinusite surgiu, a primeira reacção foi “eh pá, não sei se tenho tempo”. Não é o tempo para escrever mas, sim, o tempo para observar com atenção os pormenores dos dias. Não ter nada para dizer.

 

A verdade é que há sempre algo para observar. Como escrevia Chesterton “O mundo nunca morrerá à fome por falta de maravilhas, mas apenas por falta de se maravilhar”. Vamos perdendo essa capacidade única de valorizar os pormenores, de observar as particularidades e acabamos a confundir esse conformismo com falta de tempo.

 

A minha sugestão é que façamos um esforço. Um esforço colectivo pelo maravilhamento, pelo optimismo e pela partilha – coisas bem lamechas de que estamos todos a precisar.

 

Jorge Lopes de Carvalho

 

P.S. - Obrigado pelo convite. Vou tentar não estragar nada.

publicado por Nuno Costa Santos às 09:23
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

Ai Phones e outros suspiros

 

Em tempos escrevi um longo artigo sobre Steve Jobs para uma revista. Das coisas que aprendi, nessas leituras e vídeos e entrevistas de pesquisa, são estas que melhor consigo recordar: as suas experiências com ácidos (open your mind, son), a bandeira de pirata que mandou pôr no topo de um dos edifícios da Apple, uma frase sua, aqui mal citada, que dizia qualquer coisa como: “Sempre admirei as pessoas que, depois do sucesso, arriscam o fracasso. Pessoas como Picasso ou Bob Dylan.” Faz sentido e fica muito bem num discurso motivacional.

Não é difícil perceber o possível encanto da narrativa de Jobs, um inspirador americano, o nerd adoptado que perde no segundo acto (foi despedido da empresa que criou) e que regressa no terceiro acto como um homem diferente e capaz de fechar a epopeia criada por ele mesmo com iPods e iPhones e iPads.

 

Quando li uma biografia de Jobs, lembro-me do seu espanto quando viu um rato de computador pela primeira vez, antecipando o impacto que isso teria na utilização de computadores pessoais. Um rato, coisa que usamos hoje sem pensar, movendo a mão como quem conduz em piloto automático da casa para o emprego, foi em tempos causa de assombro. Com isto quero dizer que os feitos de Jobs (onde não se inclui a invenção do rato) fazem agora parte do nosso quotidiano automático e facilitado. Operamos um iPhone como passamos o cartão no torniquete do metro ou apertamos um botão num comando e uma televisão se acende para iluminar a sala. Tudo nos parece óbvio e garantido e funciona. Muito obrigado.

 

Mas:

 

Testemunhei as reacções à morte de Steve Jobs como habitante recente do Rio de Janeiro. Falou-se do assunto em mesas de botecos, os jornalistas escreveram, os cronistas também, apareceram os grouppies e os opositores da Igreja Universal do Reino de Jobs. Imagino que foi assim em muitas cidades do mundo durante um par de dias. (Já o transtorno Facebookiano da tragédia, com odes, citações e a palavra iSad, foi bem mais dramático, uma onda global de tristeza e elegias.)

 

O que mais me interessou, enquanto nos botecos se discutia o legado de Jobs, foi reparar nas mãos de meninas bonitas e viajadas escorrendo na face dos seus iPhones, foi perceber como as aplicações são temas de longas e profundas conversas, como mulheres e homens adultos falam igual a adolescentes diante de um videojogo. Trata-se de uma classe em expansão em muitas outras cidades. Mas aqui sinto sempre a presença dos iPhones em meu redor, nos passeios trópico-sofisticados do Leblon, na sala de espera para estrageiros do aeroporto, na praia, na pista de dança do Studio RJ, a fim de iluminar o caminho até ao banheiro, quando alguém precisa de saber um endereço ou comprar bilhetes de cinema ou descobrir qual a capital da Arménia. Há sempre um iPhone prestável.

 

Já não é apenas um acessório para satisfazer a status anxiety. É um modo de vida, como usar sapatos ou andar de avião. Talvez alguns dos contributos de Jobs para a humanidade não sejam tão espectaculares como a possibilidade de fazer em apenas 10 horas, e pelo céu, o caminho que custou meses a D. João VI e à sua entourage. Seja qual for a real importância de Jobs nos hábitos de parte da humanidade, olhando para as pessoas que conheço e observo nesta cidade onde escolhi viver, percebo que está entre nós: num táxi onde os ocupantes superam o aborrecimento da viagem tacteando o ecrã, quando alguém usa o aparelho para, no Twitter, ver onde há um Blitz (operação Stop) ou na mesa onde os meus amigos saltam entre a conversa, a comida e o iPhone, tal e qual crianças com problemas de atenção.

 

No fundo, resume-se a isto: sou ainda demasiado novo para lamentar a tecnologia, mas já sou velho suficiente para perceber que aquilo que foi feito para nos obedecer não deveria comandar-nos. 

publicado por Hugo Gonçalves às 14:58
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

A minha madeira nova

Comprei uma madeira três nova. Linda, a bichinha. Conto os minutos até ao próximo fim de semana. A partir de agora, saia bem o drive, e não há green de par cinco a que não chegue à segunda pancada. Vou dar descanso ao drive em muito par quatro. Pensando melhor, até sou capaz de arrumar esse cabeçudo que ultimamente só me tem dado desgostos.

Agora é que vai ser. Acabaram-se os tops miseráveis, os hooks vesgos, os slices tipo carro em aqua-planning. Basta tocar nesta maravilha para perceber que, com este balanço, o meu swing vai ter um ritmo que faria o João Gilberto morrer de inveja.

Não, não me venham com conversas cínicas. Não me recordem o dia em que me deram a pista de carros Scarletix, aquela que passados dois dias já tinha sido atirada para o armário dos brinquedos velhos e ficou a descansar em paz com o Action Man legionário e o capacete do Vickie. Não vale a pena lembrarem-me do dia em que levei os meus ténis Sanjo (botas, atenção) pela primeira vez à escola, os que  fariam as raparigas suspirar por mim, e que, numa semana, se tornaram apenas mais um par de ténis rotos. Da mota, do carro, do computador portátil, do DVD e de todas as coisas que iam dar uma nova dimensão às nossas corriqueiras vidas.  Do novo emprego ou do novo negócio, que se tornou rotineiro como todos os empregos e negócios.

Vivemos na ilusão da mudança, de que um objecto ou uma decisão mude radicalmente a nossa vida ou até nos mude como pessoas. E apesar de no fundo, no fundo, sabermos que no essencial nada muda, não conseguimos deixar de sentir um frémito, uma pequena esperança de que aquela madeira três nos faça baixar o handicap, que aquele livro faça de nós um homem novo, que aquele emprego nos realize absolutamente.

Pode ser que não possamos viver sem essa ilusão, que seja isso o que nos faz levantar todos os dias com a esperança de que nos conseguimos mudar ou alterar significativamente o mundo à nossa volta.

Eu não tenho dúvidas: a partir de Sábado começa a minha contagem descendente para o Seniors Tour. Treme Fred Couples.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:49
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

brown e aquilo que não vivemos

metendo-me na conversa

 

Vi Ian Brown uma única vez e já no tempo póstumo.

Claro. Preferiria uma sala mítica no breu de Londres ou um festival celebrado no auge dos Stone Roses, mas isso seria padecer em grau demasiado grave da nostalgia de uma vida que não se viveu. Quem ande pelos trintas e picos já chegou tarde para uma série de coisas. (Na verdade, todos chegámos. Há sempre uma saudade mítica de qualquer coisa que acabou mesmo antes de nós. Há sempre um remorso ilógico que nos faz culpar a nós mesmos por termos chegado um pouco tarde de mais para qualquer coisa que deveria ter sido nossa.) Com os anos, aprendemos a resolver e perdoar. Somos do tempo que somos, o que, em muitos casos, significa ser do tempo do fim e do fumo melancólico que percorre os salões vazios depois da festa, e nada há de errado nisso.

Empolgado como uma criança pequena que espera a hora dos desenhos animados (isto é coisa do nosso tempo. Hoje, há uns mil canais que passam desenhos 24/7.), ansiei dias inteiros pelo momento e, muito antes da hora certa, estava já plantado nas grandes, a metro e pouco do palco secundário da Herdade – isto é nome que dificilmente fica na história do cool – do Cabeço da Flauta. Julho passado. Super Bock Super Rock. Vocês sabem do que eu estou a falar.

Enquanto um grupo de portuenses mais novos, mas, valha a verdade, mais conhecedores de letras e artimanhas furava até à frente gritando que o Ian Brown era pai deles, descia mentalmente a fasquia da expectativa até aos tornozelos. Estava ali para ajustar contas com o que vivera de raspão. Não queria assistir a uma imitação decadente de Ian a fingir que ainda era Ian, dos Stone Roses sem Stone Roses. Aceitava não ouvir nenhum dos temas que nos encheu dos mesmos sonhos de grandeza de quem os escreveu e cantou (recordo-me agora de um episódio de muitos anos antes. Uma festa qualquer. No coração da noite, o dj lança “I Wanna Be Adored”. Todos dançam. Muitos, na cintura da pista, apenas porque sim, porque dançariam qualquer coisa. Outros, ao centro, porque a música nunca poderia ser melhor do que aquilo. Percebo então que um tipo ali perto que berrava e se descamisava com o mesmo frenesim que eu, não articulava rigorosamente as mesmas palavras. Fixei-lhe os lábios até perceber o que dizia. Dizia: “I wanna be your dog”. Mas estava radiante na mesma. E isso é tudo).

Regressamos às grades do palco secundário do Cabeço da Flauta, Julho. Aceitava então não ouvir nada do que já não era. Queria apenas um ponto final. O nosso momento decadente e póstumo. Com uma única exigência: “Sweet Fantastic”, um desses temas de que falavam os Smiths e que me salvou a vida, uns anos atrás, depois de ter comprado ao preço da uva mijona “Solarized”, na liquidação total da discoteca Roma.

Material em palco. O contorno do rosto de Brown no bombo da bateria, imagem cristalizada do tempo em que acreditava ser a ressurreição, para nos lembrar de quanto passara entretanto. Finalmente, os artistas. Ian e os outros, para que tirássemos as dúvidas: estava vivo, com efeito, mas isto de ressuscitar deixa as suas marcas.

Brown dançou no jeito macaco de sempre, exibiu a camisolinha de fato de treino sem pretensões, agradeceu tudo, o entusiasmo louco daqueles nortenhos que diziam ser filhos dele e o do rapaz do lado que não dizia grande coisa. Cantou bem, depois mal, depois já não acertava uma nota. Mas houve momentos em que, naquela pequena noite, naquele pequeno palco, juraria que o homem voltava a sentir-se grande. Eram instantes. Relances brevíssimos que lhe cruzavam o olhar, quando parava, sentindo a multidãozinha. Parecia dizer para si mesmo: ainda sou capaz. Ainda consigo ser grande. Adorado. Mas isso logo passava e voltava ao aspecto de vaidoso-anónimo que frequentou os vaidosos-anónimos para se desintoxicar do excesso de amor-próprio.

Uma hora depois, tinha acabado tudo. Não houve “Sweet Fantastic”. Reconhecível, “Time Is My Everything” e pouco mais.

Não faz mal. Um dia, ressuscitaremos outra vez.

Até lá, continuarei a dançar “Made Of Stone” como um louco sempre que passe, das raras vezes que passa, numa pista por aí.

Mas isso é comigo.

publicado por Alexandre Borges às 06:58
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Sábado, 15 de Outubro de 2011

Boquilobo

Lobo Antunes só não seduz quando lhe fazem perguntas sobre tricas e prémios literários, altura em que desce tanto das alturas que se torna ligeiramente rastejante. Em tudo o resto, tem um discurso tão nos antípodas da langue de bois dos políticos que por momentos há o risco de tomarmos o sábio pelo louco. É única a sua capacidade de se demarcar da actualidade e de mexer com a essência das coisas, distinguindo-se dos pedantes e dos diletantes. Pode ser pose, mas quantos a aguentariam durante tantos anos, sem uma falha? Ele lembra-me as master classes dos concertistas de idade avançada, já sem a agilidade dos dedos dos estudantes, mas ainda capazes de exemplificar uma passagem difícil de um modo luminoso, ainda que impreciso. A isto creio que se chama transcendência.

 

A marca de água do seu falar é a citação, que lhe sai com grande naturalidade e não parece apenas ser uma citação oportuna, mas a mais oportuna - de resto, quando há dúvidas, é o próprio Lobo Antunes que resolve a contento, recorrendo a duas citações que exprimem a mesma ideia. E mesmo quando não está a citar alguém, geralmente um outro escritor, cita-se a si próprio. Não sei se é efeito de quem já deu demasiadas entrevistas ou de ter encontrado o ritmo de discurso que melhor aproveita a inteligência e a memória, o certo é que ele nunca pensa alto, nunca inventa, nem sequer descobre, limitando-se a recordar. Daí resulta uma enorme autoridade ou, se me permitem, gostaria de pensar que a autoridade que lhe reconheço não vem do seu currículo. E este não é um fascínio acrítico de fã; quando começa com a explicação de que os livros se escrevem sozinhos, murmuro um here we go again. Mas quando ontem disse que tinha muito orgulho em ser português, reparei que ninguém mais me pareceu tão convincente e cheguei a sentir um daqueles apertos só arrancados pelas bandas sonoras que marcam o momento em que o mais fraco inverte a tendência. Ontem não havia desses enredos, que são lágrimas enlatadas. Era só o Lobo a falar, entre a espada desajeitada de Fátima Campos Ferreira e a parede de livros. No fim senti-me desconfortável, como sempre, porque gosto tanto de o ouvir que preferia que ele falasse mais e escrevesse menos. 

publicado por Vasco M. Barreto às 13:00
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

Life is a Miracle

Nesta parte do mundo a onda estava a crescer. Creio que noutras também. E tantas ondas juntas só podiam acabar em milagre.  O Pedro Marques Lopes havia falado da rapaziada num texto sobre um jogador da bola. O Bernardo Rodrigues postara em território facebookiano um vivido post  sobre um concerto dos psicadélicos moços. Uma espécie de solo agradecido do crente musical que nos transporta de imediato, e como raras vezes acontece, para um instante de comunhão maior: 

 

"O enorme bruá no hall, grande, frio e impessoal silenciou-se com o apagar das luzes. começou lentamente fumo a sair pelo palco. adrenalina. através de raios de luz do strob, atrás da bateria, vemos entrar 4 figuras e a gritaria é maior que goleada na final da champions, já sabemos o que aí vem, começa a linha de baixo, I wanna be adored. descontrole emocional. arrepio fulminante. olho em torno e h...omens graúdos choram como crianças. grupos de gente que nunca se viu na vida salta e canta abraçada. o rei monkey fuma, domina e canta à nossa frente sempre no tom e demonstra entre dois gingares, como se inscreve na história do roquenrole a definição do cool e do eterno. o espírito etéreo de uma geração. ao lado, o representante na terra de sua alteza incólume sr. mefistófeles trata de escangalhar com a guitarra a ultima das ligações seguras à realidade que nos restava. ao longo da noite são passados pelo crivo dos decibéis e do suor e da dança e das substancias que se tomou, os dois álbuns, os lados b, os singles únicos. o camandro.
à laia de desconfirmar improbabilidades latentes de perfeição, no dia a seguir, repetimos a celebração.
9 e 10 de dezembro de 1995, brixton academy londres. the stone roses".

 

Para rematar, o  Luís Bettencourt desenhou e tocou ao vivo na semana passada uma versão "out of this world", como diz o António Sousa, do tema que abre o primeiro álbum - e que fará, se os santos o permitirem, parte da banda sonora de um filme por estrear. (E há mais bandas metidas ao barulho).

 

 

 

Agora, rezam as notícias de jornal, o gang está de volta. Se houver alguns fãs melancólicos e cépticos é de compreender. Nada de facilidades. A reunião não pode ser pelo guito. Tem de haver um sentido  mais luminoso do que a contabilidade. E eu creio que existe. Se há reconciliaçao que faz sentido é a reconciliação de Ian Brown e John Squire. Não para uma jornada nostálgica - que também merece o seu espaço. Mas para uma celebração, para acrescentar nova beleza ao mundo. Flores e isso. Quem sabe, para nova filharada discográfica - que o segundo álbum da banda teve demasiado ruído de  fundo. Ainda por cima, existe um lado bonito no gesto de reaproximação: tudo começou a acontecer no funeral da mãe de um dos membros da banda, Mani. Depois de década e meia de desavença, eis que a guitarra saltitante - aquela que ouvi e vi num teledisco de "Elephant Stone", passado num "Rock in the UK" sintonizado por uma parabólica - volta a fazer promessas ao palcos. E, quem sabe, às canções. Parece uma notícia do "Inimigo Público", do "Onion". Ou um sopro de vida adolescente com dedo divino. Como profetizava o Vasco Mendonça num comentário: "Acho que o Johnny Marr e o Morrissey também foram vistos juntos em Manchester".  Estou com ele. Quero achar o mesmo.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 23:39
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