Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

outra vez

Há poucos traços tão comoventemente humanos como a nossa infinita predisposição para começar de novo.

Setembro, como por aqui escrevia há dias o Nuno, presta-se bem a ela. À vontade de fazer outra vez, mas bem feito, ou melhor. Começar a direito, sem os erros do passado, as desatenções, a preguiça, a ingenuidade, o excesso, o descontrolo, a reincidência, o vício, a tentação e tudo o resto que o leitor queira acrescentar ou substituir. Acordar mais cedo, fumar menos, comer melhor, trabalhar com mais disciplina, sair a horas, não ceder a tantos convites, não cair em tantas esparrelas, atender sempre o telefone aos amigos, responder a todos os e-mails, ligar em todos os aniversários, estar presente, ser um homem ou uma mulher que admirássemos. Ou a promessa de frequentar o ginásio que já se paga. De ler todos os livros da estante antes de comprar outros. De cozinhar mais e comprar menos fora. Andar mais a pé e menos de carro. Dormir oito horas. Escrever em dias certos. Estar perto das pessoas. Acumular menos tralha. Conservar apenas o que é útil. Regar, diariamente, as plantas. Não adiar, diariamente, os dias. Escutar mais, esperar mais, acompanhar mais. Perder menos tempo com tudo quanto já se percebeu ser perda de tempo. Deixar-se de promessas. Não permitir que este seja apenas mais um Setembro como os outros, quando quase tudo ficou por cumprir. Gritar, aqui dentro e contra nós mesmos, que desta é que é (ou, numa versão mais ternamente ridícula, quem é que manda aqui?).

Por volta de Outubro – ou Fevereiro, no caso das resoluções regadas pelo réveillon, ou um mês depois do reatar da relação ou um mês depois da estreia no novo emprego ou – quase tudo se esboroou. Os cigarros fumados num dia de tensão, as horas mal dormidas para acabar o trabalho que não podia esperar, os amigos e a família que ficaram para trás, mais os livros e a comida saudável e o personal trainer e as plantas e tudo o mais, ultrapassados pela inércia e pela preguiça e pelos nervos e pelo excesso e pelo desmazelo e pelo cansaço. Tudo, aliás, como previsto.

Sempre soubemos que falharíamos, mas voltamos, sempre a tentar. E essa vontade, essa resiliência, essa capacidade infinda para a ilusão, tem de fazer de nós bons homens e mulheres.

Corremos em círculos, mas nem o Criador traçou o mundo em linha recta.

publicado por Alexandre Borges às 07:49
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Sábado, 10 de Setembro de 2011

10 anos

Terrorist, Falling Man e Saturday são tês romances  associados ao 11 de Setembro. Não os consegui terminar. Seria abusivo fazer destes abandonos prova de que recuso a estetização de acontecimentos globais, terríveis, polarizadores e próximos. É verdade que todos parecem competir pela melhor redacção da turma e nem sempre regresso feliz dos reenvios à instrução primária; é verdade que sobra a sensação de que a arte se limita a parasitar a actualidade; é verdade que o romance ainda me parece ser a forma menos adequada de se discutir uma ideia; é verdade que a simples contemporaneidade com o evento nos torna sobranceiros face aos esforços dos outros; mas admito hoje, pela primeira vez, que talvez alguns destes livros apenas precisem de amadurecer, como se o facto de estarem a priori datados facilitasse a evolução futura na única direcção possível: a da intemporalidade. Em todo o caso, parecem trilhar o caminho oposto ao dos ensaístas, pois ler o Hitchens de então é mais interessante do que ler o Hitchens de 2011 sobre 2001 - menos por o artigo omitir o embuste das weapons of mass destruction do que pela tendência natural de se fazer da coerência uma força transformadora da História. Vence então o romancista, se não se lembrar de uma sequela e resistir a prefácios e posfácios, pois a vida própria que o livro ganha é uma daquelas em que não acontece mais nada senão envelhecer. 

 

A operação militar Shock and Awe veio lembrar-nos que a tentação dos nomes extraordinários resistiu ao ataque às torres, cujo contrastante e lacónico baptismo de data reforça a ideia de que aconteceu algo de inominável. Se foi por um pudor ou ideia de uma equipa de comunicação formada ainda as cinzas pairavam sobre Manhattan para evitar promover a Al Qaeda ou fazer do cérebro do atentado um Heróstrato moderno, nunca saberemos. O uso de "11 de Setembro" foi um sucesso de tal ordem que julgo não voltar a presenciar outra efeméride tão instantânea, mesmo tendo em conta a volatilidade dos mercados e que a pontualidade na abertura das bolsas se presta bem a consagrações de calendário. Talvez por alguma idiossincrasia minha, fui depois sentindo que reforçar a data não a fixava no tempo sem consequências, pois parecia distorcer o calendário, como se 11 de Setembro de 2001 fosse um corpo em torno do qual tinham passado a gravitar outros eventos, alguns com órbitas largas, como a guerra Irão-Iraque, outros com órbitas apertadas, como o enforcamento de Saddam Hussein - e embora a ordenação das órbitas concêntricas ainda respeitasse a cronologia, os seus autónomos movimentos de translação sugeriam que estaríamos na presença de inevitabilidades. O 11 de Setembro acusaria então um excesso de presente, como Portugal acusa um excesso de passado e Pedro Passos Coelho acusou em tempos excesso de futuro. Este efeito da gravitação do tempo em torno do 11 de Setembro tem manifestações viciosas, de que ainda são exemplo algumas discussões sobre as causas últimas próximas da Guerra do Iraque, e outras francamente divertidas, como a que me leva a fazer de Jarhead o Apocalipse Now do 11 de Setembro, embora o filme relate a Guerra do Golfo, que é de 1990-91.

 

As efemérides servem para que não nos esqueçamos, mas excepcionalmente podem assinalar o fim de um luto, servindo então para não nos lembrarmos tanto de aí em diante. Assinalarei a data com um regresso a Falling Man, de Don DeLillo. Há no livro duas crianças que vigiam os céus de uma janela com uns binóculos, temendo a chegada de Bill Lawton. É assim que "Bin Laden" soa aos ouvidos das crianças americanas e é tempo de gostar disto, se nos soa bem. 

 

 

 

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 16:00
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Voo S4 0124 Ponta Delgada-Lisboa

 

 

Nem sempre nos lembramos do lugar onde fomos tocados pela fé. Onde Deus tocou com o seu cachucho de diamantes no nosso ombro esquerdo. Comigo aconteceu em São Miguel, Açores. Foi nessa ilha que me tornei um melómano, um crente musical, sempre disponível para os mais diversos cultos às mais variadas divindades sonoras (Lembro-me disso agora que sobrevoo o Atlântico, em silenciosa viagem de regresso a Lisboa, e saco o canhenho para umas notas).

 

Foi aí que conheci (e me embrulhei com) os Clan of Xymox, os Pixies, os My Bloody Valentine, os Cure, os Shamen, os 808 State, a Meredith Monk, os Ride, os Trisomie 21, os Go-Betweens, o Wim Mertens, os Happy Mondays, os Stone Roses, os Farm, os They Might Be Giants, os Wolfgang Press, os Galaxie 500 - e uma data de moçoilas que, em geral, não tinha grande paciência para essa gente.

 

Foi na ilha de São Miguel - onde cresci e me preparei para a engorda lisboeta - que, na mornaça dos sábados à tarde, fiz um programa de rádio com uns amigos. Um programita que serviu para comunicarmos ao mundo os nomes das bandas esquisitas que andávamos a ouvir e, em consequência disso, preocupar seriamente os nossos pais e limitar a sua vida social. Sim, foi em São Miguel que com esses mesmos amigos organizei festarolas em que o traje obrigatório era uma t-shirt psicadélica (ou melhor: uma t-shirt da Regisconta decente e sóbria posteriormente devassada por intervenções à Pollock - e à Pauleta). Sim, há uns 15 anos, houve uma secreta geminação entre Manchester e a Lagoa das Furnas.

 

E é em São Miguel, Açores, que ainda hoje - como é que hei-de isto para parecer bem lamechas? - a música me entra melhor. Com menos ruído e comentário. Com mais emoçãozinha. Juvenil, pueril, qualquer coisa acabada em il. Sobretudo se a ouvir, como aconteceu há pouco, numa viagem de carro pelas estradas da ilha. Mas isso das cassetes gravadas para apreciar na carripana fica para outra crónica. Talvez para a próxima.

 

 

(Agora que preparo a ida para São Miguel com a minha equipa de filmagens  - Nuno Simões, Tiago Carvalho, Filipe Tavares, Leandro Silva -, republico uma crónica originalmente publicada na revista "Atlântico", em Julho de 2006, sobre o sentimento  que está por detrás desta ideia de realizar um documentário  acerca desse gesto de ir buscar os discos que foram deixados na ilha).

publicado por Nuno Costa Santos às 15:55
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Quod erat demonstrandum

Diz que houve para aí uns assuntos muito importantes durante a última semana. Mais impostos, alguém se propôs à Rita Pereira, mexeriqueiros armados em espiões, garantiram-me que o José Manuel Fernandes tomou banho, a Floribela vai para Nice,  o Primeiro-Ministro anunciou o fim da crise para o ano, mas o país parou mesmo com o abandono do Ricardo Carvalho do estágio da selecção. O drama tem contornos ainda não convenientemente esclarecidos, e a verdadeira questão é: quem se portou mal? O Bento ou o Carvalho?

Analisemos esta pungente questão.

O Ricardo Carvalho foi durante uns anos o melhor defesa central do mundo, é o melhor defesa central português de todos os tempos, ganhou uma Taça Uefa e uma Liga dos Campeões pelo Futebol Clube do Porto, é sócio dessa maravilhosa agremiação, as suas bandas favoritas são os Stone Roses e os Smiths, o corte de cabelo evoluiu saudavelmente duma basta cabeleira indie para uma bela careca trintona,  quando fala de futebol aparece sempre com um sorrisinho “pois tá bem, tenho um javali ao lume”.

Paulo Bento foi um jogador assim a atirar para o mais ou menos, entusiasmava tanto a jogar à bola como o Vítor Gaspar a discursar. Trocou o grande Fófó por dois clubes folclóricos da segunda circular e teve o seu apogeu no Oviedo, esse colosso futebolístico. Tem um cabelinho que está para lá do aceitável foda-se. Estou capaz de jurar que é moço para apreciar uma bela Sardetzada e ainda não percebi se fala espanhol com sotaque português ou português com sotaque espanhol, cheira-me que não está a gozar quando faz aqueles discursos em que revira os olhinhos e, não podia ser tudo mau, fez-me finalmente perceber a quem é que o Tony Miranda vende roupa.

Agora respirava fundo, chamava o Steiner, contava a história do Blunt, do Philby, do Maclean e do Burgess, e arrefinfava-lhe com uma bela metáfora. Mas isto é um canto e não um lamento, ou melhor, isto é uma crónica não é um ensaio.

i rest my case.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:03
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

sinusite crítica

Os críticos são odiados, já se sabe. O Vasco recorda-nos isso mesmo, ainda que, aparentemente, fosse sua primeira intenção falar da overdose de anúncios que agora precede as sessões de cinema.

Não é um ódio difícil de perceber. O crítico tem desde logo esse nome cretino. Ele não cria, ele crítica. Não tem existência própria; parasita a obra dos outros. Faz vida de dar opiniões, mesmo que nunca lhe tenham perguntado nada.

O crítico é um símbolo de um mundo que está a acabar. Um mundo anterior aos fóruns tsf, aos big brothers, aos facebooks, onde se entendia, por estranho que possa hoje parecer, que não bastava respirar para se ter uma opinião que importasse ouvir. Um mundo onde não bastava dizer “like”; era preciso explicar porquê ou por que não. O crítico é, enfim, a face mediática dum velho tema filosófico que distinguia a questão do gosto da estética. Mas agora consegue dizer-se tudo nos 140 caracteres do twitter e a Crítica Da Faculdade Do Juízo, só de título, tem 29, incluindo espaços.

É claro que ninguém teve mais responsabilidade na má fama dos críticos do que os próprios. O hermetismo, a pretensão, a leviandade e o autismo com que, amiúde, se foi escrevendo ao longo dos anos hostilizaram leitores. Um erro presunçoso e de palmatória: ignorar o público. Desdenhá-lo. Faltar-lhe ao respeito. Se alguém escreve não para ser compreendido, mas em busca da admiração pacóvia de quem rotula de intelectualidade aquilo que não entende, então estamos conversados. Quanto aos críticos e quanto aos leitores.

A história, no entanto, não termina por aqui. A crónica do Vasco é um pequeno exemplo desse curioso fenómeno contemporâneo: a crítica aos críticos. A hipotética obra de arte – “Bridesmaids”, neste caso – está lá ao fundo. Não se chega bem a dizer uma palavra sobre ela, a explanar o que possa de ter de bom ou de mau, a construir um argumento que nos faça perceber por que errou quem não gostou do filme. Critica-se os críticos porque não gostam de nada, não gostam do que nós gostamos, não gostam de Judd Apatow e gostam de Abbas Kiarostami. Critica-se os críticos pelas bolinhas ou estrelinhas que dão e não pelo que escrevem, pelo argumento, pelo raciocínio, pela razão; por aquilo afinal, por que lhes pagam: pensar sobre um filme e defender uma tese com a qual se pode ou não concordar por razões inteligíveis e não simples e irresolúveis diferenças de gosto. Critica-se os críticos, enfim, com tanto preconceito como aquele de que se os acusa.

Se o Vasco fosse um crítico, não tardaria a ser inundado de correio de gente que odiou “Bridesmaids”; gente que o insultaria por, nos quatro críticos que refere, nomear um que já não escreve e outro que é, na verdade, um célebre – e há muito morto – cineasta português; gente que lhe pediria para explicar que há de errado em gostar de Kiarostami; gente que perguntaria por que carga de água Judd Apatow, autor de três filmes entre os quais se conta “Virgem Aos 40 Anos”, teria direito a ciclo na Cinemateca; gente que perguntaria por que mistura “Bridesmaids” com um realizador que não o realizou, com a opinião de críticos que não apresenta nem desconstrói, com o problema da overdose de anúncios antes das sessões de cinema.

Mas o Vasco não é crítico e não faltará quem concorde com ele. Só estranho que, na literatura, se perceba que o light é mau; que, na música, se recuse a pop ligeirinha, fórmulas easy-listening e afins; e só no cinema haja tanta gente tão convencida de que o fácil é que é bom. Que o difícil é uma vaidade dos críticos. Que não perceba que um grande filme tenha de ser visto e revisto para ser compreendido, como tantos grandes livros e tantos grandes discos.

publicado por Alexandre Borges às 07:48
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Outono ou nada

Gostaria de ter alguma coisa mais para vos oferecer que não fosse uma conversa sobre o tempo. Sobre a estação. Mas tanto que dizem de nós, estes ciclos a que nos habituámos a não dar importância, por serem, em toda a extensão da palavra, naturais. Constroem-nos, ou, na mais mirabolante das hipóteses, construimo-nos em função deles.

               

Subestimámos as estações do ano. Habituámo-nos a enterrar os dias à pressa, schopenauerianos involuntários que decidem sem querer ir matar o instante que se segue a outro instante  e acreditar que a vida é algo nesse intermédio. Caímos no erro de nos acharmos superiores ao que nos vai sobreviver, por mais aquecimento global que aturemos. Tudo se tornou, por nossa vontade, cinzento. Já ninguém fala de  pessoas primaveris, estivais, outonais, invernis. Misturar a nossa rica personalidade com uma mera estação do ano tornou-se mal visto e desacreditado. O que há resume-se às férias, ao trabalho, ao regresso às aulas, ao clima desagradável. Toda a gente se esquece das intempéries da alma, da força perfeita do Verão* , da melancolia outonal, da tristeza de Dezembro, da inocência de Março – e como o gostarmos ou não gostarmos disso nos transforma naquilo que somos.

 

Eu sou um tipo outonal e não tenho vergonha que a adjectivação possa parecer ridicula ou poética ou ambas.  Talvez por ter nascido no inicio de Outubro renuncio à extrema alegria de Agosto. Apavora-me esses dias que parecem, como escreveu Larkin, «emblems of perfect happiness». Prefiro, para não perder esta ajuda e arriscar o meu pretensiosismo, esperar por um «Autumn more appropriate».

E rejubilo quando ele se prenuncia, como é o caso do mês de Setembro. Não se trata de uma questão metereológica, note-se; trata-se de reencontrar o que andava perdido e me fazia falta. Tempo para pensar, um tempo de regeneração e recomeço. Um tempo de regresso, que tanto estimo como de resto já aqui escrevi.

 

Mesmo que este mês oferecesse, para gáudio de muitos, temperaturas médias diárias de 30º, seria sempre o começo de Outono. A esperança em que não acredito reaparece ténue, com tudo o que pode significar: amor, paz, tempo. Setembro e o Outono são recomeços de mim. E sei que há muitos como eu, que o confessam em privado, quase a medo, vivendo na clandestinidade sob o entulho do quotidiano.

 

Tinha outras coisas para escrever com que talvez não perdessem tanto tempo. Mas é mais forte do que eu: sou feito de uma estação do ano e não tenho vergonha disso. 

 

 

 

 

 

*todos os textos com o meu nome por baixo não irão respeitar o novo «Acordo Ortográfico»

publicado por Nuno Miguel Guedes às 02:30
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Sábado, 3 de Setembro de 2011

Blogosphere as she is spoke*

Neste momento, é muito provável que haja teses de mestrado sobre a blogosfera lusa e em alguma se encontrará um dendrograma com a filogenia de todos dos blogs. Não a tendo lido, imagino que no tronco comum da blogosfera em que o Sinusite se inscreve encontraríamos o blog A Coluna Infame, da autoria dos três magníficos, e reconheço no ano de 2003 o nosso Câmbrico, aquela explosão de diversidade que não mais se voltaria a repetir e que condicionaria irreversivelmente toda a evolução futura, ao ponto de se pecar por defeito quando se afirma que o blog  A Causa foi Modificada é o melhor até agora, por se tratar logicamente do melhor blog de sempre. Em 2003, já havia o blog político, o blog literário, o blog intimista, o blog da estrela mediática, o blog erótico, o blog caluniador, etc. Todos os papéis e modelos estavam claramente definidos: o blogger e o comentador, anónimos ou não, o blog individual e o blog colectivo. Os blogs tinham necessariamente nascido, mas também já havia óbitos, bem como a figura mista do blog nado-vivo, porventura o mais frequente. E as empatias foram coincidentes com as embirrações e logo seguidas das zangas. Depois de 2003 não aconteceu mais nada cuja substância não fosse apenas uma alteração de grau, pois todas as qualidades tinham sido inventadas. A chegada dos bloggers aos jornais e a dos jornais à blogosfera são acontecimentos que nada acrescentam à essência do meio, tal como, nos blogs colectivos, os processos de cristalização (no duplo significado de afunilamento de ideias e de aumento do efectivo), de gemulação, cisão e colapso são dignos de registo, mas apenas correspondem a uma institucionalização das pulsões que já andavam à solta em 2003. Daí que, embora umas das duas discussões que marcaram 2003 esteja datada (a Guerra do Iraque), a outra seja recorrente (o metabloguismo) e se regenere sem nunca perder a actualidade, alimentada por aquele mesmo entusiasmo fundador que - como alguém notou - fazia Catarina Furtado falar da sua gravidez como se fosse a primeira mulher a passar por isso. Este texto, naturalmente, é apenas mais um exemplo.

 

Num sketch que vi há muitos anos na televisão francesa, faz-se uma flash interview a um pugilista, que fala como um  intelectual estruturalista. É um fillão de humorismo conhecido: a surpresa que vem da junção de uma natureza e um discurso incompatíveis. Nesse sentido,  o metabloguismo não deveria ter graça nenhuma, pois trata-se de uma emanação directa da blogosfera. O post sobre blogs é, quase sempre, um post sublimado sobre o próprio blogger e não há nisto nada de surpreendente, pois os bloggers  são criaturas narcísicas, pelo menos de um ponto de vista - digamos - estatístico. Não faltam dados a esta tese. Por exemplo, os dois mais importantes exemplos de metabloguismo, apesar de diametralmente opostos no fôlego e no estilo, são da autoria de Luís Carmelo, cujo banner não engana, e de Pacheco Pereira, cujo método de conhecer por dentro (Esquerda, PSD, Media, blogs) para depois descrever como se estivesse de fora resulta mais de uma limitação imposta pelo seu narcisismo do que de uma opção consciente. Paradoxalmente, o que tende a suceder com o metabloguismo, e cada vez mais, pois aproximamo-nos  da impossibilidade teórica de um discurso original, é que a hiperbólica compatibilidade entre o blogger e o seu discurso cria um instante ainda mais cómico do que o boxeur francês, pois resulta num humor involuntário, o tal em que se tempera a fruição com a irresistível malícia. O metabloguismo, sobretudo quando ensaia uma deontologia (que uso dar ao poder que vem do anonimato, como lidar com os arquivos, que regras de citação seguir, etc.) na ressaca de um dos casos concretos que periodicamente agitam o meio, vem sempre com a mistura de leviandade e desejo de ser levado a sério típicos de uma RGA ou assembleia popular. Se faço esta comparação é para realçar o elemento comum: a plateia. A blogosfera, no fundo, é um Big Brother de e para pessoas com pretensões intelectuais -  o que se confirma pela importância desmesurada que damos a este meio, socialmente irrelevante, pelo guilty pleasure que sentimos por não estar a ler outra prosa e até por casamentos, divórcios e um eventual pontapé na cara. De modo que só há duas atitudes maduras perante os cortes de relações (aqui confesso seguir o método de Pacheco Pereira), as zangas,  as traições e os elogios públicos que abundam na blogosfera, plenos de pequeno calculismo e sempre esplendorosos: tratá-los como enredo de telenovela ou como enredo de sitcom. Antes rir, creio, mas é uma opinião pessoal. E antes assumir o papel de personagem, pois na óptica do praticante o Big Brother  perde para o Último a Sair. Daí o meu fascínio pelo João Miranda e pelo Carlos Vidal. São personagens absolutamente blindadas e que não nos aborrecem com a intromissão permanente do seu carácter no enredo. Um faz de autómato ultraliberal e o outro é um pró-estalinista adorador de Badiou, ambos pairando sobre o terreiro onde somos vítimas das armadilhas do humor involuntário, pois quando os leio sinto-me na presença de um humor que é voluntariamente involuntário ou então involuntariamente voluntário, mas não pode ser uma terceira coisa. Talvez neles falte uma pessoa, mas essa é a única forma de garantir que jamais nos enganarão.

 

*.

 

publicado por Vasco M. Barreto às 09:21
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Drama da vida real

Felizmente as férias estão a acabar. É que as férias trazem sempre um drama - um conflito que abala famílias em todo o mundo e do qual pouco se tem falado: o drama da violência que se pode gerar quando dois amigos querem pagar a conta num almocinho de Agosto. Não, não falo da  facilidade de ninguém se chegar à frente. Falo daquelas (conhecidas e vividas por todos) situações em que dois amigos querem ser eles a pagar e não aceitam - nem que a vaca tussa - que seja o outro a pagar. Temo sempre o pior.

 

- Eu pago.

- Não, pago eu.

- Não aceite o cartão deste senhor. Quem paga sou eu!

- Sou eu!

- Eu!

- Olha que a gente vai-se chatear!

- Vai mesmo! Senta-te lá que eu é que pago!

 - Ai!

 

Um diálogo que começa com civilidade e simpatia segue rapidinho para uma artilharia de exclamações a raiar o insulto. Temo, sim, temo sempre que a coisa dê para o torto e que aquilo que começou por ser um gesto de cortesia acabe num combate de wrestling de dois amigos de infância com as famílias a ver. Já faltou mais.

 

- Eu não te queria rebentar a tromba mas já disse que pagava!!!

 

E zás, um banano, que atira o outro para cima da mesa à volta da qual as mulheres e os filhos falam do último sucesso de David Guetta. Escusam de olhar para mim com o ar de quem está a olhar para um tipo que sublinha problemas de ricaços. Não: isto também vale para as bicas. Quantas amizades não podem ficar em perigo só porque alguém saiu antes da mesa e numa manobra manhosa disse ao balcão que ficava com a despesa da mesa 5? Além disso há um ser que sofre muito com estas situações (ouço desabafos) e não pode ser esquecido nestas alturas: o funcionário de restauração. Que normalmente sorri sem defesas, como quem diz:"Vocês que se entendam". Porque é que este cidadão que nada tem a ver com o caso há-de assistir a um combate mortal entre duas pessoas que pareciam que se amavam? Não é bonito.  E não é justo. Pensem comigo. 

publicado por Nuno Costa Santos às 16:02
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

A Sétima Arte, Anunciante's Cut

 

Acabadinho de me sentar, esperava pelo início do filme Bridesmaids, uma daquelas comédias americanas que levam 3 estrelas do Jorge Mourinha e hífens ou bolinhas dos restantes. Hífen, na escala de crítico de cinema, significa “não vi, não quero ver e tenho nojo de quem viu”. Uma bolinha não preenchida significa que o crítico vomitou na sala de cinema e teve que ser assistido por enfermeiros. A bolinha preta significa que o crítico morreu na sequência do visionamento. Dependendo do círculo social a que se pertence, a reacção a estas pontuações varia geralmente entre “mais uma comédia juvenil... mas o novo kiarostami nem vê-lo!” e “eu quero é que o mário jorge torres se foda.” Eu, admirador confesso da sétima arte, pertenço a este último grupo, apesar de não ter nada de pessoal contra Mário Jorge Torres. Onde lêem Mário Jorge Torres, podem ler Leitão de Barros, Vasco Baptista Marques ou Nuno Carvalho. É tudo boa gente.

 

Mas ainda não perdi a esperança. Se Deus quiser, há-de chegar lá pra 2020, o ciclo Judd Apatow na Cinemateca - Deus assim o permita, apresentado por um destes caramelos. Nesse dia, o crítico terá o seu momento de redenção, explicando, pleno de historicização e o caralho, que demorou algum tempo a compreender a profunda humanidade das comédias de Apatow, ou o modo como o slapstick de Buster Keaton se cruza com referências de uma transmodernidade fulcral para se compreender tudo o que veio depois (incluindo a sua mudança de opinião).

 

E, no entanto, quando tudo indicava que poderia vir a ser processado por um dos gajos referidos nos parágrafos acima, eis-me novamente sentado na cadeira, à espera do Bridesmaids, pronto para dar umas 3 estrelas sem ainda ter visto o filme. Mas atenção que isto de ir ao cinema tem muito que se lhe diga. É muito mais do que as pipocas, gajos a rirem-se fora de tempo, e filmes. É uma nova arte, que consiste em bombardear o espectador com aquilo que está mais à mão. Não são as pipocas, não. São os conteúdos! Alguém deve ter realizado um focus group em que se conclui que 71% dos espectadores de cinema não se importam de levar com 20 minutos de merda antes do início do filme. E por causa dessa brilhante conclusão, cinema que é cinema em Portugal, hoje em dia, não começa sem 2 lições de vida e um espectáculo de revista:

 

Lição de vida 1 - um anúncio de um operador de comunicações móveis em que este nos explica, numa longa sequência de imagens, que a vida é feita de seres humanos, amizades, caminhadas ao pôr do sol, dias de praia, surfistas em convívio, pleno emprego, separações, ataques de choro com óptima direcção de fotografia, lutas de comida gourmet, discotecas onde só estão pessoas bonitas, uma política fiscal justa, e alguém a receber um mms de um amigo que acabou de chegar à festa onde essa pessoa já queria estar, mas não está porque ainda está noutro sítio a receber um mms de alguém que já lá chegou.

 

Lição de vida 2 – um anúncio de um fabricante de cerveja exactamente igual, mas neste caso termina com alguém a ser recebido por 3 ou 4 amigos e a brindar à vida, numa celebração que, se acontecesse realmente naqueles moldes, fosse em que lugar fosse, faria de nós, um ajuntamento espontâneo de palhaços (os ingleses usam o termo douchebag com elevada taxa de aceitação). Neste caso, os danos à saúde mental do espectador são controlados pelo finíssimo critério de uma agência de figuração.

 

Espectáculo de revista – esta é a minha nova parte favorita de ir ao cinema, excluindo a reutilização do bilhete no El Corte Inglés e as partes em que estou mesmo a ver filmes. Então, são uns vídeos das Produções Fictícias em que, à vez, o Manuel Marques ou o Luís Franco-Bastos nos oferecem pérolas da comédia capazes, estas sim, de matar não apenas o crítico de cinema como qualquer outro membro do público com um cérebro a funcionar. O Manuel Marques utiliza os mesmos trejeitos de outras 20 personagens da sua já longa carreira, mas aqui interpreta um pica-bilhetes demasiado zeloso. É um espectáculo deprimente e faz com que aqueles 3 minutos me deixem tentado a escrever que foram 7, quando na verdade pareceram 20. Quanto a Luís Franco-Bastos, é um rapaz de 20 anos que faz imitações. Ainda há solução para ele. Eu podia dizer que esperava melhor de ambos, mas ao mesmo tempo achei que devia dizer a verdade.

 

E pronto, foi isto que fiz no Verão. Espero que as vossas férias também tenham sido boas.

 

Errata: Soube entretanto que o Jorge Mourinha saiu a meio do visionamento. O mundo está realmente perdido.

publicado por Vasco Mendonça às 16:00
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