Domingo, 17 de Julho de 2011

Dente por dente

For there was never yet philosopher
That could endure the toothache patiently.
William Shakespeare, Much Ado About Nothing

 

 

Reconheço: há algo que uma ida ao dentista, quando adultos, consegue fazer sair a criança que há em nós. A pior criança. Medos, birras, fobias, comportamentos irracionais, descrença em nós próprios, perda de dignidade em geral. Mas eis a notícia chocante, ó profissionais dentários: é mais do que natural. 

Explicando, então: em consequência de um infortúnio já aqui relatado, as idas ao dentista tornaram-se regulares e obrigatórias. Fui bem aconselhado, perfeitos antecedentes, garantias absolutas que nada iria doer com a excepção da carteira. Que um homem crescido já devia ter maneiras e aguentar estoicamente os momentos que passa impotente numa cadeira enquanto estranhos olham para a sua boca. Tudo natural, há coisas piores, tratamentos mais dolorosos, casos mais dramáticos. De acordo.Mas a criança que saiu e sai deste maduro de 46 anos diz, cada vez que entra no consultório « Tirem-me daqui!».

 

Há várias teorias para este tipo de reacção. Uma delas, que eu aceito pacificamente, é que os homens são uns mariquinhas quando se trata de procedimentos clínicos. Pronto, até de uma constipação. Morremos, deixamos testamento, epitáfios catitas. Tudo para elas nos gozarem pacientemente e com paternalismo. Mas com os dentes é diferente, minhas senhoras. Em primeiro lugar, existe a impossiblidade de explicar, com lógica e tempo, que um estranho colocar as mãos na nossa boca será sempre contranatura, por mais habilitados que estejam. Não há hipótese: um tipo deita-se na cadeira, nervoso mas pronto a argumentar, mas a visão da parafernália que o rodeia remete de imediato para a mais terrivel cena d'O Homem da Maratona. Mesmo que nunca se tenha visto. «Is it safe?». Nunca.

 

O que nos dói é antecipação, nunca o momento. No meu caso eu sei que a excelente dra.Inês, que me atura e trata, tem um especial cuidado e jeito para evitar a dor. O que ela não consegue evitar é a antecipação da dor; a agulha que se levanta; a broca que começa a girar. Na verdade, é isto que nos começa a doer e irá continuar, por mais racionalizações de instante ou  catarses como esta que se façam. A relação de confiança entre paciente e médico acaba, a dada altura, por surgir: mas sempre pelos factores racionais (excelente tratamento, diagnóstico correcto, etc) e sobretudo depois do acto. É como uma previsão depois do jogo. 

 

O que me leva a esta crónica. Tenho ainda mais duas ou três sessões de saga dentárias. O equivalente a dois ansiolíticos por sessão, but who's counting? Sei que irei apresentar todos estes sintomas, que a dor estará ausente. Mas o resto não: o meu refúgio desesperado na beleza da enfermeira que gentilmente coloca o tubo que nos suga ou a absoluta certeza que estou a ser tratado sem qualquer simpatia pela dor.Só quero que perceba, dra.Inês e todos os dentistas do mundo: nunca mas nunca, por mais sábios e hábeis que sejais, ireis conseguir deter a criança que há em mim e em nós. Sugiro o canal Panda. 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 04:45
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Uma palavra

O meu país anda a perder a educação, anda. Começam a acumular-se histórias de pessoas que são despedidas sem uma palavra. Há dias soube de uma história lamentável num território que tem por hábito exibir valores e éticas em manchetes e dossiers: o jornalismo. Soube de um colaborador de mais de trinta anos despedido por email. Quem o mandou embora nem se deu ao trabalho de procurar o nome. Despachou-o com um "Exmo Senhor". E, zás, adeuzinho. A sua colaboração vai ser descontinuada. Porque procedemos a uma remodelação.

 

Remodelações são legítimas. Ilegítimo é o resto. Todos sabemos. Todos sabemos que  isto tá mau para todos. O que não significa que  - peço desculpa, como diz o outro, por estar a dizer o óbvio - que se esqueça os mínimos. Saber mandar também é saber portar-se à altura na altura de despedir, momento muitas vezes tão difícil, admito, para quem despede como para quem é despedido. Mas é preciso que quem fica tenha a coragem de dizer. Na cara. Com a consideração e a seriedade que o gesto exige. Mandar embora por email é feio. E tem sido cada vez mais praticado. Parece que começa a tornar-se numa coisa normal. habitual, a repetir. Já ninguém se chateia. E hoje é por email, amanhã é por SMS (sim, já aconteceu) e depois é por Twitter (também já, eu sei).

 

Lixo para mim não é uma classificação de países feita por uma agência qualquer. Lixo para mim é isto.

 

 

 

publicado por Nuno Costa Santos às 23:46
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Esperando Gael García Bernal

Três histórias em Nova Iorque

 

Ao fim do dia, quando os meus amigos regressavam dos seus passeios pela cidade, era inevitável que relatassem o encontro na rua com alguma celebridade, ao ponto de eu mudar o habitual "então, o que fizeste hoje?" para "então e hoje, encontraste quem?" Eles vinham por seis dias e esbarravam com o Nicholas Cage numa esquina ou eram alertados pela campainha da bicicleta do David Byrne antes de atravessar uma rua; eu estive lá seis anos e para encontrar alguém foi preciso ir a uma sessão de autógrafos (de um dos irmãos Coen). Ciente da excepção à probabilidade e estatística que era a movimentação em Nova Iorque dos célebres e deste que vos escreve, de resto convencido que uma entidade superior olhava a cidade  de alto e, como num jogo de Pacman, me guiava à custa de acasos para evitar que me cruzasse com eles, foi sem entusiasmo que reagi à notícia de que talvez o Gael García Bernal aparecesse para jantar em minha casa.

 

Continua

publicado por Vasco M. Barreto às 11:00
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011

O homem em queda

“Já em Nova York – Nova York não vi”. Li este haiku num livro do Don DeLillo, “O homem em queda”. Maldito verso, estragou-me a leitura. O 11 de Setembro, o mundo a mudar, a maneira como a tragédia alterou a vida de pessoas, e mal li aquilo dei comigo a pensar em Lima e na praia de Itapoã. Dois sítios onde estive  e não vi.  Melhor, vi os locais que têm esse nome mas não eram, de certeza absoluta, os mesmos com que sonhei, que me foram descritos pelo Vargas Llosa e pelo Dorival Caymmi. A verdadeira Lima, a real praia de Itapoã são aquelas que eles me mostraram, nada daquilo que vi.

Tenho lá voltado.

Pego na Conversa na Catedral ou na Tia Júlia e o Escrevedor e revejo a cidade misteriosa. A eterna neblina é um papel de embrulho místico, a chuva miúda tempera o calor, as mulheres são exóticas, o mar acastanhado porque o peixe abunda, o ceviche é delicioso, as casas de dois pisos têm todas um jacarandá sempre em flor, os velhos contam histórias à porta das tascas.

Ouço a música do Caymmi ou leio o Jorge Amado e a areia da praia de Itapoã é imaculadamente branca, os coqueiros inclinam-se à passagem das lindas mulatas, o mar cálido entorpece, nas esplanadas ouve-se o João Gilberto enquanto se bebem caipirinhas, há bahianas a vender petiscos, os rapazes jogam uma peladinha.

Pronto, estou em Lima ou na Baía e vejo-as claramente vistas.

Um homem não lê, lê-se.   

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:01
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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

para sempre e para nada

Estava no cimo da Torre Eiffel quando fui despedido.

Há uma ironia qualquer em estar tão alto e descer tão depressa que torna o quadro antropologicamente fascinante. Ficar, de repente, com a cabeça tão abaixo dos pés. Tão deprimido e maravilhado. Tão fora deste mundo. Ter esperado horas na fila para subir e um telefonema chegar ali acima tão rápido, sem bilhete nem direito, entre chineses, americanos e alemães, máquinas fotográficas e flutes de champanhe. Uma notícia tão intrusa que podia deixar cair dali de cima, empurrá-la lá para baixo, mandá-la de volta ao mundo das coisas pequeninas.

Um acontecimento e outro ficarão ligados para sempre e há uma lição qualquer a tirar disto. A primeira estadia em Paris, a aparição daquele que é, provavelmente, o edifício que mais vezes vimos na vida, o maior cliché do mundo, mas capaz, ainda assim, de nos assombrar, arrebatar, esmagar. Biliões de porcas, parafusos, traves, vigas, ferros, rebites. A insolência daquela grandeza. O atrevimento de construir qualquer coisa para sempre, que ninguém teria coragem de derrubar, mesmo que fosse esse o plano inicial. (A torre salvou-se porque dava jeito às antenas do rádio-telégrafo. Nada a ver com beleza. A espécie humana é tão maravilhosa e imbecil. Tão comoventemente cretina.)

A torre ficou, as telecomunicações evoluíram e apanharam-me no alto da primeira com a notícia de que tinha sido mandado borda fora de outra dessas coisas velhas e extraordinárias. Um jornal. Outra dessas coisas a que tantos auguram um fim próximo, rápido e indolor. Outra dessas coisas que uns tentam salvar pela utilidade e não pela maravilha, pelo uso e não pela arte, pela pequenez e não pela grandeza.

Literariamente, ainda não resolvi a questão. Esta crónica não é uma crónica, é um esboço de crónica, ainda à procura das palavras justas. Em termos pessoais, resolveu-se lá em cima, entre chineses e alemães e o Sena perfeito recortado entre Deus e os homens.

A vida não faz sentido, mas faz rir. Ou, dito doutro modo: desconheço o sentido da vida, mas reconheci-lhe ali o finíssimo sentido de humor.

Conto agora receber uma notícia feliz quando estiver tombado dentro duma gruta.

Só espero que haja rede.

publicado por Alexandre Borges às 01:25
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Domingo, 10 de Julho de 2011

Essa palavra saudade

Essa palavra saudade. Ninguém a quer mas nós, portugueses, nascemos com ela. Sempre desconfiei de positivismos mas sobre este assunto sou particularmente feroz: é atavismo nacional e mais nada. Não há ciência que o possa explicar. A parte bonita – e ao mesmo tempo triste – é que espalhámos a saudade como uma pandemia. E no entanto não a conseguimos traduzir, a não ser no momento em que a sentimos. De nada valem os esforços para lhe arranjar étimos distantes: a teoria mais aceite é que provenha do latim solitas, solitatis (para solidão) e que tenha sofrido influência dos vocábulos latinos para ‘saúde’ ou ‘saudar’. Pouco importa: é objectivamente intraduzível. Há cinco anos atrás uma empresa de tradução britânica, a Today Translations, elaborou uma lista das mais difíceis palavras de traduzir. ‘Saudade’ ficou em sétimo lugar. A concorrência, há que dizê-lo, era de peso: em primeiro lugar ficou a expressão congolesa ‘ilunga’, que quer dizer mais ou menos (espero que tenham tempo para o que se segue) «pessoa que está disposta a perdoar maus tratos pela primeira, pela segunda mas nunca pela terceira vez». Justo vencedor. Outra difícil era a polaca ‘radioukacz’: «alguém que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro». Mais perto de nós, em todos os sentidos, está outra palavra intraduzível, a árabe ‘altaham’, que significa um tipo de profunda tristeza. E depois vem a saudade: em sétimo lugar, sim – mas a única cujo significado não é consensual.

 

 

Mas não é só a dificuldade de tradução ou descrição que torna difícil falar de saudade sem apelar a artes poéticas ou, no pior dos casos, ao lugar comum. É o anacronismo do próprio sentimento que a palavra evoca. Saudade, pensava eu, já não pertence a este tempo de comunicações rápidas, práticas mas impessoais. Faz sentido nos momentos mais solitários ou em utilizações estéticas mas não se fala disso no dia a dia com o significado que merece. A saudade, neste espírito do tempo em que imperam emails, redes sociais e sms escritos em estranho dialecto, corre o risco de extinção. As gerações mais novas não têm tempo para sentir saudades, quando a distância pode ser vencida através de um computador e uma web cam. Como é hábito, não tenho razão.

A saudade existe, e está viva nos novos portugueses. Encontra-se nos lugares mais improváveis, mas é a mesma. Talvez apareça noutra forma, em versão 2.0, mas está lá e é fácil prová-lo. Tome-se o caso da mais popular rede social da Web, o Facebook. Mais de 124 milhões de almas comunicam entre si todos os dias através desta ferramenta. É um óptimo lugar para se reencontrar amizades que se julgavam perdidas, ou despertar paixões que se julgavam controladas. De certo modo, apesar de não ser a vida, é um lugar perigoso porque nos pode devolver o passado de uma forma violenta e inoportuna. Um amigo pode ter aquela fotografia de 1979 que nós já não queríamos ver e expô-la para risota da comunidade; ou através de um rosto entrevisto num inocente registo de uma festa de liceu, mudar toda uma vida pelo simples poder de uma lembrança.

Pois é aqui que a saudade também vive. Os utilizadores não-portugueses do Facebook têm comentários típicos às memórias que lhes são apresentadas: «Lembro-me bem desse dia: que grande bebedeira» ou outras constatações objectivas são o limite a que se atrevem. Os portugueses não: vêem um lugar, uma pessoa, uma canção e a resposta é imediata: «que saudades!». Pode ser uma saudade ligeira, passageira – mas é saudade, exactamente aquela que ficou no sétimo lugar das palavras intraduzíveis. Agora mesmo li no perfil de uma rapariga portuguesa e utilizadora desta rede o seguinte:«A melhor definição da palavra ‘saudade’ está nesta letra de Chico Buarque. Arrepiante…». Segue-se o YouTube da canção Pedaço de Mim. Acho que por aqui estamos conversados.

 

Sentir saudade não é um privilégio nem exclusivo nacional. Nós apenas nascemos assim. Dante, n’A Divina Comédia, já colocava os amantes condenados no Inferno a falarem da saudade:«Nessun maggior dolore/che ricordarse del tempo felice/ne la miséria(..)».Em Portugal, Bernardim Ribeiro escreve o mesmo, de forma ainda mais bela, no Menina e Moça :« (…) a tanta tristeza cheguei, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha». Isto para não falar de Camões ou Pascoaes. O que eu acho é que se estivessem vivos provavelmente teriam hoje um perfil aberto no Facebook.

 

 

*crónica publicada originalmente no suplemento 'Nós', do jornal i.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 13:31
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Gratidão

Eu estive lá. Eu estive lá, no concerto dos Lacraus e dos Velhos no Music Box. Foi um grandessíssimo momento e uma celebração maior. Não tirei notas, não. Acho que nem levei bloquinho. Vivi o instante. Fui para lá viver o instante e vivi-o. Abanei-me, gritei refrões de dedo levantado, quase fundei uma banda.  Vi elementos de proveniências musicais várias e todos cantavam as músicas e participavam no regabofe  - dos Golpes aos Jorge Cruz e ao Samuel Úria, passando pelos Pontos Negros e pela rapaziada da Cafetra como os Pega Monstro e os Passos em Volta. E um tipo que conheci antes do concerto, o Luís Gravito, o Cão da Morte entrevistado hoje pelo João Bonifácio para o "Público" numa peça intitulada "Cão da Morte vai Lamber-nos os Ouvidos" e do qual já ouvi bons latidos cruzados por inspiradas letras.

 

Na peça do João há uma frase dita pelo - passe o palavrão - novíssimo cantautor que resume bem o tom e o espírito que se viveu na terça à noite no Cais do Sodré: "Algures pelo caminho (de Gravito) as coisas tornaram-se mais sérias. Isso aconteceu quando descobriu a Flor Caveira: 'Eu já fazia canções quando os descobri. A coisa que mais me marcou foi a falta de pudor, o à vontade. Para um puto que está a começar é importante ver que há gajos mais velhos a cantar o que lhes apetece". E foi isso que se sentiu no Music Box - primeiro com o bonito concerto dos Velhos e depois com o concertaço dos 'velhos' Lacraus - celebrados por uma série de gente cúmplice deste fôlego criativo de quem se está nas tintas e quer é fazer coisas. Havia no ar um agradecimento a quem abriu caminho para todos os desvarios e arriscanços noisy.

 

 

 

 

Impressionante e comovente o momento em que o Tiago Guillul chamou toda a gente a palco. Estavam ali os subúrbios - mas não só os de Queluz e de Massamá, gritados na canção. Estavam lá os subúrbios como atitude, celebrados por corações de latitudes diferentes. O indie em toda a sua força bruta criadora de identidades fortes, de sentimentos de pertença, o indie protector daqueles que todos os dias se perdem dos carreiros do mainstream. Acho que nunca estive tão próximo de um ambiente roqueiro efervescente, de uma atmosfera que imagino próxima daquela que foi respirada por alguns dos meus heróis musicais em cidades como Londres e Manchester. Ali toda a gente tinha acabado de formar uma banda ou estava prestes a fundar uma. Alguns fizeram mesmo - mas ali muita gente imaginou o seu stage diving. E isso não acontece todos os dias.

publicado por Nuno Costa Santos às 21:47
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Amor, amor

A minha experiência com jóias não é, como se costuma ler nos cvs, do ponto de vista do utilizador. Também não sou propriamente um apreciador dos objectos em si próprios. Digamos, que a minha relação com esses adereços está relacionada com o grau de bem estar que proporciona à pessoa a quem os ofereço.

De há uns anos a esta parte não me tenho dado mal com o processo, sempre complicado, de oferecer anéis, brincos, pulseiras e coisas que tais. Ajuda muito comprá-los sempre para a mesma pessoa. Parece, contudo, que acontecem  uns problemazitos, muito pequenitos mesmo.

 

O cidadão vai a uma ourivesaria e escolhe uma jóia. Chega a casa e oferece-a à sua dedicadíssima consorte.

Se a coisa for assim para o pechisbeque, recebe um sorriso e um beijo de lado seguido do ternurento “obrigado por te lembrares, querido, o que interessa é a intenção” e segue-se o relato dramático do varicocelo do marido da funcionária doméstica ou do “teu” filho que insiste em trocar o estudo do relevo de Portugal Continental pelo residential evil para a playstation III.  

Na próxima data importante, o amantíssimo marido esmera-se e perde a cabeça com um cachucho ou um penduricalho lindíssimo, ou seja, caríssimo.

Duas coisas podem acontecer. A primeira possível reacção: “és mesmo um animal, foste dar uma fortuna por esta coisa horrível?”.

Quando o marido pensa que, ao menos uma vez na vida, a sua maravilhosa mulher está preocupada com as finanças caseiras, ela grita: “dá-me a factura que quero trocar este mono por uma coisa decente, e vou ter uma conversinha com a pirosa que te vendeu isto a ver se ela aprende a não fazer olhinhos a otários como tu só para vender porcarias como esta”.

Esta reacção pode parecer inqualificável, mas não, é até ponderada e calma. Peca porém por duas pequenas incorrecções. Primeiro, as vendedoras de jóias caras nunca são pirosas, são até bastante apelativas; em segundo lugar, as muito garbosas senhoras não nos convencem de porcaria nenhuma, simplesmente sorriem, inclinam-se no balcão e dizem: “aiii, esta é que eu gostava de receber dum amigo especial.”

 

A segunda possível reacção pode causar alguns problemas. Pelo menos é o que ouço dizer. Parece que começa por um não muito discreto “o que é isto?”, depois duns comentários sobre a possibilidade da pessoa a que chama sogro não ser obrigatoriamente o pai do marido, pode acontecer, em casos extremos, o arremesso de objectos contundentes à cabeça do marido ou uns pontapés em locais especialmente vulneráveis. No meio desta sucessão de acontecimentos ouve-se o impensável: “para me dares isto algo aconteceu, quem é a pouco digna profissional de sexo?” É possível as palavras não serem exactamente estas.

 

Apesar de tudo há coisas um bocadinho piores. Lembro-me duma amiga indignada por o namorado lhe ter oferecido um daqueles lindos cartões com umas florzinhas. A apaixonada criatura tinha lá escrito um ainda mais lindo poemazinho e rematava dizendo que dinheiro não tinha mas amor para dar sobrava-lhe. “Já viste este totó?”, dizia ela, “amor, amor é o polegar a roçar no indicador”.

Ele há gente...

publicado por Pedro Marques Lopes às 10:13
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Domingo, 3 de Julho de 2011

Intelecto explanado

 

 

Achille Talon é um dos personagens mais brilhantes de Greg, autor maior de banda desenhada. Talon é um individuo irascível, vaidoso e pretensioso, que vive em permanente relação amor-ódio com o seu vizinho Lefuneste e abomina vendedores de porta-a-porta. É um opinativo polivalente, que interrompe as suas enormes verborreias com interjeições tipicamente francesas («ouais», «et bof»). É muito mais, mas para o que aqui nos interessa lembro o que este cidadão, numa das histórias mais inspiradas, mandou que escrevessem no seu cartão de visita: «Achille Talon. Erudito»

 

Pois bem, observações recentes têm-me levado a concluir que existem sítios que despertam naturalmente o Talon que há em nós. E eu sei quais são e irei dizer, por uma questão de puro divertimento ou saúde pública: são esplanadas, aquelas que têm paisagem que convida à contemplação (o mar, uma vista deslumbrante sobre Lisboa, por exemplo) e uma frequência a partir dos 26 anos de idade. 

Para o estudioso da natureza humana, as esplanadas são como o Serengeti para os documentários da National Geographic: um habitat repleto de seres raros, que se juntam à hora de beber. Há pouco tempo voltei a ter o privilégio de recolher alguns apontamentos deste fenómeno. Muitos dirão que isto é só um nome mais pomposo para «estar a escutar a conversa dos outros»; mas eu não falo com muitos. De modo que, aproveitando um pouco de ócio solitário e munido do caderninho de sempre, dei comigo na Esplanada da Graça,em Lisboa num fim de tarde junina deslumbrante.

O caçador experiente de Talons de esplanada sabe o que tem de procurar: conversas ou frases soltas ditas sempre como se fossem a derradeira certeza sobre o sentido da vida ou o mais cintilante aforismo, proferidos com voz pomposa a acompanhar. Rapidamente juntei nessa tarde estes indicios a estes exemplares, ditos por homens e mulheres e que juro serem absolutamente verdadeiros:

 

«[sobre cinema] Nos outros países há muitas correntes sobre cinema. Cá só temos a corrente Mário Augusto»

 

«Sim, identifico-me plenamente: objectividade, simplicidade, humildade. Identifico-me plenamente.»

 

«[para três pessoas que pareciam ir morrer de tédio a qualquer instante] Não existem orações. Não existe obrigação de orar.Deus não dá obrigações»

 

«[uma das minhas favoritas] Eles sairam dos Black Sabbath para formar os Genesis.»

 

«Ela tem 30 anos e namora com uma mulher de 40. Acho óptimo, diz que está na moda.»

 

«Aqui olha-se melhor, namora-se melhor, acasala-se melhor.»

 

«Ele não tem cara de beirão, tem cara de Licor Beirão.»

 

O que haverá com as esplanadas que faz sentir a tanta gente a urgência de explanar o seu intelecto? Esse é um dos mistérios e a maior beleza. Não me interessa sequer a resposta à questão até porque nas esplanadas vejo o olhar intrigado de quem olha para um palerma solitário, a rabiscar um caderninho armado em intelectual.

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 22:06
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

Outras contas

 

Anda-se a falar muito de dinheiro,  sinal de que isto não está a correr nada bem. Em público. Sem vergonha. Por necessidade. Como quem partilha uma angústia que se tornou demasiado grande para ficar guardada no mealheiro vazio. Aos poucos vamo-nos tornando parte de uma família orçamentalmente desfeita em que é cada vez mais raro encontrar alguém que, num instante qualquer, não faça, à mesa e em voz alta, contas à vida. Podíamos falar de tanta coisinha boa mas escorregamos demasiadas vezes, melancolicamente, para esse magno tema, sobre o qual, em tempos, já foi deselegante falar (a elegância é um luxo vedado a quem está em desequilíbrio). Aflitinhos anónimos - eis aquilo em que se vão transformando algumas reuniões de amigos de, digamos, classe média, nas quais se falava alegremente de filmes, música, livros e hoje se projecta números e finais do mês e trabalhinhos extra e se pergunta como é que vai ser.

 

Todos os adultos merecem, além de uma existência digna, ter os seus brinquedos. A própria dignidade da existência depende da possibilidade de ter acesso a essas fantasias juvenis - que nuns são ouvir música e noutros andar de canoa, fazer mergulho ou comprar flores. Para isso é preciso ter disponibilidade, na mente e na carteira. Ter pouco dinheiro - e por isso falar muito do assunto - exige uma seriedade existencial permanente e a extinção de gostos e pequenos prazeres, essencialíssimos para se ser completamente. Vestir a fatiota de adulto a 600%, destino incompleto e ansioso que não se deseja a ninguém. Alguma coisa anda a falhar, anda. Vimos ao mundo também para isso mas não só para isso. Ou por outra: as contas que levamos daqui não são as contas da máquina de calcular.

 

Vejo, aqui ao lado, no tapete da sala, os meus filhos no seu regabofe infantil e desejo, enquanto os vejo brincar, que lhes seja permitida essa liberdade maior que é a de guardarem pelos anos fora este instinto lúdico, esta vontade de fazer disparates, estes tropeços de criatividade - e, noutros ou nos mesmos moldes, este jogo do Beyblade em que parecem tão distraidamente empenhados. E penso na injustiça que é ser retirada aos homens e mulheres deste tempo a possibilidade de serem crianças e criançolas, de manterem aquela reserva de irresponsabilidade que só é possível ter quem - com mais ou menos dificuldade -  conseguiu tratar da balança de pagamentos doméstica. 

publicado por Nuno Costa Santos às 22:22
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