Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

O kompensam ajuda

 

Hoje apanho o avião para Dublin para ver a final da Liga Europa. Vou apoiar o clube que envergonha Portugal. Aquele que, numa terra que colecciona derrotas como eu coleccionava cromos de jogadores de futebol, teima em ganhar. Aquele que em vez de se queixar do calor no Verão e do frio no Inverno faz das tripas coração e faz aquilo que em Portugal não se perdoa: é bom. Aquele que teima em acreditar que para se ter sucesso é preciso trabalho, competência e organização. Aquele que acredita que tendo os melhores jogadores, os melhores treinadores e os melhores dirigentes existe uma maior probabilidade de se ter sucesso. Aquele que não anuncia vitórias antes de sequer a bola começar a rolar. Aquele que vem dum país pobre e duma cidade ainda mais pobre e ganha aos representantes futebolísticos de países infinitamente mais ricos. Aquele que em 25 anos foi a quatro finais europeias e ganha, pelo menos, três (não vale a pena falar de títulos domésticos, nem de supertaças europeias , nem de taças intercontinentais, nem de provas nacionais ou europeias noutros desportos). Aquele que é insultado, difamado, desprezado, apenas porque é o melhor; apenas porque percebeu há 30 e tal anos que não era com queixinhas e vitórias morais que se levavam as taças para casa.

 

É uma vergonha, repito, Portugal ter um clube como este.  Ter uma empresa que ao contrário de todas as outras, seja qual for a actividade que se escolha, é tão boa, ou melhor, que os seus concorrentes estrangeiros. Nós somos todos tão maus, porque diabo aparecem uns maduros com a mania que são bons, e são mesmo. Andamos tão deprimidos com as nossas desgraças e temos de aturar uns desmancha-prazeres que teimam em andar com um sorrisinho.

Vencer é o nosso destino e fomos nós que o fizemos. Aguentem.  

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:01
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povo eleito

Alguém, algures, por qualquer razão, sentenciou que Portugal era um país de poetas. Nunca compreendi. Haveria algum estudo que concluísse, estatisticamente, que existiam aqui mais poetas por quilómetro quadrado do que em qualquer outra parte do mundo? Não seríamos antes, dependendo do século, um país de marinheiros, jogadores de futebol, politólogos? Não contrastava aquela certeza com a garantia de qualquer editor livreiro segundo a qual a poesia não vende em Portugal?

Anos de observação atenta nunca me permitiram concluir pela veracidade da descrição. Fui, contudo, constatando uma ideia um pouco diferente: que Portugal é um país de artistas. De cineastas, fotógrafos, documentaristas, instaladores e outros génios à espera de reconhecimento mundial.

Certamente que o caro leitor ainda é do tempo em que o artista era uma espécie rara. Havia um por terra e era tratado com o devido exotismo. Ele escrevia uns contos que o jornal depois publicava. Ou actuava nas festas da aldeia com as suas canções originais. Ou migrava para Lisboa, onde expunha os quadros, só voltando à vila anos mais tarde para descerrar a placa da rua aberta em seu nome. Todos tínhamos uma tia que sonhava ser pianista. Acabou por fazer carreira na função pública, mas, nas tardes de domingo, arriscava um Haydn tocando tecla a tecla com um dedo só o órgão comprado por 20 contos pelo marido por ocasião dos 40 anos. Ou um avô que, em tempos, escreveu umas rimas em folhas soltas de sebenta, arquivadas mais tarde pela avô na despensa, debaixo dos álbuns de fotografias e dos manuais dos electrodomésticos. A vida nem sempre foi fácil, mas o tédio dos dias ia-se vencendo, em grande medida, pelo fulgor daquela paixão não consumada. Aquela deliciosa incerteza de que se poderia ter sido grande.

Algures, tudo isso mudou. O português meteu na cabeça que nasceu especial. Agora, é só escolher a arte que melhor se adapte à canalização do seu génio em algo real. Começa nos poemas da adolescência, passa pelas fotografias desfocadas tiradas em Erasmus que põe na rede social, acaba na curta-metragem que escreve, interpreta e realiza. Ele até queria dividir tarefas, mas todos os amigos estavam ocupados com as suas próprias curtas-metragens, os romances pós-modernos, a instalação-pastiche-colagem, a intervenção-happening-teatro-do-absurdo, a música samplada composta ao computador sem saber uma nota, que isso era uma coisa quadradona do antigamente, ter de saber música para fazer música, aonde é que já se viu.

Soterrado no processo criativo, o novo português não tem tempo de ver o que os outros fazem – e eis porque a poesia não vende em Portugal. Está tudo demasiado ocupado a criar – como teriam tempo de ver criações dos outros? O tempo que tenha livre será passado a tagarelar sobre a sua obra no café ou no chat, estendido ao sol numa praia qualquer ou em viagem turística, que é quando o artista parte à procura de si mesmo, questão fundamental a que depois tentará responder numa futura curta-metragem / instalação 3.0.

Ser artista em Portugal é, hoje, pois, a coisa mais habitual do mundo. As vilas já não poderão descerrar placas com o nome de todos porque não haveria ruas para tanto.

De modo que as vocações secretas que alguns vão descobrindo aos poucos são, agora, diferentes daqueles tempos idos. Garanto-lhe, leitor, que, em certos cafés da moda de Lisboa, oiço por vezes um documentarista imberbe confessar que gostaria de jardinar, uma artista plástica sem idade para votar sussurrar que se inscreveu num curso de culinária, um músico pós-niilista vestido de sem-abrigo procurar no Macbook Pro de 15 polegadas informações sobre bordados.

Portugal talvez não seja país de poetas nem de artistas. É um país de portugueses, destino bem mais especial e incompreensível.

publicado por Alexandre Borges às 07:22
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Domingo, 15 de Maio de 2011

É favor estar vivo na data marcada.

No meio destes dias que atravessamos, o superfluo que nos oferece um pequeno prazer quase que se torna essencial.

Tenho a sorte de estar a antecipar um desses momentos: o concerto dos The National no Campo Pequeno, já daqui a nove dias. Os The National são um dos raríssimos colectivos musicais que ainda fazem com que este rabo aburguesado e cheio de ennui se levante da cadeira para ir ver um concerto que não seja de amigos ou por exigências profissionais. Foi assim na Aula Magna, onde não assisti a um concerto mas a uma celebração litúrgica, em que os fieis cantavam mais alto que os sacerdotes; assim será, tenho a certeza, no dia 24. Nada que a meu ver os rapazes não mereçam, dada a excelência da sua produção. Mas não vim para aqui oferecer exegeses. O assunto que me preocupa é outro e em que a banda americana é só um pretexto.

 

A verdade é que queria muito ver este concerto. Então, alguém que muito estimo teve a bondade e o carinho de me oferecer o bilhete – no Natal de 2010. Recapitulemos: através da oferta de um bilhete para um espectáculo que muito ansiava eu comprometi-me a pelo menos estar vivo e apresentável cinco meses depois. Ora francamente acho isto contra-natura. Não é que não o perceba: as novas plataformas de informação, a crescente profissionalização da indústria do espectáculo e a grandeza planetária das novas estrelas pop fazem que este fenómeno seja prático e desejável. Mas não será a sua funcionalidade que me irá fazer compreender qual a razão que leva um adolescente a prometer estar de saúde daqui a ano e meio para ver os Tokio Hotel.

 

Pode ser que isto ainda sejam vestígios de um tempo de que não tenho saudades, um tempo em que os concertos em Portugal eram tão raros e incipientes que os bilhetes apareciam de véspera e mesmo assim ninguém os comprava até uma hora antes. Esses eram os tempos em que a verdadeira glória não era assistir ao concerto de x ou y mas sim ter assistido sem pagar – tendo para isso suportado uma (justa) carga policial sobre as filas caóticas e em desacato que se alglomeravam junto aos pavilhões e estádios. Sofri na pele duas, pelo menos: uma no Restelo, enquanto esperava, bilhete na mão, para ver o lendário programa Heróis do Mar/King Crimson/Roxy Music; outra em Vilar de Mouros, onde corri em frente aos equideos da GNR durante um concerto de  - e esta é a parte humilhante – António Vitorino d'Almeida. Não, não quero que estes tempos regressem – e suspeito que artistas e produtores também não. Houve muita luta pela dignidade profissional  desde o dia em que o grupo de Rui  Reininho pediu para o seu PA mais ligação à terra e como resposta obteve no recinto do concerto um camião cheio de areia. True story, Portugal anos 80.

 

Para mim, que vivo fiel ao carpe diem, este contrato implícito assusta-me, incomoda-me. Posso não saber o que irei fazer daqui a uma hora mas já sei o que fazer dia 24. Sinto-me um iogurte ou um medicamento: os bilhetes comprados com esta antecedência temporal são um prazo de validade. No meu esforço de racionalização romântica ainda tento ver a coisa como uma espécie de bravata ao destino, uma revolta contra os deuses, o legado de Prometeu a que temos direito. Mas depois chega a realidade e é ela que me diz para fazer o favor de não ser atropelado até ao dia 24 de Maio. 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 23:13
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

A coisa mais inesperada que podíamos esperar hoje

 

Aconteceu hoje, espero que se repita: folheei o jornal da manhã e à entrada não apanhei com mais uma elegante matéria sobre o fim da Nação, com uma boca menor entre líderes partidários ou entre gente mandada por líderes partidários. Estava preparado para mais umas páginas de fúria, melancolia e ressentimento e apanhei com o melhor disto tudo. Encontrei uma peça longa, feita de instantes vários e assinada a várias mãos, que celebra a arte literária como arte da generosidade e do diálogo - com a vida e com os autores que mais amamos. Com uma escrita que por vezes parece ser para crianças mas que depois é para adultos - e vice-versa. Com um território literário de fronteiras vagas apenas definido na ideia de que a linguagem é o melhor brinquedo que alguma vez podíamos ter à disposição. Isso: para tratar e confundir alguns dos temas que mais interessam, como a infância, a morte e as limitações da própria linguagem.

 

Encontrei, sim, encontrei o Manuel António Pina festejado a propósito de um prémio maior que recebeu e ainda atónito com a pomposa bandeja que lhe puseram à frente: "É a coisa mais inesperada que podia esperar hoje". Fiquei, como tantos, feliz com o gesto. Um pouco como Abel Barros Baptista, que comentou: "Deve ser dos poetas vivos, daqueles que leio, o que mais admiro. Tem sentido de humor, o que não é muito frequente nos nossos poetas". 

 

Acompanho Pina há uns aninhos. Na poesia e na crónica, esse género que pratica com aquela dose de apegos e irritações que, quando se juntam a uma voz e a um estilo próprios, definem os melhores no género. Lembrei-me (ou o meu ego) hoje da artigalhada que escrevi para o "DNA" sobre "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança" e sobretudo da dedicação que a minha amiga Inês Fonseca Santos (agora no "Câmara Clara") teve, em 2004, para com o autor e a sua obra (e pouca gente sabe disso) na sua tese de mestrado "A Poesia de Manuel António Pina - O Encontro do Escritor com o seu Silêncio", onde escreveu o seguinte: "Para um signo há inúmeros similares, inúmeros significados, e estes, entrecruzando-se, confirmam a riqueza de uma poesia que, glosando o mesmo, infinitamente se renova, recriando o ser e a palavra".

 

Recordo agora tudo isso - e  ainda aqueles gatos que sempre o rodeiam, sobre os quais escreveu uma prosa que era para ser poesia. Vai ser bom: as pessoas vão procurá-lo mais nos próximos meses.  E topo a ironia. Ele que, no "Anacronista", tanto vilipendiou "os economistas" (como símbolo de um país que até nos sonhos faz relatórios), destronou-os no dia de hoje. É uma forma de justiça - no caso, autenticamente poética.

publicado por Nuno Costa Santos às 17:56
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Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Os intrépidos viajantes

 

Um argumento sólido baseado no estudo de um país, dos seus pensadores, escritores, políticos, artistas,  da sua economia, da sua cultura ou outro detalhe de semelhante importância é facilmente rebatido quando, num qualquer encontro social, um conviva com ar altivo diz: “pois, pois, mas já lá estiveste?”

Nesse momento, todo o trabalho que o cidadão teve em recolher a informação que julgava necessária para um conhecimento medíocre, que fosse, sobre uma qualquer terra ou civilização fica ao mesmo nível do intrépido viajante que passou meia dúzia de dias, se tanto, num determinado destino.  Na melhor das hipóteses no mesmo patamar, se também tiver um carimbo dessa terra  no passaporte. Se não, quando muito, terá direito a um sorrisinho indulgente seguido da assassina frase: “Tens de lá ir”, como quem diz: se nunca lá foste não percebes nada do assunto. A partir daqui seguem-se longas exposições sobre os curiosos hábitos de higiene pessoal, análises sofisticadíssimas sofre a gastronomia local, os diferentes rituais de acasalamento e seríssimas dissertações sobre o destino politico, económico e social dos indígenas. 

 

Os jantares, almoços e demais encontros sociais estão cheios de pessoas capazes de dizer imensas coisas sobre o sentimento do povo letão depois de ter passado dois dias num hotel de cinco estrelas em Riga, da situação do Médio Oriente depois de uma escala técnica no aeroporto de Beirute ou dos problemas de criminalidade da Colômbia depois de uma estada num resort de luxo em Cartagena das Índias.

 

Esta praga alastrou-se aos colunistas. Não há rapaz ou rapariga, com um espaço num jornal ou revista, que não decida partilhar connosco os seus enormes conhecimentos recentemente adquiridos na sequência duma curta estadia num qualquer canto do mundo. 

Enquanto a coisa se resume à contemplação dum qualquer “plúmbeo céu” ou duma “multidão em organizada desorganização” vá que não vá, o problema é quando se começam a fazer grandes reflexões sobre o nosso país comparando-o com o que o cronista viajante visitou.

Para que não existam dúvidas no leitor sobre o carácter genuíno e a profundidade da análise referem-se encontros com cidadãos locais que, sem sombra de dúvida, dão uma imagem perfeita desse país e que permitem instantaneamente fazer pontes com Portugal.

Escusado será dizer que são sempre largamente abonatórios para aquele autêntico paraíso.   

 

As viagens são uma espécie de novo passaporte para um estatuto social especial. Um conhecimento global do mundo, uma mundividência adquirida em agências de viagens e catálogos. Um individuo  pode falar durante horas seguidas do Kafka sem ter lido uma linha sequer de um livro do senhor Franz se disser que passou por Praga. O conhecimento dum país, duma cultura, duma História é, aparentemente, fácil de obter: está ali entre a carta de condução e o bilhete de identidade, compra-se com o Visa.

 

 publicada na edição de Maio da revista Life

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 01:43
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

tv shop

Desconfio da ideia de que o objectivo supremo da espécie humana seja a felicidade. O que a maioria de nós verdadeiramente deseja é reconhecimento. Porquê? Porque sermos reconhecidos faz maravilhas pela nossa vida sexual. (E isso, admito, ajuda a ser feliz.)

As pessoas que aparecem na televisão criaram este mito: “A televisão faz-nos mais gordos.” É treta. Pelo efeito que a passagem duma celebridade provoca nos olhares do mulherio, tudo aponta para que nos faça mais magros, vinte centímetros mais altos, bronzeie e dê mais cabelo. Dizem que engorda para os outros não irem lá, pedir o seu quinhão. Um pouco como o poder que alegadamente desgasta ou o dinheiro que não traz felicidade.

A televisão, embora albergue toda a espécie de gente, de jornalistas a actores, desportistas a músicos, presidentes da junta a meteorologistas, padres cantores a criminosos arrependidos, transforma-a toda numa só classe, vulgarmente descrita na expressão de contentamento com que o mortal avista um exemplar na mesa do restaurante: “Olha! É aquele senhor da televisão!”

Os benefícios começam logo aí, no boteco ou na pastelaria. O gerente manda servir o prato especial, o melhor vinho e, no fim, ainda é capaz de oferecer a refeição a troco de um autógrafo na ementa das sobremesas. Então, decifrando com esforço as garatujas da celebridade, descobrirá, em júbilo, que acabou de apertar a mão a Anthímio de Azevedo. (É só um exemplo. Poderia ser a Popota, mas, no caso dela, é provável que se lembrassem do nome antes do autógrafo.)

Episódios semelhantes têm lugar por porta a parte no dia-a-dia do famoso, do solário à retrosaria. E, por todas elas, há rapazes ou raparigas suspirando, olhando-o em maravilha frágil, ansiando por uma tórrida noite de hotel ou eventualmente algo mais íntimo como uma troca de palavras.

Tudo isto se torna por demais evidente quando se trata da rara categoria do intelectual-vedeta: é vê-lo passear-se com companhias bombásticas pelo braço, do género daquelas que mais o desprezaram nos tempos de escola ou, tenebrosa palavra, anonimato, numa suave troca de favores: ela dá-lhe a beleza que ele nunca teve; ele faculta-lhe o cérebro.

Por que acontece assim? É difícil dizer. Aparentemente, o indivíduo comum entende que a fama doutrem o pode rebocar da zona sinistrada da vida onde se encontra desde que nasceu até ao lado de lá da margem, onde todos oferecem o melhor vinho e aguardam, suspensos, as primeiras palavras banais que se tenham para dizer.

O futebolista já experimentou. O bastonário da ordem também. Até o senhor que falou para a televisão acerca daquele vizinho que ajudava sempre com os sacos das compras e que, um belo dia, incendiou a avó.

De que é que estamos à espera?

publicado por Alexandre Borges às 14:31
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Domingo, 8 de Maio de 2011

Amo-te. Odeio-te. Amo-te.

Para o  Hugo Gonçalves e João Amaro Correia

 

 

Às vezes és tão puta. Tão sacana, tão sinuosa, tão maquilhada nessa beleza que quem te conhece sabe que tens mas quem não te conhece fica apenas por aí, nessa armadilha que tu arranjas para evitar que todos te amem e só amares quem tu quiseres. Esses, como eu, que te percorrem o corpo, as veias e encaram com tanta naturalidade como raiva o facto de um dia acordarem a odiar-te e a dizer que às vezes és tão puta.

 

Repara: nem era suposto estar aqui a escrever-te, a descrever-te. Tinha um texto preparado, piadolas alinhavadas sobre a compra de bilhetes com antecedência e como isso muda a nossa existência. A tanga do costume, erudição de micro-ondas com uma gracinha que me resta. Estava feito, leve, lia-se com gosto, não me chateava e sobretudo não maçava ninguém. Mas não, não: tinhas que voltar a entrar-me pela alma, a tua cabecinha ainda cheia das palavras lindas que te ofereceram, do Ary ao meu amigo Hugo, tudo o que te gostaria de escrever, eu a quem me pedem palavras para fado, eu que sem querer já estava a começar a viver sem ti, sem que fosses um problema, um ciúme. Bastou uma noite, em casa de amigos, uns minutos numa varanda em Santa Catarina, o rio ao fundo, o teu melhor aliado, sujo ou limpo funciona sempre. E  voltei a ver-te pela janela  na tua grandeza, o melhor vestido posto, antigo mas sempre em moda, e aí vou eu, sem remédio numa contemplação apaixonada, a beber de cada um dos teus passos vagarosos e fora deste tempo. Um tipo, desde que tenha sangue quente, esquece-se de tudo - com quem te dás, a quem te deste, o que me negaste. Evita outra vez o ódio dos dias, o incómodo do quotidiano que mesmo quando não quero tu representas, nos gestos feios que digo, nos palavrões matinais que não consigo evitar e que servem de gáudio aos meus filhos quando os levo à escola. 

 

Admito: a culpa é minha, que me passeio em ti, no teu mais podre e no teu mais rico, e invejo a força e dignidade com que ainda suportas os mil olhares que te atravessam, às vezes com o ar trágico da velha actriz que retira a maquilhagem frente ao espelho. Talvez te tenha visto algumas lágrimas, mas mesmo quando foste violada – e voltarás a sê-lo, tu sabe-lo bem – o que fica é essa resistência dita entredentes, como quem antecipa a vingança. 

 

Conheci tantas outras, mais bonitas. Apaixonei-me por elas, elas por mim, sem perguntas nem dramas. Algumas tão perto, amantes de fim de semana, trezentos quilómetros e aí estou eu. Tantas que tinha a certeza terem a ver comigo, umas dramáticas e sombrias, outras intelectuais e criadas em plena civilização, outras esculturais e de uma elegância soalheira que me preenchia. Pensei deixar-te, sabes disso. Por amor, por ódio, por fastio. Responder aos acenos que outras me faziam com tudo o que julgava acreditar. 

 

E é a ti que volto, a que sempre voltei. Não à minha vida mas a ti, que a conténs. E odeio-te por isso, e amo-te por isso, minha puta, minha cidade, minha Lisboa de coração com sentido irreversível. 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 06:25
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Sábado, 7 de Maio de 2011

Benfica - alguns culpados (1ª parte)

 

Luís Filipe Vieira - Um presidente com mais promessas falhadas do que eu tem que ser tido como responsável por mais uma temporada desastrosa. Era giro se o Benfica um dia conseguisse ter um presidente que soubesse quando devia estar calado e tivesse menos ar de malfeitor e/ou gajo essencialmente manhoso. 

 

Jorge Jesus - Um treinador sem a mais pálida noção de como virar um resultado, sempre disponível para receber os louros nos dias bons, entra em modo de negação sempre que as coisas correm mal. Masca pastilha elástica de boca aberta e é analfabeto. Cansativo mas ao mesmo tempo enternecedor, como quase todos os portugueses.

 

Rui Costa - Há já alguns anos em formação on job, o ex-maestro ainda não parece ter estofo para desempenhar o cargo. Apesar de tudo, as melhores contratações do Benfica foram suas e não do catedrático da bola. Dou-lhe mais 6 meses a recibos verdes, sem revisão salarial após o torneio do Guadiana. 

 

Cardozo - Ponta de lança de créditos firmados cuja expressão facial parece indiciar um problema algures entre a depressão crónica e o mongolismo. Aos 28 anos de idade, já sabe que o seu pé direito lhe permite andar e, em raras ocasiões, correr. Falta alguém explicar-lhe que aquela merda também serve para marcar golos. Vendam-no àqueles russos que iam salvar o Sporting.

 

César Peixoto - Um gajo que ao longo dos últimos anos se deitou todas as noites ao lado da Diana Chaves ou da Isabel Figueira e que nem assim conseguiu encontrar o ânimo e o talento necessários para vestir a camisola do maior clube do mundo. Não sei mesmo o que dizer. Rua com ele.

 

Luís Filipe - Tinha tudo para ser um falhanço, mas o destino resolveu bafejá-lo com a sorte de dois contratos de trabalho pagos a peso de ouro, primeiro no Sporting, agora na Luz. Mais de dez anos volvidos sobre o início da carreira como futebolista profissional e o único gesto técnico que domina é o lançamento de linha lateral. Poderá servir os interesses de algum clube cipriota.

 

Felipe Menezes - As farmacêuticas deviam pensar em explorar um novo princípio activo: a felipemenezulida, ideal para quem sofre de insónia crónica. Efeitos garantidos ao fim de 10 minutos. Não misturar com minis, licor beirão ou qualquer outra bebida de tasco com sport tv, podendo provocar estados de frustração e irritação.

 

Alan Kardec - O novo Jardel parece o velho Martin Pringle. A despachar assim que começar um campeonato estadual no Brasil. Agradece a Deus de cada vez que marca um golo. Espero que também agradeça de cada vez que recebe um salário de futebolista europeu. 

 

Roberto - Protagonista daquela que é a mãe de todas as improbabilidades estatísticas: 3 derrotas nas 4 primeiras jornadas do campeonato. Uma espécie de trade-off ao contrário: por cada defesa impossível, comete pelo menos 3 erros que dão vontade de chamar nomes à mãe dele. O valor do seu passe é um bocadinho como as acções da SAD: começou cotado a 8 milhões e meio e já vale menos de metade, registando ligeiras variações positivas quando não faz merda. Alguém que monte um DVD com as boas defesas que fez, a ver se recuperamos qualquer coisinha.

 

Fábio Coentrão - Culpado de não ter pedido aos pais para lhe darem mais irmãos. Tivéssemos mais dez iguais a ele e talvez não nos sentíssemos tão perdedores na derrota.

 

 

 

 

publicado por Vasco Mendonça às 13:33
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Crónica extremamente influente

Cada vez mais me encanita e é cada vez mais usada nos (outro termo detestável) "círculos". No círculo da economia, da política, da cultura, do desporto, etc. Sim, é a palavrinha "influência". Quando me falam em "influência" saco logo da funda, do revolver, da bomba de asma. Não sei bem porquê, talvez esteja a ser injusto e pouco rigoroso, mas julgo que é por causa disto: "influência" sugere-me um poder que não se mede de forma concreta, que se afere, mais do que pelo respeito, pelo "respeitinho" que sugere. "Eh pá, não fales mal daquele gajo porque ele tem influência". Não tem a ver necessariamente com mérito concreto. Valor profissional e pessoal. Gesto largos. Grandeza de espírito. É assim uma coisa. Uma espécie de prestígio de gabinete. Tem a ver com a possibilidade de resolver os assuntos com "dois ou três telefonemas". Afasta-se daquilo em que mais acredito: a argumentação, o contraditório, a possibilidade de confronto de ideias e opções. Entre pessoas. Das elites ou das esquinas.

 

Depois há a história paroquial dos que não o são e querem ser - e há tantos por aí. Aqueles que fazem tudo não para se superarem naquilo que fazem mas apenas para se tornarem "influentes". Aqueles que fundam projectos ou apostam em "personagens" que vão ser, com certeza, "influentes". Quantas reuniões (outra palavra daquelas) não devem começar com a frase: "Vamos fundar um projecto de grande influência!"? Pois: raramente funciona. A "influência" preparada em laboratório ainda é pior - topa-se à légua e é, além de nitidamente artificiosa, uma das mais delirantes e cada vez mais praticadas forma de arrivismo. 

 

E de arrivistas, sabemo-lo, está a Nação cheia. A hiper-valorização da "influência" e dos "influentes" é, parece-me, mais um sintoma da doença de um país que perdeu o sentido do que interessa. Que considera mais a figura que "conhece muita gente", apenas por conhecer muita gente, do que aquele vizinho que é um exemplo discreto no bairro. Informa-se da vida do sítio, separa a lixaria, ajuda quem menos tem e, pior do que tudo, comete a suprema extravagância de cumprimentar quem passa. O país está cheio de "influência" e de "influentes" e tem poucos cidadãos. Se calhar é isso. Se calhar é isso que chateia.

publicado por Nuno Costa Santos às 15:48
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...

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 12:11
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