Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

derivado a, e sim, aqui está escrito "derivado a" situações, publico aqui o que escrevi sobre as últimas correntes d'escritas, que a merecem, à popularidade, e eu sei que a preguiça é pecado mortal. estudasse.

quem é o gostosão daqui?

 

está bem, livros, sonhos, editores, letras, poemas, organização impecável, parágrafos bem formatados, gente de classe e o caralho, mas a memória mais viva que trago da póvoa está umbilicalmente ligada ao bar da praia, local onde quase fui defenestrado há um ano, qual miguel de vasconcelos dos dj sets, e ao qual voltei sem pudor na companhia de uma dúzia de camaradas das correntes, talvez mais, destemidos alguns, mais contidos outros, do primeiro grupo ressalta a isabel coutinho, uma espécie de doutor livingstone das florestas poveiras, intrépida a furar em direcção ao palco onde campeava um sucedâneo de axê cheio de requebrados malandros, e também a inês pedrosa que a espaços dominou a pista numa postura a roçar o colonialista, rima e é verdade, sem medo de hostilizar os autóctones e provocar uma bronca na discoteca, como tão bem cantou nel monteiro nos seus tempos de maior glória, glória agora a nós senhor, como se diz na eucaristia, que andámos nas nuvens do lazer com vista para o mar e para um par de maduros com bigode e cotovelo alçado sobre o balcão onde não párava o corrupio de imperiais tagus, uma pena isto de termos aterrado num bar sem cerveja, mas enfim, houve outros motivos de interesse, a classe dos jovens enfarpelados com t-shirts do estabelecimento "djavu" com uma espécie de tournée grafada nas costas, alguns fatos de treino, uma senhora da classe chaimite armada de top rosa e muitas tachas, uma brunhilde wagneriana enfeitada com tranças capaz de provocar o pânico nas scut até viana do castelo, graças a deus não houve cavalgada das valquírias, só uma ou outra coreografia e nenhum tipo de karaoke, o que é pena. a espaços, o rosto do joão paulo cuenca traía algum arrependimento pela ida às profundezas das correntes, mas nada a que não sobreviva um carioca enxuto. quem é o gostosão daqui? são eles, senhor, são eles.

publicado por Pedro Vieira às 19:30
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Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Convictos

Uma revista, por não ter vendido publicidade ou finalmente dar importância a quem merece, escreveu aqui sobre o rapaz. Fosse a modéstia uma das minhas inúmeras qualidades, e iniciaria este importante testemunho com uma dissertação sobre o terrível momento civilizacional que atravessamos que faz com que um tipo como eu seja assunto. Achei melhor não. Acreditem: eu mereço atenção. Como tenho um javali ao lume e o Futre está a falar na televisão não tenho tempo para explicar porquê. Mais, sabendo que nunca digo mentiras, fica o assunto encerrado.   

 

Assim sendo, fez o senhor jornalista muito bem. Apesar de terem sido só aí uns três mil caracteres, manifestamente pouco para o tanto que podia ser dito, o retrato é bastante fiel. Sobretudo, a parte onde exalta a minha inteligência, a minha versatilidade, a minha vastíssima cultura e as minhas, diz ele, ideias liberais .

 

Claramente entusiasmado com todas as minhas qualidades escreve que sou ateu convicto. Percebo. O senhor quis ser simpático. A convicção está na moda. Fica bem. As convicções propriamente ditas não interessam muito, o que importa é o cidadão mostrar-se convicto acerca de tudo e mais alguma coisa.

As minhas ideias políticas são indiscutíveis, a minha religião é a verdadeira, o verde é a mais bela das cores, o goraz é o mais saboroso dos peixes, o Chico é mentiroso.

Ser definitivamente afirmativo,  violentamente assertivo (também está na moda usar esta horrenda palavra) são qualidades acima de todas as outras.

 

Admito, as certezas absolutas devem ser um bom medicamento para estes tempos difíceis. Já chegam todas nossas incertezas. As tais coisas pequenitas, como saber se amanhã temos dinheiro para pagar o colégio das crianças ou sequer se vamos ter trabalho . Em épocas de bonança não deixamos de conviver mal com as nossas dúvidas, mas com a barriga cheia e o céu limpo ou pouco nublado podemo-nos dar ao luxo duma divagação, do diletantismo de pensar que se calhar não temos as certezas todas.

 

Eu agradeço o elogio de me terem chamado convicto de alguma coisa, mas este não mereço. Também não sei dizer se gostava de ter essa qualidade ou não. Infelizmente, nem disso tenho a certeza. Não sei se a minha permanente dúvida sobre o que está certo ou errado é boa ou má, se me ajuda a ser mais feliz ou a trazer alegria a quem me está mais próximo. E mesmo que ser profundamente convicto de alguma coisa me ajudasse, não sei se o conseguiria ser. 

Ia escrever que sou um gajo que não sabe a verdade nem tem grandes  convicções, mas nem disso tenho bem a certeza.

publicado por Pedro Marques Lopes às 02:57
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

declaração de amor e irs

Tenho pensado que o amor precisa de novas declarações.

Nestes tempos que dizem de materialismo, individualismo, crise moral e económica, estrangeirismos, acordos ortográficos e redes sociais, estranho que subsistam as mesmas juras e metáforas de séculos. A “princesa”  deveria ter dado lugar à secretária de estado; a sogra a quem tratamos por “mãe” a senior manager. O descomprometido “companheiro” poderia bem ser substituído por “colaborador próximo”. “O meu homem”, de que falam muitas senhoras por esse Portugal, seria mais expressivo como CEO. O amante, administrador não-executivo. O don juan, free-lancer. A puta, relações públicas.

Jurar amor eterno é retórica inútil em que ninguém há muito acredita. Por que não substituí-lo por um contrato a prazo? Diz o jovem arrebatado: quero contratar-te para a minha vida para os próximos cinco anos – que dizes? O coração pulsa-lhe nos ouvidos. As mãos suam de ansiedade e arrojo.

Poderíamos oferecer garantias de um ou dois anos em caso de amor com defeito. Preços de amigo nos jantares românticos, cartões de fidelização com descontos nos motéis. Caso jantes nove vezes comigo, o décimo é por conta da casa.

As relações sem compromisso são óbvios recibos verdes. As rupturas downsizing. A troca de um companheiro por outro reestruturação. A traição um crash. O reatar um reboot. O primeiro encontro é uma entrevista de emprego no amor. A promessa de que uma relação dure mais que um telemóvel um bom princípio.

Em vez de flores, talvez devêssemos oferecer aplicações, actualizações, upgrades, abonos de família, despesas de representação. Em vez de bilhetes, facturas, cartões da empresa, memorandos. Smileys em vez de sorrisos. Toques em vez de abraços. “Likes” em vez de longos telefonemas delicodoces noite fora.

Os cônjuges são partners. A mulher da minha vida um ambicioso projecto pessoal. Um filho um investimento de risco, mas um sinal de confiança aos mercados.

Não sei que nos podemos prometer depois de tantos divórcios, despedimentos, desilusões e descrenças. Dizer que farei de ti a mulher mais feliz do mundo é prometer qualquer coisa que depende mais da Fitch do que de mim e ambos sabemos disso. Prefiro perder a cabeça, a réstia de cinismo e prudência, e dizer assim, arrebatado, alto e bom som, para todo o mundo ouvir: quero pagar-te os impostos.

publicado por Alexandre Borges às 07:19
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Domingo, 3 de Abril de 2011

Breve elogio e defesa de Paulo Futre

De repente um país torna-se num momento. Breves minutos, registados para a posteridade, resgatam Portugal da mansa raiva em que são vividos os dias, na época de todas as mentiras e todas as revoltas. Declarações mais ou menos delirantes, acompanhadas de sotaque hilário e histrionismo excessivo seduziram  os portugueses. As fantásticas power lines de Paulo Futre na conferencia de imprensa de um candidato à presidência do Sporting são recitadas de cor, embrulhadas nos cafés com os pastéis de nada («Calma sócio, não vê que estou concentradíssimo»), debitadas a todos os propósitos («Vai vir charters da China»). A operação aritmética 19+1 nunca mais irá ter o mesmo sentido em Portugal. Sucedem-se os videos, as paródias, as sequelas.

A verdade é que Paulo Futre, no seu modo peculiar e picaresco, fez mais  pela mobilização dos portugueses do que anos e anos de maus governos e injustiças sortidas. É nele que nos revemos quando o troçamos : porque apesar do óbvio delírio daquele homem , ele fala sem medo. Ele diz o que quer dizer, o que sinceramente acha que é o melhor. Pode ter uma lógica de Alice no País das Maravilhas, sim; mas contém uma dose de sinceridade e vontade que não consigo encontrar em mais nenhum orador ou figura publica nacional nesta altura.

Há algum tempo, tive o contraste desta atitude. Assisti a uma mesa-redonda com figuras académicas respeitáveis e respeitadas. Não irei dizer quem para não ferir sensibilidades. Mas serviu para constatar o que já sabia: os portugueses são pomposos. Chatos, ufanos, vaidosos. O primeiro orador, para um tema que, faz de conta, seria «A invenção da roda» começou a sua intervenção assim:«Quando eu tinha oito ou nove anos, na minha aldeia...». Seguiram-se vinte minutos de partilha de petites histoires provavelmente interessantes para contar em casa à lareira: para uma audiência que queria ouvir opiniões sobre a invenção da roda, foi só mais uma provação enfadonha. O mesmo para os outros intervenientes, que não resistiram a apelar à sua biografia para garantir que o publico soubesse quão brilhantes eram e como foi tão sensato da organização o convite que lhes foi feito para ali estarem.

Deste Portugal, estou farto. O cinzento português  de O'Neill tranformou-se no multicolorido das caudas de pavão artificiais que por aí debicam. Vivemos entre o folclore da revolta festivaleira e a arrogância de quem nada sabe e tudo quer ensinar.

Viva Paulo Futre. E no dia que for a votos, já tem o meu garantido.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 20:23
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Um funcionário descansado dum dia exemplar

É provável que nunca mais nos livremos do FMI. A previsão podia ter sido feita por um analista sénior da Fitch ou por aquele turco espertalhão que anteviu a crise, mas a verdade é que não é preciso ser-se um génio da economia ou trabalhar numa agência de rating para dizer coisas alarmistas com um carácter absoluto e permanente. Basta ser português e achar que o país não tem remédio. Aliás, basta ser português. Assim é que é.

 

Mas, da mesma maneira que o país precisa do FMI, também o FMI irá descobrir que não passa sem nós. O timing da chegada não podia ser mais oportuno. Exceptuando uns poucos dias de chuva que transformaram Abril no mês de águas mil (é uma pena não podermos patentear o nosso saber popular), aquilo que a equipa do FMI constatará é que Portugal é um sítio encantador, e não o pântano anunciado nos media. Estes senhores vão perceber rapidamente que Portugal não tem obrigatoriamente que ser a terra do funcionário cansado, tal como descrito por António Ramos Rosa. “Débito e crédito, débito e crédito”, a sua alma vai dançar com os números, enquanto a exibem desavergonhados. Pudera. A culpa não é deles.

 

A seguir vem um verso em que o funcionário é apanhado pelo chefe com “o olho lírico na gaiola do quintal em frente”, o que, como sabemos, não irá acontecer. Neste caso, o funcionário é também ele chefe e, se por acaso o seu olho lírico reparar na gaiola do quintal em frente, é porque se trata um organismo público a extinguir.

 

A esta malta, ninguém vai “debitar” nada na “conta de empregado”. Serão pois funcionários des”cansados dum dia exemplar / orgulhosos de terem cumprido o seu dever.” Ora, o que faz qualquer português que se julgue exemplar e merecedor do melhor que a vida tem para lhe dar? Geralmente, uma de duas coisas: vive uma vida pacatamente feliz, recheada de pequenos grandes prazeres ao dispor de qualquer indivíduo com uma maquia decente no fim de cada mês, ou abraça uma vida inteira de ressabiamento. Muitos portugueses optam por este último caminho, com elevado sucesso e reconhecimento entre os seus pares existenciais. Quanto ao funcionário do FMI, vai perguntar a si mesmo: o que é que um gajo faz nesta terra quando não se está a queixar? Esta pergunta será colocada a si mesmo porque nenhum português lhe dirigirá a palavra.

 

É aqui que as coisas se tornam preocupantes. Terminado o dia de trabalho, o funcionário descansado terá um mundo de possibilidades à sua disposição. Longe vão o inverno de Dublin ou a dieta de iogurte e queijo feta. Com o Ministério das Finanças localizado a 20 minutos do mar e do maior outlet da Europa, e uma infinitude de bons restaurantes, esplanadas charmosas e casas de diversão nocturna no intervalo que os separa, o funcionário descansado vai passar por dois estados de alma. O primeiro, próprio de quem está de passagem, é o deslumbramento. Tanto drama e afinal é este o melhor país da Europa. Depois vem a fase da aculturação, em que o funcionário, tal como Passos Coelho, percebe que o problema de Portugal afinal é muito maior do que aquilo que nos tinham dito. Isto é coisa para se prolongar por anos e anos. Aliás, o melhor mesmo é não marcar data de regresso. Vamos ver como corre. É trabalhar afincadamente e depois logo se vê.

 

Voltamos ao poema de Ramos Rosa e continua a fazer sentido. Já em vias de se naturalizar, o funcionário do FMI aprende agora a língua: “flor rapariga amigo menino / irmão beijo namorada / mãe estrela música”. São as “palavras cruzadas” do seu “sonho”, “palavras desenterradas” de uma nova vida, não mais prisão. Se a vida de um funcionário puder ser isto, “todas as noites do mundo numa noite só comprida”, ele nunca mais sai daqui. Nós também não, mas por razões diferentes.

publicado por Vasco Mendonça às 19:11
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Download à Consciência

 

Roubar ou não roubar?, eis a questão que se põe ao consumir imoderado de canções. Tenho-me colocado a pergunta numa altura em que me quero actualizar em relação a novos sons e - destino da geração parva e pós-parva – falta-me o guito necessário para tal. Não sou santo nenhum na matéria: já saquei alguma discalhada e beneficiei do saquanço de outros. Mas de vez em quando surge a pergunta, tipo faixa escondida: é legítima esta coisa de sacar música independente da net ao desbarato?

 

Dizem-me – e dizem alguma bandas – que o prejuízo resolve-se com os concertos ao vivo e com as digressões. E eu penso nos grupos que não gostam de tocar ao vivo. Simplesmente porque não funcionam ao vivo. Ou porque o vocalista é patologicamente tímido. Pergunto-me se grupos que me formaram (tal e qual a Dona Dulce, minha professora da primária) como os Jesus And the Mary Chain e os My Bloody Valentine poderiam sobreviver neste mundo do “vamos percorrer todas as terrinhas para ganharmos o nosso”? Já para não falar do antigo catálogo da 4AD, coral sonoro tão belo e rico mas quase irreproduzível -  em condições e transcendência - em palco.

 

Depois ainda há quem use um argumento para aquietar as consciências: “Eu compro sempre os discos de que gosto”. Ou por outra: primeiro saco e depois escolho, de entre os álbuns que saquei, aqueles que vou comprar. E torço o nariz. Porque sei que ou se é um melómano irrecuperável e se gosta de ter o disco como objecto ou é muito fácil escorregar para a procrastinação do acto da compra. Quem é que, tendo o álbum dos Twin Shadow no computador, não cede à tentação de, nestes meses crisófilos,  adiar o momento de o mandar vir da Amazon ou de o ir buscar à loja? Além disso, para citar um amigo, “é tudo muito bom, muito bonito”, mas quem é que garante, com estes gestos, a sobrevivência das “mercearias musicais” (na boa terminologia da Radar)? O comércio tradicional da música é como o outro – só é preservado se houver quem resista à tentação de escolher sempre as grandes superfícies, sobretudo essa superfície gigante a céu aberto que é a internet.

 

E é assim. Um gajo não sai disto. Vai ao site da Pitchfork, topa as novidades e, antes de ceder à tentação de escrever no rectangulozito do Google “mega upload” seguido do grupo, estaciona o espírito na pergunta chata: saco ou não saco? Fico a dúvida. E vai-se deitar, enquanto deixa a consciência, a terrível consciência, numa espécie de eterno modo de download.

 

 

publicado por Nuno Costa Santos às 11:38
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