Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

como ando em fase de lua nova (quase eclipsado) faço uma reciclagem e recupero uma pachacha, salve seja, publicada aqui muito há atrasado

As palavras são. Mas também dizem. Sobretudo aquilo que queremos aferir delas, na nossa interpretação muito pessoal, sobretudo quando refluxos de memória vêm ao goto, sobretudo quando vêm polvilhadas de infância e ou puberdade, sobretudo já parava com esta repetição de uma palavra em forma de casaco que aqui serve outros propósitos que não o de agasalhar.

 

Vem esta curta prosa a propósito do lançamento do último livro do Mexia, ali ao Incógnito, faz hoje uma semana. No dito - lançamento - veio à baila a palavra Gina, enquanto objecto significante de revista e de felicidade às mãos-cheias. E quem pertence a esta geração, bem como a outras imediatamente anteriores, nunca mais conseguiu isolar outras Ginas daquela em forma de revista, besuntada a papel couché e fotos de fazer inveja a uma grande angular. Conheço até uma muito querida (Gina), que explora um estabelecimento comercial no ramo da hotelaria, e que muito me custa enredar nestes baraços da memória selectiva.

 

E enquanto o Mexia falava na Gina, e agitava o canhenho editado pela Tinta da China com direito a Scorpions na fronha, eu pensava noutro vocábulo que vai não volta me assola a cabeça: pachacha. Palavra rude, significado truculento, suficiente para gerar um casus belli de mal-entendidos aqui na bloga. Sucede que eu não vejo a pachacha assim (abrenúncio) até porque tão desditosa laracha servia para designar um indivíduo que ganhou a alcunha num dia em que disputávamos uma partida de futebol em plena rua e uma rabanada de vento o levou a morder o pó, que é como quem diz, o alcatrão. O desgraçado chamava-se Carlos portanto havia muita gente que o tratava por "pachacha" com notório alívio. Era magricelas e fracote e logo algum génio do quase subúrbio que é a minha zona de criação o apodou com referências pouco subits à feminilidade.

 

E assim uma palavra guedelhuda é para mim motivo de sorriso e terna lembrança da puberdade em calções e ténis rotos da Fute, comprados no Guimarães da estrada de Benfica. Quanto a ordinarices ainda não estamos conversados, eu prometo.

publicado por Pedro Vieira às 15:38
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

E é assim

 

 

Não gosto da bandeira nacional. Aquela coisa horrível verde e vermelha com aquela confusão de castelinhos e esferas e o caraças será muito apropriada para um desses novos países desenhados a regra e esquadro por um qualquer paspalho armado em construtor de nações, mas não é suficientemente digna duma gente antiga, com todos os defeitos e qualidades de quem já viu muito mundo. As bandeiras antigas eram mais bonitas, mas também tinham aquela coisa dos castelitos e tal. Também não estavam à altura. Chegava bem o azul e branco, velhinho de gerações e gerações, sem berloques.

Quanto mais cores e símbolos tiver uma bandeira, menos recortada é a fronteira desse país. Os novos países usam aquela confusão de referências para substituírem a história que não têm. Cada milímetro de mapa para dentro ou para fora do país vizinho tem uma luta, um casamento, uma desfeita de honra por trás. Quem não tem história inventa-a, já se sabe, e é por isso que vemos sacholas, metralhadoras e coisas que tais nas bandeiras dessas crianças da História. A grossura dos livros de História dos países é inversamente proporcional ao número de cores e bonecos das suas bandeiras.

 

Verdade seja dita, nunca tivemos muito jeito para essa coisa de bandeiras, hinos e símbolos que tais. Dos hinos, então, nem vale a pena falar (seguem-se mais umas centenas de caracteres). Ele é gajas histéricas, de pistolas à cinta, doidas por matar Cabrais só pelo velho António Bernardo querer pôr os mortos em cemitérios em vez dos deixar a apodrecer por debaixo do lajedo das igrejas; ele é marchar, marchar, contra balas de canhão, assim uma espécie de lá vamos cantando e rindo levados, levados sim, para a morte certa.

 

A generalização ia começar agora e a graçola já estava preparada. Pegava nestas duas pérolas, dizia que não temos jeito para pôr músicas nas letras, nem letras nas músicas e rematava em grande estilo contando a historieta do lusitano do Domínio dos Deuses. O tal que não sabia cantar, mas sabia dizer uns poemas muito jeitosos. O apelo final seria: o hino passava a não ter música e cada vez que a selecção jogasse dizíamos um soneto qualquer.

Para mal dos meus pecados, o meu filho Domingos, depois dum pequeno incidente familiar concluído com a quebra duma estante e no amarfanhamento dum poster dos Joy Division, chega, revoltado, à sala e põe a tocar o disco que estava na aparelhagem. Ora porra, a Travessia do Deserto do José Mário Branco.

Foi-se a crónica, ficou isto. 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:29
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dependent on sunday

Sei de quem não suporte domingos. Não suporte o silêncio, o vazio, a solidão dos domingos. Gostava de pensar como essa gente activa, sequiosa de acontecimentos, mas não poderia estar mais longe dela. Tenho pelos domingos o mesmo afecto de uma criança feliz por não ter escola. Não cresci nem um bocadinho.

Em tempos, o domingo era o dia da missa. Do almoço e do passeio de família. Da roupa boa que se comprava e guardava para usar, especificamente naquele dia – a roupa de domingo. Hoje, é o dia do pijama, do roupão e das pantufas; do chinelo e da roupa de ontem. E essa revolução indumentária diz quase tudo o que há a saber sobre a forma como mudámos colectivamente de vida.

Sacrificámos tudo ao que se passa da porta de casa para fora. A roupa boa, o tempo, a energia, são empenhados em semanas de trabalho e compromissos de agenda; para nós, para nós mesmos, a nossa casa, o nosso tempo, as nossas pessoas, a nossa solidão, deixámos os restos.

Morto Deus e moribunda a família, ficámos com o domingo livre – um drama aterrador para quem, sem horários de trabalho e entradas de agenda, perde o sentido de existir. Sem ruído, sem a ilusão de que se caminha para qualquer lado, o domingo descobre cruelmente a nossa falta de planos para a vida.

O paradoxo é evidente. A nossa liberdade deveria correr livremente pelo campo aberto dos domingos. Aí deveria florescer tudo quanto queremos ver, ouvir, construir, as conversas que queremos ter, com quem queremos ter, os sítios, as canções, os rituais, os reencontros, as descobertas, todos os empreendimentos pessoais, o simples perder de tempo, se é tempo que queremos perder, languidamente estendidos no sofá, no mar ou esplanadando por aí. Se isso não acontece, não há nenhum problema com os domingos; há um problema connosco.

Um dia, haveremos de ir trabalhar com a roupa de ontem e vestir-nos de gala para brincar com as crianças e os gatos. Faremos zapping de smoking. Poremos perfume para que o tempo se demore ao passar por nós.

publicado por Alexandre Borges às 07:20
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Domingo, 17 de Abril de 2011

A marcha dos desiludidos

Crónica breve, esta, que para mim o tempo é de reflexão sobre coisas maiores. De Morte e Ressurreição, de Cruz e Vida. Tenho a sorte de, desde há anos para cá, a Semana Santa significar bastante mais do que invasões de espanhóis sequiosos de sol e preços baixos. Mas como não tenho qualquer vocação proselitista, deixarei a cada um a forma de viver estes dias e opto, com a vossa licença, por espreitar para o mundinho.

E o que se vê, da nossa janela? Coros de indignação, revolta folclórica, declarações de políticos e notáveis da nação em modo stand up comedy. Exactamente: Fernando Nobre, por exemplo. A sua afirmação explosiva de que só lhe interessa ser presidente da Assembleia da Republica entra directamente no top do anedotário nacional. Mas pior é quem o convidou, porque os precedentes eram tão evidentes que doíam: Nobre  conseguiu o espantoso feito de desbaratar a sua credibilidade adquirida à custa de obra feita através de raciocínios e argumentos da mais luminosa estupidez. As perguntas do género 'Já alguma vez viu uma criança morrer nos seus braços?' e o consequente argumentário 'Eu já' davam a perceber tudo o que o homem era. Uma nulidade política. Agora sabemos que é também vaidoso, o que não seria problema noutra pessoa que não apregoasse a humildade.

Mas o que descubro de mais espantoso é que, apesar de tudo, existem os 'desiludidos' de Fernando Nobre. O que significa que, em alguma altura das suas vidas, terão sido 'iludidos' pelo dito cavalheiro. Andam na rua, escrevem nos jornais, lamentam-se nas esquinas e cafés. Mas que país é este em que eu vivo em que tanta gente se deixa iludir assim? Ah, já sei: os mesmos que se deixaram 'iludir' por José Sócrates e votaram nele. Curiosamente, muitos dos que votaram Fernando Nobre, 'desiludidos' com Sócrates.

Ainda teria espaço para falar sobre o ilustre bastonário dos Advogados, dr.Marinho Pinto, que sugere uma original 'greve à democracia'  ou o extraordinário Otelo que se vê pela conjuntura do país autorizado a dizer atoardas que o levem a voltar a sonhar com o que sonhou no PREC. Mas estou cansado. Apenas não entendo como ainda pensam que o louco é o Futre.

A minha semana vai continuar a ser de oração e de busca interior, até ao Domingo de Páscoa. Mas este ano tenho uma outra intenção por que rezar: o final definitivo das ilusões e dos iludidos. 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 18:13
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Em casa, aqui ao lado

 

(a foto de um sinal português em Marrocos)

 

 A genuinidade. A autenticidade. Foram essas as coisas de que mais gostei em Marraquexe, cidade que visitei recentemente. Quero voltar - até porque sinto que fiz apenas uma primeira e superficial viagem de reconhecimento. Que preciso de falar mais com as gentes, de circular, de levar com mais poeira. Há muito turismo, como se sabe, mas as pessoas não estão ali para a fotografia - até nem gostam disso. Praticam os seus ofícios ancestrais porque querem prosseguir aquilo que lhes foi transmitido por pais e avós. Mesmo quando são vendedoras insuportavelmente insistentes estão a ser o povo comerciante que sempre foram.

 

Escrever sobre Marrocos é bater, melancolicamente,  na mesma tecla, daquelas que já não funcionam: está mesmo aqui ao lado e não conhecemos o país. Percebo o Rui Tavares quando escreveu recentemente isto: "Rabat está a seiscentos quilómetros de Lisboa. Conhecemos nós, ao menos, a sociedade marroquina?". Não, não conhecemos. E é pena. Porque há aqui ao lado um povo de tradições e cruzamentos vários, material fabuloso para os contadores de histórias da Praça Jemaa El Fna, que todos ganharíamos em conhecer. Aconteceu-me um pequeno e burlesco episódio nessa praça.  Dei uma moeda a um velho homem que ma pediu e mais tarde apanhei-o a pagar o serviço de um feiticeiro com esse mesmo dinheiro. É assim Marraquexe. Cheia de personagens. De histórias sem moralismos óbvios e com uma ética própria, indecifrável para os visitantes viciados em exotismo e bugigangas.

 

Há aqui, a uma hora de viagem de avião, fragâncias de especiarias que fazem parte da nossa História e que merecem ser apreciadas e sentidas, como quem visita o dicionário dos primeiros cheiros, daqueles que inspiraram os nossos antepassados. E há uma forma de viver o Islão que só ganharíamos em conhecer, até para percebermos as várias tonalidades de que é feito. Às cinco da manhã, em  Marraquexe, fui surpreendido pela chamada para a oração, através das colunas instaladas nas ruas, e tive um sentimento de temor próximo daquele que tinha em miúdo na minha ilha, quando nas estradas passavam os romeiros a entoar os seus cânticos de súplica divina.

 

Percebo Manuel Poppe quando escreveu uma história como "Um Inverno em Marraquexe", sobre uma mulher em processo de afirmação numa sociedade ainda conservadora em relação à condição feminina, apesar da diversidade  - tanto há mulheres tapadas com burkas como raparigas a conduzir motas sem capacete.  Percebo Sousa Tavares quando escreveu um texto tão rico como "Emboscada em Marraquexe", que começa com a história do inglês John Hopkins, habitante da cidade durante 22 anos (sem regressos à Europa), e depois homenageia Churchill, um dos extravagantes frequentadores assíduos do hotel Mamounia, por onde passei para lhe sentir o perfume e a grandiosidade.

 

Têm havido portugueses interesssados em Marrocos, sim. Ainda são poucos. Precisamos de desenjoar da Europa, de uma Europa que começa a perder a curiosidade e a celebrar o calculismo. Se calhar devíamos olhar para Sul - um Sul aqui bem perto. Começar por Marrocos. Um país onde um rapaz, numa pequena aldeia num deserto próximo da cidade, abriu as portas apenas para nos convidar a entrar e oferecer aquilo que tinha para oferecer: um chá de menta e uma conversa.

 

E eu que só percebi quando cheguei a Lisboa que havia calcorreado as ruas, as praças, os souks e os Riads com uns Camper "made in Marocco". Se calhar foi por isso que me senti em casa.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 20:00
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Terça-feira, 12 de Abril de 2011

O Tiger é aquele do golf

Chega. Estou farto de não ver o Tiger a lutar pela vitória.

Como me acontece amiúde, vejo o que escrevi ou disse e percebo que não sou propriamente um cidadão constante. É que passei anos a fio a berrar contra o rapaz, a pedir a todos os santinhos que os putts não entrassem, os drives fossem para as couves, a declarar que o tipo tinha um pacto com o diabo e agora sento-me à frente da televisão todo o santo fim de semana (ficava mal dizer que era de quinta a domingo) e sinto-me um verdadeiro pateta.

Para quem, como eu, gosta de heróis de carne e osso, o Tiger era um pesadelo. O homem não era humano. Parecia não ter emoções, fraquezas, inseguranças.

Comecei a gostar mesmo dele quando percebi, eu e o mundo inteiro, que também ele tinha os seus fantasmas, os seus pecados. Também ele lutava não só contra o campo, mas também contra as tentações, contra as suas próprias misérias e fraquezas  (está bem, está bem, as senhoras não podem ser exactamente chamadas de fracas).

Mas, desde perceber que afinal era como qualquer um de nós (infelizmente, estou a pensar na parte de sermos todos vulneráveis) até querer que ele continuasse a ganhar daquela maneira vai uma grande distância.  No fundo, pensei que tudo se arranjaria. O homem ia a um “perdoa-me” qualquer, e a senhora sueca pensava aqui no rapaz e nos milhões que o queriam ver sempre a lutar pela vitória. Eu e mais meia dúzia para que o víssemos perder e os outros milhões para o ver ganhar.

Era o mínimo que ex-sra Woods podia fazer. Seria impossível que ela não tivesse consciência do mal que estava a provocar. Será que não tinha visto aqueles filmes em que um soldado se atira para cima duma granada para salvar o resto do regimento? Não leu a história do Moniz que ficou entalado na porta para que conquistássemos a capital? Então estes suecos cheios de escolas, cultura, bem estar e coisas assim não percebem que para o mundo ir para a frente são precisos sacrifícios individuais? Mas não. Não perdoou ao Tiger, julgava que o estava a castigar. Não, minha senhora. Nós é que fomos castigados. Nós, os milhões e milhões que sofremos com a ausência da camisa vermelha, do nariz levantado, daquela vontadinha de os comer a todos. Obrigadinho por nos estragar os domingos, sua egoísta.

publicado por Pedro Marques Lopes às 02:03
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

retrato do artista enquanto marido

O artista tem de vencer incontáveis obstáculos na perseguição do seu destino. A busca por um mundo próprio, o apuramento da forma, a ânsia do reconhecimento, o duelo com as expectativas, o silêncio das musas, a persistência num método, a crítica e a auto-crítica, um sem fim de medos, bloqueios, desejos e outros perversos ardis da consciência.

Nenhum, porém, lhe dá mais luta do que a vida conjugal.

Em matéria de relações amorosas, o artista só colhe benefícios durante os primeiros meses. A novel companheira é, então, uma presa que ele atrai com versos grandiloquentes, observações sensíveis do mundo, citações avulsas polvilhando conversas banais, visitas guiadas a territórios sagrados de cultura, o desarmante sex appeal de uma obra publicada ou, mistério dos mistérios, daquela que se enche de pó nas gavetas.

São dias de glória, esses. O artista sente que tudo fez sentido: nunca ter subido a uma prancha de surf ou percorrido estradas de moto e cabelos ao vento, não ter investido na construção de uns abdominais de Hércules ou aplicado as poupanças num daqueles potentes descapotáveis com que os outros roubaram, anos a fio, toda a freguesia. Afinal, o tempo consumido entre livros, discos e filmes também serviu para trazê-lo ao objectivo supremo da espécie: o acasalamento.

Agora, a companheira apresenta-o orgulhosamente à família e às amigas. É poeta, diz, enlevada. Ou pianista, contrabaixista, pintor, fotógrafo, cineasta. Os olhos em volta contemplam-no como a uma estátua. A curiosidade sobre o que pensa sobre toda e qualquer coisa parece ilimitada.

Volvidos esses meses fulgurantes, o fascínio escorre, no entanto, pelo prodigioso ralo dos dias. Agora, o artista e a companheira vivem juntos e a arte terá de disputar taco a taco com a roupa por lavar um lugar no topo da hierarquia das urgências.

Escrever um poema ou limpar a cozinha. Pensar uma metáfora ou fazer a cama. O diálogo decisivo de um filme ou arrumar as compras. O perfil de uma personagem contra o estendal da roupa, a composição magistral contra os dejectos dos gatos, o hino triunfal contra o lixo que tem de ser posto na rua. A guitarra enfrenta o berbequim. O suplemento literário o pano do pó. O tríptico alegórico a loiça gordurenta. O neo-desconstrutivismo o ferro de engomar. O retrato pós-apocalíptico a lista de compras.

Em cima disto, o tempo para falar destas e doutras coisas. Porque já não falam. Porque o artista não ajuda em casa. Porque o artista anda muito calado. Não é, hélas, o homem com quem ela casou.

E as visitas à mãe, às amigas e às amigas que acabam de ser mães. A viagem a dois porque há muito tempo não estão sozinhos.

O processo culmina no terno desabafo dela: nunca apareço nos teus poemas / romances / canções / filmes / quadros / riscar o que não interessa. O artista pensa responder qualquer coisa menos artística, mas prefere dizê-lo abafado pelo som do aspirador.

Chegado a isto, ele pergunta-se se Schopenhauer teria as mesmas queixas. Passaria Chopin mais tempo a limpar o piano do que a tocá-lo? Quantas vezes terá Hemingway interrompido a redacção de Adeus Às Armas para recolher a roupa e fazer outra máquina?

As questões vão e vêm sem resposta. Enquanto a tarde cai e a roupa roda no tambor, os gatos pedincham comida e o homem da companhia faz a leitura do gás, o artista pensa que já não saberia viver doutra maneira. Épicos e românticos estão fora de moda; realistas e niilistas vão pelo mesmo caminho. Que resta a um artista-marido senão a doce metafísica da normalidade?

publicado por Alexandre Borges às 17:56
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Domingo, 10 de Abril de 2011

Memórias com acne: Classic, o slow que veio do sótão.

Não sei se existe algum estudo científico que relacione a produção de testostrona com o défice de critérios estéticos mas não me admiraria se fosse revelada agora a proporcionalidade directa entre uma e outro. Na ebulição adolescente os gostos musicais masculinos tornam-se ecléticos e utilitários, tendo como único objectivo o aperfeiçoamento do ritual do acasalamento. E no meu tempo, ó felizes púberes de hoje, isso significava não poder escapar a uma terrível prova de iniciação: o slow.

Derradeiro sobrevivente de uma época em que se dançava a dois, o slow era muitas vezes a primeira oportunidade de contacto mais íntimo com o sexo oposto. No alinhamento discográfico de uma festa caseira havia sempre o momento solene do slow, que teria de acontecer nem muito tarde nem cedo demais. Normalmente surgia depois de consumidos e bailados os hits do momento (cuja característica era a total ausência de coerência musical), quando o primeiro gelo começava a derreter e a conversação se tornava mais fluida. De súbito as luzes desciam (em alguns casos, mais radicais, apagavam-se) e ouvia-se a primeira canção lenta. As hostilidades tinham começado. Em regra, eram os casais de namorados já «oficiais» que davam os primeiros passos. Os outros ficavam na sombra, à espera de um assomo de coragem para convidar o par e ir dançar. Eram momentos angustiantes. Mas a certa altura tudo se tornava inevitável, quando se ouvia a canção. Em 1982, em Portugal e em toda a Europa, essa canção era Classic, de Adrian Gurvitz.

 Nessa época, Gurvitz apresentava um visual festivaleiro, ao melhor estilo eurotrash , e que incluía um penteado igual ao de Chuck Norris se este fizesse uma permanente.(a confirmar, com cuidado, aqui )  A canção condizia: pirosa, previsível, ridícula. Mas ai do desgraçado que não a dançasse: seria para sempre considerado um pária, um meteco do amor.

Menino e moço me apercebi da distância injusta entre a Arte e a Vida. Aos 17 anos, a minha formação musical avançava em passos pequenos mas decididos. Tinha resolvido com proveito a fase Doors, já tinha sido apresentado a Leonard Cohen, Echo&The Bunnymen , os Joy Division e demais catálogo da Factory  e tantas outras coisas novas e seguras, daquelas que pressentimos que irão furar o destino da música popular. A Arte mostrava-me o caminho. Infelizmente, a Vida obrigava-me a dançar Adrian Gurvitz. 

A primeira vez foi medonha. Tão nervoso como surpreso por uma rapariga ter aceite o meu convite, entrei desconfortável nos primeiros acordes: primeiro porque a rapariga teria menos 15 cm do que eu, o que tornava enigmática e perigosa a colocação de mãos e braços; depois, porque não sabia o que fazer. E como era recorrente nessas ocasiões, o hermeneuta levou a melhor - mal se ouviram os infames versos que abrem a canção («Got to write a classic/got to write it in an attic») comecei a metralhar a pobre miúda: «Não percebo isto do sótão, porque é que um clássico tem de ser escrito num sótão?», «E este erro? ‘And you was my best toy’? ‘Were’! ‘Were’ é que é!». O meu destino ficou marcado antes do solo de guitarra.

Depois deste desastre tive oportunidade de dançar Classic várias vezes. E aprendi a estar grato a esta balada manhosa, com aliterações patetas e marcação sincopada  um-um-dois que permitia o dançar estiloso do um-passo-para-a-direita-dois-para-a-esquerda. Graças a Classic descobri a antecipação da cabeça da rapariga no ombro, o leve aperto em crescendo, primeiro tímido e à procura de resposta e depois, se correspondido, um festim para todos os sentidos. No final, a consagração máxima, o toque dos lábios no escuro e o sabor adocicado do whisky-cola a percorrer a boca. Agora, com a distância e a sabedoria dos anos não consigo ver Classic como uma canção tola. Será para sempre o som e o sabor a whisky-cola dos longínquos primeiros amores.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 22:41
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Vou emigrar para Portugal

Ouço cada vez mais gente a querer emigrar. Percebo a urgência. Concordo com as pessoas. Acho que se tornou urgente emigrar. Eu próprio quero emigrar para uma nação da qual tenho recebido as melhores referências. Diz que, além da cultura, da História, do tempo, das comidas e de outras matérias igualmente importantes, tem gente de qualidade, com vontade de arregaçar as mangas onde elas devem começar por ser arregaçadas: nos bairros, nos pequenos redutos onde se fortalece a têmpera de um povo. Que é como quem diz nos quotidianos de cada um, sejam estes marceneiros, gestores de empresas ou economistas versados em tragedês.

 

Fartei-me de viver num condomínio novo-rico, dominado por um espírito arrivista, onde o bom é fazer "em grande" por fazer "em grande". Cansei-me de habitar num sítio onde o desgraçadismo  faz escola em grande escala - do café ao jornal de grande circulação - e onde os demónios são sempre os outros. Quero, sim, quero deixar uma terra viciada na palavrinha "eles" e trocá-la por outra que usa um bocadinho mais o termo "nós". Isso: que se responsabiliza pelos seus gestos, da condução da motoreta ao voto.

 

Estou entusiasmadíssimo. Tenho lido coisas extraordinárias sobre esse território para onde quero emigrar. É um lugar sem ressentimentos de maior, onde se distribuem facilmente elogios a quem os merece. Onde os homens e mulheres começam por cuidar do seu jardim para depois atenderem à floresta de todos. Onde os mais velhos não são abandonados nos seus quartos andares sem elevador. Onde os primeiros ministros assumem as suas culpas no cartório das dívidas e da má gestão. Onde há personalidades várias capazes de tirar algum do seu rendimento para financiar bolsas e outras iniciativas do género. Onde o ruído mediático em que se vive não é suficiente para apagar o sentido de discernimento de quem consome informação. Onde as pessoas não adiam - fazem. Onde há comprometimento - não a conversa do "deixa só passar esta fase".

 

Hoje de manhã foi a gota de água: vi um automobilista a dizer a um pedinte deficiente para ir dar uma volta.

 

Decidi: eu não quero mais viver aqui. Vou emigrar para o meu país.

publicado por Nuno Costa Santos às 16:07
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Crónica explicada

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Deixei de frequentar a igreja ao domingo por volta dos 14 anos e, desde então, só acumulo missas do galo, de casamento  e de sétimo dia. Mas na terça passada acrescentei um novo tipo: uma missa explicada. Foi  na capela do Rato e daqui agradeço a experiência ao padre Tolentino Mendonça, pois revelou-me o caminho a seguir no Sinusite.

 

O ponto de partida para a homilia vem relatado por João e é o episódio do enfermo prostrado há 38 anos, a quem Jesus pergunta: “queres ficar são?”. O homem sai curado, beneficiando daquela mestria sobejamente conhecida, e nem tem tempo de perceber quem esteve diante dele, pois Jesus desaparece na multidão. Mas depois, caminhando já pelo seu pé, ele reencontra o seu salvador e então fica a saber que é Jesus.  Ao padre Tolentino Mendonça ocorreram dois comentários. O primeiro: que a pergunta de Jesus não era simples retórica, pois nem 38 anos de enfermidade garantem uma resposta exclusiva e inequívoca, devendo cada um não ter medo de se confrontar com as vontades que o guiam.   O segundo: que o reencontro, a repetição,  é uma forma de aprendizagem essencial, por fazer coincidir o distanciamento da primeira experiência com o estímulo da segunda.  Os dois comentários são relevantes para o que agora relato. Há uns dias, o Nuno Costa Santos fez de Jesus (não por acaso, anda guedelhudo), perguntando-me se eu queria mesmo escrever aqui. Após uma primeira resposta, demorei uns dias a chegar a uma conclusão definitiva, contrária à decisão mais sensata e que julgava corresponder também à minha vontade. Por isso aqui estou.  E é um reencontro com antigos companheiros, com um eventual leitor e com este espaço, onde há  precisamente três anos comecei a assinar entradas como o “Homem do Pullover Amarelo”.  A aprendizagem traduziu-se já num primeiro gesto simbólico. E de novo agradeço ao padre, pela teatralidade luminosa que me inspirou, como se ele desse as aulas teóricas e também as práticas. Passo a explicar.

 

Tolentino Mendonça subiu ao altar à paisana. Foi assim que se dirigiu aos fiéis. Só a seguir,  diante todos, se foi transformando em padre: primeiro a alva, depois a estola, por fim a casula.  Já de roxo, concluiu a explicação dos paramentos litúrgicos, em que falou do código das cores, da forma como diáconos e padres colocam a estola  e do acto de vestir a casula , metamorfose que faz do indivíduo um representante de algo que o transcende. Percebi tudo e fui consequente, ou seja, fiz o inverso: despi o pullover amarelo, a casula que envergava aqui, e renunciei ao transcendente, que era a crítica de restaurantes, assumindo-me como alguém que nada sabe de gastronomia e que por convicção tem apenas o gosto de comer. Abandonado o boneco, restou só o desejo de continuar a escrever sobre comida, mas usando a restauração como na missa se recorre à bíblia : um pretexto para o comentário sobre o que realmente me interessa.

 

O padre, num instante de ingénua vaidade e genuína imodéstia, disse que lhe pesavam os elogios à eloquência das suas homilias e que mais valia a missa do colega desprovido do seu dom palavra, chegando ele a sentir como heresia uma grande homilia que esmague os textos canónicos. Enfim, suspeita na capela do Rato, no Sinusite a afirmação seria absurda, pois blasfemo é o cronista que não assume estar no centro do seu mundo. Só que isto não é programa, é apenas condição.

 

Ainda Tolentino, mostrando o caminho. Erguendo a hóstia e confrontando em três poses marcadas toda a plateia que o ladeava, já depois de ter dado a beber o sangue de Cristo a um punhado de eleitos,  naquele que seria talvez o momento mais fácil de associar à mesa, fosse eu um dos ateus militantes que se horrorizam com a partilha do corpo de Cristo, menos por incapacidade de compreender a ritualização de um gesto já simbólico na sua origem do que pela oportunidade rasteira de fazer os católicos selvagens aos olhos dos idiotas,  Tolentino, que conseguiu arrancar de mim um Pai Nosso, embora por capricho de memória e não arrebatamento espiritual,  deixou-me ensimesmado, mesmo quando saudava os vizinhos na Paz de Cristo, a pensar no que realmente me interessa, como se aquela hóstia de apreciável diâmetro não tivesse desaparecido e pairasse, agora sozinha, um foco para onde convergia o meu pensamento. Mas só mais tarde percebi, já na rua, ainda sob efeito da graça deste padre, forte o suficiente para censurar a inevitável reminiscência táctil capaz de colar a enorme hóstia a um céu da boca hoje apropriadamente mais amplo,  que interessa renegar isto e recuperar aquilo. Que no Sinusite, cada restaurante só pode ser pretexto para escrever  sobre mim mas a propósito de alguém querido, a quem cedo o lugar nobre da mesa, sendo essa a nossa comunhão. Com os vivos e com os mortos.

publicado por Vasco M. Barreto às 21:34
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