Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Uma tragédia

Durante dias os senadores americanos reuniram-se para:

 

a) criar um stimulous bill, isto é, uma lei que providencie a quantidade de dinheiro necessária para aplacar a actual crise e incentivar a economia (os democratas);

b) evitar um spending bill, isto é, evitar gastar uma quantidade absurda de dinheiro com as gentes sem dinheiro, promovendo ao invés novos impostos sobre as gentes sem dinheiro de modo que os ricos não percam os seus bancos (os republicanos).

 

Enquanto os republicanos se entretinham em jogos de linguagem para adiar o inevitável abrir de cordões à bolsa de modo a minorar a tragédia criada pelos seus amigos, a dita tragédia, farta de tanto rame-rame retórico, abateu-se sobre a minha casa. Sob a forma de (rufar de tambores para criar ansiedade): chuva: borrifou-se para o genial conceito da marquise, desrespeitou os caixilhos de alumínio, infiltrou-se em frinchas que nenhum isolante alcança, esboroou camadas tectónicas de tijolo, cimento e que mais os deuses dos empreiteiros acharam por bem colocar na massa que edifica as paredes desta casa, e nidificou entre os objectos mais preciosos.

O resultado: um ataque terrorista a bens de primeira necessidade: cassetes VHS (incluindo a aula de fitness de Cindy Crawford, oferta da minha mãe nos idos de 80, manifesta demonstração de interesse pelos interesses do filho), DVDs (não, não leva apóstrofo, é plural),  CDs, cassetes, livros, livros e livros.

 

Passei algumas noites a tentar secar a humidade de uma edição bestial (da Penguin) do Tom Sawyer (aquele boneco dos desenhos animados cuja tia tem uma voz nasalada e está sempre a mandar vir com ele por ele portar-se como a criança que é), pousando o livro aberto em cima de um calorífero da década de 70 (que me ficou de herança de uma tia-avó que morreu virgem mas dizia que Cristo a visitava à noite, mas não era Cristo, era o caseiro), enquanto me alimentava de rações de guerra, isto é, uns deliciosos bolinhos de canela da mercearia em frente e ice-tea do Lidl. De minuto em minuto virava uma página e dava uma dentada num bolo. Folgo em anunciar que após cuidados intensivos o livro foi salvo, engordei dois quilos e os Lakers ganharam em casa dos Celtics: Kobe Bryant marcou três triplos seguidos com movimentos estéticos tão perfeitos que eu cheguei a temer surgir-me uma erecção à traição, situação evitada mediante um garrote no escroto que evitou o afluxo de sangue a yada yada yada.

 

E nisto perdi as notícias mais importantes e só com atraso soube que Michael Phelps foi fotografado a fumar ganza e além de pedir muita desculpa por ser um puto de 23 anos normal, parece que vai ser suspenso (por ser um puto de 23 anos normal) e perder os patrocínios (por ser um puto de 23 anos normal). Por acaso encontrei a seguir um vídeo no Youtube (apenas com som) em que se ouvia Christian Bale (o actor de Psicopata Americano) no set de um filme qualquer, irado, a descascar um director de fotografia qualquer por passar a seu lado enquanto ele se concentrava para uma cena (diz-se que) particularmente emocional. Bale berra, urra, grita, ameça, faz de conta que vai às trombas ao homem, diz-lhe que ele nunca mais volta a trabalhar em Hollywood, uma briga a sério, digna de filme, juro que gostei.

 

Parece que há um filão de cenas semelhantes no Youtube: realizadores e actores em desmanchos de puxa-cabelos e atira-objectos-pelo-ar, irados, irascíveis, iracundos (tive de ir ao dicionário para esta). Dá-me impressão que ninguém (nem mesmo os Republicanos, nem um que seja) está a perceber que há um negócio nisto: esses out-takes são bastas e assaz vezes melhores que os próprios filmes. Há fitas que eu não compraria excepto se houvesse um dvd extra com as zangas dos actores. Imaginem uma edição do "Apocalipse Now" com as mútuas cabeçadas entre Copolla e Harvey Keitel; de "A Desaparecida" com Ford a humilhar Wayne; de qualquer Hitchcock a pregar partidas às actrizes que queria levar para a cama mas não conseguia (derivado de excesso de gordura). Ou mesmo de Oliveira a perseguir Leonor Silveira. Não pagavam para ver isto? Claro que pagavam.

 

O clipzinho do Youtube do irado Bale suscitou veementes protestos de gente boa e sã que achou inadmissível o comportamento da estrela, provavelmente a mesma que acha inadmissível o comportamento de Phelps. Eu pessoalmente gosto de uma boa briga e assusta-me esta mania contemporânea de filmar tudo, gravar tudo e julgar tudo. E tenho pena que haja câmaras no Senado americano. Caso não as houvesse imagino Obama, se soubesse que podia passar impune, a sair do Canil Oval onde passa os dias a tentar ensinar um cão de água português a rebolar e saltar, a descer ao Senado e a dar uma de Psicopata Americano nos republicanos cordatos e educados que pretendem combater a crise que criaram com a exacta mesma política que levou à dita crise. Trocava a minha edição da Penguin do Tom Sawyer para ver um vídeo de Obama iracundo a desabar (qual chuva desmedida em marquise de tuga de classe média) sobre os eleitos do Senhor que se sentam no Senado. Está em perfeito estado, a cópia do Tom Sawyer, caso estejam interessados.

publicado por João Bonifácio às 17:40
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O vício da pátria

Tem-se falado muito de Pacheco Pereira. Do facto de perseguir como “grande inimigo” o “engraçadismo”, de – por coincidência – não revelar uma ponta de sentido de humor, de ser ressentido e moralista que nem um diácono de província, de constituir um corpo cada vez mais estranho no seu partido (como em qualquer outro partido), de, nos últimos tempos,  registar opiniões inacreditáveis sob o ponto de vista ético, de possuir uma agenda pessoal e de vingançazinhas sob a capa do “intelectual” impoluto. Acho que, genericamente, as pessoas têm razão. Mas também acho outra coisa: que as pessoas deviam deixar o vício do Pacheco Pereira. É um vício que só as prejudica, que só nos prejudica, que só traz problemas a nós próprios e às nossas famílias. Deixemos o Pacheco Pereira aos traficantes.


Sim, Portugal está viciado em Pacheco Pereira. E devia tentar curar-se. Ou por outra: o problema não está propriamente no Pacheco, que opina o que quer, quando quer, no lugarejo que quer. O problema está em quem o consome, em doses imoderadas. Em quem lhe atribui uma relevância desmesurada – uma importância que, de facto, não terá. Pacheco Pereira é apenas um opinador da pátria – dos mais relevantes, mais apenas um opinador da pátria. Não deve ser a referência (positiva e negativa) de todos os grandes debates, sobretudo por aqui, na blogofúria. Isso é atribuir-lhe um peso que, de facto, não tem. Por mais neurónios que esconda na cachimónia.


Eu confesso: já fui viciado em Pacheco Pereira. Reservei ao personagem a atenção que se reserva a quem pensa de forma informada e com rasgo. Mas, por algumas das razões anotadas acima, hoje já não visito a sua casa, o Abrupto. Já não suspendo o zapping para o ver e ouvir. Assisti a quase todos os “Terça à Noite”, com o Sousa Tavares e o António Barreto, recortei artigos vários, ofereci-lhe, como a deferência de quem oferece um poema ao mestre, uma das “Inventio”, revistelha de Faculdade que fiz com amigos, debati-o ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar e no intervalo das sessões de psicoterapia. Mas deixei-me disso. Muito de vez em quando, passo os olhos por um ou outro artiguinho do “Público” e da “Sábado” se o tema me interessa e se há um parágrafo que salta à vista. Pouco mais.

 

Quando deixei de falar tanto do homem, lembro-me da pergunta inquietada da família: então, o que é se que se passa contigo, Nuno? Respondi sem exuberância mas com orgulho: consegui largar o vício, meus queridos. Já não sou viciado em Pacheco Pereira. Gostava de ajudar alguns amigos a sair disso também.

publicado por Nuno Costa Santos às 09:33
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Então e gajas?

Por muito que custe ao mulherio, nós, os machos, não perdemos muito tempo a falar delas.  Não é por não serem uns seres potencialmente interessantes mas, de facto, temos assuntos muito mais excitantes e, sobretudo, sumarentos.
Um tipo fala das pernas da Elle Macpherson, diz que a cachopa tem umas boas pernas, faz um esgar comilão e, se for muito expansivo, dirá que lhe dava um tratamento de primeira. Em meia dúzia de segundos está o assunto tratado.
Coisa muito mais excitante será analisar a capacidade física do Hulk, a elegância do Lucho ou a fibra do Bruno Alves. Isto sim é assunto para um bom par de horas e se, devidamente, acompanhado por umas imperialuchas é capaz de durar uma noite inteira.
Para ser completamente sério, não são só assuntos da incontornável (também aderi à moda: ultimamente é incontornável dizer ou escrever incontornável) relevância como os do futebol, ele é graus de cozedura dos mariscos, corridas de moscas sem asas, letras dos Broa de Mel e até de tretas como política ou motorizações dos Ford Mondeo.
Aliás, quando há um tipo, num grupo, que fala muito de mulheres, já se sabe que o mais certo é ele não ser um particular adepto de trocas de fluidos com as ditas.
Só mesmo quando não há assunto é que a pergunta surge: então e gajas?

publicado por Pedro Marques Lopes às 22:56
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os meus problemas com o boletim meteorológico

Há quem não suporte jornalistas, quem ache os advogados uma profissão do demo, quem embirre com manequins, quem esteja farto de engenheiros, mecânicos, canalizadores, técnicos da TV Cabo, fiscais das finanças – eu tenho um problema com meteorologistas.

 

Além do grande Anthímio de Azevedo e duma senhora de voz frágil que de vez em quando aparece a explicar temporais, alguém, alguma vez, pôs a vista em cima dum meteorologista? Há alguém que tenha namorado com um meteorologista, mantido um affair escaldante com um meteorologista, chocado num cruzamento com um meteorologista, avistado um meteorologista, certa vez, na reunião de condomínio? Não. Nunca. É sabido: os meteorologistas não existem. Se existissem, a previsão do estado do tempo não era igual em todo o lado: da CNN ao Jornal do Fundão, da Rádio Orbital ao boletim interparoquial de Alvaiázere. Haveria divergências, polémica, fracturas. Mas não há.

 

Resulta disto que há anos que desconfio do seguinte: há um senhor, algures no fim do mundo, que redige, de improviso e inspiração, a previsão para o dia de amanhã – quiçá o mesmo que escreve os pensamentos dos pacotinhos de açúcar duma certa marca de café – e, depois, reencaminha-a para os jornais de todo mundo a troco duma assinatura vitalícia da revista Ponto Cruz. Notem: até os horóscopos têm assinatura. Estudos e sondagens têm sempre universidades e empresas por detrás. O tempo não. O tempo é o tempo. Na televisão, na rádio, na imprensa escrita, nos telemóveis, nos ecrãs gigantes das avenidas. E nunca vem assinado por ninguém – um pouco como aquelas reportagens do “Toda A Verdade”.

 

E o pior não é isso. O pior é a falta de rigor. Dizem que vai chover até quinta, mas chove até domingo; que, amanhã, faz sol todo o dia, mas chuvisca à tardinha; que as temperaturas vão oscilar algures entre 14 graus centígrados diferentes e, mesmo assim, às vezes, enganam-se. No Verão, dizem que vai fazer sol e calor; no Inverno, que é bem capaz de vir o frio e a chuva. Enfim, intuições tão surpreendentes como pressentir que, amanhã, vai haver nascimentos e mortes, noite e dia, carros a passar na estrada e galas especiais apresentadas pela Júlia Pinheiro e pelo Manuel Luís Goucha.

 

Quando algo de verdadeiramente diferente acontece, o boletim meteorológico nunca é capaz de o antecipar. Um tsunami, um furacão, umas cheias. E porquê? Porque o senhor estava entretido a tricotar um bonito naperon de acordo com o modelo exibido na página 12 da Ponto Cruz deste mês e não deu por nada.

 

Por fim, dá-se esse facto extraordinário de ninguém cobrar as falhas. Sempre que um banco dá bronca, o Vítor Constâncio apanha porque falhou na supervisão, mas o meteorologista passa sempre incólume. Entre as gotas da chuva.

 

Aqui, há marosca. Ninguém me tira da cabeça. E o Charles Smith está metido nela.

publicado por Alexandre Borges às 00:01
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Pequena loja de embirrações (parte 1)

 

Não sei se é da crise, do tempo, de mim ou da combinação fatal destes três factores; mas a verdade é que me sinto hoje distante das crónicas afectivas, daqueles textos com pedaços de sentimento e bifidus activos. Não que não os faça com gosto ou sinceridade. Só que hoje, e porque sou como toda a gente, apetece-me embirrar. E é bem sabido que uma boa embirração é como ter feito amor com a mulher mais bonita do mundo: só funciona na perfeição se partilharmos o facto com mais pessoas.
 
Por exemplo, já embirrei com a minha analogia anterior, fraquinha que só vista. Acabo de embirrar também com a última frase que escrevi, uma concessão gratuita às expressões idiomáticas brasileiras. Mas enfim, concentremo-nos em algumas pequenas maçadas do quotidiano, que provavelmente o leitor também conhece. Eis um clássico, que acontece com uma frequência assustadora: a criatura de Deus que nos saúda invariavelmente com «Bem disposto?». Já está a ver a coisa, não é? Um tipo vai na rua e esbarra sem querer com um conhecimento nebuloso de uma noite tardia que em vez de um «olá», «tudo bem?» ou o mais correcto,simples e silencioso aceno de cabeça resolve perguntar «Bem disposto?». Isto é de uma invasão de privacidade sem nome. Não é saber se estamos bons de saúde; é saber se estamos «bem dispostos», como se fosse costume comungar os nossos humores em qualquer lado. O que se pode responder? «Sim, acabei de assistir a um atropelamento»; «mal disposto»; ou o sempre eficaz «Estava».
 
E se olharem para este canto, mais uma linda embirração, das piores que podem acontecer: encontrar gente que gosta de contar sonhos. Não deve haver nada no mundo – que digo eu, no universo! – tão chato e inútil do que ouvir alguém começar «Vê lá tu que no outro dia sonhei que…».Pelo amor de Deus. Até os sonhos eróticos em que somos protagonistas são um filme em slow-motion do Manoel de Oliveira quando contados por outrem. Essa gente não percebe que nos está a contar uma coisa que aconteceu enquanto estava a dormir. Não aconteceu, portanto. É por isso que a minha ideia de inferno é fielmente retratada na série de tv Médium, em que uma senhora acorda o marido a meio da noite para lhe contar os sonhos que teve. Motivo suficiente para divórcio ou, menos violento, homicídio.
 
Não quero maçar mais ninguém por hoje. Ia escrever sobre o povo que gosta de contar os seus irrelevantes acidentes de viação («Então eu vinha por aqui, estás a perceber, e o gajo veio por ali, atravessou-se ali naquela esquina da Brancaamp, sabes qual é, e travou blablabla»), mas isso quase que merece um texto autónomo. E há mais, tanta coisa mais na nossa pequena loja de embirrações. Só é preciso que se perceba que não se trata de snobismo, porque ninguém embirra para manter um status ou impô-lo ao outro. Trata-se de preconceito e misantropia em graus mais ou menos inofensivos, para usar todos os dias. Para que isto aconteça basta viver entre pessoas. Ou pensar nas piadas dos empregados de cafés.
 
 
 
 
 
 
 
publicado por Nuno Miguel Guedes às 18:56
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