Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Um copo?

Não sou um rapaz muito fácil de levantar da minha rica cadeirinha e não é só pelo pequeno detalhe de ter de levantar 100 e tal quilos  apenas com a força da mente. Está muito frio ou muito calor, o livrinho do Harold Robbins está “quentinho” – está sempre, mas enfim -,  a última série do Niptuck, o disco do Mikael Carreira que merece sempre uma audição suplementar, um dos meus filhos está constipado (esta é muito utilizada, confesso), tenho o programa do Rui Santos gravado, o belo do javali ao lume. Sou um verdadeiro especialista da desculpa, aliás estou para as desculpas como a Argentina Santos está para o fado, nas palavras do inefável Carlos do Carmo.  Até nem sou um cidadão muito dada ao remanso do lar, sou é um incurável preguiçoso.  É também por isso que sou sempre o último a sair das festas ou dos restaurantes: se se está bem porque raio é que me hei-de mexer?
Mas quem me conhece sabe qual é a palavra mágica para me fazer sair da minha muito amada morrinha.

 

Um cidadão telefona e desafia-me para servir de alvo a uma horde de gregos ou ir ver um jogo de curling ou até – heresia das heresias – ver um jogo do Benfica (qualquer semelhança de uma partida de curling com um jogo do Benfica não é mera coincidência). Enquanto estou ainda gago com a simples audição de tamanhos disparates, o cavalheiro interrompe e diz: “E depois vamos beber um copo”.  Pronto. O animal disse a palavra mágica. Uma espécie de “tatanka” para o cavalinho de Kevin Costner. Ainda ele vai a meio da palavra “copo”, já a minha incomensurável força mental está a levantar o meu delicado corpinho.

 

O mais estranho desta minha reacção pavloviana é que eu só bebo porcarias, cá por causa de um acordo de concertação corporal que assinei com um sindicato de órgãos armados em Carvalhos da Silva da saúde: aguinha da merda das pedras e cházinhos da puta que os pariu.
Ainda pensei, por uns tempos, que esta minha incontrolável vontade de sair para beber um copo estivesse relacionada com a minha anterior actividade de secador de adegas militante. Que me satisfaria, pelo menos em parte, a perspectiva de beber um riquíssimo whiskizinho novo ou um vodka saído do congelador, mesmo sabendo que depois me teria de bastar com um chá de cidreira.

 

Não nego que deve haver alguns pedacinhos da minha alma que me empurram porta fora, na secreta esperança de saírem da tristeza com que vão vivendo e que eu lhes dê um golinho de alegria e, francamente, não sei a força institucional desses infelizes bocadinhos de mim.
Mas, penso que a verdadeira razão é a boa e velha converseta que só um copo consegue embalar. Estou mais que convencido que há uma relação directa entre o movimento oscilante do braço e a boa conversa. É ou não verdade que quanto mais o braço sobe e desce melhor é o paleio?

 

Venha de lá esse copo.

publicado por Pedro Marques Lopes às 17:53
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last christmas, i gave you my heart attack

O natal é um tempo estranho. Isto é, não para uma criança ou para um adulto com crianças, mas há uma variante – o tipo que se irritou tanto consigo próprio enquanto crescia que não pensa ter filhos a menos que um raio o fulmine – para quem o natal implica coisas difíceis de explicar.

 

Deixe-me partilhar isto consigo, leitor: nos últimos anos, tenho despachado os presentes num dia. Numa tarde. Às vezes, em duas horas. Ficam sempre duas ou três por resolver, as mais importantes, mas o resto – sabe Deus – não é maratona; é corta-mato pela fnac ou jumbo ou colombo adentro e só termina quanto aquele sentimento vencedor toma conta de nós: temos a lista de pretendentes riscada de fio a pavio, o peso equivalente a meio-Dumbo em sacos de papel nas mãos e a espondilose a ameaçar sério risco de derrocada.

 

É como a declaração do IRS ou a injecção para compensar a insuficiência renal: uma obrigação com finalidade benéfica, mas, ainda assim, uma obrigação. O serviço militar obrigatório aplicado ao consumidor com família comprovadamente viva.

 

Já passou o tempo da alegria, da surpresa, da ingenuidade. Já passou até aquele segundo patamar em que invertemos os papéis – de beneficiários a dadores – que diverte pela novidade. Já passou tudo. Nem é pelo dinheiro que se gasta. Dinheiro gasta-se em tudo, excepto sexo e praia (em termos directos; por via indirecta, seria outra conversa). É por muitas outras coisas: as filas, o nervoso miudinho geral, os abalroamentos com carrinhos, a exploração dos preços, os produtos alvo de restyling para se oferecer como presentes perfeitos; é a musiquinha, a iluminaçãozinha, o capuz de pai natalzinho, o talãozinho para o concursozinho que pode dar um porschezinho se gastar a módica quantia de 5 milhõezinhos de euros em compras.

 

É essa bodega toda.

 

Mas, então, por que raio continuo tão estupidamente à espera de ver os embrulhos acumulados ao monte debaixo da iluminação intermitente da árvore de natal? Tão ridículo e ansioso por ver as caras das minhas pessoas quando abrirem os presentes?

 

É um mistério. Um mistério sonso e terrivelmente doce.

publicado por Alexandre Borges às 00:39
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Domingo, 14 de Dezembro de 2008

da tosse

 

 

com recursos intelectuais ao nível de uma amiba mas com a ousadia de um dias loureiro também eu gosto de espalhar as minhas referências culturais, sem passar necessariamente por porto rico, glosado na voz dos vaya con dios, que por acaso até eram belgas como os gipsy kings. vá lá uma pessoa entender-se neste mundo pós-moderno. dizia. gente com classe e com mais neurónios do que um protozoário costuma dizer que se deve voltar uma e outra vez à recherche do proust, eu vou voltando aos soul coughing e recomendo. é uma banda que marcou o meu crescimento, sendo que esta frase é uma manobra de diversão destinada a disfarçar a minha infantilidade, como se em algum capítulo eu já tivesse alcançado o estado de adulto (conferir por favor o capítulo comprimento do pénis). 

 

os soul coughing, então, que depois de um álbum subterrâneo e de um outro que os projectou à boleia de um super bon bon (sujeito a uma remistura explosiva dos propellerheads), editaram el oso, ou seja o urso. por causa deles fui pela primeira vez ao dicionário conferir o significado de solipsismo, bojarda com que a imprensa da especialidade os classificava amiúde, e eu discordo desse autocolante de egoísmo superlativo, sobretudo dirigido a quem nos deixou grandes pérolas em forma de rodela de cd, como este rolling, que abre o urso, em batida sincopada, voz nasalada e keyboards que se fazem notar. e entretanto, o empolgamento. 

 

eu gosto especialmente de secções rítimicas e do som grave, de baixo ou contrabaixo, e neste rolling o mesmo resguarda-se até ao minuto e oito, altura em que dá ar da sua graça, para a partir do minuto e quinze exibir um som tão gorduroso como as artérias de um habitante da mealhada. a partir daí é saltar e vibrar, assistir ao tresloucar dos teclados, mesmo que habitemos num prédio sem placa, conceito a que hei-de voltar nestas crónicas, e com vizinhos de baixo directamente saídos do consultório do antónio lobo antunes, à altura em que exercia, ou mesmo depois, que aquilo de andar disfarçado de escritor lá porque despiu a bata não me convence.

 

a partir daí o alinhamento prossegue com o bestial misinformed mas para usufruirem desse naco de bela prosa música ouçam vocês o disco, que o cachet do sinusite é demasiado curto para tanta informação de borla. ai, estes saudosos soplipsistas por quem o povo de lisboa invadiu o palco da aula magna, bons tempos, esses, em que tínhamos os nossos momentos de pequeno distúrbio enquadrado à laia de uma atenas mais moderada.

 

ps: o video que aqui se mostra não é oficial, serve só de muleta à cançoneta

 

 

publicado por Pedro Vieira às 14:50
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Sábado, 13 de Dezembro de 2008

Clint

 

Nunca cheguei a tempo aos meus heróis. Fui fã de Nélson Piquet no momento em que surgiu Ayrton Senna, de Nené e de Fernando Gomes aquando da aparição de Paulo Futre – e na altura em que a rapaziada sonhava com o chicote de Indiana Jones, eu reparava na velocidade a que Bogart disparava frases afiadas para no fim ficar sem a miúda. Nunca cheguei a tempo aos meus heróis.

Os homens de quem aprendi a gostar não eram imbatíveis: tinham conhecido a vitória e depois tinham tido de aprender a viver com a derrota. Esse homens ganharam a minha atenção por uma razão: pareciam humanos.

De entre eles há um que quanto mais defeitos, incoerências e obras mal conseguidas lhe conheci ao longo dos anos, mais apreço lhe ganhei: Clint Eastwood. A Cinemateca teve a excelente ideia de fazer um ciclo com a obra de Clint e teve a igualmente excelente ideia de fazer um livro dedicado ao ciclo. Teve, porém, a infeliz ideia de me convidar para escrever um texto para o livro – o que aceitei de imediato para logo a seguir entrar em depressão: o que raio teria eu para dizer acerca de Eastwood?

É que Clint, para mim, não é uma questão de cinema. Esteja à frente ou atrás da câmara, Clint representa uma ideia de homem: mais ou menos fascista, mais ou menos beberrão, mais ou menos violento, mais ou menos mulherengo, mas com um simples mote: “É a minha vida. E tenho de vivê-la à minha maneira, ou então mais vale não viver” (paráfrase de uma fala do anti-herói de “Honky Tonk Man”). Isto, por mais seco que aquele homem pareça, é um ideal romântico: fazer o que se tem a fazer mesmo que isso implique perder.

Não creio que os homens que Eastwood representa e filma sejam, com algumas excepções, casmurros por indiferença ao outro; a casmurrice é um fechamento em si próprio, como se aqueles homens não aguentassem viver entre os outros, não conseguissem aceitar a pressão das convenções – o que automaticamente implica que Eastwood (na tela) seja mais frágil do que aparenta.

Acredito mesmo que há uma espécie de Homem-Eastwoodiano – alguém que não cria, apenas mantém. Por norma mantém-se apenas a si próprio, agarrando-se a uma solidão mediada e justificada ora por um ideal moral ora por um falso amoralismo (o que vem dar ao mesmo).

O que me agrada nas personagens a que Eastwood empresta o extraordinário rosto é o pudor, o pudor em falar de uma ferida que apenas lhe podemos adivinhar. Julgo que é daí que vem o conservadorismo das suas personagens: é uma forma de evitar a repetição dessas feridas – no cinema de Clint, toda a mudança é tida por potencialmente danificadora. Esse conservadorismo é uma forma de permanecer num lugar inatingível pela dor, um lugar onde o outro não tem acesso – tanto física como moralmente (daí que muitas vezes a moral de uma personagem de Eastwood nos pareça anacrónica ou ultrapassada).

Clint pode ser um realizador que sabe que lente usar e em que ângulo deve colocar a câmara, mas antes de mais é um rosto. O rosto de um homem que transporta uma falha e cujos labores e esforços se dirigem, essencialmente, para a tarefa de ocultar essa falha. Nem que o preço dessa ocultação seja o isolamento, a derrota ou a tragédia. Um homem só se torna anti-herói depois de ter visto o seu momento passar. Talvez por isso cheguei a tempo a Clint.

publicado por João Bonifácio às 09:34
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

A Casa da Sorte

Gosto do jogo da Lotaria. Aquelas histórias do EuroMilhões e do Totoloto não me convencem. Os prémios que saem nesses jogos parece que nos tornam em tipos com vontade de fazer viagens a Marte, de comprar ilhas ou ir para o Paris Dakar de limousine acompanhado de pedicure, massagista, disc jokey etc etc. Como tenho medo de voar, não gosto de ver só água á minha volta e não gosto de passeios no deserto armado em aventureiro, esses jogos não são para mim. Não fosse isto bastante, parece que se fica excêntrico... como os que conheço são na sua maioria esmagadora tontos infelizes, contento-me com a Sorte Grande. Isso sim, parece que além do dinheirito – em quantidades que me parecem razoáveis e não nos permitem entrar em loucuras disparatadas – o cidadão fica com sorte e grande ou melhor muita.
Basta ver os clientes deste jogo e dos outros. O candidato à taluda vai á sua loja habitual ou ao cauteleiro com prazer, pergunta a estes experts em sorte por que diabo na semana passada lhe voltou a vender cautelas sem prémio ao que ele responde que foi por pouco: “Tá a ver se em vez de este que eu lhe disse, tivesse ficado com o outro...”, fala-se de futebol, do tempo, provoca-se o vendedor dizendo que ele só vende jogo “branco”, ao que ele responde sempre que já “deu” centenas de prémios – aliás, se alguém se desse ao trabalho de fazer uma sondagem a todas as casas que vendem lotaria e cauteleiros, chegaria à conclusão que saem mais de 500 taludas por ano... -   e por fim, lá se mete um ou vários rectângulos ao bolso e nos despedimos com um “até para a semana”.  
Nada disto se passa com os jogadores dos outros jogos. Estes entram nas lojas com um ar desconfiado com um papel já preenchido, pagam e vão-se embora. Como prova da aposta levem um microscópico papelinho branco sem alma, com umas dezenas de números que não significam nada. Nem uma foto de um santinho, nem uma igreja, nada. Passam horas a desenvolver uns esquemas tontos que aumentam a sua probabilidade de ficarem “excêntricos” em 0,00000000000000001%, depois pôem-se numa bicha com ar desconfiado, com receio que os outros colegas de bicha lhe vejam os números que eles tão sabiamente escolheram e quando finalmente registam a sua aposta, fogem dali já com medo de serem reconhecidos como os próximos mega multimilionários. Chegada a sexta-feira ficam pespegados em frente á televisão à espera que a Marisa Cruz lhes dê a noticia de que já podem comprar os fatos de astronauta...
Eu tenho o meu número certo, o 8008, que ainda me há-de dar a sorte grande, mas enquanto não sai vou comprando semanalmente as minhas cautelinhas. Assim, à terça feira desço ao Rossio onde na Casa da Sorte entrego às mãos conhecedoras do Sr Augusto as cautelas respeitantes à “roda que andou” segunda feira. Mal me vê informa-me que o 8008 não deu nada e que tem a sensação que na próxima semana também nada vai dar – como sabe que já jogo naquele número há mais de 10 anos e que tenho medo que saia exactamente na semana em que não o comprei... - . No entanto, desta vez estou com imensa sorte já que sonhou na noite anterior com um número, que por incrível coincidência, está nesse momento na sua mão. Queixa-se pela enésima vez das arbitragens do seu Sporting e da maldita sinusite. Nesse momento chega o Sr Oliveira que me diz que tem ali com ele o segundo prémio e que faz questão de mo dar. Do fim do balcão ouve-se o Sr Alvaro que me informa que “jogo premiado é aqui deste lado” e que me guardou o 77 do Macarthy.
A Casa da Sorte do Rossio é um antigo estabelecimento especializado em Lotarias e outros jogos de apostas, repito, Lotarias e outros jogos, como se houvesse um verdadeiro jogo e os outros, tem toda a razão. É uma casa com patine,  que nos dá a sensação de termos entrado numa máquina do tempo que nos transportou para uma época diferente onde havia tempo para uma conversa, uma anedota, um comentário sobre as nossas maleitas, onde ainda se vê gente de chapéu a escolher os seus bilhetes de lotaria de uma resma de cautelas. Ouvem-se bizarras histórias de pessoas que entravam de costas, de outros que procuravam as cautelas com um rasgãozito, de outros ainda  que  exigiam que o empregado pisasse a cautela que queriam levar. É uma casa com História e com muitas, muitas histórias para contar.  

Saio sempre com uns cobres a menos mas, bem disposto e mais apaixonado pela cidade que me adoptou e que ainda tem estes paraísos escondidos no meio dela.

 

Publicada na revista atlântico

publicado por Pedro Marques Lopes às 19:01
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

O Meirim

O Joaquim Meirim foi um treinador mítico do futebol português da década de 70.

Pertencia a uma escola que, não propriamente pelas suas grandes qualidades cientificas , marcou o nosso futebol: António Medeiros e o seu cavalinho do Gary Cooper que não deixou o Rui Paulino sofrer um único golo no Estádio do Restelo durante a primeira volta dum campeonato; o Manoel de Oliveira que era um grande especialista em primeiras voltas mas que era sistematicamente despedido a meio das segundas (dizem as más línguas que era quando as “bombas” milagrosas deixavam de dar efeito); o Henrique Calisto, que se tornou mais conhecido pelos “calduços” que levava dos adeptos das equipas que treinava do que propriamente pelos seus dotes técnicos; Mário Wilson, com a sua barbinha demoníaca que ficou na história por dizer que um treinador no Benfica se arriscava a ser campeão e ele era, sem dúvida, prova viva disso; o Jimmy Hagan que obrigava os jogadores a subir e a descer as bancadas vezes sem fim; o Malcom Allison (já no inicio dos anos 80) que ia num estado tal de bebedeira para o banco que fazia com que os jogadores suplentes passassem o tempo a aquecer longe dele.

No meio desta constelação reinava o maior treinador português de todos os tempos: José Maria Pedroto e o seu famoso boné. Este, porém, era um caso aparte, não só pelas suas famosas manias mas por ser, de facto, de outra galáxia.

Mas, voltemos ao grande Joaquim Meirim. Este treinador ficou não só conhecido pelas célebres tácticas à Meirim mas também pelo seu trabalho psicológico junto dos jogadores. Certa vez, por exemplo, tentou convencer o Freitas, jogador do Belenenses e posteriormente campeão pelo FC Porto, que este sabia nadar. Passadas umas horas afirmando convictamente que sabia, no fundo, no fundo, que o bom do Freitas sabia nadar e obtendo sempre um rotundo não do central, resolve atirá-lo a uma piscina. Resultado: o Freitas não morreu por afogamento por uma questão de segundos e ganhou tal medo da água que nunca mais se aproximou duma piscina ou mar sequer para molhar os pés.

Além de impor uma abstinência sexual total durante a semana antes do jogo – o que provocou uma manifestação histórica no estádio do Restelo em que as mulheres dos jogadores impunham o seu despedimento – tinha uma enorme imaginação para desenvolver novas “metodologias”. Desde os treinos em que eram colocadas dezenas de galinhas no campo que os jogadores tinham de apanhar até  ao célebre jogo de futebol sem bola.

Este revolucionário conceito consistia basicamente num relato que o treinador ia fazendo e em que os jogadores se tinham de mexer em função da descrição do lance.
Num desses treinos, o Murça passava para o Sambinha, tudo isto, claro está, sem bola e com os jogadores a não perceberem bem o que se estava a passar, o defesa direito fingia que cruzava, o Clésio imaginava que parava no peito, passava para o Cepeda e o peitudo atacante marcava um “ganda golo”. Estava o Meirim a gritar golo a plenos pulmões quando percebe que havia algo que estava errado. Então não era que o Cepeda depois de marcar um golaço daqueles não tinha comemorado nem o Rui Paulino estava desesperado por ter sofrido o golo. Imperdoável. Resultado:  duzentas flexões cada um e sem ser a fingir.


publicado por Pedro Marques Lopes às 00:35
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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

problemas dum homem junto, temporariamente só

Isto dos sentimentos dum homem não se resolve num texto só. Ou melhor, ou bem que se despacha numa palavra ou duas ou, a partir do momento em que nos aventuramos ao atrevimento de formular uma ou mesmo – suprema loucura – várias frases, a coisa complica.

 

Fiquemos, pois, por um aspecto simples: o que fazemos quando a nossa mulher vai de férias, ou: o triste dia em que realizamos ter chegado ao fim a nossa fulgurante carreira como Casanovas dos pequeninos.

 

Chega uma altura na vida dum tipo em que ele arruma as botas. Mas fá-lo firmemente convencido de ser temporário. Ele junta-se. É um tipo junto, comprometido, com ou sem papéis e aliança e sogros. Sem cerimónia de homenagem, ele despede-se das pistas das discotecas, dos balcões dos bares, do café do emprego, qual jogador veterano acenando à multidão enquanto deixa o relvado. Abotoa mais um botão da camisa, usa medidas mais sensatas de água de colónia, deixa de fazer olhinhos à rapariga da tabacaria, não responde mais aos sms da Isaltina, analisa o desempenho da estagiária da estrita perspectiva do seu rendimento laboral.

 

Tem agora uma vida, digamos, normal. Vai ao supermercado, divide contas, janta em casa, vai ao Ikea, cancela jogos de bola ao domingo porque há almoço na família dela.

 

Mas, no fundo, no seu íntimo, qual Maradona gesticulando na bancada, ele acredita que ainda é tão capaz como dantes, capaz de regressar à equipa e fazer o brilharete. Simplesmente, não precisa. Não quer. Está noutra.

 

No dia em que a mulher se ausenta em trabalho ou de férias, ele acredita, piamente, que vai provar tudo isso a si mesmo. Vai ouvir a música no volume que quiser, mandar vir as pizzas que quiser, ver jogos de futebol de todas as ligas do mundo e, por que não?, voltar a dar um ar de sua graça na pista de dança mais próxima.

 

De súbito, no entanto, desperta no primeiro dia de vida temporariamente só e descobre que o joelho já não dá, que os pés incharam ou a chuteira mingou, ou que, pura e simplesmente, já não gosta tanto do jogo. Vagueia pela casa arrastando as pantufas, abre e fecha o frigorífico, pensa se tomar duche será assim tão fulcral ou uma vulgar convenção da sociedade continental, muda de canais como quem folheia o suplemento de caixilhos do Destak e acaba por sair à rua, resignado à falta de opções que a casa lhe oferece.

 

Aí, no mundo exterior, engole a bica e arruma o jornal, sem saber com quem comentar as notícias, vai para o trabalho e é tão eficaz e sociável como uma fotocopiadora. Aborrece-se com qualquer conversa que se estenda para lá do minuto e meio de duração. Ao fim da tarde, entra no centro comercial e desinteressa-se das compras, vai à livraria e parece-lhe já ter tudo, opta por não ir ao cinema porque os filmes que quer ver ela também quer ver e então o melhor é esperar por ela. No caminho para casa, descobre estar farto de pessoas e ultrapassa-as pela berma da estrada, respira de alivio ao fechar a porta do prédio e decide que, afinal, já não vai sair porque não, porque não sabe porquê, não lhe apetece.

 

Acaba a noite enterrado no sofá bebendo minis que, provavelmente, ela comprou. Faz contas aos dias que faltam para ela chegar e a todas as loucuras que ainda vai cometer. Quando o gás da cerveja o vai fazer arrotar, cobre a boca e emite o menor som possível. É apenas um homem junto temporariamente só. Logo, está com ela. Logo, ela está com ele. Ali. E não apreciaria a falta de modos.

publicado por Alexandre Borges às 02:57
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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

ninguém amanha como o joão

em folguedo a um domingo, aquilo que durante muitas semanas passa por miragem sucedeu-me ontem. vai daí, compras. lacticínios, carrinhos em fúria, crianças e berreiro e iogurtes líquidos, bife quase celofanado, hortaliça pesada por balanças comandadas por um homem robótico e inexpressivo, tão rápido como um doutor octopus.  mas sem pio. a natureza do estabelecimento e da labuta não convida à doçura e prosápia, e eu, na qualidade de balconista profissional, entendo. muito manso era ele, para quem atura uma cornucópia de consumidores de beterraba e grelos de nabo, naquela que é aliás uma das melhores combinações heterossuxais que os hortofrutícolas nos oferecem.

 

diferente é o joão mendes, ali na zona mais à esquerda do hiper, se estivermos virados para o corredor das caixas. o joão é doce, disponível, embala o peixe em três sacos, o que evita o gotejar de salmoira pelos corredores fora, amanha o peixe em souplesse. joão mendes, de sua graça. encanta-me. e ainda por cima o seu mister permite-lhe utilizar uma parafernália de instrumentos que fazem inveja a um cronenberg dos pequeninos e que eu tanto estimo: as facas aguçadas, a tesoura de podar as barbatanas, o escamador em design starck rói-te de inveja, e as mangueiras com pistola, para mim o topo de gama, com a água a sair de jorro, consoante o nosso arbítrio. e depois os artefactos menores, as galochas e os ralos por onde se esvai o sangue da bicharada, que insistimos em comer olhos nos olhos no prato, sinal de que ainda não somos uma república dos douradinhos.

 

tudo em perfeição, mais demorado do que é habitual mas o povo que se acumula em frente às bancas pejadas de gelo nem pensa em refilar, há uma certa condescendência em relação ao bailado, à disponibilidade do joão que só nos entrega as douradas quando estão arranjadas e limpas, prontas a brilhar no baile de debitantes que é o pirex da classe média, segundos depois da grelha eléctrica, que remédio.

 

eu gosto mais de carne mas na bancada de frio que agasalha as salsichas, as febras, as espetadas de aves, ninguém amanha como o joão. e isso precisa de ficar registado, nem que seja durante os segundos que demora a ler um post de um gajo apatetado.

publicado por Pedro Vieira às 18:06
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White russians

 

 

 

Esta semana saí-me bem no teste, um método de vanguarda que consiste em passar o serão com alguém que sofra da síndroma de Tourette. Estas criaturas, que ocupam uma ala inteira, são propensas ao impropério, frequentemente de raiz escatológica, bem como a outras obsessões compulsivas - expressão que sempre me pareceu uma notável figura de estilo e que pressupõe a existência de obsessões facultivas. Pois bem, da última vez não se verificou a escalada de asneiras  que era costume quando nos sentam à mesa e os médicos pensam que estou quase curado. Eu desconfio que foi porque esta pessoa me lembrou um tio meu muito dado à melancolia, o que me fez passar grande parte do serão calado e a tirar sons do copo com o dedo humedecido. Enfim, optei por não lhes corrigir a conclusão, pois propuseram-me um dia livre, sem camisa-de-forças e com direito a uma saída assistida. Foi assim que pude visitar o bar do Montreux Palace Hotel.
 
Esta minha magreza, que estou convencido ter sido determinante para o meu fracasso como crítico gastronómico, ainda me causa alguns problemas, embora já não as angústias juvenis que me roubaram tantos dias de praia. Pareceu-me por isso ofensivo terem destacado para me vigiar um enfermeiro que não deve chegar aos 65 kg, mas reprimi a tempo uma bela construção frásica - que juntava "diarreia" e "pináculo gótico" - com a especulação de que talvez o fulano seja versado em artes marciais. Deixei o pullover sobre a cadeira e vesti um fato de tweed - ainda não me sinto preparado. No caminho para o hotel, que fica mesmo do outro lado do sanatório, tentei meter conversa com o enfermeiro, mas apenas lhe saquei o nome: Jean-Pierre.
 
O bar do hotel, às 3 da tarde, é um daqueles lugares involuntariamente tristes que o homem construiu, mais triste do que um terminal de aeroporto ou uma paragem da Carris em dia de chuva. Só um cliente estava lá dentro mas pareciam muito atarefados os dois barmen, um branco e o outro preto - a lembrar uma personagem do Love Boat. Sentei-me ao balcão, perto do homem; Jean-Pierre sentou-se numa das mesas, a uns 3 metros. O homem, quase sem olhar para mim, meteu conversa.
- Qual é a sua doença? - perguntou-me em inglês, mas como tinha gravata e um ar circunspecto, creio que a tradução é a correcta.
- Fixação escatológica.
- Isso é uma doença?
- Agora é. Até há clínicas especializadas.
- Peste, lepra, cólera, escorbuto, malária, sida... fixação escatológica, ah! - não foi bem uma risada, pareceu mais uma interjeição de desprezo.
- Lamento desiludi-lo.
- O que o amigo lamenta é não me surpreender. Ao quinto whisky já nada me desilude. Pode beber?
- Creio que o Jean-Pierre ficaria incomodado - disse-o apontando o enfermeiro com a cabeça.
- Bem, se não pode beber whisky por causa dessa fixação começo a respeitá-lo - o sorriso agora era irónico.
- Sou incapaz de beber whisky, na verdade.
- Raios, homem, é difícil respeitá-lo, e olhe que começava a fazer um esforço.
- O último whisky que não bebi foi-me oferecido. Por cerimónia, verti o copo às escondidas para o chão.
- Que vergonha...
- Sim, foi o que senti quando o cão do dono do restaurante veio a correr lamber a poça de whisky, desmascarando-me.
- Um bom whisky?
- Old Parr.
- Podia ser pior.
- O whisky?
 - A situação. Mas diga-me lá, é abstémio?
-  Longe disso. Bebo vinho quando estou - hesitação - a trabalhar e cocktails fora do horário de expediente, digamos.
- Cocktails... Deixe-me adivinhar: os de Bond, para não abdicar da virilidade?
. Não, como Lebowski, para fingir irreverência.
- Lebows... Lebowski... não estou a ver.
- Deve ser do generation gap. É uma personagem de filme, mas todos conhecemos um na vida real.
- E o que bebe esse Lebowski?
- White russians.
- Ah, bravo. Venha um, que beberei em sua honra. Não, venham dois para mim, pois não nos podemos esquecer do Jean-Pierre.
 
cont.
 

 

 

 

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 11:47
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Um pénis na Bertrand

Hoje aconteceu-me uma coisa estranha. Estava numa Bertrand, a olhar para capas de livros de modo a adiar a inevitável ida ao Jumbo, quando de repente dei com o mais inesperado dos livros: “The Book Of Big Penis”. Em edição de 30 por 30 centímetros.

 

A minha primeira reacção foi largá-lo. Depois voltei a pegar nele, verificando se alguém conhecido estava a ver-me com aquilo na mão. Aquilo, note-se, é assunto sério - tão sério que a editora é a Taschen. Um pénis grande é uma espécie de tótem da masculinidade. Parece tão auto-confiante que nos faz perder a nossa escassa confiança e ganhar raiva ao mundo e ao pénis que nos calhou. A partir do momento em que vemos um tememos que seja toda a gente assim menos nós e anda-se pela rua desconfiado, com receio de que as pessoas saibam que não temos um. É como se não tivéssemos tomado banho e temêssemos que toda a gente o notasse. Eu não via um pénis grande desde que na adolescência passara meia-dúzia de tardes a ver pornografia. 

   

É preciso explicar: há 18 anos eu não percebia muito de raparigas. (Ainda não percebo. Só aprendi a aceitá-lo.) Sabia que gostava (do cheiro, da forma como por vezes a alça do soutien ficava cai não cai de um ombro, do modo como uma coxa encurvava para a epifania de uma nádega) mas não falava com elas nem percebia como provocar uma (chamemos-lhe) aproximação. A pornografia era o único contacto possível que um rapaz baixo, escanzelado e demasiado tímido podia ter com as raparigas. Era uma espécie de prémio de desconsolação para os ausentes de lábia.

 

Mas não era para quem gostava de (e queria) mulheres. Porque tinha demasiada pila. Além disso, ver pornografia deprimia-me, ao ponto de ter chegado à única conclusão a que um autista com acne podia chegar: tu não és como estes tipos; logo, tu nunca vais ter sexo. Nunca vais ter porque não és assim. E mesmo que venhas a ter, e por mais vezes que o tenhas, nunca o terás assim. Porque aquilo é um dom. É uma autoridade natural que paira sobre todos os outros pénis. Podes esforçar-te muito, mas aquilo é a natureza. E tu não podes vencer a natureza. (Isto era um monógolo mental.)

 

Enojado e deprimido, deixei de ver pornografia. Por causa dos pénis. Sorte a minha: sem pornografia, desesperado, vi-me obrigado a perseguir mulheres. No fundo só tenho a agradecer aos pénis grandes, que não via há 18 anos.

 

Abri o livro e lá estavam eles na sua arqueada glória. Constatei com alegria que já não sentia tristeza ou inferioridade por não pertencer ao clube dos eleitos. Fechei o livro e fui às compras. Num breve monólogo que mantive comigo mesmo, disse-me que um adulto heterossexual estar a folhear calmamente um livro com imagens de pénis numa Bertrand em pleno sábado à tarde era sinal de crescimento. (Mas não o suficente para a Taschen se lembrar de mim na segunda edição.)

publicado por João Bonifácio às 02:29
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