Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Alexandre Borges, João Bonifácio, Nuno Miguel Guedes e Pedro Vieira são chamados ao quadro

 Pronto, pronto, o Europeu está a acabar. A gente percebeu a ausência, os copos, as cervejas, os amigos, os amendoins e assim. Agora podem preparar a verve e as lapiseiras. O público - o vasto e janota público do Sinusite - aguarda as vossas crónicas. O vosso rasgo. A vossa fúria literária. A vossa sublime choraminguice. Sim, aceito tudo - menos que não aceitem ser amados pelas multidões.  

 

publicado por Nuno Costa Santos às 00:19
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Domingo, 22 de Junho de 2008

O que fazer com esta mayonnaise?

 

O HpA teve a honra de receber em sua casa um reputado crítico literário, entre outros convivas. Era-lhes pedido que trouxessem bebidas - a propósito, faz-se aqui um pedido público de desculpas e garante-se que na próxima festa a cerveja não acabará às 2 da manhã, pois ou stock da casa será reforçado ou será barrada a entrada a um certo e determinado conviva, "inclusivamente". Não sobravam muitas opções: trazer cerveja, vinho, bebidas brancas ou gasosas. Sucede que um crítico literário não pensa como uma pessoa normal e este, depois de insultar o HpA pelos metros lineares da sua biblioteca  - " só isto?" -,  ofereceu-lhe um boião de mayonnaise. Meus amigos, a praga do humor nonsense precisa de acabar. O  HpA ainda gosta de anedotas que comecem com: "um  americano, um inglês, um francês e um português..." O humor nonsense irrita, sobretudo quando por causa de uma piada a cerveja acaba às 2 da manhã, quando podia ter durado até às 2:15. E há neste humor o gérmen da obsessão. O que queria ele dizer com a mayonnaise? Ou melhor, mesmo não havendo nada de inteligível no gesto, como se chegou ali? Com honrosas excepções, a mente humana precisa de ordem e vai numa cadeia de porquês até o nonsense ficar enredado numa teia de lógica. A piada feita animal selvagem à solta que se tenta reencaminhar de volta ao jardim zoológico. Só que um boião de mayonnaise a fazer de bebida numa festa sem comida é como um gibão em Monsanto, impossível de apanhar. E o resultado é que o HpA anda  agora com o boião por toda a casa, procurando percebê-lo, nisso parecendo uma rapariga tonta posta perante o facto consumado de que foi encornada  - "I need to understand!" Enfim, ele vai aprendendo que, do quarto à sala, passando pela casa de banho, há um potencial decorativo constante no boião. Entalado nos lençóis cor de laranja, o boião de tampa verde da mayonnaise Calvé ganha até alguma alma. E não é difícil concretizar a tentação animista pois, como se sabe, há muita solidão nos grandes centros urbanos. Quando o retira do frigorífico, onde o deixa sempre que se ausenta, o boião vem fresquinho, apetece mesmo o cheek to cheek. Quando vê o prazo de validade - "22.3.09" - sente-se um privilegiado, pois nestes tempos de relações efémeras não se pode pedir muito mais. 9 meses. No Nine 1/2 weeks, na cena da cozinha, a boca de Basinger é receptáculo para uvas, morangos - "Hum, I want a big one"- , tomatinhos, um fusilli, gelatina, pimentos picantes, champagne, leite, um esguicho de gasosa, preliminares para o clímax que se espalha depois a todo o corpo. E o que se espalha? Maple syrup. A mayonnaise, que já havia perdido para a margarina em o Ultimo Tango a Parigi, volta a falhar um grande casting do erotismo soft. São sinais para arrepiar caminho, tomar este boião entre os braços e ficar assim quietinho a fazer-lhe festinhas, em vez de prosseguir na calha da aventura sexual. Recicle-se então isto numa relação de amizade, que esta até vem com omega 3 (fonte natural).

publicado por Homem do pullover amarelo às 07:56
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Sinusite Igualmente Crónica - "A Porno-Melancolia"

 

 

Crónica para "Os Incorrigíveis". Imagem, montagem e pós-produção de Tiago Almeida. Edição de Ana Ribeiro.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 12:11
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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Baribal*

O HpA não sabe como traduzir o termo "closure". "Arquivamento" é uma hipótese, mas só para mangas-de-alpaca. Enfim, isto nem sequer é muito importante. A ideia de que a dificuldade em encontrar a palavra equivalente noutra língua é um indicador de idiossincrasias culturais foi já sobejamente ridicularizada pela tese de que os portugueses inventaram a "saudade". Na verdade, os fins de relações, do balde de ácido sulfúrico lançado sobre o rosto aos votos sinceros de felicidade, já foram todos vividos e uma criatura sente-se personagem de telenovela medíocre. Um desses rituais batidos é a entrega da roupa que se deixou em casa do parceiro. The shorter the better. E não vale a pena tentar interpretar os sinais, sublimar as falhas de carácter do outro só porque ele devolveu as cuecas lavadas com amaciador. Closure. Não há bom termo para isto em português, mas o HpA também não sabe como traduzir pommes sarladaises e nem por isso deixa de haver bons aconpanhamentos de batatas cá na terra. Batatas a murro, por exemplo.

 

" Restaurante que serve as melhores pommes sarladaises de Paris, a preços muito acessíveis. 186, rue de Vaugirard, 75015 Paris, Tel: 01 4734 1532. Métro: Volontaires.

publicado por Homem do pullover amarelo às 01:30
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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Nem com sopas de cavalo cansado

 

O HpA presta aqui vassalagem ao Caminhos da Memória, onde se anuncia a colaboração do melhor cronista da nação, o excelentíssimo e mui discreto Nuno Brederode Santos. 

publicado por Homem do pullover amarelo às 00:25
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Sábado, 14 de Junho de 2008

O casal amigo

 

O casal amigo. Não há expressão que me irrite mais. Que diabo será um casal amigo?

Quando me dizem que alguém esteve com um casal amigo percebo logo duas coisas: que essa pessoa não é amiga de nenhum membro de esse casal e que pelo menos um dos membros desse casal é um chato insuportável.

É a velha história que nos impõe que convidemos sempre a mulher/marido, namorada/namorado da pessoa que queremos convidar mesmo que não suportemos a criatura. É a coisa que nos faz perder amigos por supostamente sabermos que o nosso amigo vai ficar ofendido se não convidarmos a parceira e, claro está, vamos perdendo o contacto e, cedo ou tarde, a amizade. É a discussão que temos de manter com a nossa mulher quando anunciamos que vamos a uma festa e que ela não vai porque, pura e simplesmente, as pessoas são nossas amigas e não dela. Posso? Dá para ter amigos que não são dela ou que tão-somente me sinto melhor sozinho com eles do que a ter a tiracolo?  Será que o facto de eu gostar de alguém, dormir com alguém e de até ter filhos de uma pessoa faz automaticamente dela apreciável para o resto do meu mundo?

Eu não quero ser parte de casal nenhum. Quero ser, por favor, apenas eu. Um tipo que até gosta muito de alguém, que até vive com uma pessoa e que até partilha cama e mesa com ela. Que essa pessoa que vive comigo não seja obrigada a gostar dos meus amigos nem em estar com eles e não me obrigue a gostar nem ir a jantares e almoços com gente que ela gosta.

Quando me dizem,“Oh pá, traz a tua mulher”, soa-me sempre a um convite que podia ser para trazer o cão ou a avozinha que vive comigo. Assim como se fosse um sacrifício que a pessoa que me convida estivesse disposta a fazer para poder desfrutar da minha companhia.

Casais são os de pombos e periquitos que compramos para fazer criação.

publicado por Pedro Marques Lopes às 16:20
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

What went wrong?

dia 2: o HpA acordou refém do episódio da véspera. É verdade que a gastronomia e a escatologia se debruçam, respectivamente, sobre o substrato e o produto final de uma reacção catalisada pelo tubo digestivo, mas o vínculo anatómico apenas corporiza um atavismo ancestral e pré-cognitivo - somos deuterostómios, a primeira abertura embrionária origina o ânus e só depois se forma a boca. Estes pensamentos dominaram-no toda a manhã e para voltar a estar receptivo aos estímulos externos foi preciso ser exposto à combinação do escroto amarelo de uma figura de 15 metros que domina uma das paredes da Tate Modern - what would Prince Charles say? And João Carlos Espada? - com um som de autêntica disorder unleashed - as várias pedras de uma pulseira que rebentou aos saltinhos no empedrado. Ajudou a rapariga a recolher as pedras e ainda ponderou ficar com uma, mas logo confirmou que a sua inibição da cleptomania tem metade de sentimento de culpa - e se ela,  sentindo o pulso mais apertado, pensa que engordou e se empanturra de sleeping pills? - e metade de pura cobardia.

 

(cont.)

publicado por Homem do pullover amarelo às 11:12
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Should I stay or should I go ?

 

Para português de quatro costados, considero-me um tipo razoavelmente pouco invejoso. Alegro-me com as vitórias de pessoas de que gosto e até, por incrível que pareça, não me sinto particularmente roído com os sucessos de gente que não gosto ou mesmo desprezo.

Julgando saber que esta coisa da inveja é uma coisa genética a que é quase impossível fugir, acho que fiz um trabalho, para alguns, decente no domínio deste tão vulgar sentimento. Não que ache que a inveja seja algo de intrinsecamente mau. Pelo contrário. Vivida de uma forma saudável, ou seja, cumpridas as regras é, possivelmente, uma das forças que tem mais contribuído para o desenvolvimento e bem-estar. Trabalhar para ter um BMW melhor do que o vizinho ou um apartamento de duas assoalhadas na Praia da Rocha só para mostrar ao paspalho do cunhado, tem feito mais pelo bem comum que todos os livros de economia e ciência politica juntos.  

Infelizmente, este tipo de inveja não me ajudou a aumentar o património e logo não consegui, indirectamente, contribuir para o bem-estar geral.

A minha inveja é a que nutro por aqueles indivíduos que conseguem decidir, que optam por um caminho e não se questionam a meio, que sabem sempre se lhes apetece coelho à caçadora ou uma pizza com alcachofras, que sabem sempre dizer um não decidido ou um sim convicto. Aqueles que sabem o que estão a fazer quando vão pela esquerda ou pela direita, que sabem o que dizem quando dizem que amam alguém, que sabem realmente se gostaram de um livro ou não.

Esta não se resolve com um simples: “Ai é? Ai é? Agora vais ver. Vou tomar uma decisão que até vai fazer parecer a do João uma hesitação!” Nada disso.

 Há pouco a fazer com esta inveja. Olhamos para eles, decididos e confiantes, e resta-nos a piadinha, o sarcasmo, ou até o ressentimento em estado puro: “oxalá te lixes”.

O mundo é deles e, se calhar, ainda bem.

publicado por Pedro Marques Lopes às 22:58
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Sábado, 7 de Junho de 2008

What went wrong? (dia 1)

 

É uma pergunta a que o HpA procurará responder nos próximos dias, de Londres. Os amigos começam a perceber o seu desígnio: se um desistiu de lhe pedir o Imperial Nature: Joseph Hooker and the Practices of Victorian Science, o outro não abdica de peanutbutter cups da Hershey's.  Everything is finally falling into places.

 

Dia 1: ainda antes de passar pela alfândega, o HpA teve o primeiro sinal de tensão social – “our taxes pay your bills” - disse com um ar enfadado o nativo inglês ao empregado de tez escura que lhe pedia o passaporte. João Paulo II beijava o asfalto da pista, mas o episódio só lhe deu mesmo uma vontade irreprimível de defecar no chão, obscenidade de que foi salvo por um “We all pay taxes, sir”, num impecável tom sereno. A fleuma britânica existe, mas é praticada pelos indianos. Na cara do inglês fundiu-se então o rosto conjuntural da estupidez com o rosto da estupidez estrutural e o HpA fez uma nota mental: “ Ler Lombroso”.

 

De Heathrow a Woodside Park, a viagem correu sem incidentes. O metro londrino tem um cosmopolitismo que o fez sentir-se em casa. “Este podia morar nos Anjos, este podia morar nos Anjos, esta devia ser minha vizinha”, foi pensando nos intervalos em que levantava a vista de O Labirinto da Saudade, do Lourenço. É um risco ler Eduardo Lourenço quando se está cansado e a viagem implica um transbordo, mas não deixou passar King’s Cross, onde teve o primeiro momento de grande turismo. Constatou que em Londres há a melhor publicidade de outdoors que viu até hoje, percebeu que ainda existem punks, embora aquele talvez fosse do tipo que tem savings account, viu uma daquelas miúdas com cabelo negro – hum – “asa de corvo”, olho verde e pele pálida, o tal precioso fenótipo irlandês que misturado com sangue ameríndio dá uma liga feminina insuperável. E lá chegou a Woodside Park. Caminhou por uma rua de belas moradias, eram 11 da noite, através dos estores percebia-se que um marido lavava os pratos numa cozinha com mesa de pedra escura ao centro e concluiu que a sua mulher adormecia os filhos contando-lhes uma história ou então talvez enrolasse um charro na sala. O amigo não estava.

 

Esperou uns 15 minutos, voltou a tocar, não havia um telefone por perto, a zona era residencial, devia ter telefonado na estação, claro. Mais 10 minutos e nada, isto é, apenas uma irreprimível vontade de defecar. Uma vontade real, como se a figura de estilo anterior se somatizasse. Que fazer? Impossível bater à porta do casal feliz, às 11 da noite o HpA tem ar de magrebino. Contornou-lhes a casa, deu com um extenso jardim, descuidado como um terreno baldio, e com a protecção de uma sebe e de um frondoso carvalho – seria? – fez o que se impunha. Já recomposto, olhou para trás e deu primeiro com um gato que o observava do cimo de um muro e depois com um baloiço de criança, muito perto dele e estáticos. Como se ambos lhe insuflassem um pudor difícil de gerir, apressou-se a camuflar os traços da sua passagem e a abandonar o local. "Such a looovely day for a garden party, darling"- que vergonha...

 

Esperou mais uns minutos, convenceu-se que nada daquilo se havia passado, pois não era um modo digno de viajar, sobretudo para quem vem a um congresso internacional de críticos gastronómicos. “Mas como te limpaste?” – iria inquiri-lo ao pequeno-almoço de segunda-feira o colega japonês T.K. Não, não acontecera. A culpa era do inglês infame do “our taxes pay your bills”. Mesmo aquela lesma que se escapou depois das calças e ainda cobriu 2 ou 3 dos ladrilhos da casa de banho do amigo só podia ser um produto da sua imaginação.

publicado por Homem do pullover amarelo às 07:39
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Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Na assimptota da memória

Emília morreu, foi muita gente ao funeral e quase a mesma gente à missa de sétimo dia. Depois alguns lembraram-se do primeiro aniversário dela a que ela faltou, do primeiro ano que passou sobre a sua morte. Depois ainda menos se lembraram da primeira década. E já quase ninguém chegará ao quarto de século. A memória dos outros tem um decaimento exponencial, na forma como as efemérides se vão espraiando e no número de pessoas que cada uma congrega. O HpA sofre de um reflexo pouco social sempre que alguém morre: "quanto tempo até se decair na assimptota da sua memória?" Cair em esquecimento remete para a ideia um acontecimento abrupto e imprevisível; por isso ele prefere "decaimento da memória", que transmite a ideia de trajectória inexorável e matematicamente descritível. A memória de Emília - há quantos anos foi?  3? 4?  - deve estar hoje próxima da sua assimptota, isto é, apenas uns poucos se lembram dela mas estes só a esquecerão depois de mortos. É o seu núcleo duro. Emília, que foi a única influência literária do HpA, não deve ter escrito mais de 5 páginas em toda a sua vida, era da tradição oral. Parece invenção, mas foi mesmo assim, histórias e lengalengas contadas perto do fogão de lenha para uma plateia de primos. Uma cozinheira, caseira e contadora de histórias, que deu banho a três gerações da família. O HpA tenta aqui prolongar-se no núcleo duro dela; se algo lhe acontecer, pelo menos isto fica. São escusadas as ilusões, que o texto não chegará a centenário, mas também não vale a pena dramatizar. De certa forma, pela rapidez do decaimento, a memória abandona aqueles que menos a merecem . Sobram poucos, não forçosamente bons, mas enfim unidos para lá do sangue. 

 

 

(Cont)

publicado por Homem do pullover amarelo às 18:20
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