Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Agora digam lá se não tenho razões para estar deprimido

Go to fullsize imageGo to fullsize imageGo to fullsize imageGo to fullsize image

publicado por Pedro Marques Lopes às 15:17
link do post | comentar
Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Jornal

Quando eu era miúdo havia uma regra lá em casa: ninguém podia pegar no jornal antes do meu pai acabar de o ler. O jornal podia estar ali esquecido e solitário num canto, que até o velhote se sentar no cadeirão e desfiar cada uma das filas de letrinhas, aquele maço de folhas era só dele.

 

Quebrei a regra algumas vezes. Mas, porque não queria chateá-lo, comecei a deixar o jornal na sua quietude, ainda que algumas vezes sofresse pelo seu abandono. Apetecia-me acarinhá-lo, dizer a cada notícia: não estás só, eu estou aqui e vou ler-te. Mas não podia. Arranjei outro método de leitura: o meu pai sentava-se no cadeirão, abria o jornal, dobrava-o ao meio na página que queria e eu lia a página oposta. À medida que ele ia lendo, eu ia lendo na ordem inversa - uma espécie de generation gap literário. Como isto o irritava ele passou a ler o jornal sem o dobrar, de modo que eu só lia as manchetes da primeira página e a crónica da última. Acabei por me tornar um popularucho com ambições intelectuais.

 

Hoje também sou um homem de rituais. Todos os dias vou à mesma pastelaria de manhã e todos os dias tudo se processa da mesma maneira. Compro o jornal, sento-me na mesma mesa (ou desejo uma doença grave a quem se senta na minha), peço a coisa X e Y para comer e Z para beber. X, Y e Z só são alterados de muito em muitos anos. Vou mirando as páginas entre dentadas, café, cigarro e a passividade agressiva do relógio que me vai dizendo que já devia estar a trabalhar.

 

Mas nunca estou só. Por trás de mim está o senhor M. O senhor M, empregado de mesa, não é como o senhor F, igualmente empregado de mesa. O senhor F sabe tudo sobre o mundo e até fala francês, o senhor M é surdo e só sabe de bola. Sabe graças a mim, que todos os dias de manhã compro A BOLA. Não quero saber de notícias sérias, quero um relaxante muscular, uma côdea de sossego inane: as tricas do Olhanense, a rótula do Edinho, as ambições do Manó, a reportagem sobre a senhora que lava as toalhas no Sertanense. E o senhor M também quer.

 

Como ele é surdo, cada vez que comenta uma notícia grita ao meu ouvido. Como ele é surdo não vale a pena dizer-lhe para não gritar. Também não vale a pena dizer-lhe que não gosto que esteja por trás de mim a ler. Podia perguntar a um amigo psicanalista o que me incomoda tanto em ter um velhote por trás de mim a ler o meu jornal mas tenho medo da resposta.

 

Hoje ocorreu-me que mesmo tendo estado contra a regra do meu pai durante anos, agora ando, contrafeito, a imitá-lo. Está dentro de mim: não quero que estejam nas minhas costas a ler o que é meu. Deu-se-me uma certa tristeza quando me apercebi disto. Nem li bem o jornal. Dei-o ao senhor M, que se pôs a lê-lo enquanto comentava aos gritos a acusação de corrupção que o Moitense de Baixo fez ao Moitense de Cima.

publicado por João Bonifácio às 15:05
link do post | comentar | ver comentários (5)

Sinusite Igualmente Crónica - "Gajasjacking"

 

Crónica para o programa "Boa Noite, Alvim". Imagem e edição de Nuno Gervásio, montagem e pós-produção de Pedro Mouzinho.

publicado por Nuno Costa Santos às 14:29
link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Alguém me arranja um bilhete de avião para o Togo?

 

O tormento para os verdadeiros amantes do mais belo jogo jamais inventado está prestes a começar. A coisa, ultimamente, é cíclica: de dois em dois anos lá temos de apanhar com esta cretinice dos campeonatos da Europa ou do Mundo.

Já se sabe que estes tristes eventos foram inventados para as mulheres que além de não perceberem um caracol do que se passa num campo de futebol desprezam a melhor parte do jogo: as profundas análises que nós homens conseguimos fazer sobre a capacidade de impulsão do melhor ponta de lança de todos os tempos, Fernando Gomes, ou o fabuloso jogo de rins do melhor defesa direito da história do futebol, João Pinto (o verdadeiro, não aquele pateta da melena loura que a única coisa de mérito que fez no futebol, foi ter dado aquele soco no árbitro que, graças a Deus, mandou os nossos jogadores de volta a casa). 

É vê-las todas contentinhas com aqueles berrinhos histéricos: marca, marca, chuta, chuta.

Convencidíssimo que jamais aprenderão, explico: nunca se fala antes de um jogador rematar. Depois de ele chutar, existem apenas duas alternativas: ou gritar golo se aquela coisa redonda (chama-se bola) entrar na baliza (aqueles três paus com uma rede por trás) ou mandar o indivíduo para a puta que o pariu, se falhar. 

.

Mas ainda pior que ver mulheres nos jogos de futebol ou em celebrações é ver os patetas que as acompanham. Só há duas razões para essas anémonas levarem ou acompanharem essas mulheres: ou são uns infelizes que a única maneira de poderem agarrar uma mulher é aproveitando um golito ou coisa parecida ou, pura e simplesmente, não gostam de futebol. É aliás por isso que se vêm tantas mulheres nos jogos do Sporting: está provado que aquela gente gosta tanto de futebol como as pessoas normais de vinho verde quente.

Mas como se não fosse gravíssimo ter a lata de ir a um jogo com uma mulher, ainda as levam para um dos mais sagrados espaços masculinos: as imperiais e tremoços pós-desafio. Confesso que são os únicos momentos em que lamento a minha condição de heterossexual.

 

Como se já não fosse suficientemente mau ter de gramar um torneio onde os jogadores do meu clube dão abraços aos dos clubes adversários e jogam com camisolas vermelhas e calções verdes, tenho de gramar as bandeirinhas nas janelas, ouvir tipos que não distinguem um fora de jogo de um penalti armados em Ruis Santos, histéricos a cantar o hino como se fossem resgatar D. Sebastião dos mouros, apelos ao patriotismo em forma de chuteira, horas de debates sobre os peitorais de um madeirense qualquer e os discursos tipo Coronel Tapioca do mais imbecil brasileiro que alguma vez aterrou na Portela, ainda tenho que suportar mulheres vestidas de vermelho e verde com aqueles lencinhos ridículos na cabeça.

Vão mas é lavar a louça, meninas.

Pode ser que só dure uma semanita. Força Turquia.

publicado por Pedro Marques Lopes às 17:39
link do post | comentar | ver comentários (7)

O anjo com medo

Lembro-me bem dos meus terrores nocturnos. Tive-os até bastante tarde. Nunca deixei de os ter, no fundo. Nunca deixei inteiramente de ser o rapaz que não conseguia adormecer porque imaginava medonhas figuras a subir as escadas da casa dos meus avós, junto ao jardim António Borges, em Ponta Delgada. Ainda hoje tenho problemas de sono e o escuro não é um território que me deixe confortável. Dormir de luz acesa continua, de vez em quando, a ajudar. Uma noite, o meu pai zangou-se com os meus medos. Foi dos momentos mais intensamente humanos que vivi e a que assisti: um pai desesperado com a estranha inquietude do filho – um desassosego que me fazia levantar da cama para ir ter em silêncio com a minha mãe, protectora, doce e compreensiva para com as misteriosas angústias do seu pequeno. Reconheço-me inteiramente na frase de Nelson Rodrigues: “Nasci menino, hei de morrer menino”. Só que, ao contrário de Nelson, não sou “o anjo pornográfico” – o buraco da fechadura não é a minha "ótica de ficcionista". Falta-me coragem para isso – para esse valente despudor. Sou uma criança, hei-de morrer criança, mas a minha “ótica de ficcionista”  tropeça mais vezes no delírio da imaginação. No terror nocturno que tanto escolhe a noite como o dia. Mesmo que sob um cândido disfarce qualquer. Nascemos meninos, havemos de morrer meninos. O Nelson é que a sabia toda.

publicado por Nuno Costa Santos às 01:22
link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Sempre a puxar para cima

 

 

“Estoy en una mala situación y el tipo de la calle también. La vida es una cosa muy trágica, brutal y sin sentido. El universo es un sitio caótico y violento”.

 

 

Woody Allen à “Hola” de 14 de Novembro de 2007 (que encontrei há dois dias na casa de banho da minha avó).

publicado por Nuno Costa Santos às 02:37
link do post | comentar | ver comentários (3)

Mini sinusites

Voltar a entrar (sinopse para uma série)

 

A história de um tipo que se arrependeu de ter saído do armário e que quer voltar a entrar lá para dentro.

 

 Converseta na livraria

 

- Vais respeitar o Acordo Ortográfico?

- Consoante.

 

A sede do meu partido é a papelaria Fernandes

 

Cada vez mais me convenço disso. Sou, definitivamente, um gajo do bloco.

 

 Mendiga e altiva

 

Ela vai ao Lidl Xabregas com a pose e a postura de quem vai à Dolce & Gabbana em Milão.


Do Brainstorm no Dia Contra a Homofobia

 

Monumento à Bicha Desconhecida.

 

Nem todos podemos ser um Rui Costa

 

 A útima partida de um jogador em que só ele repara nisso. Dá, no final, uma eufórica volta ao estádio perante a melancólica indiferença dos adeptos.

 

Nem todos podemos ser um Rui Costa II

 

O último jogo de um apanha-bolas de génio. Um primo levou uma câmara e captou a imagem em que ele apanha a sua derradeira bola. Lá em casa, em Alfornelos, vão assistir dezenas de vezes ao momento em câmara lenta.

 

Pai moderno

 

Nem quando a criança arrancou os olhos às velhas todas do bairro ele lhe disse para parar quieto.

 

Ideia para um sketch 

 

Piquenique entre pessoas que viveram intensamente o Maio de 68. A certa altura, dão-se conta de que, há 40 anos, sem querer, trocaram os filhos.

 

João Nalgas

 

A versão tuga e betinha do “Jack Ass”. Um conjunto de amigos que envergam pullovers em bico junta-se para beber copos de leite de penalti. Riem-se muito com as suas proezas.

 

Pedido

 

Vá lá, Scorsese, faz um documentário sobre os UHF.

 

O dia em que o funcionário da TV-Cabo se esticou ao telefone

 

- Está satisfeito com o seu casamento? É que temos aqui um novo pacote em promoção que inclui amante com tráfego ilimitado. Nos primeiros três meses não paga nada.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 02:36
link do post | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 17 de Maio de 2008

Os comensais

Interlúdio III

 

O Homem do Pullover Amarelo não é dado a desperdícios de afecto por animais de estimação. Não quer isto dizer que não os tenha, procura apenas assegurar que o último antepassado comum com a criatura esteja a mais de 50 milhões de anos de distância. Tal regra implica excluir o cão.  Ele não duvida que o animal seja o melhor amigo do homem, mas também sabe que há chineses. As relações não correspondidas são sempre de evitar. Um periquito é um óptimo animal de estimação, inferior ao cágado, que é pior do que um peixe, que perde para um bicho-da-seda a comer folhas de amoreira numa caixa de sapatos. Esta regressão filogenética parece apontar para a medusa como o bicho ideal. Ora, é verdade que uma alforreca fluorescente dentro de um aquário com boa luminotecnia tem sobre a mulher a vantagem de nos deixar num mesmo estado contemplativo só que sem a inquietude da pulsão sexual - mais pela consistência gelatinosa do que pelo  veneno, a alforreca não desperta perversões. Sucede que a regressão filógenética não chega aos Cnidários e fica muitos milhões de anos atrás. Onde? Obviamente, nos Platelmintes. Já ia tardando o elogio à ténia.

 

Comecemos pelo nome. Nada de bizarrices para épater Pacheco Pereira, como Ornithorhyncus. Nada de vassalagens antropocêntricas, como em Pachycara saldanhai, peixe de águas profundas assim baptizado em homenagem ao Professor Luiz Saldanha (a hora de Jaime Gama ainda não chegou). Não. Apenas solium. "Hum...  my name is solium, Taenia solium", retorquiria uma esguia russa, fazendo corar Bond pela primeira vez. O bicho tem o melhor epíteto específico da Zoologia e nele se encerra uma filosofia de vida. Envergonhem-se os solitários intermitentes, os que cultivam a solidão por imitação, os que a encenam, porque esta Tanya é uma solitária da linha dura. Hermafrodita, não sofre com a busca do parceiro e aceita qualquer um para hospedeiro definitivo. Paradoxalmente, a teníase é a relação monogâmica mais estável a que um homem terá direito.

 

A suspeita de que o Homem do pullover amarelo transporta uma solitária desde sempre o acompanhou e o apetite desmedido valeu-lhe diversas alcunhas – “frieirazinha”, a última delas. Mas este cenário não é trágico. Mata-se uma solitária com niclosamida, diclorofeno ou mebendazol. Na verdade, trágico seria acabar por preconceito racial com uma solitária que nunca deu náuseas. O dirty little secret do hospedeiro de parasitas? Parasitismo ou mutualismo, é tudo uma questão de gosto. A micose conhecida por pé-de-atleta, por exemplo, produz a comichão mais agradável de saciar. Não se diz isto, por vergonha. Logo, o fungo não é um comensal (um parasita), é um simbionte. Também uma ténia pode ser um simbionte, a alternativa natural à banda gástrica. A própria polissemia de “comensal” consubstancia este relativismo. Uma lombriga é um comensal, os que papam jantares são comensais, os que comem em casa alheia são comensais e os que comem juntos são ainda comensais. O comensal vai da lombriga ao conviva, civilizou-se. O Homem do pullover amarelo acredita que "there is grandeur in this view of life", too.

publicado por Homem do pullover amarelo às 23:26
link do post | comentar
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Subir ávores

Quando era miúdo gostava de subir às árvores. Costumava equilibrar-me nos ramos mais frágeis e por vezes caía. Tenho impressão que aqui e ali me aleijava e sei que a dada altura deixei as árvores em sossego. Certo é que caí. Lembro-me que, nesses tempos, quando me punham figos à frente, eu comia 40 de seguida. Mas também recordo que não queria comer melão à sobremesa. Quando provei, adorei. Deixei os figos de lado e comecei a comer melão como um doido.

 

Fiquei doente de tanto melão, cheguei a ir parar ao hospital com tanto melão, e ganhei medo ao bicho. Também era incapaz de comer frango frito, que uma vez me fizera vomitar - sem que por um segundo me ocorresse que o problema não fosse do frango frito, mas de quem o cozinhou e como. Nunca culpei o cozinheiro nem o estado da comida. Pensei sempre que o meu estômago era fraco. E assim afastei-me um pouco das pessoas que tinham bom estômago. Passei a comer apenas pescada cozida - mas tinha dias que só me sentia bem com muita doçaria. Comia à socapa, sozinho, e apesar de as análises não acusarem excesso de açúcar no sangue, de cada vez que ficava mal disposto eu pensava que era dos doces e sentia uma certa culpa.

 

Já não sei se não queria comer melão pelo seu aspecto, ou se apenas me irritava que toda a gente na família gostasse tanto. Talvez me apetecesse ter um gosto só meu, uma mania só minha, que me definisse, nem que fosse por exclusão. Certo é que houve doçarias solitárias que me deixaram um sabor amargo, mas também é possível que eu não tivesse sabido escolhê-las. E certo é que hoje, um pouco menos ágil, não subo a árvores. Convivo bem com isso, apesar de já não me lembrar se comecei a ter medo de cair ou se apenas me aborreci de trepar. Ou se gostava de cair.

publicado por João Bonifácio às 20:10
link do post | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

A propósito de fumos, o fumo (juvenil) do O´Neill

 

 

 

"(Certo dia precisei dum cigarro, mais para mostrar do que para fumar... Não tinha. Pascoaes abriu imediatamente a cigarreira, quase com precipitação:

- Tira destes aqui... E exibia uns cigarros magrinhos, com todo o aspecto de terem sido enrolados e lambidos por ele na véspera à noite... Com uma certa repugnância, já que do poeta apreciava não a saliva mas o verbo, extraí um dos cigarrinhos, disposto a queimá-lo depressa e a não pensar mais nisso...

Pascoaes mirava-me candidamente. E só ao primeiro acesso de tosse do jovem fumador, aquela falsa candura se desfez em riso, num riso grosso e folião, mas cheio de bondade... Eram cigarros cubanos, fortíssimos! E o poeta ria infantilmente com as nuvens de fumo, as lágrimas e a tosse do petulante fumador...)".

 

Alexandre O'Neill, "Recordação Precipitada de Teixeira de Pascoaes", crónica incluída em "Já Cá Não Está  Quem Falou", Assírio e Alvim, 2008.

publicado por Nuno Costa Santos às 23:46
link do post | comentar | ver comentários (1)

Autores

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever