Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Não querendo diminuir a gravidade do caso

acho que em breve estará tudo controlado. Basta ver os dois títulos das duas notícias que encimam a edição do PÚBLICO on-line de hoje:

 

Não me venham dizer que o segundo não decorre do primeiro, que eu não acredito.
publicado por João Bonifácio às 17:31
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Crónica de Sexta

(com dedicatória ao FJV e ao DO.)

 

[Segundo me disseram, este será, primordialmente, um blog de crónicas, o que não impede que haja os posts ao calhas que bem nos aprouver. A mim coube-me a sexta-feira. Já que vou de férias, deixo adiantadas duas crónicas. São enormes. Não muito boas (talvez mesmo só razoáveis, ou, provavelmente, péssimas), mas enormes mesmo: longuíssimas e aborrecidas.

Tenham portanto paciência. Santa paciência.]

 

Crónica Primeira: Da Informação Insignificante


Tenho andado a usar os meus dedos. Tenho mesmo. Para calcular o número de caracteres dos posts do Pedro Marques Lopes, do Pedro Vieira e do Nuno Costa Santos. Depois executei exactamente a mesma operação para o meu primeiro. Posso anunciar que tive dedos para os posts deles e, mesmo recorrendo aos pés que me pertencem, não houve forma de mensurar os meus do meu.

De onde se conclui, por falângico ábaco, que eles = sucintos e eu, enquanto cito e re-cito, demoro a chegar a um ponto. (Não obrigatoriamente o ponto final. Posso, por exemplo, acabar uma crónica com um travessão atravessado.)

A razão de tanta duração não é singular – é plural: abuso do anacoluto (“construção elíptica em que uma ou mais palavras do princípio de uma oração não têm ligação sintáctica com as do fim”), da analepse (“narração de eventos ocorridos anteriormente em relação a eventos já narrados” ou “recuo no tempo”) e da prolepse (“à analepse opõe-se a prolepse”, a prolepse é o oposto da analepse). O que significa que

 

a) as minhas frases não têm sentido

 

b) os posts andam às arrecuas e aos solavancos

 

c) sou chato.

 

Sei que é assim, com chatos, “anacolutos”, “analepses” e “prolepses” porque tenho o hábito de abrir livros ao calhas e memorizar informação insignificante. O que me leva a saber que:

 

pode, em certos ratinhos, ser provocada uma retoma do crescimento do esqueleto craniofacial induzido por meio de hormonas de crescimento no rato anão hipopituitário com tensão de Snell;

 

as papoilas pertencem à família Papaveraceae;

 

o índice da Bolsa da Venezuela chama-se Índice Bursátil Caracas e consiste na capitalização de cada uma das 15 empresas de maior liquidez negociadas no mercado accionário da Bolsa de Valores de Caracas, isto em 1988.

Também sei o significado da palavra “siririca” e o rácio do crescimento anual das ratazanas no Botswana, mas poupo-vos a detalhes.

 

“Anacoluto”, “analepse” e “prolepse” descobri folheando a 8ª edição revista e actualizada do Dicionário de Língua-Portuguesa Porto-Editora que, por acasos que não são dos meus considerandos, não inclui a definição de “maxibombo”.

É certo que entre a inteligentsia (palavra cuja ortografia correcta desconheço porque nunca calhou abrir a página começada por “int”) os dicionários Porto Editora não são tomados como os mais fiáveis.

Não é que eu não possua dicionários mais refinados – apenas que:

 

1) perdi um quando fugi de uma casa de hippies em que vivia, e onde constantemente me davam um chá - vim posteriomente a saber - trazido da Colômbia pelo Pablo (não perguntem), que me relaxava em demasia, assim impedindo que eu visse a obra completa de Humphrey Bogart em vídeo (pelo que não sei assobiar);

 

2) inutilizei outro usando-o para estancar uma erupção aquática num acidente de canalização;

 

3) o Estado hipotecou-me o terceiro à conta de uma coima que nunca paguei e que me fora aplicada por não ter limpo uma mata (de 18 cms quadrados) herdada de uma tia solteira que, sentada na balaustrada da sua casa de aldeia, fazia ao pôr-do-sol rendas de bilros de padrões inconstantes (à conta do excesso de Valium para uma crise de nervos derivadas de coimas por não limpar matas).

 

O que se passou nesta crónica foi uma sequência interminável de mentiras e uma analepse.


Crónica Segunda:  Da Coima Significante


A palavra "coima" permite-me agora usar uma prolepse para chegar a este post do Francisco José Viegas, em que descobri que um qualquer tribunal aplicou uma “coima” ao Daniel Oliveira à conta de este último ter chamado “palhaço” a Alberto João Jardim, que, salvo erro, é o Imperador do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira. Mais informa o Francisco que o acontecido com o Daniel ocorreu ao mesmo Viegas anteriormente.

 

Esta repetição da ocorrência permite-nos concluir que chamar “palhaço” a Alberto João Jardim tem como inevitável consequência ser-se coimado.

Não conheço os respectivos textos do Daniel e do Francisco, pelo que posso apenas especular que os tribunais são intransigentes quanto ao uso da palavra “palhaço”, não sei se apenas em relação ao salvo erro Imperador do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira ou se a norma se aplica apenas aos “cubanos do continente” ou igualmente aos cidadãos do Território em Constante Ameaça de Independência Chamado Madeira.

 

O que sei é que, para os tribunais, chamar a um português “cubano do continente” não é “insulto”. O que sei é que os tribunais não procederam certamente a um aturado exercício semiótico da palavra “palhaço”, tomando-a por insulto.

 

Vejamos: um “palhaço” é alguém que através de uma linguagem específica, alegra as crianças. Julgo estarmos todos de acordo que Albert Jâi-Jâi possui uma linguagem específica. E julgo estarmos todos de acordo em como Albert Jê-Jê por vezes diverte a criança que existe em nós (cubanos do continente).

Pelo que nesse sentido a palavra “palhaço” deve ser tomada como elogio.

 

Se a isto acrescermos o facto de Daniel Oliveira chamar a Lo Anti-Cubanos "Palhaço Rico", eu, à partida, diria que D.O. pode muito bem estar a laudar a pro-actividade de  Jâi-Jâi na sua actividade palhaçal.

 

Admitamos que por tique de esquerda Oliveira estava a criticar um palhaço por ser rico quando os palhaços por norma são pobres. Isto, digo eu, não deve ser analisado enquanto matéria de opinião, muito menos um insulto.

É antes um argumento de classe - algo ingénuo, acrescentaria eu, pelo que perdoável.

 

Igualmente se nos lembrarmos que Al Jota-Jota é desde há muito um animador anual do Carnaval da Madeira. O que se faz no Carnaval? Palhaçada. De onde se pode inferir com mínima margem de erro que tanto Daniel como Francisco se referissem ao magnânimo altruísmo que El Jonas demonstra ao submeter-se às mesmas tropelias (elogio) do povo, numa muito saudável e exemplar demonstração de democracia.

 

Pode também dar-se o caso de (presumo que erradamente) Daniel e Francisco terem partido do princípio que El Jardineiro teria nascido numa pequena terra do Norte da Cuba Continental chamada Palhaça. De onde “palhaço”, náscio de "Palhaça".

("Náscio" é neologismo para "natural de".)

 

Olhando para o parêntesis anterior, nada nos impede (até porque são ambos pessoas de bem escrever) de imaginar Daniel e Francisco como uns Guimarães Rosa da Cuba Continental.

Nesse sentido “palhaço” poderia seria um neologismo para “monte de palha”. Qual é o principal uso que se dá à palha? Alimentar animais queridos pelos homens que, de outra forma, morreriam à fome.

 

Sendo O Homem um Animal (presumivelmente Racional), daqui decorreria que uma das principais qualidades de Primo Pérolo do Oceano seria a de alimentar os homens (animais racionais) da sua terra, que de outra forma morreriam à fome. O que faz sentido pois, como os próprios habitantes da Madeira reconhecem, Primo Pérolo tornou um inóspito e pobre território num lugar de unânime e diário acesso à necessária roda alimentar.

Daniel e Francisco estariam apenas a reconhecer a magnanimidade de El Jonas Del Jardim.

 

Os tribunais podem então (especulo) ter condenado o uso não estrito da língua Cubana Continental (ou o desconhecimento do sentido que a palavra tem na língua DesCubana Oceanal) ou ainda a falta de conhecimentos dos dois cronistas (ver exemplo do nativo da "Palhaça").

 

Desconhecia que a falta de cultura fosse coimável. O que posso dizer é que estes dois tribunais são uma “palhaçada”.

Digo isto no sentido de estes tribunais, com a decisão tomada, alimentarem a cultura (e os cubanos do continente precisam de cultura como os pérolos do Oceano de pão para a boca) daqueles que, como eu, desconheciam tanto as erróneas localidades de nascença de Lo Juanes como o significado estrito da palavra “palhaço” em madeirense.

 

Também posso estar a dizer tudo isto em sentido cómico, o que, pelo que sei, tornaria esta crónica inimputável por lei. Isto apenas para evitar a prolepse de uma multa, que ando raso de pilim –

publicado por João Bonifácio às 15:24
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Assim de repente

Diz que, repito, diz que, mulheres novas e carros velhos são capazes de arruinar qualquer um. Não sei se isto será bem o que se espera de um espaço, repito, espaço onde se escrevem crónicas mas é o que me vem neste momento à cabeça.  

publicado por Pedro Marques Lopes às 18:34
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Não é preciso receita

“Isto dava uma crónica”. Houve uma altura da vida em que repetia mais vezes esta expressão do que os agarrados dizem “orienta-me aí uns trocos”. Estava agarrado à crónica, condição da qual não consegui nunca recuperar verdadeiramente. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou melhor: para ter a ideia de escrever uma crónica (porque era, sobretudo, exercício de meio campo). Uma ocorrência na padaria, um insulto no trânsito, um suspiro no ginásio, um discurso na passadeira. Tudo isso dava uma crónica. Como mais tarde passou a dar um post.

 

Acho que gosto muito de crónicas – e de posts - porque sofro de asma. Não aguento facilmente corridas de fundo. Quando leio uma crónica não tenho de me socorrer de bombas (Ventilan, por aí). O mesmo já não acontece quando me atiro a jornadas literárias maiores. Todas as semanas arrisco calhamaços, mas raramente saio sem os pulmões a miarem fininho. Como quem diz: “Vá, Nuno, volta lá às croniquetas que isso das ‘Benevolentes’ é demasiada areia para o teu aparelho respiratório”. É a ansiedade, a puta da ansiedade. Quero chegar rapidamente ao fim do livro mas logo percebo que ainda estou no princípio da terceira página. E, prontos, lá vem mais um ataquinho. E a necessidade da bombada. E o pânico da minha gente. E as rezas. E tudo isso.

 

Sei, não é uma originalidade: continuo a encontrar os melhores cultores do género no Brasil. E não, não falo só de língua portuguesa. Sabemos que os brasileiros têm tanto talento para a crónica como têm rasgo para o brinca na areia do futebol. Pois, o estilo de vida brasileiro (sensual) convida mais ao toque de bola cronístico. Não é tão fácil ser-se cronista quando se é obrigado a transportar o aquecedor (o único que se tem) para todas as divisões da casa. A pena foge mais para o artigo de opinião ou para o – não adormeçam – “ensaio jornalístico”.

 

Vamos ao texto de Carlos Drummond de Andrade que dá início ao baile: traz tudo o que me seduz na crónica. A leveza, antes de mais (não há crónicas pesadas; uma crónica pesada - no estilo, claro – não é uma crónica). Depois a proximidade – ou melhor, a ilusão de proximidade – entre o escritor e o leitor. Isso: a conversa. O bate-papo. Mas há mais: a noção da sua contingência (de que é o que é: um encontro na esquina entre autor e leitor). Ah, e o génio.

 

A relação que tenho com as crónicas é a mesma que tenho com a arte em geral: só me interessam as que me emocionam. As que – pelo conteúdo e pela forma – deixaram, depois de as ler, um pedacito de vida no meu desengonçado coração. Trocando um pouco as voltas à frase de Keats: “Uma boa crónica é uma alegria eterna”. É-o. Pelo menos para mim. A ver se as conseguimos produzir.

publicado por Nuno Costa Santos às 01:42
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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Epígrafe a um desastre (subtítulo: por uma canção de cohen)

 

Não foi fácil. Nunca é fácil. Entendam-me: não estou a queixar-me, mas não foi fácil entrar aqui. Entrar, presumo que seja sabido do senso comum, é um problema – e não há nada errado com isso, um homem para ser homem tem de ter pelo menos uns cinco ou seis problemas. Exemplo: derivado da minha absoluta falta de originalidade e total incapacidade para o improviso tive de, na frase anterior recorrer a:

- um cliché (“um homem para ser homem”);

- uma paráfrase de uma tira de Quino (os mencionados “cinco ou seis problemas” necessários para se ser gente).

Ao problema em entrar junta-se o da “absoluta falta de originalidade” e adiciona-se o da “total incapacidade para o improviso” e vou com três problemas, a meio caminho de ser homem que é homem.

Acima de tudo quero que compreendam o seguinte: a entrada deste texto só serviu para demonstrar a exactidão com que empreguei “paráfrase” em vez da não raras vezes erradamente aplicada “citação”. Essa demonstração de domínio linguístico – noto agora – é imediatamente reduzida a cinzas pela menção (reparem: agora é “menção” e não “paráfrase”) a um mero bêdêeiro mainstream, a um tireiro das mesquinharias diárias. A notável sofisticação da entrada rui de imediato perante o recurso a um autor óbvio – e pela repetição abusiva de derivações adverbiais de “imediato” e “recurso”.

O Pedro Vieira tinha-me dito, qual pai que prepara o filho para o mundo dos homens, “Vais ali e clicas onde diz 'Entrar'” e, juro, parecia simples. À parte (ou “aparte”, quem souber da nossa língua que me ajude, eu só vim aqui para ver, meter conversa não é comigo) a virose que atacou o meu teclado e me obriga a usar luvas descartáveis de cada vez que tenho a chance de digitar, parecia simples.

Mas quando cheguei ao momento de “Entrar” – resoluto em fazê-lo – pediram-me nome e senha. Há sempre uma senha quando se quer entrar, uma palavra que abre a janela de oportunidade que temos, no timing certo, de optimizar. Tenho aqui um power-point que prova isto, mas infelizmente não consigo abri-lo.

Há um jogo, nisto de entrar. Uma linguagem que deve ser comum para dois seres se aproximarem e unirem. Não basta o nome certo, o nome é contigente, necessária é a senha, que quem deixa entrar conhece e quem quer entrar tem de ter a habilidade de descortinar por (imagino) ínvios modos.

Ainda mais complexo tudo se torna quando vários são os seres a propiciarem-se ao jogo. Wittgenstein explica isto melhor que eu, mas o importante aqui é deixar sub-repticiamente uma alusão (e não “menção”) ao filósofo, de modo a legitimar este arranque errante.

O que se faz quando apesar de devidamente aconselhado não se consegue entrar? Há quem, retesado no seu orgulho, esconda a sua falência penetrativa, há quem minta e diga que sim, entrou, nem vou falar mais nisso mas lá que entrei entrei, podem ter a certeza, há quem adie – perante a expectante plateia de peritos em entrar que, todos, já entraram e sabem como se entra, sai e (hossana) fica – a anunciação ao mundo da sua sorte ou azar, assim rodeando-se de um mistério que salva o seu falhanço. Digo “salva” não no sentido pós-moderno-informático de “grava”, mas no sentido judaico-cristão de “redime”.

E há quem se humilhe, rasteje de novo ao paternal patriarca que lhe indicara o caminho e pateticamente peça que lhe restituam a esperança – o que foi o caso.

Porque eu tinha sonhos: queria que, quando me pedissem o nome, eu pudesse dizer “João Bonifácio” e que a senha fosse “John Holmes” e que a simples menção ou citação ou alusão ou referência ou o caralho que o foda a “John Holmes” servisse de íntimo sussurro com a caixa negra do blog, assim abrindo as portas ao mundo de fantasias que se encerra – falange, falanginha, falangeta – na ponta dos meus dedos.

Era impossível. O nome e a senha tinham sido previamente definidos pelos meus parceiros, pelos meus pater e mater familias de alegre concubinato de língua. Digo-vos: há uma linguagem entre dois seres e toda uma outra linguagem entre um grupo e as duas linguagens só nos flancos se tocam (e a medo). O forte impõe o acesso ao grupo e ao fraco nada resta que submissamente aceitar o seu papel menor, “like a shy one at some orgy”*.

Em entrando, prometiam-me, eu podia “gerir”. Era um “gerir” vago, uma cenoura à frente do burro (cliché). Mas quem domina a linguagem conhece tanto os ritmos do organismo como o frémito do sangue do dominado (repetição), “entrega” a informação (anglicismo) a seu bel-prazer (duplo cliché), sabendo de antemão (e aqui escuso de assinalar a recursividade a expressões idiomáticas, demonstrativa da incapacidade de manuseamento da língua deste aspirante a teclante) como o aliciar ao jogo que domina.

Dizia um dos Pedros (repare-se que no simples facto de não saber os sobrenomes se encerra um fatal erro social conduzível ao opróbrio e à exclusão) me seria “possível enviar imagens” usando o meu “ícone” com “a montanha amarela”. Juro que em vez de invadir o local em que pretendia entrar, estaquei, à porta, de pavor com o conhecimento prévio que o Pedro detinha sobre o meu ícone e a sua particularidade. O pânico surgiu depois, quando ademais me informou o meu guia que, se assim quisesse (e eu apenas queria entrar, a minha imaginação acabava aí, não queria que derrubassem as minhas fantasias com a bruta burocrática realidade), eu poderia “colocar vídeos”. Isto, para – como atrás me defini – um “shy one at some orgy”, foi o puro terror.

Folgo em anunciar-vos que entrei. Guiado pelos colegas de crime, entrei. Gostei do cabeçalho. A pequena corrente de electricidade a percorrer-me o corpo, a agitação dos dedos dos pés, a humidade na ponta dos dedos da primeira vez começa a tornar-se-me agradável. Ainda temo que o meu periclitante uso da língua seja infectado pela maior destreza dos restantes locatários digitais. Mas desconfio que a possibilidade de me viciar nisto crescerá exponencialmente à usura e, azinha para a derrota, ainda desato a pôr os nossos vídeos na net. Se os virem, entrem à vontade. E cliquem. Julgo poder falar em nome de todos e dizer que: nós queremos muito ser clicados.

*Verso de Leonard Cohen, que se encontra em "Songs Of Love and Hate".

publicado por João Bonifácio às 19:46
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a carris é uma festa

podia fazer referência aos suores frios inerentes a aparecer colado a um texto do mestre drummond mas não vou fazê-lo porque sou um bocado iconoclasta, pelo menos no sentido de ter aprendido esta palavra há dias e agora sentir-me obrigado a usá-la. aliás, tem uma sonoridade que deveria torná-la obrigatória desde tenra idade nas bocas dos petizes, infelizmente mais interessados em praticarem o bullying com os colegas mais fraquinhos do que em apreciarem a língua à portuguesa. adiante. o motivo que me traz à liça da priemira crónica é outro, os transportes colectivos, em geral, a carris, em particular, que ostenta actualmente nas costas dos senhores motoristas um cartaz publicitário que é toda uma revolução semiótica travestida de amarelo-mercedes. o que antes era um aviso sensaborão sobre a imbecilidade de andar sem título de transporte passa agora a uma invectiva a letras gordas que assegura que andar de trasnportes públicos sem título de transporte válido é punível por lei. diga-se que este punível por lei está escrito em caracteres para amblíopes, não há forma de não captar a mensagem que, em si mesma, e no meu entender de comunicador de bancada, espelha fraca estratégia – num país de justiça em fanicos é difícil algum meliante de sete colinas caducado ser educado para a cidadania com tal ameaça, terá pelo menos dez ou doze anos para carregar o cartão e fingir que não era nada com ele, isto nos casos em que não será o neto do autuado a dar com os costados na boa-hora [estranho nome para um local onde se fala de navalhadas e crianças ao colo de reformados marotos, aliás].
mas há mais. o dito cartaz é ilustrado, com fotografia de uma senhora aparentemente distinta, com gargantilha no pescoço lustroso, de cara cortada graças a um enquadramento que lhe garante o anonimato mas com direito a mise en scène que alude àqueles momentos em que se é fotografado na esquadra depois de uma noite de putas e vinho verde, ou só de vinho verde, vá. ao invés do papel com o número da detenção ostenta um outro papel que assegura tratar-se de um cliente sem título válido, como quem diz, entraste na carripana sem o lisboa viva, agora vais conhecer as maravilhas do chegar de roupa ao pêlo com um par de toalhas molhadas, que nem sequer deixam marcas na maquilhagem MAC que custou uma pipa, ou mesmo, carregasses antes o cartão em vez de passares o dia a pintar as unhas, que a cliente também as ostenta, diria até que este é o primeiro caso de comunicação de massas white collar, apontada às classes que não trazem os frangos vivos no autocarro 50 depois de uma passagem pela feira do relógio, aliás, está dirigido a gente que garante a pés juntos que o leite vem do pacote e que as galinhas têm quatro patas, que ficou com o coupé encalhado numa cratera lisboeta, que as há muitas, e que teve de recorrer ao empurra-encolhe-onde é que vais com a minha carteira para chegar ao holmes place mais próximo. é toda uma revolução nos costumes e uma folga no pau que bate nas costas da classe operática. digo eu.
publicado por Pedro Vieira às 11:16
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Sábado, 15 de Março de 2008

Hoje não escrevo

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.


O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

 Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.


Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.


E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...


Então hoje não tem crônica.


 

 

Carlos Drummond de Andrade

publicado por Nuno Costa Santos às 23:36
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