Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Derivação à volta do termo Historiador

É sabido pelos que me são próximos que tenho um problema com traduções.

Os meus próximos, esclareço, são meu dealer de comprimidos para a hiper-tensão, a sado-masoquista de 83 anos que passa as minhas camisas a ferro e um anão a quem arrendo a cave a troco de fazer-me mensalmente um napron para o topo da televisão.

Infelizmente as traduções não são o meu únic,o prob,lema: n,ão consi,go por ,exemplo a,certar com um,a vírgul,a e tenho-tendência-a-escrever-à-pressa-o-que-prejudica-a-legibilidade.

A isto junte-se a minha implicância com nomeações. Não, não me refiro à promoção deste meu amigo a sub-director da Caixa Nacional de Aposentações. Refiro-me a dar nomes às coisas. Não a filhos, não a obras de arte de Duchamp. Mas a títulos, nomeadamente principalmente e especificamente a títulos sociais. Também abuso imensamente dos advérbios de modo.

Leio crónicas de – imaginemos – Vasco Pulido Valente, Pacheco Pereira, Rui Ramos e Rui Tavares e no fim dos textos lá está: “Historiador”. Não percebo: no momento em que escrevem aquelas crónicas os mencionados senhores não estão a “historiar”, embora os três primeiros tenham tendência a contar-nos histórias.

No instante em que teclam para jornais os três pilares da democracia e o Rui estão a ser cronistas. O título que embaixa as crónicas deveria, portanto, ser “cronista” ou eventualmente “Cronista”. O meu pr,oblema a,qui n,ão é co,m vírgu,las nem com-a-minha-tendência-para-escrever-à-pressa, antes com o verbo “ser”.

Ninguém “é”. Temos uma vaga memória do que fizemos e das mudanças no nosso rosto.

O "ser" é um prémio de regularidade, a média dos actos que mais vezes repetimos da mesma forma. Nada de grave, não fosse a nossa constante necessidade de sabotarmos a memória - a nossa história - para nos justificarmos. A História (nossa ou dos outros) é uma tentativa de fazer uma pega de caras com pinças. Tarefa inglória e falhada, portanto.

Não se é, está-se. Por exemplo: neste instante estou a escrever uma crónica pateta. O que não quer dizer que seja “Escritor de crónicas Patetas”, como não quer dizer que seja “Pateta”. (Sou apenas pateta.)

 

Historiador”: esta palavra, mesmo colocada no fim das crónicas, encima-as. Domina-as.

Está ali para dizer: este texto pode estar neste jornal porque este senhor sabe e sabe porque É Historiador.

E como tal tem direito a, por exemplo, num dia dizer que é preciso desrespeito em Portugal e noutro afirmar que já não há respeito nas escolas portuguesas, numa curiosa demonstração de ignorância histórica – ou, se quisermos, num ataque cerrado ao verbo “ser”.

O que interessa aqui é o verbo “ser”. Fulano pode ser historiador e não ser Historiador. Pode ser Historiador e ao escrever crónicas escrevê-las enquanto – por exemplo – calimero, benfiquista, ou cidadão incapaz de distinguir factos da sua própria necessidade de amargar o mundo (para o tornar mais compatível com o grau de acidez do seu sangue).

Há nesse “Historiador” uma desnecessária tentativa de legitimação dos textos – como se estes apenas fossem válidos porque os sujeitos que as escrevem são legítimos portadores do saber.

Não ocorre aos senhores dos jornais – e aos leitores – que, imaginemos, um Historiador possa não ser um bom intérprete da mundanidade diária, que, imaginemos, um Historiador, fora do seu lento processo de interpretação da História, tenda a narcisar o mundo ao ponto de o tornar irreconhecível.



Devíamos retirar aquele “Historiador” que paira sobre os textos como um dedo divino acusador da nossa ignorância.

Porque um homem pode erudito e não ser inteligente. E um homem pode ser inteligente e não ser erudito. Um bom teórico pode não ser um criativo talentoso e um talentoso criativo pode não ser um bom teórico.

Exemplo: sabemos como Pacheco Pereira é óptimo a fazer retratos da nossa época, usando para tal os recursos do academismo. Mas isso não impede que outros, sem formação académica, não possam ser bons retratistas. Dou como exemplo um genial autodidacta - que me recorda imenso, na capacidade retratista, Pacheco Pereira:

 

publicado por João Bonifácio às 20:32
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Sócrates c'est pas moi, c'est lui

Este governo é muito parecido com um amigo meu: nunca hesite em hesitar e depois, a cada vez que toma uma decisão abrupta, é posto em causa pelos que o rodeiam - e entre o espantado com o desaire e a vontade de não causar incómodo, lá admite que foi “excessivo” e que vai fazer uma “correcção”.

 

O meu amigo tem 32 anos de prática nisto, por isso pode dar um conselho ao Engenheiro: não resulta.

publicado por João Bonifácio às 20:09
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Não me chamem preguiçoso


Não, não me chamem preguiçoso. A preguiça exige prazer, gozo, deleite. No máximo, tenho uma dessas coisas modernas que aparecem em documentários nocturnos de um canal qualquer do Cabo: um distúrbio da atenção. Preciso de comprimidos, não de palavras generosas. Não, não sou preguiçoso. Isso é coisa boa. Tenho é demasiadas imagens e ideias na cabeça, a maior delas sem muito sentido e consequência, para me lançar a grandes tarefas e epopeias. Demasiadas angústias e outras melancólicas medusas a banharem-se na minha cachimónia para escrever obras com a espessura (e a densidade) dos livros do Rodrigues dos Santos.

Calaceiro. Pachorrento. Calmeirão. Tudo palavras que me inspiram respeito e ternura. Gostava era de ser preguiçoso como os preguiçosos de Cossery. Altivo e superior com eles. Lento – e com orgulho na minha lentidão. Sem qualquer sentimento de culpa no bolso da frente. O preguiçoso genuíno tem a forma de uma rede de descanso – e, pecado maior para todo o participante em fóruns radiofónicos, goza com quem trabalha. Já não se vêem muitas personagens dessas nos cafés. Gente que demora o dia todo para ler uma breve. Que escrevinhava um poema ao ritmo de um verso por mês. Gente que é apanhada a olhar para anteontem enquanto a multidão enfarda bolos de arroz e folhados de salsicha. Hoje há pouca gente apanhada a olhar para anteontem. O que é uma pena.

Um mandrião. Ah, o que eu gostava era de ser um mandrião – a versão malandra e rufia do preguiçoso. Algumas das figuras que mais admiro eram mandriões. O O’Neill, por exemplo, era um mandrião. Pelo menos é a ideia que eu tenho dele - demorando-se em restaurantes e bares, enquanto não vinha o poema ou o trocadilho (se é que vinha, se é que era importante que viesse). O Mário-Henrique Leiria também – o gin tónico, mesmo sob a forma de conto, é para se ir bebendo. Invejo, invejo mesmo gente elegantemente ociosa e calaceira. Não me chamem preguiçoso. Não mereço o elogio. Sou demasiado rápido a mandar SMS’s para isso.
publicado por Nuno Costa Santos às 20:54
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Gin crónico (tomar como aperitivo)

 Quantas vezes me perguntaram «qual é o teu segredo para o extraordinário sucesso que gozas entre as mulheres?».

Bom, nenhuma, por dois factores: ausência de sucesso e, ergo, de segredo; e também porque tive de inventar qualquer coisa para dar um começo atraente ao texto, que eu não gosto que os meus leitores se distraiam enquanto me lêem.

É que é coisa que me acontece frequentemente, esta de imaginar o leitor do outro lado. Depois supero o momento e passo a imaginar a leitora, mas disso não queria falar. A classificação genérica servirá por agora, obrigado. Adiante. A verdade é que esta mini-meta- crónica  serve apenas de aperitivo ou de ameaça, conforme seja entendida. Os assuntos sérios virão no sábado, dia que a gerência simpaticamente disponibilizou para as minhas parcas acrobacias verbais. Por outro lado, precisava de mostrar serviço, dado que os meus colegas não só são talentosos como são prolixos, duas qualidades que não possuo.

Daí que recorra aos truques e cromados, com um olhar de lascívia indesmentível o líder da oposição olhou-lhe para o decote soberbo, como colocar  frases apelativas no meio do texto.

Mas não vai ser sempre assim. A melhor crónica são os dias, o que não se pode escrever, o que fica por escrever. Como tudo o que é dito ou expresso, tende inapelavelmente para o silencio, onde se pensa ou sorri ou lembra ou chora  ou contempla. Se conseguir chegar à beira desse lugar misterioso já ganhei o dia. Ou,e portanto, uma crónica. Até sábado.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:01
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008

cortar nos transportes, uma obsessão

um título vagamente a glosar a obra de thomas bernhard, aquilo do derrubar árvores e da irritação, ou então não, trate-se dos transportes por si só que isso de andar a tecer loas a austríacos é barro que mal agarra à parede, quem se atreve a reconhecer o génio numa terra de engolidores de salsichas que nem sequer são alemãs, portanto avancemos para o que aqui me traz, a minha viagem de alfa pendular descrita num ápice que me permita ainda ir enrolar umas meias para evitar ser molestado no cocoruto com um objecto caseiro não identificado, deu-se a desdita no ocaso do domingo de páscoa e da ressurreição de nosso senhor que não o sócrates, senhor eu não sou digno que entreis em minha morada mas baixai um ponto do iva e eu serei salvo. ao entardecer arrancamos, eu sentado ao lado de uma viajante que passa a jornada a desenvencilhar sudokus e a dizer à mamã que vá chatear o pai natal, isto via telemóvel, dá-se-lhes um para as mãos e transformam-se todos em alunos da carolina michaelis, jovens malcriados como o caralho que achincalham as figuras tutelares, e a rádio interna do comboio, acessível através de uns auscultadores descartáveis, que debita sem cessar o paulo gonzo e eu a pensar que o calvário e suas sevícias tinham acabado no gólgota de sexta-feira passada, afinal estende-se no domingo de aleluia sob a forma de acordes e cantarolares, o wc que é toda uma bomba de sucção capaz de eclipsar as urinas num só gorgolejo – a tecnologia sempre me impressionou – e gente que não pára com o vai-e-vem entre a 'turística' e o 'conforto', sinal de que também o politicamente correcto chegou às carruagens, já não há cidadãos de primeira e de segunda, há os que levam as patas mais à larga e os outros, mais encolhidos, de laptop no colo para entreter as horas com um filme do mel gibson, também nunca ninguém disse que memória ram a potes era garantia de bom gosto. de viés ainda baloicei até à carruagem-bar onde pude beber um café em copo de plástico, mais deslavado do que o futebol da squadra azzurra e a preços milaneses, claro. diga-se ainda que o comboio pendular, fiel como um cão de luta do vale de chelas, se atrasou meia hora. parece que faltou energia em vila nova de gaia e eu todo ufano, todo cínico, a fazer correlações com a liderança do menezes, também ele um bocado apagado, com os disjuntores todos disparados e com um electricista titubeante chamado ribau que dificilmente o ajudará a manter-se nos eixos, sem fusíveis queimados. antes o colocasse sobre carris, que o pendular pára em santa apolónia e upa, volta para cima, sempre aproveitava para voltar à sua autarquia, endividada mas mansinha, sem barões, sem cartões, sem complicações. úúúúúúúúúúhhhhh  úúúúúúúúúúhhhhh. e pouca terra. pensa nisso, luís filipe.
publicado por Pedro Vieira às 22:21
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Comunicado Oficial: Resposta de Carlos Queiroz a Scolari

Existe em Portugal um delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelas bandeiras portuguesas nas varandas de muitos, pede punição e censura. Esse delito de opinião é estar a favor da utilização de jogadores canhotos para a posição de defesa esquerdo na selecção nacional e é particularmente agravado por eu ter dito que há falta de pontas-de-lança de qualidade em Portugal. Se houvesse pelourinho na cidade, a turba lá nos levaria a mim e ao Alex Ferguson para a humilhação pública.


Essa turba olha a minha tentativa falhada de qualificar Portugal para o Mundial de 94 como se fosse a mesma coisa que as vitoriosas campanhas de Scolari no Europeu de 2004 e no Mundial de 2006. A turba tem uma visão do mundo assente num único pilar: o anti-queirozismo militante por razões puramente derivadas de os portugueses gostarem de picanha e usarem bigode como Scolari e eu não gostar da primeira e ter rapado o segundo.


Há meia dúzia de pessoas que foram contra o meu mandato na selecção e que foram capazes de apontar erros reais da actuação da selecção, em particular a minha ignorância em dirigir seres humanos do sexo masculino de idade superior a 16 anos.

Mas os interlocutores sérios são a excepção. Nesta matéria, quem faz lei ideológica são os rabo das mulatas do país de Scolari. Todos os portugueses laudam esses rabos com a linguagem, os slogans, os tiques, os excessos verbais de quem não vê boa bunda em casa e não quer mais nada que a condenação dos rabos das portuguesas. Exageram e dizem que os rabos das portuguesas são flácidos, que elas são envergonhadas e usam fatos de banho completo, reclamam que as portuguesas não usam tanga na praia. Tudo mentiras.


Não lhes interessa que eu, quando dirigi a selecção júnior não tivesse convocado Pauleta porque não compreendia açoreano, não lhes interessa que na defesa eu tivesse canastrões como Fernando Couto e na frente o João Pinto com aquele corte de cabelo medonho e que nessa altura o Deco ainda fosse um menino e ainda não houvesse mulatas em Portugal.


Relembre-se o que eu disse em 94: “É preciso limpar o lixo que há dentro da Federação”. E que fiz eu? Saí da selecção e rapei o bigode. Amamentei o Cristiano Ronaldo desde pequenino, sou eu que lhe corto o cabelo para que não acabe como o João Pinto e até cozinhei bacalhau para o Ferguson e ensinei-lhe a dizer “Caralh*” e “F*oda-se” para ele poder treinar melhor o Cris. E isto para quê? Para o Cris ser espectacular na selecção.


Mas uma coisa é criticar-me por não saber ocupar o meio-campo da Itália e outra é contestar a minha genial decisão de cortar o bigode e negar que fui eu que ensinei português ao Ferguson. Por detrás do meu bigode estava um homem que sabe o que é um canhoto, cozinha bacalhau, e sabe por exepriência própria que em Portugal não há pontas de lança ao nível de uma mulata. Mas dizer isto parece que causa escândalo. Talvez por isso o que está a acontecer na selecção desde a chegada de Scolari é mais do domínio da propaganda do que da realidade.


Por tudo isto concluo que sou espectacularmente genial e que todos os êxitos da selecção se devem a mim.


Sempre vosso,

Carlos Queiroz, cabeleireiro de Cristiano Ronaldo e (esperemos) de Miguel Veloso.

publicado por João Bonifácio às 15:36
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

O Édipo da retina

Deu-se-me um aperto no diafragma. Ou então fui vítima de um aluimento da pupila, de uma catarata semântica, não sei bem. Acontece-me muitas vezes, consoante os dias.

 

Tudo se passou quando abri as notas do novo disco dos Silver Jews, "Look Out Mountain, Look Out Sea",  e encontrei um velho provérbio Yiddish:

 

"the truth is not alive or dead

the truth is struggling to be said"

 

A primeira vez que o li perdi uma vogal. Não li o que estava lá mas o que me apareceu ou apeteceu:

 

"the truth is not alive or dead

the truth is struggling to be sad"

  

Alguma coisa aconteceu na minha infância - uma retenção córnea, um Édipo da retina - que inconscientemente me faz tresler o universo, reter o inverso, atentar nos lugares onde as pequenas falhas se acoitam.

 

 O meu ouvido, no entanto, não erra: um disco em que se canta

 

"How much fun was a lot more fun?

not much fun at all"

 

merece, mesmo sem pompa, que o anunciem em qualquer circunstância.

 

Ando a ouvi-lo há uns dias e nada mudou:  onde havia um "said" lutando por ser dito, permaneceu um "sad" resignado a "not much fun at all".

Com um aperto, em "repeat mode", não sei bem onde.

publicado por João Bonifácio às 20:28
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Vamos embora Vitórrrrrrrria

Apesar de ser Andrade dos quatro costados sempre gostei do Vitória de Setúbal. Esta fézinha vem-me do tempo em que o meu querido amigo Tavares da Cruz (um dos melhores jogadores juniores de sempre do Vitória) me levava com o filho, e meu amigo de sempre, ao Bonfim. Uma sandes de choco frito e um Sumol de ananás e lá íamos para o nosso lugar nos cativos. Atrás de nós estava sempre uma sra que passava o jogo inteiro a berrar o lema de sempre, “Vamos embora Vitórrria”, naquele sotaque cantado e com os erres bem arranhados.

Vi lá grandes jogadores: Mirobaldo, Caíca, Sobrinho, Octávio, Duda, José Maria, Carriço, Vitor Baptista, Vitor Madeira, Aparício, Joaquim Torres, Hélio, Diamantino e tantos outros.

Jogos, jamais esquecerei dois. O primeiro, um Vitória- FC Porto que terminou 4-4, era o Vitória treinado pelo Malcom Allisson e alinhou nesse dia com 5 pontas de lança: Jordão, Manuel Fernandes, José Rafael, Vitor Madeira (jogador mítico para os sócios do Vitória) e o grande Aparício. O que valeu ao Porto nesse dia foi o rato atómico Rui Barros.

O outro foi no campo do Estrela da Amadora, estava o Vitória na segunda divisão. Os sócios e adeptos invadiram a Reboleira. Não se via um único adepto do Estrela e o campo estava completamente cheio. O Vitória precisava de ganhar para subir e ao intervalo estava 0 a 0. Mas o Aparício, jogador fino, ganha uma bola a meio-campo e dispara uma bala que o infeliz Melo nem teve tempo para levantar os braços. Em toda a minha vida só guardei dois bilhetes de futebol, o desse jogo e o de um, que não vi, que o meu padrinho me ofereceu, em que o Lemos marcou 4 golos ao Benfica.

 

Foi em Setúbal, diz a lenda, que o maior treinador de português de todos os tempos, José Maria Pedroto, ganhou o vício das cartas. Contavam-me os velhos sócios vitorianos que o Zé do Boné, antes dos jogos, se recusava a ir para a cama enquanto estivesse a perder, o que fazia com que raramente perdesse, já que os seus camaradas de jogatana eram vitorianos. Não devia fazer grande diferença já que Pedroto tinha uma fabulosa equipa: Jacinto João, Matine, Tomé, Carlos Cardoso, José Maria, Conceição e o miúdo genial Vitor Baptista. O Vitória atinge o segundo lugar na época de 71/72 e só porque na altura não era possível ser campeão.

Em 1976, o Vitória ainda era o terceiro clube português em palmarés internacional, tendo sido durante muito tempo o único clube português a eliminar o Liverpool e outras equipas inglesas.

 

Daqui a uns dias vou ao Bonfim, já sem o José António Tavares da Cruz que deve andar a pagar copos e sandes de choco frito a meio céu, mas com o filho José Luis ver o meu Porto e, desculpem-me os verdadeiros vitorianos, o meu Vitória. Já sei que quando a bola começar aos saltos o meu coração azul e branco não vai hesitar mas se a coisa correr mal lá estarei no Estádio Nacional a cantar o hino do salmonete.

publicado por Pedro Marques Lopes às 18:27
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Os meus problemas

Sempre me imaginei um clássico: li o cânone, uso camisas, abomino capuchos (os putos dizem "hoodies") e só tenho uma t-shirt, descontando as que uso para jogar futebol - pratico futebol e não Yoga, se fizesse Yoga tinha de comer rúcula, ir à Bica duas vezes por semana, frequentar o Monumental, saber o nome de pratos nepaleses e dizer que um  Lucien Freud é "tipo" clássico e "tipo, eu é mais vanguardas". Se fizesse Yoga teria de namorar raparigas cujo sentido ontológico da vida reside em usar ganchos nos cabelos e discutir sabrinas.

 

Não acho Bergman depressivo, amo tanto o Bairro Alto como uma cela da Trafaria, tenho tanto interesse em visitar Serralves como em pertencer à claque dos Super-Dragões, recuso-me a ler BD, consigo rir-me a ler Kafka e o único sítio fora da Europa onde ambiciono viajar é o meu sofá.

Mais : guardo secretamente a esperança de um dia nomear uma filha Beatriz só por causa do bom Dante.

Nunca usei a palavra "bué" e se desse por mim a dizer "Yah" passava-me imediatamente uma certidão de óbito, que o jazigo de família parece-me lugar confortável e aprumado.

 

E nunca tive 13 anos, nem a acne dos 13 anos nem os 13 anos.

 

Mas quando um tipo nota que já não vai à socapa ao clube de vídeo e dá por si de madrugada a descarregar pornografia do teenies.com num laptop de rato clitoriano tem de admitir irremediavelmente que é um pós-moderno.

Um dia destes ainda me vêem de calças elásticas a fazer, todo pro-activo,  fado-step num ginásio.

publicado por João Bonifácio às 01:10
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you should have met me in the eighties para veres o que era doce

a nostalgia foi-se instalando de forma difusa, subreptícia, a marcar pontos a par com o vocábulo retro, que nos bons velhos tempos soaria a paneleiragem e agora soa a vintage, roupas medonhas passam a fashion, canções olimpicamente foleiras passam a ser de culto, e foi através delas, das músicas injectadas em festas mais ou menos particulares que os oitentas voltaram ao nosso convívio, ou eighties, que soa mais retro e mais estrangeiro, mais bryan adams, que por acaso andou por cá na semana passada, menos carlos paião que segundo rezam as crónicas tem andado muito pouco. concedo, é uma vertigem tentadora, eu próprio gosto da samantha fox, ou pelo menos da imagem que guardo dela. ou do par de imagens que guardo dela, para ser mais exacto. mas agora, graças à saturação em que o maravilhoso mundo da publicidade é especialista já começo a bufar com tanto revivalismo, são os trabalhadores do comércio na campanha mais anacrónica de que há memória desde o e lá em casa ri-te, ri-te, tudo é indesit, a canção inane da maria armanda, la fontaine para bimbos do garrafão, a acarinhar o medonho sapo da pt que tem a amabilidade de albergar o sinusite crónica [veja-se como até simpatizo com o bicho, mesmo que por conveniência]. temos também as favas com chouriço do josé cid, zarolho homofóbico portador de capachinho que sofreu um bestial lifting de boa imprensa ou ainda o engenheiro sousa veloso a dar o aval aos sumos da compal, que, vá lá, já não são vendidos nas casas de pasto – agora espaços lounge com decoração retro, claro – em latas inox de abertura mais ou menos fácil, ou  abertura aos repelões, vá, munidas de uma tampa de elipsoidal mais aguçada do que uma espada do kill bill, outro tomo em dois actos convenientemente retro, com o david carradine, que só por acaso não anda a fazer campanhas da fagor ou do milennium bcp caminhando em direcção ao sol com uma mochila do sport billy. reparem. temperar umas conversas de amigos ou umas sessões de pé de dança com as idiossincrasias dos anos oitenta tem o seu potencial de diversão, e aqui introduzo o conceito de homeopático, vocábulo galhardo que assenta tão bem na minha escrita como um dente de ouro na cremalheira de uma criança romena. dizia, use-se o revivalismo em doses pequenas, com parcimónia, outro vocábulo com aquelas características tal e tal que não reproduzo por pavor à repetição e às acusações de xenofobia. mas encharcar o prime de time de publicidade [o que já acontecia] ainda por cima alicerçada no imaginário pré-CEE [infestação nova] já cansa. aliás, comer sortido rico de contrabando, mudar do canal 1 para o 2 e vice-versa ou fazer lobby na mercearia para garantir um pacote de leite do dia tinha uma graça do caralho. ui, como a saudade aperta.
publicado por Pedro Vieira às 00:02
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