Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

Uma crise

Gosto de casamentos. São eventos atípicos. Ao contrário do quotidiano, as pessoas vestem-se a rigor com convicção; os homens fazem a barba com prazer, as senhoras calçam o seu mais desconfortável salto-alto, o conservador exibe a sua gravata cor-de-rosa e os chapéus ganham o direito à existência, ainda que por breves momentos.

 

Se a tradição se cumprir, o pai da noiva abrirá os cordões à bolsa e seremos todos contemplados com um banquete que esmagará a contenção a que os corpos de Botero se sacrificaram, em vão, desde a última Páscoa. E depois... ah, depois, o baile, a danceteria antológica, do Elvis ao Mambo #5. Pezinhos de dança, pesados e descompassados, gin tónicos e uísques que se vão entornando pela noite dentro, até à mesa dos queijos. Há uma loucura temporária que apanha, até, os mais precavidos.

 

Acontece que os casamentos não são só fantasia. Uma pena. A realidade dos casamentos é muito mais crua. Há todo um pensamento mercantilista nesta formalização da conjugalidade. Há uma tradição de interesses economicistas, uma espécie de hidden agenda. Os noivos iniciam aqui a sua relação pragmática com o mundo. O casamento é o seu primeiro negócio comum. Nada contra. Porém, não sou um bom cliente.

 

Entrei numa fase difícil da vida. O meu tempo das vacas gordas também conheceu, agora, o seu fim. Daí que não me seja fácil aceitar convites de casamento. A minha solução passa por não dar prendas, na esperança que, como amigos que são, os noivos queiram apenas a minha doce presença e estejam solidários com a minha conjuntura. É claro que não me recuso, simplesmente, a dar algo. Deixo, por norma, a promessa de, noutra altura, oferecer um objecto que marque a diferença. O dinheiro é impessoal e as listas utilitárias. Digo-o com convicção. Fico em dívida.

 

A verdade é que a notícia espalha-se depressa e começo a sentir alguma hesitação de futuros noivos em me convidarem para aquele que juram ser o dia mais importante da sua vida. Eles sabem! E como bons credores que querem ser, tenho a certeza que já baixaram o meu rating. Só vais ao casamento se garantires o pagamento da tua dívida. Contudo, já acumulei alguns sem dar prenda, pelo que, com a crise e assim, este não é o melhor momento para abater as dívidas que fui contraíndo com esta minha política obstinada.

 

Este não é ainda o meu pedido de ajuda externa. Mas, é um desabafo. Sou, com certeza, o único cidadão que leu o Ezra Pound que ainda gosta de casamentos. É a dignidade e o futuro desta cerimónia que está em causa. A ameaça do mercantilismo matrimonial - esse grave problema sistémico - não pode prevalecer.

publicado por jorge c. às 08:15
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