Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Aqui que ninguém nos ouve

 

Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

 

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

 

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

 

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

 

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.

publicado por Vasco Mendonça às 21:50
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Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

O folclore de Miguel Relvas e a merda em que nos quedamos

 

Nunca saberemos se o Major Valentim Loureiro estava a pensar em Miguel Relvas quando, numa conversa com Pinto da Costa, proferiu as imortais palavras “é preciso algum folclore nesta merda.” Nesse caso, o Major reagia à indignação de Pinto da Costa perante o que se passara depois de um FC Porto-Sporting . Certo é que essa reflexão regressou, anos depois de ter sido disponibilizada no Yotube por um oficial de justiça (é preciso algum folclore nesta merda), com mais pertinência do que alguma vez imagináramos. E não é que é realmente necessário algum folclore nesta merda? Prova disso é a licenciatura de Miguel Relvas, concluída através de um sistema de equivalências obtidas a partir de, entre outras experiências, importantes funções exercidas na Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários. Ao que parece, a possibilidade está prevista na lei. É que, sabem, é preciso algum folclore nesta merda.

 

Mas atentemos na complexidade premonitória, cultural e escatológica da afirmação do Major. Eu não sou nenhum Foucault e e nunca assisti a uma aula de semiótica (deram-me equivalência por cargos exercidos na Associação Ludoterapêutica dos Pátios Universitários), mas permitam-me arriscar uma interpretação.

 

"É preciso”.

 

Já todos teremos usado esta expressão e estamos conscientes do seu profundo enraizamento na sociedade portuguesa. “É preciso” remete-nos para uma vasta panóplia de temas e contextos em que algo é necessário. É preciso conversar, é preciso ver isso, é preciso ter calma, é preciso pensar no assunto. Ocasionalmente, dá-se o caso de ser preciso fazer, mas antes será preciso marcar uma reunião, criar um grupo de trabalho, e, em última instância, ver se é preciso mais alguma coisa. O resto logo se vê.

 

“É preciso algum”

 

É preciso, sim, mas vamos com calma. Para todos aqueles que conhecem a personalidade político-feirante de Valentim Loureiro, há em “é preciso algum” um tom de moderação que não deixa de causar perplexidade. Ao mesmo tempo, parece honrar a matriz fundadora do partido que o viu nascer. Sá Carneiro ficaria orgulhoso, se esta frase não tivesse mais umas palavras a seguir.

 

“É preciso algum folclore”

 

Já sei o que estão a pensar. É aqui que a coisa começa a descambar. Enganam-se! É precisamente no folclore que o país se une em torno de uma ideologia, uma forma de estar, ou uns quantos créditos ECTS. Das festas de Agosto ao sistema político-partidário português, passando pela formação académica de Miguel Relvas, há algo que não podemos negar: é preciso algum folclore. Por um lado, porque ninguém quer demasiado folclore. O que seria! Um país perpetuamente em estado de folclore, que aqui serve como sinónimo de sítio. Por outro lado, sentimo-nos incompletos – cultural, existencial e academicamente – sempre que o folclore escasseia. O folclore é, pois, o princípio unificador deste país, um consenso alargado entre organizações de festas, líderes de governo e conselhos científicos.

 

“É preciso algum folclore nesta merda”

 

Só assim, com este remate, pôde o Major ascender à galeria dos Eças e Herculanos, para citar hoje e sempre. Obrigado, Major. Há de facto um folclore que nos une, do qual precisamos, um folclore que informa o nosso carácter e o curriculum vitae, mas é na merda que nos quedamos. Uns de nós porque estão na merda, no sentido indigente da expressão, outros porque votaram na dita merda, alguns porque comem merda às colheres, e finalmente uns quantos predestinados que são a própria merda, a espécie de merda que dança folclore como ninguém. Até porque a possibilidade está prevista na lei. Infelizmente para o país.

publicado por Vasco Mendonça às 12:55
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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Sal da terra, luz do mundo

Há aproximadamente 18 anos atrás, um primo mais velho emprestou-me um objecto esculpido a partir de polipropileno e surlyn, duas coisas que devem fazer mal ao meio ambiente, mas que tornam o planeta um sítio melhor. Era uma prancha e estava num estado lastimável. Azul no deck, branca no slick, e receio que podre por dentro. Foi a minha primeira prancha e o meu primo nunca mais a pediu de volta. Este texto é uma espécie de agradecimento, se me estiver a ler. Ele provavelmente já não se lembra, mas patrocinou um dos acontecimentos da minha vida. Que nunca mais foi exactamente igual. Os meus pais não andavam com vagar para oferecer pranchas naquela altura, portanto qualquer gesto de caridade era bem vindo. Nessa altura, aceitei com normalidade o facto de a prancha absorver imensa água. Haveria de secar, tal como o fato de surf que ainda não tinha, do qual ainda não precisava. Umas ondinhas no Verão eram quanto bastava para me encher as medidas. Até àquele dia de Agosto, em plena praia do Vau. Entrou uma daquelas ondulações divinas que abençoam a costa algarvia a cada três quinze dias e lá fui eu. O mar devia rondar o metro nos sets, mas eu hei-de continuar a contar a história como se tivesse estado em Teahupoo com o Raimana. Permaneci dentro de água das 14 às 20 horas, altura em que os meus pais me obrigaram a sair da água. Só tinha uma licra vestida e não ofereceu grande protecção. Saí de lá com a barriga completamente assada e feliz. Essas 6 horas continuam a ser a minha melhor marca pessoal, aliás, nem sei explicar como é que aguentei lá tanto tempo. Só sei que de cada vez que me pediram para sair da água, eu pedi para apanhar mais uma onda. Os meus pais devem ter percebido que estava a acontecer qualquer coisa importante. Por esta altura, já tinha desistido de 2 ou 3 desportos federados e manter-me 6 horas preso a uma actividade era praticamente impossível.

 

Depois vieram a Mach 7-7 e o fato da Hot Buttered, ambos usados, enrugados e perfeitos. Estava pronto para o Inverno. No dia em que me preparava para estrear este material, o meu pai levou-me a mim e a mais dois amigos a Carcavelos. Chegámos lá e estava torto, gigante e impossível para um talento do meu calibre. Tínhamos visto ondas em Santo Amaro, mas não as tínhamos avaliado correctamente, pelo que pedi ao meu pai para dar meia volta e parar o carro junto dos surfistas todos. Cá fora, o Marcos Anastácio e o Rodrigo Herédia eram todos eles sorrisos e preparavam-se para entrar. Havia ainda bodyboarders como o Nuno Neto, rei do drop knee nacional, o Nuno Leão, e o Duda Leandro, tudo gajos que eu me habituara a ver na televisão, na Bodyboard Portugal, e que idolatrava. Entretanto veio o set. Vi tanta gente bem disposta e entusiasmada à minha volta que pensei logo em vestir o fato e fazer a minha estreia invernal ali. Ao que se seguiu um rude despertar. O Dapin apanhou uma onda que me pareceu e ainda hoje me parece enorme e destruiu aquilo como se não houvesse amanhã. A segunda do set parecia ainda maior e já tinha dono. Não sei se era o Miguel Ruivo mas o cutback que ele fez a sair do tubo ainda hoje me parece dele. Mais tarde veria fotografias que me pareceram ser desse dia numa edição da SurfMagazine que há-de estar num caixote na garagem do meu pai. Estas memórias meio fotográficas devem-se às cassetes vhs em que gravava toda e qualquer edição do Portugal Radical (olá Raquel Prates, olá Rita Seguro, olá Maria Borges, muáááá). Do WQS em Pantin ao EPSA em Tapia, passando pelos freesurfs em Carcavelos, nos Coxos ou no Havai, estas imagens nunca mais me abandonaram nem vão abandonar, enquanto este cérebro funcionar sem soluços. Ainda hoje recordo tubos do Tiago Oliveira e do Miguel Fortes como se tivessem acontecido ontem (provavelmente aconteceram, se os Coxos estiverem a dar).

 

Entretanto aconteceu mais uma tonelada de coisas e não dá para contar aqui tudo, até porque ia ser mais do mesmo e vos ia aborrecer de morte (mais pranchas, mais fatos, mais dias de ondas grandes em que fiquei cá fora, a descoberta da existência de ondas para além de Carcavelos, e assim por diante). As coisas que contei, e as que ficam por contar, fizeram com que 18 anos depois esta coisa do surf ou do bodyboard ou do skimming ou das carreirinhas, é-me completamente indiferente qual, com que esta coisa das ondas mexa comigo de uma forma muito diferente do resto. Mexe comigo e com muita gente que conheci ao longo dos anos, cujas aventuras no mar passaram a epopeias em terra. A malta que eu refiro nesta curta história, dos bodyboarders da altura aos surfistas célebres que ainda hoje dominam os melhores line-ups (aproveito para juntar skimmers que vi competir na ilha de Faro ou atletas que competiram no nacional de kneeboard em ìlhavo, um abraço a todos se me estiverem a ler), eles não me conhecem de lado nenhum, mas foram os heróis da minha adolescência e alguns deles ainda são (vejam um cutback do Miguel Fortes nos Coxos, ou melhor, vejam cem cutbacks desses, e digam-me que aquilo não é uma coisa especial). Foi a partir das proezas nada sobrehumanas destas pessoas todas, de os ver dentro de água e querer fazer um bocadinho melhor ou apanhar uma onda ligeiramente maior, que eu próprio juntei alguns dias de ondas inesquecíveis às minhas memórias e convenci o meu pai durante alguns anos, até eu ter carro, a ir buscar-me a Carcavelos às seis e meia, sete da tarde, fizesse chuva ou fizesse sol. E, bom, posso não perceber puto de cinematografia nem ter uma câmara de filmar, mas os filmes gravados na minha memória já ninguém mos tira. Sou um amador feliz. É por isso que, na semana em que Lisboa recebe o seu primeiro festival de cinema de surf (não percam isto), vou comparar as minhas imagens às de muitos outros que, felizmente, continuam a fazer justiça às epopeias reais e imaginadas de todos os que, de uma forma ou de outra, se apaixonaram pelas ondas para sempre.

publicado por Vasco Mendonça às 11:33
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Ai se eu te pego


António Lobo Antunes disse há uns anos atrás que um tipo se torna escritor quando o seu domínio da escrita coincide com uma experiência de vida da qual este consegue verter uma história digna de ser contada. Esquecendo por momentos que essa opinião faz de mim um analfabeto sem nada para dizer, reconfortado por saber que Lobo Antunes não nos está a ver, vou traçar um paralelismo arriscado e dizer que acontece algo parecido com a beleza feminina. 

Pode falar que eu não ligo,
Agora, amigo,
Eu tô em outra,
Eu tô ficando velha,
Eu tô ficando louca.

Nestas coisas, convém sempre ter a certeza. Por isso, a primeira coisa que fiz antes de escrever sobre mulheres a propósito de Mallu Magalhães foi, até por questões legais, certificar-me de que ela já é mulher. A Wikipedia diz que Mallu nasceu em 1992, e só assim me foi possível escrever este texto. Conheço-a há alguns anos, desde que me foi apresentada como a suposta (e polémica) namorada de 16 anos de Marcelo Camelo, membro dos para mim veneráveis Los Hermanos e autor de um par de belos discos a solo. Mas isso agora não interessa para nada. O que eu quero dizer hoje é que, ainda mais importante do que descobrir Mallu Magalhães, a diva instantânea do vídeo acima, é redescobri-la enquanto mulher. Passo a explicar.


Em cima, à direita, vemos Mallu Magalhães, prestes a terminar o 11º ano. O tipo ao lado dela é o tal Camelo, uma espécie de deus da presciência que, contra todas as evidências, antecipou a transformação que a vida e as canções - ou, se quisermos ser justos/má onda, o marketing - operariam na pequena Mallu. Pois é. Se Mallu menina era amorosa, a mulher é uma ode a esse momento surpreendente e estonteante em que o domínio dos quadris coincide com um olhar digno de ser lançado ao mundo. 


Claro que sim. Eu espero um bocadinho. Perplexem-se à vontade, eu já cá volto.


Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom vermelho,
Eu tenho tido a alegria como dom
Em cada canto eu vejo o lado bom.

Pode falar qu'eu nem ligo,
Agora eu sigo
O meu nariz,
Respiro fundo e canto
Mesmo que um tanto rouca.



E pronto. Isto é o que eu tenho para dizer hoje. Não lhe tirem o riso frouxo, que hoje ela passou batom vermelho. Podem não concordar com Mallu, mas não a censurem por seguir o seu nariz. Ou por se pavonear graciosamente na plenitude do momento surpreendente e estonteante em que o domínio dos quadris e um olhar digno de ser lançado ao mundo coincidem como se o CERN tivesse posto o acelerador de partículas a funcionar. É uma coincidência luminosa, ou nefasta, a de uma mulher plena de faculdades literárias. Como ambos somos maiores de idade, achei que valia a pena registar o facto.

publicado por Vasco Mendonça às 16:39
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

Uma zona de conforto à beira mar plantada

Acho que foi Ary dos Santos quem um dia disse que a palavra é uma arma, o que faz do actual governo um pelotão de fuzilamento. Segundo a Wikipedia, “um pelotão de fuzilamento é composto por um grupo de pessoas (geralmente soldados) que recebem ordens para disparar em simultâneo contra a pessoa condenada.” Quem diz soldados, diz ministros, secretários de estado ou deputados.

 

A estratégia motivacional deste governo iniciou-se há algumas semanas atrás quando Alexandre Mestre, secretário de estado do Desporto, sugeriu aos concidadãos desempregados que abandonassem  a sua zona de conforto e emigrassem. Não foi por acaso que o primeiro repto lançado aos portugueses para se pôrem na alheta veio de uma pessoa cuja principal função no governo é ocupar lugares reservados em estádios de futebol e ir buscar atletas medalhados ao aeroporto. Se atentarmos no valor da sua declaração, e a isso juntarmos as funções que desempenha, verificamos que Alexandre Mestre está para o trabalho governamental um pouco como Jorge Máximo está para o terminal de chegadas em Lisboa ou para o Estádio da Luz.

 

O abandono da zona de conforto evocado por Alexandre Mestre esbarra num detalhe tão pequeno que até parece picuinhas da minha parte mencioná-lo, mas cá vai: para boa parte dos portugueses, não existe. Portanto, quando alguém sugere a 700 mil desempregados que abandonem a sua zona de conforto, é importante verificar alguns pressupostos. Primeiro, convém certificar-se de que os destinatários da mensagem residem nesse código postal onde tudo é seguro e adquirido. Como isso não será possível, terá que induzir todas estas pessoas num transe qualquer e convencê-las a abandonar o sítio imaginário onde vivem. Em seguida, deverá ligar para todos os aeroportos e estações de comboios e pedir um reforço de pessoal. Como em todos os processos de escoamento de stock, há uma importante dimensão logística que é preciso ter em conta.  

 

Poderia parecer que estou a dar demasiada importância às palavras de Alexandre Mestre, não tivessem estas ganho alguns seguidores ilustres. O Primeiro Ministro, já esta semana, mostrou afinal de contas porque é o candidato mais africano de todos e recomendou os PALOPs como futuro destino de dezenas de milhares de professores - isto se os ditos professores não quiserem mudar de área. Todos os que estiverem dispostos a enveredar por outra carreira - e imediatamente perceberem que tal só será possível na secção de frescos do Pingo Doce – poderão seguir o conselho sábio de Alexandre Mestre, que tem a vantagem de alargar as possibilidades para além dos PALOPs. O mundo é uma ostra, amigos, e os nossos antepassados foram grandes descobridores, como oportunamente referiu o historiador Miguel Relvas.

 

Mas não se pense que isto são só umas bocas mandadas para o ar sem qualquer tipo de consideração pelos portugueses. Não senhor. O eurodeputado Paulo Rangel já veio a público para transformar a sugestão em visão estratégica, sugerindo a criação de uma agência de apoio à emigração. Parece-me uma ideia interessante, especialmente se fizer pelos portugueses aquilo que o PSD fez por Paulo Rangel, obrigando o advogado nortenho a abandonar a sua zona de conforto para viver em Bruxelas e representar os nossos interesses (vá lá, não se riam). Moral da história: portugueses e portuguesas, amigos e amigas, malta, sócio, já percebeste: eras o maior se nos fizesses o favor de abandonar a zona de conforto. Ou desconforto. Epá, o que te soar melhor. Desde que te ponhas a andar, até lhe podes chamar Portugal.

publicado por Vasco Mendonça às 13:34
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

A fuga de cérebros e a retenção da mediocridade: breve história de um país ocupado clandestinamente

Os ingleses gostam de dizer que a “cream always rises to the top.” Em Portugal, acontece o mesmo com a mediocridade. Para onde quer que olhemos, nos jornais, na rádio, na televisão, nos blogues, no balcão deste e daquele organismo público, nos centros de decisão e nas periferias de indecisão, no epicentro da burocracia ou nas réplicas da incompetência. Enfim, a cultura de mediocridade é hoje um traço característico do país. Isto torna-se óbvio quando percebemos que a maioria das pessoas com notoriedade, autoridade ou influência no espaço público são indivíduos que, ou não nos representam, ou não sabemos muito bem como ali chegaram. Mais cedo ou mais tarde, perguntaremos porque é que continuam ali.

 

Da opinião à comédia, passando pela política, pela cultura ou pelo folclore da fama, a mediocridade lusa continua a prevalecer sobre a meritocracia como se a sobrevivência da nação dependesse disso. É ao contrário, malta. Se o saber não ocupa lugar, a mediocridade portuguesa ocupa demasiados. Como costuma desabafar um amigo meu quando recebe cartas das Finanças: MORRAM. A sério. Desapareçam-me da vista. Desamparem a loja. Inexistam.

 

Eu tenho um sonho: que por cada holofote indevidamente apontado, possamos todos em breve contabilizar um cadáver mediático. A causa da morte, já perceberam, será a mediocridade. Imbuídos de boa vontade - demasiada - fizemos tudo o que podíamos para manter o paciente vivo: mudámos para o canal, votámos nele, subscrevemos a sua opinião, cantarolámos as suas músicas, e visitámos a sua exposição. Até que um dia, para bem dos nossos neurónios, deixámos de o fazer. E passámos a perguntar: quem é esta gente? No processo, tornámo-nos todos um bocadinho melhores. Sempre que alguém me fala da fuga dos cérebros, ou da retenção do talento, eu questiono-me: quantos talentos, ao invés de fugirem, não estarão simplesmente a evaporar-se, esvaziados por uma mediocridade reinante, orgulhosa e estacionada?

 

Pedem-me alegria de viver perante a adversidade; desafiam-me a ser empreendedor com a insistência do mais insuportável vendedor. Eu peço de volta: dêem-me um país com menos gente que ninguém quer ser quando for grande. Façam-me acreditar que vivo numa cidade com menos okupas: sim, porque a verdadeira ocupação clandestina vai muito para além do prédio devoluto. Encontramo-la na televisão, no parlamento, nas empresas, e onde mais vos ocorrer. É importante, senão vital, que o escrutínio público viva cada vez mais desta convicção. O inferno são os outros, mas parte do cancro somos nós.

publicado por Vasco Mendonça às 12:28
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Poemas de Shawn Corey Carter por Jay-Z

Nunca ninguém me perguntou porque é que gosto tanto de hip-hop. Ainda bem. Há quem ache que é uma pancada, houve quem achasse que era uma fase, e há meia dúzia de pessoas com quem partilho a afinidade. Mas se tiver que explicar porquê, sou capaz de me defender com os versos do Jay-Z da mesma maneira que um gótico justificará a cor de eleição com alusões a Baudelaire ou Rimbaud. Tanto eu como o gótico arriscamos fazer figuras tristes (mais o gótico) em nome de um universo que tem tanto de simbólico, figurado e caricatural como de sério e culturalmente relevante. Vamos a isso, então. 

 

A poesia é todo um compêndio de cabecinhas ruminantes e imaginativas acerca de problemas, da ausência deles, dos problemas dos outros, de coisas vazias, de coisas entupidas de significado, do que se passa ou do facto de não se passar nada. Às vezes é tudo isto ao mesmo tempo, como o comprovará uma pesquisa no Google por teses de doutoramento dedicadas à presença do não-metafísico na dimensão material da obra de João Cabral de Melo Neto. Se estiverem prestes a desistir deste texto, pensem antes numa daquelas séries televisivas que descrevemos como sendo "multi-camadas". Exigem um segundo, um terceiro, e um quarto visionamento. E as recompensas lá vão chegando, reforçando o nosso dom para o auto-elogio contido. Com Jay-Z, e o hip hop em geral, acontece um pouco a mesma coisa. Se aquilo - a música de pretos - nos bater à primeira, e se prestarem atenção às palavras, vamos descobrir um novo idioma, que pode ou não ser exclusivo do rapper. Pode também ser um idioma absolutamente idiota. Ou pode ser um idioma indecifrável que pura e simplesmente soa bem. Quem nunca citou Herberto Helder por causa das suas qualidades telúricas, que atire a primeira pedra. Qualidades telúricas são algo que o leitor encontra sempre que um escritor faz alusões a coisas próximas dos nossos pés, mas não as escreve por forma a podermos interpretá-las honestamente por aquilo que são: um vestígio ecoante de nada. Ah, e filisteu é o tipo que diz estas merdas.

 

Mas bom, estas coisas também acontecem no hip hop. Umas são mais divertidas do que outras. A poesia de Jay-Z, quando lá chegarmos e falarmos a mesma língua que ele, é surpreendentemente reconfortante e próxima do comum mortal. Se tivermos sido toxicodependentes, vamos desejar ter comprado droga a um tipo tão porreiro. Se formos desbocados na forma como verbalizamos sentimentos em relação às pessoas e ao mundo em geral, vamos encontrar alguém com um nível idêntico de bazófia. Se formos milionários, vamos descobrir que bebemos o mesmo champanhe ou que somos vizinhos no Lago Como. Finalmente, se gostarmos de banda desenhada, vamos descobrir um novo super-herói preto. Em todas estas narrativas há uma grandiloquência algo embaraçante e desligada do modelo de Estado-Providência no Sul da Europa (RIP), mas existe também uma micro-narrativa que é a nossa, por muito distantes que estejamos da vivência do poeta. E estamos. Aliás, como qualquer poeta proprietário de um Maybach que se preze, Jay-Z praticamente não fala de ninguém a não ser de si. Mas há momentos absolutamente gloriosos na narrativa egocêntrica de Shawn Carter que importa destacar e incorporar modestamente na nossa própria história. Seguem-se três deles.

 

If your having girl problems I feel bad for you son
I got 99 problems but a bitch ain't one

I got the rap patrol on the gat patrol

Foes that wanna make sure my casket's closed
Rap critics that say he's "Money Cash Hoes"
I'm from the hood stupid what type of facts are those
If you grew up with holes in your zapitos
You'd celebrate the minute you was having doe
I'm like fuck critics you can kiss my whole asshole
If you don't like my lyrics you can press fast forward

 

Jay-Z é um homem que tem 99 problemas. As mulheres não são um deles. É mais ou menos o oposto de Rui Pires Cabral, que tem 99 problemas e todos eles parecem estar relacionados com amores. Nestes 10 versos, Jay-Z lamenta os problemas amorosos de Rui Pires Cabral e desde logo esclarece que não padece do mesmo mal, resgatando o ouvinte do habitual mergulho num poço sem fundo. Os 8 versos seguintes são metáfora do ghetto atrás de metáfora do ghetto, mais fáceis de compreender se soubermos que gat é uma pistola, foes são os inimigos, money cash hoes é o rótulo a que colam qualquer preto bem sucedido no rap norte-americano, hood é o sítio onde o preto viveu, e whole asshole é a totalidade do ânus de quem discordar do Jay-Z. Quem não gostar, diz-nos, pode passar à frente. 

 

Showed love to you niggas
You ripped out my heart and you stepped on it
I picked up the pieces
Before you swept on it
God damn this shit leaves a mess don't it
Shit feelin' like death don't it
Charge it to the game
Whatever's left on it
I spent about a minute
Maybe less on it
Fly pelican fly
Turn the jets on it
But first I shall digress on it
Wasn't I a good king?

[Kanye West]
Maybe too much of a good thing, huh?

[Jay-Z]
Didn't I spoil you?
Me or the money, what you loyal to?

[Kanye West]
Huh, I gave you my loyalty

[Jay-Z]
Made you Royalty and royalties

[Kanye West]
Took care of these niggas lawyer fees

[Jay-Z]
And this is how niggas rewardin' me

[Kanye West & Jay-Z]
Damn

 

A poesia é métrica. É, de facto, mas essa métrica é também oralidade. Agora peçam a José Tolentino Mendonça, muito honestamente, um dos meus poetas preferidos a seguir a Jay-Z, Notorious B.I.G. e Ghostface Killah, para recitar um poema que acabou de escrever. É possível que o senhor trema como se estivesse a dar a primeira missa na Igreja de Santa Isabel. A grande diferença entre Tolentino e Jay é que este último não deverá vir a editar um "Poemas de Jay Z por Luís Miguel Cintra". É o homem que escreve e é ele que vai cuspir aquilo a seguir. Digo cuspir porque os rappers descrevem o acto de recitarem os seus poemas como "spit verses", uma imagem forte cuja origem desconheço, mas suspeito não se encontrar na época vitoriana. O que acontece nesta faixa de colaboração entre Kanye West e Hova (alcunha de Jay-Z, somos amigos) atinge proporções épicas a partir do minuto e quarenta e seis segundos. Os versos falam dos traidores a quem Hova pagou os charros, as garrafas de Cristal e as custas judiciais durante anos (toda a gente tem um familiar assim). Mas a forma como Kanye completa os pensamentos de Jay-Z e a coisa evolui a partir daí para a tríade loyalty-royalty-royalties é toda uma masterclass de poesia. 

 

I got this Spanish chica, she don't like me to roam
So she call me cabron plus marricon
Said she likes to cook rice so she likes me home
I'm like, "Un momento" - mami, slow up your tempo
I got this black chick, she don't know how to act
Always talkin out her neck, makin her fingers snap
She like, "Listen Jigga Man, I don't care if you rap
You better - R-E-S-P-E-C-T me"
I got this French chick that love to french kiss
She thinks she's Bo Derek, wear her hair in a twist
My, cherie amor, t£ est belle
Merci, you fine as fuck but you givin me hell
I got this indian squaw the day that I met her
Asked her what tribe she with, red dot or feather
She said all you need to know is I'm not a ho
And to get with me you better be Chief Lots-a-Dough
Now that's Spanish chick, French chick, indian and black
That's fried chicken, curry chicken, damn I'm gettin fat
Arroz con pollo, french fries and crepe
An appetitite for destruction but I scrape the plate
I love
Girls, girls, girls 

  

Jay-Z editou o tema "Girls Girls Girls" numa fase da vida em que ainda não adormecia ao lado de Beyoncé, o que ajuda a compreender a paleta cultural e amorosa aqui exposta. Não será o seu melhor poema, mas é um dos mais divertidos. E alarga-nos as vistas. Num país como o nosso, onde o marialvismo tem Rodrigo Moita de Deus e Victor Espadinha como representantes credíveis, o sexismo mundividente demonstrado por Jay-Z assume um tom inspiracional que, se estivermos dispostos a ouvir com atenção, fará de nós o João Garcia da discoteca mais próxima, em Lisboa, Miami ou Lloret Del Mar. Basta abrirmos o coração e aceitarmos as palavras de um poeta maior.

publicado por Vasco Mendonça às 23:46
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Sábado, 5 de Novembro de 2011

Uma Carta de Amor a Angela Merkel

 

Dear Angela,

 

As i write this letter, the weather outside is an accurate reflexion of our lingering, yet tumultuous affair. Strong wind gusts, torrential rains and ironic flashes of sunny disposition are taking turns at me, eroding the remnants of hope throughout a chilly morning in the western tip of what once we called home.

 

Tell me: was it ever really home? Proverbial constraints should refrain myself from calling it that, since home, i now understand, was never where our heart was in the first place. How such a story of common feelings and ideals, how such a seemingly purposeful mission left me feeling so stranded, so deceived, is something i'm still coming to terms with. 

 

Sure, life teaches you to learn from the wrongs. But it doesn't necessarily equips us to face the unforessen. Or maybe i chose to ignore the signs that preceded you, telling me not to be naive, subtle foretellings that, had i known better, would have made me ignore apparent emotional ties - for my own good. And maybe, just maybe, it's all on me, and this is but a foolish attempt at reconciling with myself. 

 

I've seen selfishness many times before, but i'd never felt so wounded by it. For you, my dear, what now follows is an exciting path of discovery. I know my Angela: you're a strong woman. Karmic balances will leave you scratchless, your ideals untarnished, your longing a remote outtake of our story. And you sure as hell know me: my path will now become a painful descent into myself. Somehow, it's like you always felt prepared to live without me. 

Without me pondering, for once, on the same thought.

 

I still remember what you told me in 2007, during our amorous summit in Lisbon. We jokingly called it summit, but it was so much more than that. You told me of reassurance, of unbreakable vows, you asserted a willingness to fight for us, no matter what. You told it like few others before, with the sheer intensity of things purported to be taken seriousy. 

 

The long run proved me wrong. It could have been different, Angela. It could still be. You should have fought harder for us. Ironically enough, you're the one i always saw as unwilling to give up without a fight. Only this fight is breaking us loose. 

 

Still, i wonder if, in this precise moment, you feel yourself hesitating back towards us. Even if such a sunny disposition soon shifts into wind gusts and torrential rains. You could have let me down easy. Much easier than this.

publicado por Vasco Mendonça às 13:32
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

E se o Governo fosse uma equipa de futebol?

Comecemos então.

 

 

Pedro Passos Coelho – Roberto

 

Começamos com o Primeiro Ministro e um guarda-redes cujo melhor elogio recebido em Portugal foi o de jogar bem com os pés. Pedro Passos Coelho é o Roberto deste plantel: o PM quer acreditar que os milhões de votos que deram por ele são de gente que ainda confia na sua governação; acredita que o mérito do seu trabalho acabará por vir ao de cima, mas até agora notabilizou-se por ir buscar bolas ao fundo da baliza. Acredita que a economia vai crescer 3,5% ao ano, acredita que Portugal não é a Grécia, sabe de fonte segura que as agências de rating vão cair na realidade, assegura que o Pai Natal parte da Lapónia todos os anos, e provavelmente espera que os seus três caniches vivam para sempre.

 

 

Vítor Gaspar – Xavi Hernandez

 

O Ministro das Finanças é o elemento mais cerebral do actual Governo, e aquele que pauta naturalmente o jogo de toda a equipa. Xavi Hernandez, seu paralelo futebolístico, é o pai do tiki-taka, um modelo de jogo que enerva o adversário e acaba por adormecê-lo através de uma eficaz circulação de bola, seguida de movimentos de ruptura absolutamente letais. Já Vítor Gaspar é adepto do hara kiri, um estilo de suicídio que fará deste governo o pior da história da democracia portuguesa.

 

 

Paulo Portas – Freddy Adu

 

Depois de umas habilidades num futebol de outro campeonato, Freddy Adu deu por si em apuros quando o hype sem fundamento o levou a pisar alguns dos relvados mais importantes da Europa, e outros menos honrosos. Com o fim da viagem, viria também o reconhecimento da inaptidão e o retorno do pequeno trota-mundos a casa. Infelizmente para os portugueses, também o Ministro dos Negócios Estrangeiros há-de regressar à base.

 

 

José Pedro Aguiar Branco – Jorge Ribeiro

 

Deve ser difícil chegar ao Bairro da Boavista e ser “o irmão do Maniche”, o que não ganhou uma Liga dos Campeões, foi dispensado do Benfica e é hoje um fiel sucessor de laterais esquerdos como Nelo, Caetano ou Quim Berto. O ministro José Pedro Aguiar Branco, coroado com 3,61% dos votos nas últimas eleições do PSD, encontrou em si o amor fraterno aos colegas de partido para pôr de lado as divergências de base e juntar-se à solução de unidade capaz de tornar o ministério da Defesa numa estrutura que não faça dois gajos virarem-se um para o outro no café e perguntarem: “mas p’ra que é que serve aquela merda?”. Até agora, está a falhar. É o único ministro que tem direito a ser tratado por 4 nomes, até porque não é major nem coronel de coisa nenhuma.

 

 

Miguel Macedo – João Moutinho

 

Se tivesse ardido muita mata no último Verão, seria fácil comparar Miguel Macedo a Mario Balotelli, o mal amado de Manchester que há uns dias atrás chamou os bombeiros a sua casa depois de lhe ter pegado fogo a brincar com pirotecnia. Felizmente, não é esse o caso, portanto fiz-me valer da recente declaração auto-vitimizadora do Ministro da Administração Interna em que este abdica de um estranho subsídio de alojamento (que daria para pagar 3 RSIs ou, no caso do Ministro, cerca de 28 bifes no XL). A forma como "abdicou de um direito" fez lembrar a sequência de contorções faciais que João Moutinho faz quando alguém lhe toca dentro de campo. Primeiro, age como se tivesse uma fractura exposta. A seguir, choraminga junto do árbitro. Coitadinhos.

 

 

Paula Teixeira da Cruz - Geraldo Alves

 

Geraldo, hoje um competente e pacato assalariado do AEK de Atenas, é irmão de Bruno Alves. Formou-se no Benfica e foi em tempos aquilo a que na gíria se chama um sarrafeiro do caraças (Bruno Alves deve muito do que sabe ao seu mano). Para quem não acompanhou o início de carreira de Geraldo, imaginem um centro-campista capaz de guardar dentro de si todas as injustiças do mundo, mas apenas capaz de as resolver com entradas a pés juntos. Foi um pouco assim a chegada de Paula Teixeira da Cruz ao Governo, mas, como Geraldo Alves, também a ministra se tem vindo a acalmar, caminhando vagarosamente para a única reforma que parece estar ao seu alcance: a sua.

 

 

Pedro Mota Soares – Franco Baresi

 

Franco Baresi, lendário jogador italiano, construiu toda a sua carreira jogando a líbero. O que tem isso a ver com Pedro Mota Soares? É tão provável encontrar um líbero no futebol moderno como identificar solidariedade e segurança social no ministério com o mesmo nome. Pedro Mota Soares é portanto o líbero deste governo, ocupante inglório de um cargo que, se o CDS mandasse realmente nisto, faria dele o Ministro do Combate à Preguiça Popular e da FlexInsegurança.

 

 

Álvaro Santos Pereira – Paulo Futre

 

Álvaro e Paulo. Universidade de Vancouver, Escola da Vida do Montijo. Dois homens, dois trajectos, a mesma convicção: vai vir charters, ou, no caso do Álvaro, empregos. Enquanto Futre vive confortavelmente na bolha que é o seu magnífico ego, “o Álvaro” parece uma criança obrigada a participar no teatro da escola. Esqueceu-se das falas, transpira por todos os lados e a coisa já só se endireita se alguém pegar na deixa e continuar a história sem ele.

 

 

Assunção Cristas – César Peixoto

 

Ninguém sabe explicar como é que ambos foram parar a clubes grandes, mas eles lá estão. A César Peixoto podemos gabar, no máximo, o facto de ser o melhor defesa-esquerdo metrossexual do futebol português. Assunção Cristas, por seu lado, ficará para a história por uma irrelevância do mesmo calibre, como mentora de um ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território sem gravatas. Diz-se que Deus está nos detalhes, mas isto, até para alguém religioso como a ministra, é levar o chavão longe demais.

 

 

Paulo Macedo – Zlatko Zahovic

 

Após uma passagem profícua pelo F.C. Porto, o mago Zahovic rendeu-se à economia de mercado e foi até Valência em busca de pesetas. Pouco tempo depois, regressaria a Portugal para abrilhantar o deserto de ideias que era o Benfica daquele tempo. Um pouco como Paulo Macedo, antigo Director Geral dos Impostos, cargo que abandonou em ombros para uma aventura na banca, de onde saiu em Junho para repensar o jogo do Governo na área da saúde. Busca ainda entrosamento, mas tem procurado jogar em futebol directo – directo ao bolso dos utentes do SNS.

 

 

Nuno Crato – Madjer

 

Esqueçam o Madjer do calcanhar de Viena. Refiro-me a outro Madjer, futebolista de praia, o mesmo que há alguns anos atrás estagiou durante 2 dias com o plantel de futebol de onze do Vitória de Guimarães. Desistiu da ideia quando percebeu que o campo era demasiado grande e que não dava para fazer pontapés de bicicleta com a mesma facilidade. O Ministro da Educação e Ciência já esteve mais longe de chegar à mesma conclusão.


O empresário/suplente de luxo/treinador/adepto/guarda abel 

 

Miguel Relvas – Jorge Mendes

 

O Ministro dos Assuntos Parlamentares não é bem um ministro. Em linguagem moderna, podemos dizer que é um connector. Mas é mais do que isso. É também um fixer, uma espécie de Michael Clayton com menos 10 cms, mais 10 kgs, e muito menos tempo para lidar com questiúnculas éticas. Se fosse futebolista, deixem-me cá ver, seria George Weah, o que partiu o nariz a Jorge Costa, foi suspenso por 6 jogos e recebeu o prémio fair play no fim da mesma época. Como não é futebolista, olhemos para ele como o empreendedor-sombra do actual ciclo governativo. O Governo é a sua Gestifute; o mundo uma complexa rede de relações para gerir. E o resto é conversa – sempre ao telemóvel, conforme se vê.

 

Entretanto, ocorreu-me comparar Carlos Moedas ao Paulinho das toalhas, mas acho que já chega por hoje.

publicado por Vasco Mendonça às 10:41
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

O meu coração ainda dói de ontem à noite


O país acordou com olhos de letra a vencer amanhã e um orçamento de guerra no colo. Podemos tropeçar de ternura pelo nosso país, mas ontem levámos uma rasteira. O trocismo seria menos grave, claro, se a maioria de nós não estivesse, às 20 horas de ontem, a tentar levantar-se. O país faz hoje lembrar uma casa de banho acabada de lavar: cuidado com o chão escorregadio. 

Olhamos para 2014 e não vislumbramos o fim da crise, ou a descontinuação dos sacríficios. Chocámo-nos durante décadas com os rituais de sacríficio auto-impostos por tribos distantes, narrados na televisão. Lembra-se dos filipinos vergastados em nome da religião, ou dos africanos com pedaços de bambu enfiados na boca? Agora imagine um português entre a espada e a parede. Melhor: um português trespassado pela espada a tentar escalar a parede. É você no segmento de curiosidades de um telejornal alemão.

Se por acaso vir uma luz ao fundo do túnel, desengane-se: quando lá chegar, vai encontrar o ministro Vítor Gaspar a delirar débitos e créditos alumiados por um manancial de boas intenções que não seremos capazes de engolir, porque nenhum de nós - nem mesmo o ministro - visualiza o final feliz desta história. Quanto à contabilidade da alma, essa, vai agora incorporar um passivo bem mais doloroso: já éramos um povo dado à nostalgia e ao fado, mas ainda não estávamos preparados para um sentimento tão totalizante e absoluto. Vamos todos sentir falta da vida que levámos até aqui.

Resta-nos manter a única atitude dignificante: sermos poor but sexy, e lutarmos ainda mais afincadamente por nós, pelos nossos, pelos nossos projectos, e por aquilo em que acreditamos, enquanto novas ideias, cabeças e mentalidades não tomam de assalto os centros de decisão deste país e lá fora. Apesar de tudo, ainda acredito que vai correr tudo bem. Só não me parece que, quando lá chegarmos, venhamos a agradecer aos decisores de ontem.
publicado por Vasco Mendonça às 11:28
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