Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Descer escadas

Há duas boas razões para pensarmos que as escadas deste mundo são mais vezes descidas que subidas: o elevador e a preguiça. Porém,  como metáforas as escadas são invariavelmente descritas tendo em mente o sentido ascendente. Bem sei que também existem as ascensões meteóricas além da subida lenta dos degraus da vida, mas quando se falha é sempre do cimo de um precipício que se cai na direcção do abismo. Isto sucede porque privilegiamos as descrições emotivas da realidade. Em rigor, são inúmeros os casos de declínio gradual, que seriam bem descritos como um descer de escadas.

 

A insistência na queda livre não resulta apenas da tendência natural para a hipérbole em quem conta uma história. Importa ainda a economia narrativa, o to make a long story short, porque é penoso acompanhar a crónica detalhada de um declínio na ausência de uma promessa de reviravolta. É este zelo misericordioso com que atiramos tanta gente do cimo do precipício que nos impede de apreciar os ensinamentos do simples acto de descer escadas.

 

Certa vez, desequilibrei-me nos últimos degraus de uma escada que descia. Começara a descida sem problemas, mas depois veio uma aguda consciencialização do acto que realizava e, de repente, o que instantes antes podia fazer de forma tão intuitiva tornou-se uma tarefa impossível. Não cheguei a cair, só que o problema agravou-se. Por saber que não podia pensar na complexidade mecânica de descer as escadas enquanto o fazia, sob risco de a meio do lance de escadas me sentir obrigado a executar pela primeira vez um qualquer passo avançado de tango, o pensamento era ainda mais irreprimível e os últimos degraus surgiam animados, praticamente intransponíveis. Este estado mental só durou uns dias. Seria agora insultuoso enunciar o ensinamento que esta experiência encerra; se a recordei, foi para defender a importância do simbolismo de descer escadas, algo que os mais jovens estranharão, pelo menos até à epifania somática em que os seus joelhos começarão a ressentir-se mais nas descidas do que nas subidas.

publicado por Vasco M. Barreto às 08:26
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Envidia sana

 

A maior biblioteca não se encontrava em Alexandria, nem é hoje a Library of Congress dos 29 milhões de livros. Também não é a biblioteca de Babel inventada por Borges, com as suas infinitas salas hexagonais, ainda que afirmá-lo pareça tão ridículo como dizer que o infinito peca por defeito, e até um sacrilégio, por ser Borges. Porquê correr tais riscos, então? Porque quem fez a Biblioteca de Borges chegou à omnisciência pela omnipotência, inventando todos os livros sem precisar sequer de os saber ler, bastando-lhe um passado eterno gasto a combinar todos os símbolos ortográficos de todas as formas possíveis, e todas as palavras, todas as frases, todos os parágrafos, todos os capítulos. Enfim, as interpretações para este delírio do porteño são várias, mas sirvo-me desta: a sua biblioteca é distópica, pois corresponde a um genocídio dos autores, enquanto as nossas finitas e concretas bibliotecas testemunham a vitória de cada autor sobre o seu previsível suicídio. A maior biblioteca de todas será a dos livros que foram pelo menos alguma vez imaginados por alguém. Não tem morada, como a Library of Congress, mas são mais as pessoas que a visitam e para ela contribuem; também não tem tamanho, na verdade, o que a deixa a salvo da trapalhada que Borges criou, uma quadratura do círculo em versão de hexagonalidadedo infinito, ou não fosse o hexágono uma solução perfeita das abelhas para o aproveitamento do espaço, mas que, justamente por isso, só faz sentido na finitude.

 

Sabem do que falo. É a biblioteca onde guardamos o grande livro de História do senhor que também gostaria de escrever a biografia de Hitler mas não sabe Alemão, o livro de ideias políticas que um amigo garante que um outro senhor sempre muito ocupado ainda escreverá, o romance sobre Paris que uma senhora já desistiu de anunciar, os planos por concluir de Pessoa, os tópicos de Luiz Pacheco, e aqueles recorrentes projectos editoriais megalómanos que as versões de autor em pdf não saciam, como a tal Spectatorà portuguesa - se não quisermos sair da paróquia que é Lisboa, nem recuar muito, nem ser exaustivo. Aliás, para intuir a vastidão da grande biblioteca contam menos os figurões e os malucos do que os nossos devaneios pessoais e os daqueles mais próximos, quando se deixam ir pela vaidade, ou não controlam a ansiedade, ou se convencem que o tesão criativo não murcha com a partilha do plano.

 

Em 2008, quando o Nuno Costa Santos me falou da ideia de escrever uma biografia do Assis Pacheco, não hesitei em arrumar logo o instantâneo volume na grande biblioteca. Pareceu-me uma belíssima ideia que ele jamais realizaria e escolhi uma boa encadernação. É claro que nada lhe disse, mesmo quando essa certeza foi crescendo à custa das respostas evasivas que ele depois começou a dar. Estava preparado para o perdoar, pois não seria mais um projecto pessoal falhado a trazer mal ao mundo, há um vasto corpo teórico a que podemos recorrer (a "vitória moral", o "Try again. Fail again. Fail better", o "Se hace camino al andar", o sportinguismo) e sempre que o homem sonha e a obra não nasce fico com a sensação de que, na verdade, Deus não tem um problema pessoal comigo, o que consola. Só que o Nuno pariu mesmo o livro e o meu alívio mesquinho transformou-se em envidia sana, uma sensação tão rara que gerações de linguistas, atarefados com as consonantes mudas, nunca entenderam ser urgente inventar-lhe uma expressão em Português.

 

Dou-te já os parabéns pela lombada, Nuno, ainda antes de ler a obra. Porque, no fundo, ninguém acredita naquele corpo teórico; materializar é o verdadeiro livre-trânsito para continuarmos a sonhar.

publicado por Vasco M. Barreto às 08:33
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Domingo, 1 de Janeiro de 2012

Liberdade, razão, generosidade e coragem

Os últimos dias de Dezembro são os mais livres. É a sofreguidão de antecipar o balanço do ano e a memória curta a libertá-los da História, e é o equilíbrio entre as frustrações do ano findo e o optimismo do renascimento vindouro a dar-nos – enfim, a dar-me, que cada um sabe de si – uma sensação de imponderabilidade, como a bola lançada ao ar no exacto momento em que já não sobe e ainda não desce. Mas, por estes dias, também senti a vã obrigação de escolher a “figura do ano”. Sem hesitar, a palma vai para Yasuteru Yamada, o reformado engenheiro japonês de 72 anos que tentou recrutar um grupo de companheiros do autodenominado (mas não são terroristas) “Skilled Veteran Corps” para dar uma mãozinha nos trabalhos de contenção da fuga radioactiva provocada pelo acidente na central nuclear de Fukushima. É longo o eco desta notícia na cabeça do ocidental, por causa de Hiroxima e Nagasáqui, mas também porque o Japão é o país em que um forte sentimento de honra deu ao mundo um ritual de suicídio violento (o harakiri) e que na Segunda Guerra Mundial criou a carreira com menores perspectivas de futuro. Inevitavelmente, um idiota útil perguntou se Yamada era um “kamikase”, ao que o nosso homem respondeu com o invejável eufemismo nipónico, lembrando que no caso dos aviadores mártires não havia grande “gestão de risco”. Yamada frisou sobretudo a lógica: na sua idade, o efeito mais pernicioso da radiação (um cancro que demora décadas a manifestar-se) seria muito menos dramático do que num indivíduo mais novo, com uma esperança de vida maior. Daí o absurdo de comparar a decisão racional, mas generosa e corajosa, de um cidadão livre com o horror de um sacrifício pela pátria que só a propaganda de Estado fez passar por voluntário.

 

No "i", a 2 de Janeiro de 2012.

publicado por Vasco M. Barreto às 08:04
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Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Laundry Blues

Modificado daqui

 

Espero não levantar suspeitas se vos dissser que lavar roupa é uma rotina com uma periodicidade suficientemente espraiada para não se tornar entediante. Tem também tempos de espera que servem a leitura. E há um elemento de regeneração no processo, o que me enche de esperança. Com a roupa lavada parece que tudo volta a valer a pena e não ficaria espantado se me dissessem que deixar os antidepressivos passa muito pela escolha de um bom amaciador.


Mas o lugar e o tempo também contam. Tenho ainda presente o efeito quase hipnótico das revoluções dos tambores das máquinas de uma lavandaria parisiense, algumas conversas que por lá troquei com os outros expatriados,  a força da natureza que era a mulher com a missão de limpar o chão e fechar a porta, e a série de vezes em que o tal encontro romântico  acidental na lavandaria não se concretizou. Aqui em Nova Iorque [escrevi isto  em 2007] há menos convívio, porque a lavandaria é na cave, e menos ansiedade, porque depressa aprendemos a esperar pouco dos vizinhos. Não me dou com ninguém e os instantes de alguma intimidade só ocorrem por acidente. Como quando trouxe um babete perdido na minha trouxa de roupa. Ou quando descobri uma meia minúscula entre os lençóis. Constatei então que a roupa de bebé tem especial vocação para fugir de casa e levantei uma hipótese: são os próprios bebés a colocar, com perícia, velcro nas suas peças de roupa, fazendo bandeiras de sinalização dos seus babetes e garrafas com mensagem das suas delicadas peúgas. Azuis e cor-de-rosa. Menino ou menina, todos se devem aborrecer com o  mimo resultante do excesso de desejo acumulado de parentalidade que caracteriza os casais contemporâneos. De resto, este texto é uma sublimação esse desejo de prole, para evitar ser baleado no Bronx no momento em que tento raptar um pretinho. Mas outros menos cuidadosos do que eu, ou sem vagar para a escrita, incorrem mesmo em comportamentos moralmente dúbios.


Encontrei um exemplo inesperado há uns dias, precisamente quando deixava a lavandaria. Num dos placards de anúncios, alguém anunciava (traduzo): "Adopção: casal sem filhos pretende adoptar uma criança com quem partilhar um futuro radioso. Pagamos as despesas médicas e legais. Vamo-nos ajudar mutuamente". Não sou ingénuo ao ponto de ignorar aquilo que algumas pessoas estão dispostas a propor para conseguir uma criança e o que outros estão dispostos a aceitar para ganhar umas massas. Porém, na minha inocência, nunca pensei poder ver tal anúncio num prédio de classe média de Manhattan. Não imagino nenhum dos meus vizinhos disposto a conceber uma criança por caridade ou para pagar as contas. Enfim, o mais provável é tratar-se de um anúncio para  as amas e mulheres-a-dias. Ou então é aquilo a que os técnicos chamam - creio -  uma campanha massificada. O certo é que me incomodou a hipocrisia ou o pragmatismo daquele "ajudar". Cheguei até a ter saudades dos tambores das máquinas de Paris, daquela desaceleração que parece um rewind e me transportava para os dias em que a peer pressure não era tão literalmente darwiniana. Talvez por isso tivesse aberto o frasco do amaciador já no elevador, encostado o meu nariz e inspirado com alguma intensidade. Um fulano que entrou nesse preciso momento lançou-me um olhar reprovador, mas uma das vantagens de viver num prédio no estrangeiro sem me dar com os vizinhos é a total ausência de vergonha no elevador, nos corredores, no átrio, nas escadas e nos patamares.

publicado por Vasco M. Barreto às 11:57
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Domingo, 13 de Novembro de 2011

Patrícia

Ciúme: uma abordagem prática (5)

 

Na presença de alguém mais velho do que ela, nunca se queixava da idade. Era só uma das suas múltiplas formas de empatia silenciosa, nem sempre bem entendidas. Sem palavras, o estúpido de cabeça oca pode passar por génio taciturno e o tímido pelo calculista que com o olhar todos transforma em cobaia.  Mas o silêncio de Patrícia era genuinamente bondoso e só por uma vez se aproximou de alguém sem curiosidade inocente. O casamento tinha terminado de modo traumático e estereotipado: numa improvável entrada em casa a meio da tarde de um dia útil, surpreendera-o com uma amiga comum diante da lareira e apenas esperou que fizessem biombo da pele de vaca onde se deitaram para logo de lhe anunciar que tinha até ao fim do dia, pois  o que dele ainda estivesse por lá de noite seria despejado pela conduta do lixo. A raiva aguentou-a durante uns dias, até se sentir invadida por um desespero profundo. Estava tão no limite físico do seu choro, que quando soube da morte dele num acidente de carro não conseguiu acrescentar mais nenhuma manifestação de tristeza. Mas ganhou a coragem necessária para ir ao enterro, onde se cruzou com a mãe dele. A senhora estava tão desfeita que parecia uma carpideira zelosa e Patrícia de imediato se sentiu na obrigação de a animar. Nunca tinham sido próximas, mas também não havia aquela antipatia latente tão comum entre a sogra e a nora. Nos dias seguintes, foi visita regular na casa da senhora. Tomavam chá juntas. Depois passou a aparecer também ao serão e viam televisão até a primeira cabecear de sono. Numa dessas noites, por estar a chover, Patrícia aceitou o convite para dormir em casa da senhora e a partir desse momento começaram também a tomar o pequeno-almoço com regularidade. E a almoçar fora com frequência. E a telefonarem-se mais de uma vez por dia. Era um convívio sem anedotas, sem risos e em que apenas a senhora chorava. Patrícia ouvi-a falar das tropelias do filho quando era criança e era incapaz de trazer informação à conversa, limitando-se a consolar a senhora. Bastava-lhe sentir a dor daquela mulher para não poder expressar a sua própria mágoa. E quando as amigas lhe diziam que tinha sido melhor para ela que ele tivesse morrido, Patrícia concordava, mas não pelas mesmas razões. As amigas invocavam uma espécie de justiça divina e a superior serenidade das viúvas quando comparadas com as mulheres atraiçoadas; Patrícia só pensava no privilégio que era poder privar com alguém ainda mais infeliz do que ela.

 

 


 

 

 

Abordagens prévias: 12, 3, 4.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática.

publicado por Vasco M. Barreto às 11:44
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Sábado, 5 de Novembro de 2011

António (Tó)

Ciúme: uma abordagem prática (4)

 

Tó, que nem sequer se poderia descrever como uma pessoa gregária ou simpática, ganhou a mania de se aproximar deles e nisso era muito bom. Se ainda não os conhecesse, tornava-se amigo; se já os conhecesse, passava a ser o melhor amigo. Quando lhe diziam que era uma forma de as castigar, o seu rosto ganhava surpresa e indignação. É certo que elas não gostavam de competir com ele pela atenção do namorado, mas nunca passou pela cabeça de Tó sabotar uma relação. Ele experimentava um tropismo incontrolável por eles, que era ainda maior quando percebia que tinha sido encornado. O que dizer? Há na mente mais mecanismos do que aqueles que a mente pode conhecer e se os suecos raptados que ganharam afeição pelos raptores chegaram aos manuais de psicologia (o complexo de Estocolmo), só a subtileza do seu comportamento, uma geografia periférica e nenhum grupo de pressão com vontade de associar Lisboa à imagem de cornudo frouxo negavam a Tó idêntica consagração.

 

Tó procurava colmatar o sentimento de orfandade. Mais do que trocado, ele sentia-se abandonado. Talvez por isso lhe fosse tão natural a aproximação a quem passara a ter as atenções da sua antiga namorada. A sua técnica foi-se apurando ao longo dos anos e se um murro no olho não o demoveu, também não seria uma porta fechada na cara, um telefonema desligado ou os repetidos insultos que o fariam desistir. Tó aprendeu a escolher o momento ideal, quando eles estavam fragilizados. Esperava uns meses, para que passasse o estado de graça dos novos namorados e fazia-o com a paciência de um abutre a pairar sobre a carcaça que o predador ainda escarafuncha, mas também uma bondade que é estranha aos necrófagos. Em poucos dias, Tó e qualquer um deles iam beber copos sozinhos e falar longamente sobre ela. Mas quem apenas ouvisse parte da conversa, mais depressa pensaria que falavam sobre um Buick do que sobre Bárbara, pois animava-os a cumplicidade de quem partilha um passatempo raro, como coleccionar carros antigos. E isso bastava a Tó, que assim namorava unilateralmente por interposta pessoa. Na verdade, ele foi descobrindo tantas vantagens nesta sua rotina, que seduzir e começar relações passou a ser sobretudo uma forma de semear um futuro namoro vicário. 

 

Abordagens prévias: 12, 3.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 09:40
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Sábado, 29 de Outubro de 2011

Rui

Ciúme: uma abordagem prática (III)

 

Certa noite, escreveu Rui: "Só o primeiro choro do bebé é genuíno. Nos seguintes, a experiência vai encurtando o terreno que o instinto leva de avanço. E quando reconhecemos no bebé aquele choro que começa com um atraso subtil ou é interrompido por uma pausa e depois retomado, isto é, um choro que dependeu de uma decisão consciente, impossível de aplicar quando sentimos uma dor insuportavelmente aguda, concluímos que a idade da inocência acabou. Tudo isto acontece antes de o bebé dizer a primeira palavra". Rui não se sentia muito à vontade em destilar do exercício da sua paternidade de divorciado tiradas de psicologia amadora, como a anterior, mas tornara-se um vício. Contemplar o filho não o projectava no futuro, era sobretudo uma forma de se descobrir espiando o passado da sua espécie. Só por isso cada conclusão lhe parecia tão inequívoca e mais uma recordação do que uma descoberta, o que só reforçava a sua vontade de a transformar em regra de vida de enorme relevância para o problema mais premente que tivesse em mãos. 

 

Como perante o choro do bebé, devemos desconfiar do ciúme. Rui chegou a elaborar um teste de polígrafo para despistagem de ciumentos, mas tinha inclinação natural para a academia e o seu empreendedorismo nunca desabrochou em patentes, pelo que apenas há relatos de um questionário da sua autoria, diz-se que com 20 perguntas, que terá circulado entre os seus amigos mais próximos. Com base na sua experiência pessoal, Rui concluiu que na esmagadora maioria dos casos as fundações do seu ciúme revelavam-se frágeis. Nos mais simples e frequentes, o ciúme era uma convenção social interiorizada por reflexo condicionado - uma caricatura a que Rui chamava ciúme cargo, estabelecendo um paralelo com os cultos daquelas tribos que tomam a forma pela substância e pensam que com auscultadores e torres de controlo aéreo de brincar podem trazer de volta os aviões do homem branco que antes alimentaram um qualquer comércio e entretanto desapareceram. Era como se Rui construísse o amor da frente para trás, no calendário (um amor retrospectivo) e na cronologia das sensações (que lhe chegavam pela ordem inversa, fazendo causa do efeito). Porque implicava abdicar dos efeitos retroactivos, não era fácil encaixar tal conclusão, o que talvez explique que o questionário se tenha perdido. E ainda pior era a conclusão extraída dos casos mais complicados e raros: o ciúme como uma manifestação do ciúme fundador - uma doença crónica, portanto - e não como uma sensação genuína. Como sucede a muitos projectos com pretensões científicas, o de Rui pariu um resultado que o senso comum conhecia, embora preferisse ignorar: não há ciúme como o primeiro.

 

Abordagens prévias: 1, 2

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 10:49
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Armando e Tobias

Ciúme: uma abordagem prática (II)

 

As histórias não precisam de ser verdadeiras para serem eficazes. Se, ao contrário do que se conta, Garrincha nunca tratou todos os defesas por "João", a biografia do craque estava sobre a mesa de cabeceira de Armando no dia em que ele teve a ideia de passar secretamente a chamar "Tobias" a todos os homens que tomaram o lugar que há não mais de 5 anos havia sido o seu. Esse foi o primeiro momento. No segundo, Tobias emancipou-se, ganhando a biografia de um bom heterónimo, mas também a autonomia do amigo imaginário. Calvin inventou Hobbes de um tigre de pelúcia? Primário.  Armando materializou Tobias a partir do nada, com o toque de Deus - que é também o das crianças verdadeiras, embora ele tivesse 32 anos. Em rigor, Tobias nunca serviu para vencer a solidão. Armando tinha amigos e namoradas q.b. Na prática, Tobias era um assassino a soldo conceptual, que atava a lembrança deles a um bloco de cimento, afundando-a nas profundezas da memória de Armando, permitindo-lhe assim alcançar a tal condição supra-humana, quase um cúmulo de civilidade para exibir como uma insígnia, de ficar "amigo de todas antigas namoradas". Não deixava de ser um amigo irritante, recorrentemente repreendido por elas, em regra por telefone, na ressaca do encontro - "Armando, és incrível. Passámos férias a quatro este Verão, mas preciso de te perguntar isto: tu sabes como se chama o meu marido?" Armando desfazia-se em desculpas, que estava cansado e com problemas de memória. Depois lá arriscava, protegendo o seu amigo: "João?"

 

Abordagens prévias: 1

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 14:56
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Domingo, 23 de Outubro de 2011

João e Maria, José e Francisco

Ciúme: uma abordagem prática *

 

Uma das melhores formas de lidar com o ciúme consiste em eliminar a sua fonte. Dar-lhe um tiro na testa  é o exemplo que vem de imediato à memória, mas João procurava a chamada solução de compromisso. Como resolver o ciúme sem sofrer grandes penalizações sociais? João pressentia que a resposta se mantinha, embora numa interpretação menos literal. Havia uma natureza cirúrgica na eliminação da fonte que o seduzia, por possibilitar a restauração do amor. Mas demorou semanas a encontrar uma solução e, em retrospectiva, conclui-se que teve a sorte de ter nascido numa época em que a bissexualidade se banalizara. Porque a inspiração veio do relato de um amigo que se viu trocado por uma mulher. João reparou que o vasto conjunto de estados de alma por que passou o amigo incluía o conformismo, várias obsessões compulsivas  o espanto, a perplexidade e a raiva (a ordem é alfabética), mas não o ciúme. A conclusão pareceu-lhe evidente: o ciúme implica uma comparação, que só a pertença a um mesmo género concretiza, à semelhança das competições desportivas, em que os homens apenas competem com os homens e as mulheres com as mulheres. O namoro da nova namorada era um problema, mas de onde se excluía a namorada da namorada. Por redução ao absurdo, pouca diferença teria havido se a namorada se declarasse apaixonada por um vaso chinês da dinastia Ming (cópia ou original). Encontrada a essência da solução, João tratou de a aplicar. Maria trocara-o por José, um macho até prova em contrário, mas João percebeu que o importante era diferenciar-se de José a tal ponto que não haveria a menor tentação de se comparar. Foi sem dificuldade que encontrou em José um conjunto de defeitos físicos e de carácter que o aproximavam da condição de verme e o Zé volatilizou-se de imediato. A solução funcionou tão bem que Maria regressaria a João alguns meses depois, para dois anos felizes, até aparecer Francisco. Com a calma que vem da experiência, já depois de ter reunido os elementos necessários, João sentou-se pela manhã à secretária para estudar o dossier Francisco, mas ao fim dia estava por terra. Francisco era um gajo porreiro. Um tipo corajoso. Um homem de sucesso. Espirituoso. Inteligente. Talentoso. Charmoso. Atlético. Sólido. Belo. Alto. "E com cabelo", desesperou João, emendando in extremis o gesto de lançar as mãos à cabeça. Só no dia seguinte a solução lhe apareceu. O princípio mantinha-se e o que não podia ir pela desconsideração, iria pela promoção. Francisco estava tão acima de João que não era bem um homem, era uma entidade divina. Maria não se apaixonara, convertera-se. Veio o conformismo, várias obsessões compulsivas, o espanto, a perplexidade e a raiva (ainda por ordem alfabética), e dias depois João estava recuperado. Maria não voltou, mas até nisso João foi capaz de ver a prova de que não se enganara no juízo, pois não se abraça uma religião com leviandade.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 13:48
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Sábado, 15 de Outubro de 2011

Boquilobo

Lobo Antunes só não seduz quando lhe fazem perguntas sobre tricas e prémios literários, altura em que desce tanto das alturas que se torna ligeiramente rastejante. Em tudo o resto, tem um discurso tão nos antípodas da langue de bois dos políticos que por momentos há o risco de tomarmos o sábio pelo louco. É única a sua capacidade de se demarcar da actualidade e de mexer com a essência das coisas, distinguindo-se dos pedantes e dos diletantes. Pode ser pose, mas quantos a aguentariam durante tantos anos, sem uma falha? Ele lembra-me as master classes dos concertistas de idade avançada, já sem a agilidade dos dedos dos estudantes, mas ainda capazes de exemplificar uma passagem difícil de um modo luminoso, ainda que impreciso. A isto creio que se chama transcendência.

 

A marca de água do seu falar é a citação, que lhe sai com grande naturalidade e não parece apenas ser uma citação oportuna, mas a mais oportuna - de resto, quando há dúvidas, é o próprio Lobo Antunes que resolve a contento, recorrendo a duas citações que exprimem a mesma ideia. E mesmo quando não está a citar alguém, geralmente um outro escritor, cita-se a si próprio. Não sei se é efeito de quem já deu demasiadas entrevistas ou de ter encontrado o ritmo de discurso que melhor aproveita a inteligência e a memória, o certo é que ele nunca pensa alto, nunca inventa, nem sequer descobre, limitando-se a recordar. Daí resulta uma enorme autoridade ou, se me permitem, gostaria de pensar que a autoridade que lhe reconheço não vem do seu currículo. E este não é um fascínio acrítico de fã; quando começa com a explicação de que os livros se escrevem sozinhos, murmuro um here we go again. Mas quando ontem disse que tinha muito orgulho em ser português, reparei que ninguém mais me pareceu tão convincente e cheguei a sentir um daqueles apertos só arrancados pelas bandas sonoras que marcam o momento em que o mais fraco inverte a tendência. Ontem não havia desses enredos, que são lágrimas enlatadas. Era só o Lobo a falar, entre a espada desajeitada de Fátima Campos Ferreira e a parede de livros. No fim senti-me desconfortável, como sempre, porque gosto tanto de o ouvir que preferia que ele falasse mais e escrevesse menos. 

publicado por Vasco M. Barreto às 13:00
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