Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

Silêncio, por favor

 “O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra”. William James

 

“As melhores palavras são aquelas que se parecem com o silêncio”. Tolentino Mendonça

 

“As pessoas deviam ser como os telemóveis: ter o seu modo silencioso”. Anónimo

 

Onde é que hoje conseguimos encontrar silêncio? Não sei mas ando à procura. O mais tranquilamente possível. A única coisa que sei é que estamos, como nunca, rodeados de ruído como as bucólicas vaquinhas estão rodeadas de moscas. Não só do ruído que se ouve mas também - e sobretudo - daquele que se lê e vê neste território ensurdecedor em que se transformou a internet. Passada a febre dos telemóveis e da sua competição de toques parvos, a net passou a ser o local mais ruidoso do mundo – mais ruidoso do que milhões de discotecas em Ibiza a funcionar em simultâneo com o volume no máximo. Devíamos aceder à rede com tampões nos ouvidos.

 

Isso: toda a gente berra indignações ao mesmo tempo. Toda a gente - e aqui não há inocentes nem “intelectuais puros”  - tem um link absurdo para partilhar, uma causa bizarra para difundir, um comentário a despropósito para fazer. O que fica desta chinfrineira toda? Uma inveja tremenda do Dailai Lama. A urgência em assistir a um filme do Buster Keaton. A vontade de mandar calar a Sarah Palin.

 

Sim, sim, já sei: o ruído da rede não é um fenómeno próprio, desligado do resto do universo. O problema está na sua capacidade difusora. A net reproduz o ruído do tempo na mega escala que se conhece. Uma não-notícia de rádio torna-se aqui facilmente num não-acontecimento comentado por uma infinidade de não-especialistas instantâneos. Tornámo-nos todos ruidólogos. Gente licenciada para comentar o ruído do mundo. Fazendo, estrondosamente, parte dele.

 

Além disso, lembrou-o e bem o cidadão Steiner, já não conseguimos viver nada em privado. Temos de ir logo fazer queixinhas para o nosso blogue e para o nosso twitter. Aquilo que podiam ser experiências só nossas transformam-se em barulhinhos quando entram no espaço público. Porque cabem na perfeição numa definição apropriada de ruído: tudo o que não interessa ouvir e é ouvido porque encontrou uma audiência.

 

Como diz o outro, o diagnóstico – e o mal - está feito. Resta saber como é que se consegue reagir a isto a que chegámos por laxismo ou conveniência (há, sabemo-lo, quem lucre com a gritaria). Se ainda vamos a tempo de, à semelhança dos bovinos, enxotar o mosquedo que nos atrapalha a concentração e a transcendência. Aqui ficam algumas ideias para fugir ao ruído e promover essa bizarria pós-moderna chamada silêncio:

 

Comprar/alugar uma casa sem rede. Não percebo por que é que uma casa que não tem rede vale menos do que uma casa que a tem. Aliás, as imobiliárias deviam acentuar o bom que é, nestes dias, comprarou alugar uma casa sem rede, onde não se consegue receber nem uma chamada do Papa nem, já agora, fazer uma ligação a uma internet mais lenta do que um raciocínio racista. Um apartamento à prova não de bala mas de chamadas, SMS’s e Farmvilles devia valer ouro.

 

Ir apenas a cafés livres da praga do wireless. O wireless é considerado o supra sumo da barbatana para os internautas. Em cada esquina há um café que anuncia que se pode navegar rápido, sem fios e sem limites enquanto se bebe a bica com adoçante. Esses café são inimigos de si próprios. Promovem a fuga àquilo que o café deve ser: um espaço onde os únicos links admissíveis vivem nas boas conversas à mesa. O resto faz feedback.

 

Frequentar bibliotecas e livrarias orgulhosamente antigas e bolorentas. Sim, estar rodeado apenas de estantes, num ambiente “d’ outro tempo”, com livros que já não se encontram em lado nenhum, é um antídoto eficaz contra a ruideira dos dias. Experimente-se a extravagância. O mais certo é encontrar no local investigadores corcundas também eles suficientemente ancestrais para fazerem uma visita guiada ao local, tão silenciosa quanto a sabedoria que escondem.

 

Criar um Biggest Loser dos Info-Dependentes. Nós estamos gordos, muito gordos. Mas não é das comezainas – é de informação mesmo. Consumimos demasiados noticiários que, em vez de nos tornarem mais conscientes, nos tornam apenas mais demorados nas opiniões e decisões, mais confusos. A gula informativa precisa de ser tratada. E nada melhor do que fazê-lo através de um programa de televisão, onde os concorrentes chegam com os vícios dos consumidores de todos os telejornais e todos os Google News e saem preparados para apenas consumirem uma refeição informativa frugal.

 

Fazer retiros em horas de ponta. Há aquelas pessoas que vão durante quinze dias para mosteiros tratar da higiene do cérebro, gesto demasiado fácil e normalmente com limitados resultados. Difícil é trazer um pouco desse ambiente de mosteiro para o quotidiano de cidade ocidental ansiosa e pós-moderna. Isso é que é, digamos, subversivo e necessário. Encontrar laivos de meditação na Tasca do Zé Alfredo e no ambiente dos mercados bolsistas. Introduzir algum sossego no IC-19 em hora de ponta. Existe, algures no caos internético, um site (http://www.silencio.pt/) que pode ajudar à tarefa. É uma empresa apostada, segundo diz, em resolver problemas de ruído. Pode ser que, numa missão de serviço público, aceite insonorizar as nossas vidas.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 23:14
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2 comentários:
De Anónimo a 30 de Julho de 2011 às 00:35
o ruído pode ser apenas o esconderijo mais seguro para o silêncio que inevitavelmente nos acompanha. O 'resto' prende-se apenas com a qualidade do som ;)
De Isa a 30 de Julho de 2011 às 06:09
Absolutamente de acordo. poderíamos começar por exemplo por saber que os silêncios não são constrangedores, que saber calar a boca é uma arte, que se a palavra é de prata o silêncio é de ouro. e tal. mas começar por interiorizar que se nao temos nada de interessante ou de bom para falar, calêmo-nos. não sei quem institucionalizou que as pessoas têm de falar, que os silêncios são ruins, mas acho que tudo começou aí...

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