Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Tá ligado?

Caguei para a discussão sobre o acordo ortográfico. Caguei paquidermicamente para as petições e votos de protesto e votos de apoio e discursos patrioteiros de pacotilha e discursos estratégicos de mundividência pessoana e da história com h e da outra com e. Poupem-me aos gazes, à azia, aos arrotos e, sobretudo, às hemorróidas, daquelas que chegam ao tornozelo e transformam o belo e íntimo tempo de reflexão e leitura com as calças arreadas num inferno com o Vasco Graça Moura com os Lusíadas numa mão e a foice noutra pronta a degolar quem escreve actor sem c, que a merda da discussão me provoca.

Quero lá saber se o português correcto é o do corrector ortográfico do Lobo Antunes ou o do Ubaldo Ribeiro. Vá, digam lá, devo achar a prosa do Cardoso Pires genial por escrever duma maneira ou a do Reinaldo Moraes uma treta por escrever que a pemba do homem era uma borduna bororô (eh lá, tanto tracinho vermelho ...). Eh pá, ou devo dizer eta rapai? Que saco de conversa.

Vai ser, de certeza absoluta, um acordo ou a ausência dos livrinhos a explicar como se escreve adoptar ou a fazer um desenho do tracinho que não se deve utilizar entre mini e saia que vai fazer o Wanderley de Mato Grosso, o Chico de Felgueiras, o Manel de Cabinda ou o Lopes da Beira adoptarem (com p e tudo) o que meia dúzia de iluminados acharem por bem dizerem ou escreverem. Pelamordideus.

Chamem-me o picheleiro mais próximo para desbloquear tanta arenga pretensiosa. Dedetizem-se as bocas e as canetas dos defensores e dos críticos. Deixem em paz os nossos códigos, as nossas diferenças ou semelhanças, as nossas pilas ou os nossos pintos.

Irritam-me tanto os arautos da lusitanidade com a mania que têm um mandato directamente atribuído pelo Dom Afonso Henriques para a defesa do português praticado entre Coina e Barcelos como os que pensam arrumar o modo de escrever em meia dúzia de livros cheios de regras. Vão mas é levar na bunda.

Aprendam com o homem: a minha pátria é a minha língua. Mas leiam bem: a minha. Enquanto eu entender o significado de xoxota, a língua também é minha, quando eu deixar de entender já não será. E não há nada que a traga de volta, façam-se os acordos que se fizerem.    

E um abraço para o mermão Reinaldo Moraes que nos últimos dias me ensinou mais sobre a minha língua que trezentos mil artigos sobre as virtualidades e os defeitos do acordo ortográfico.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:05
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13 comentários:
De Eugénia a 26 de Julho de 2011 às 03:23
O que lhe aconteceu que está tão zangado e diz tantos palavrões? os palavrões são uma enfática forma de expressão, mas o que é e qiuem é quelh gerou tanta raiiva? Abrço gosto de o ouvir nas discussões politico/partidárias e nem me quero pronunciar pelo escrito do acordo ortográfico, o que me intriga é o que terá dado origem a este estado de espirito em si - calor?.
Eugénia
De Nuno Miguel Guedes a 26 de Julho de 2011 às 03:45
Ó amigo Pedro, claramente temos de falar pá. Acho graça e dou razão a parte da tua indignação (isto do pessoal içar bandeiras por tudo e pelo Scolari começa a ser uma chatice) mas há razões sérias que passam para os nossos filhos. Para além de embustes legais e sobretudo igualdades impostas por decreto. Tirando isso, tiraste a bem a pinta às caricaturas. Mas receio que no resto não tenhas razão e te arrisques a ficar um mero espetador (como se diz em acordês). Abraço e até já!
De Isa a 26 de Julho de 2011 às 04:37
a questão é, Nuno, se me permite a intromissão, não adianta nada, o acordo tá aí, é uma realidade, adira ou não, mas calem-se para sempre ;) ou então descubram o que vos incomoda na vida e resolvam... pq nao é com certeza o acordo ortográfico que tira o sono a alguém, bom, talvez aos revisores...
Abç
De Nuno Resende a 26 de Julho de 2011 às 10:22
Com este belo pedaço de prosa portuguesa, qualquer acordo é irrelevante. Escreva como quiser, desde que não escreva.
De Antonio Cunha a 26 de Julho de 2011 às 10:52
Pedro tirou-me as letras do teclado !!

É que já não há pachorra para tanta Edite Estrela a clamar pela pureza da "nossa" língua. Dasssssssss

Já em 1911 aquando da raforma Ortográfica, havia alguns rapazolas que eram contra o dito.

vejam lá este :

Fernando Pessoa:

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.[6]
De manuela a 26 de Julho de 2011 às 14:10
De Renda de Bilros a 26 de Julho de 2011 às 15:27
Pôxa moço, tá botando pra quebrá!
Num tem uma mulata gostozona pra fazê umn cafunê pra ocê?Pô...
Ou vomecê é veado mêmo?
Deixe-se de merdas opinativas inconsensuais.
Tem alternativas?Apresente-as e discuta-as!
Não tem pois não?Isto de ter de se aprender de novo é uma chatice do camano não é?
De TomasP a 26 de Julho de 2011 às 16:32
EXCELENTE POST !!! E com tres pontos de exclamação. Pode-se?
De Rui Vasco Neto a 27 de Julho de 2011 às 12:00
pedro,
ora aqui está uma dissertação... hum... aaaa... interessante, acho, mais até sobre o desacordo do que sobre o Acordo, digo eu. Repleta de imagens potentes, explícitas sobre esta opinião de autor... definitivamente interessante.
Guardo para mim a particular satisfação em saber que entendes o significado de xoxota e que para o efeito tens uma língua. Enfim, paquidermicamente bem explicado, reconheço.
De Ativo a 27 de Julho de 2011 às 14:44
As línguas vivas estão sempre sujeitas à mudança. Faz parte da condição de viver.
De li.lee a 1 de Agosto de 2011 às 16:43

No com_cordo com_ti. Bjocas de xico_latte:)
De José António Abreu a 5 de Agosto de 2011 às 14:13
Por outro lado, neste como noutros assuntos, é tão ou mais irritante adoptar a posição "calem-se lá com essas merdas". É assim a modos que fácil e ainda mais presunçoso do que tomar partido. Embora neste caso, como em muitos outros, seja tomar partido.

Ah, agradeço e retribuo os votos para levar na bunda.

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