Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

País Desengravatado

A Católica coloca a gravata. O governo manda-a tirar. Os gestos são mais consequentes do que aparentam. No primeiro caso trata-se, segundo parece, de uma chamada de atenção para o excesso de xanatismo da população universitária (escusava era de meter a Igreja ao barulho para justificar a coisa, como se só a Igreja exigisse solenidade - em qualquer universidade deve haver a noção que talvez não seja uma grande ideia fazer a defesa de doutoramento com um fato de mergulho lilás). No segundo diz-se - dizem as "fontes governamentais" - que é para poupar no ar condicionado, mas eu prefiro olhar para a medida com um - abre aspas - gesto simbólico - fecha aspas - que tem menos a ver com poupanças do que com uma mudança de atitude.

 

Gosto, sim, gosto de ver o meu país a tirar a gravata - ele que a tem usado tantas vezes a despropósito. Dizem os cépticos que é uma medida só para a fotografia. Não me parece que o seja. É simbólica, sim  - e continuo a defender que as pessoas, no caso os portugueses, precisam de gestos e palavras. E tirar a gravata é o primeiro passo para arregaçar as mangas, que é aquilo que mais precisamos de fazer. Lembro-me de ver Assunção Cristas no primeiro ano da Faculdade de Direito de Lisboa - estava sempre à frente, na primeira fila, composta e super concentrada, ao lado de Gonçalo Castilho dos Santos, que veio a ser mais tarde o secretário de Estado da Administração Pública de José Sócrates. Nunca falámos (eu era um alien naquele espaço e estava mais focado em frequentar alfarrabistas do que em prestar atenção às aulas do professor Jorge Miranda) mas parecia-me alguém muito formal, muito direitinho, muito - no pior dos sentidos - engravatado.

 

Agora parece-me mais liberta desse convencionalismo de aluno bem comportado, de quem convém ter sempre o número para tirar fotocópias na véspera do exame. Resolveu desengravatar o seu ministério. O gesto só chateia um pouco por ser obrigatório. Mas como direcção acho bem - bem melhor do que algumas trapalhadinhas do governo sobre taxas que não eram para existir e agora existem. Lembro-me, aliás, a propósito disto tudo, da possibilidade de recriar os versos de O'Neill tendo em conta a circunstância: "País desengravatado todo o ano/e armado ao pingarelho por engano". Prefiro, se me permitem, viver num país assim.

publicado por Nuno Costa Santos às 19:04
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