Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

a geração que não está lá

Regresso de um festival de Verão determinado a não me sentir velho e, portanto, a culpar a geração seguinte pelo abismo sentido.

 

Esta geração não está lá. Ela jurará a pés juntos que está, que esteve, que foi a todo o lado e viveu tudo, mas não viveu patavina.

Nunca lho conseguiremos provar. Ela terá muitos gigabytes de fotos e vídeos para demonstrar o contrário. Ali está ela no concerto, junto às estrelas, cheia de amigos, perdida de felicidade, coberta de pó, bronzeada da praia, com um chapéu de brinde na cabeça e o enésimo copo na mão. Ali está ela noutro palco e, depois na pista de dança, e no bar, com outros amigos, e depois com outros e ainda mais amigos, ainda mais perdida de riso, ainda mais cheia de histórias. Ali está ela no parque de campismo, e no hotel, e no outro festival, e na outra praia. Ali está ela, sempre vestida pelos códigos da moda daquele ano, ainda que o corpo seja o mesmo e não sirva para aqueles calções. Ali está ela a cumprir todos os pontos da lista: o festival, a praia e a roupa da moda, a foto, o vídeo e a rede social. Tudo como deve ser. Tudo o que é obrigatório para ser feliz e cool.

Duvido que tenha ouvido uma canção. Que saiba uma letra. Que tenha sentido qualquer coisa que não precisamente aquilo que esperava à partida.

Ela não esteve lá. Passou por ali, mas esteve sempre noutra parte. Deambulou de palco em palco e de bar em bar, fotografou e falou de tudo com toda a gente. Não sentiu uma só canção até ao fim.

Ela vive como tem aprendido a viver: clicando. Não sente, não mergulha, não entra, não toma uma decisão, não escolhe entre isto e aquilo. Ela quer tudo, de modo que clica nas coisas e segue para as seguintes. Está clicado. Já viu. Já disse presente. Já sabe o que é. Não precisa de ver mais nada – não é assim que se faz? Haverá mais alguma coisa para ver?

Quando lhe perguntarem se viveu intensamente, responderá, briosa, que sim. Sem dúvida. O mais possível. Pior será o dia em que faça a pergunta a si própria.

A vida não se mede em álbuns de fotografias nem cruzes na agenda dos eventos da moda.

Em breve, ela tentará compreendê-lo nas sessões de terapia. (Ter um terapeuta é muito mais in do que ter um cérebro).

publicado por Alexandre Borges às 01:52
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7 comentários:
De Fusível a 20 de Julho de 2011 às 14:21
Tenho saudades de ir a um concerto e saber que todos, na plateia/relva, estão tão entusiasmados como eu.

Raios partam os festivais.

PS - Eu sei que continua a haver concertos bons, mas deixaram de aparecer isolados com tanta frequência. E que fique claro que não censuro quem gosta de ir a festivais.

De Alexandre Borges a 21 de Julho de 2011 às 14:31
Inteiramente de acordo. Eu gostava de festivais nesse tempo imemorial em que se decidia lá ir ou não pelo cartaz. Hoje, aparentemente, vai-se porque sim, porque é fruta de época, porque é suposto lá ir, depois da praia, e voltar com muito pó para contar.
Obrigado pelo comentário.
De Isa a 23 de Julho de 2011 às 17:36
Alexandre, fazer terapia não é in, fazer terapia custa-nos os tubos, emocional e financeiramente. Fazer terapia não é pros fracos, pra quem nao tem mais que fazer, pra quem adere a modas. fazer terapia é um tratamento como outro qualquer. acontece a quem quer mais pra si e não consegue andar pra frente sozinho sem saber pq.
Bjos
De Alexandre Borges a 25 de Julho de 2011 às 02:49
Aceita um pedido de desculpas, Isa. Naturalmente, não quero ofender quem faz terapia. É só um remate de texto, projectando um futuro a que uma certa forma de estar na vida poderá, no meu entendimento, conduzir. Beijos
De Nunfer a 26 de Julho de 2011 às 18:57
A-b-s-o-l-u-t-am-e-n-t-e soberbo!
De Mariana a 1 de Agosto de 2011 às 12:12
não podia concordar mais!
De Carla Ferreira a 30 de Agosto de 2011 às 19:54
Fantástico post. Faço terapia, não do lado do paciente, mas do outro. Nem sempre, mas por vezes, a causa não está longe do que descreve.

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