Domingo, 17 de Julho de 2011

Dente por dente

For there was never yet philosopher
That could endure the toothache patiently.
William Shakespeare, Much Ado About Nothing

 

 

Reconheço: há algo que uma ida ao dentista, quando adultos, consegue fazer sair a criança que há em nós. A pior criança. Medos, birras, fobias, comportamentos irracionais, descrença em nós próprios, perda de dignidade em geral. Mas eis a notícia chocante, ó profissionais dentários: é mais do que natural. 

Explicando, então: em consequência de um infortúnio já aqui relatado, as idas ao dentista tornaram-se regulares e obrigatórias. Fui bem aconselhado, perfeitos antecedentes, garantias absolutas que nada iria doer com a excepção da carteira. Que um homem crescido já devia ter maneiras e aguentar estoicamente os momentos que passa impotente numa cadeira enquanto estranhos olham para a sua boca. Tudo natural, há coisas piores, tratamentos mais dolorosos, casos mais dramáticos. De acordo.Mas a criança que saiu e sai deste maduro de 46 anos diz, cada vez que entra no consultório « Tirem-me daqui!».

 

Há várias teorias para este tipo de reacção. Uma delas, que eu aceito pacificamente, é que os homens são uns mariquinhas quando se trata de procedimentos clínicos. Pronto, até de uma constipação. Morremos, deixamos testamento, epitáfios catitas. Tudo para elas nos gozarem pacientemente e com paternalismo. Mas com os dentes é diferente, minhas senhoras. Em primeiro lugar, existe a impossiblidade de explicar, com lógica e tempo, que um estranho colocar as mãos na nossa boca será sempre contranatura, por mais habilitados que estejam. Não há hipótese: um tipo deita-se na cadeira, nervoso mas pronto a argumentar, mas a visão da parafernália que o rodeia remete de imediato para a mais terrivel cena d'O Homem da Maratona. Mesmo que nunca se tenha visto. «Is it safe?». Nunca.

 

O que nos dói é antecipação, nunca o momento. No meu caso eu sei que a excelente dra.Inês, que me atura e trata, tem um especial cuidado e jeito para evitar a dor. O que ela não consegue evitar é a antecipação da dor; a agulha que se levanta; a broca que começa a girar. Na verdade, é isto que nos começa a doer e irá continuar, por mais racionalizações de instante ou  catarses como esta que se façam. A relação de confiança entre paciente e médico acaba, a dada altura, por surgir: mas sempre pelos factores racionais (excelente tratamento, diagnóstico correcto, etc) e sobretudo depois do acto. É como uma previsão depois do jogo. 

 

O que me leva a esta crónica. Tenho ainda mais duas ou três sessões de saga dentárias. O equivalente a dois ansiolíticos por sessão, but who's counting? Sei que irei apresentar todos estes sintomas, que a dor estará ausente. Mas o resto não: o meu refúgio desesperado na beleza da enfermeira que gentilmente coloca o tubo que nos suga ou a absoluta certeza que estou a ser tratado sem qualquer simpatia pela dor.Só quero que perceba, dra.Inês e todos os dentistas do mundo: nunca mas nunca, por mais sábios e hábeis que sejais, ireis conseguir deter a criança que há em mim e em nós. Sugiro o canal Panda. 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 04:45
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2 comentários:
De manuela a 17 de Julho de 2011 às 12:10
compreendo perfeitamente, foram precisos 50 anos de vida e um dentista novo e maravilhoso para me devolver a inocência... mas agora já vou para lá como para a praia.
De Nuno Miguel Guedes a 17 de Julho de 2011 às 21:53
Como a invejo! A minha dentista é excelente e hiper-cuidadosa. Nunca senti qualquer dor. Mas mesmo tendo essa certeza, quem entra naquela cadeira é sempre um miudo de 5 anos...:)

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