Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

para sempre e para nada

Estava no cimo da Torre Eiffel quando fui despedido.

Há uma ironia qualquer em estar tão alto e descer tão depressa que torna o quadro antropologicamente fascinante. Ficar, de repente, com a cabeça tão abaixo dos pés. Tão deprimido e maravilhado. Tão fora deste mundo. Ter esperado horas na fila para subir e um telefonema chegar ali acima tão rápido, sem bilhete nem direito, entre chineses, americanos e alemães, máquinas fotográficas e flutes de champanhe. Uma notícia tão intrusa que podia deixar cair dali de cima, empurrá-la lá para baixo, mandá-la de volta ao mundo das coisas pequeninas.

Um acontecimento e outro ficarão ligados para sempre e há uma lição qualquer a tirar disto. A primeira estadia em Paris, a aparição daquele que é, provavelmente, o edifício que mais vezes vimos na vida, o maior cliché do mundo, mas capaz, ainda assim, de nos assombrar, arrebatar, esmagar. Biliões de porcas, parafusos, traves, vigas, ferros, rebites. A insolência daquela grandeza. O atrevimento de construir qualquer coisa para sempre, que ninguém teria coragem de derrubar, mesmo que fosse esse o plano inicial. (A torre salvou-se porque dava jeito às antenas do rádio-telégrafo. Nada a ver com beleza. A espécie humana é tão maravilhosa e imbecil. Tão comoventemente cretina.)

A torre ficou, as telecomunicações evoluíram e apanharam-me no alto da primeira com a notícia de que tinha sido mandado borda fora de outra dessas coisas velhas e extraordinárias. Um jornal. Outra dessas coisas a que tantos auguram um fim próximo, rápido e indolor. Outra dessas coisas que uns tentam salvar pela utilidade e não pela maravilha, pelo uso e não pela arte, pela pequenez e não pela grandeza.

Literariamente, ainda não resolvi a questão. Esta crónica não é uma crónica, é um esboço de crónica, ainda à procura das palavras justas. Em termos pessoais, resolveu-se lá em cima, entre chineses e alemães e o Sena perfeito recortado entre Deus e os homens.

A vida não faz sentido, mas faz rir. Ou, dito doutro modo: desconheço o sentido da vida, mas reconheci-lhe ali o finíssimo sentido de humor.

Conto agora receber uma notícia feliz quando estiver tombado dentro duma gruta.

Só espero que haja rede.

publicado por Alexandre Borges às 01:25
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6 comentários:
De Isa a 11 de Julho de 2011 às 02:39
Melhor coisa virá, tenho a certeza de que a buscarás.
Bjo gd e solidário
De EK a 11 de Julho de 2011 às 12:05
Desconfio que em breve agradecerá a chamada. A vida é bela meu caro. Verá!
De José Luís Moreira a 11 de Julho de 2011 às 14:52
O sentido, Pedro?...É em frente! E nem sequer há necessidade de rede, porque não há abismo...
De Maria a 11 de Julho de 2011 às 17:50
Tout l'art de Paris, réside dans le fait de rendre vos vacances, (ou votre passage dans la ville) inoubliables, quoi qu'il en soit et peu importe comment, peu importe la manière comme elle s'y prend, mais inoubliables.

On ferait mieux d'apprendre avec elle si de nous on aimerait que l'on se souvienne...


De Alexandre Borges a 12 de Julho de 2011 às 00:10
Obrigado a todos. Et merci. Algo virá. E teremos sempre a Avenida de Paris.
De Sílvia a 15 de Julho de 2011 às 14:47
O sentido que a vida não tem é aquilo que lhe dá sentido. O encontrar de uma espécie de ordem no caos e no acaso é curioso e desafiante. Acredito numa qualquer motivação por detrás de algo estapafúrdio, inesperado, ou menos bom que nos aconteça. A oportunidade está por vezes onde menos se espera. Será este um discurso em forma de cliché... Relevante é que o seu outro momento chegue, não rápido, no tempo certo.

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