Domingo, 10 de Julho de 2011

Essa palavra saudade

Essa palavra saudade. Ninguém a quer mas nós, portugueses, nascemos com ela. Sempre desconfiei de positivismos mas sobre este assunto sou particularmente feroz: é atavismo nacional e mais nada. Não há ciência que o possa explicar. A parte bonita – e ao mesmo tempo triste – é que espalhámos a saudade como uma pandemia. E no entanto não a conseguimos traduzir, a não ser no momento em que a sentimos. De nada valem os esforços para lhe arranjar étimos distantes: a teoria mais aceite é que provenha do latim solitas, solitatis (para solidão) e que tenha sofrido influência dos vocábulos latinos para ‘saúde’ ou ‘saudar’. Pouco importa: é objectivamente intraduzível. Há cinco anos atrás uma empresa de tradução britânica, a Today Translations, elaborou uma lista das mais difíceis palavras de traduzir. ‘Saudade’ ficou em sétimo lugar. A concorrência, há que dizê-lo, era de peso: em primeiro lugar ficou a expressão congolesa ‘ilunga’, que quer dizer mais ou menos (espero que tenham tempo para o que se segue) «pessoa que está disposta a perdoar maus tratos pela primeira, pela segunda mas nunca pela terceira vez». Justo vencedor. Outra difícil era a polaca ‘radioukacz’: «alguém que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro». Mais perto de nós, em todos os sentidos, está outra palavra intraduzível, a árabe ‘altaham’, que significa um tipo de profunda tristeza. E depois vem a saudade: em sétimo lugar, sim – mas a única cujo significado não é consensual.

 

 

Mas não é só a dificuldade de tradução ou descrição que torna difícil falar de saudade sem apelar a artes poéticas ou, no pior dos casos, ao lugar comum. É o anacronismo do próprio sentimento que a palavra evoca. Saudade, pensava eu, já não pertence a este tempo de comunicações rápidas, práticas mas impessoais. Faz sentido nos momentos mais solitários ou em utilizações estéticas mas não se fala disso no dia a dia com o significado que merece. A saudade, neste espírito do tempo em que imperam emails, redes sociais e sms escritos em estranho dialecto, corre o risco de extinção. As gerações mais novas não têm tempo para sentir saudades, quando a distância pode ser vencida através de um computador e uma web cam. Como é hábito, não tenho razão.

A saudade existe, e está viva nos novos portugueses. Encontra-se nos lugares mais improváveis, mas é a mesma. Talvez apareça noutra forma, em versão 2.0, mas está lá e é fácil prová-lo. Tome-se o caso da mais popular rede social da Web, o Facebook. Mais de 124 milhões de almas comunicam entre si todos os dias através desta ferramenta. É um óptimo lugar para se reencontrar amizades que se julgavam perdidas, ou despertar paixões que se julgavam controladas. De certo modo, apesar de não ser a vida, é um lugar perigoso porque nos pode devolver o passado de uma forma violenta e inoportuna. Um amigo pode ter aquela fotografia de 1979 que nós já não queríamos ver e expô-la para risota da comunidade; ou através de um rosto entrevisto num inocente registo de uma festa de liceu, mudar toda uma vida pelo simples poder de uma lembrança.

Pois é aqui que a saudade também vive. Os utilizadores não-portugueses do Facebook têm comentários típicos às memórias que lhes são apresentadas: «Lembro-me bem desse dia: que grande bebedeira» ou outras constatações objectivas são o limite a que se atrevem. Os portugueses não: vêem um lugar, uma pessoa, uma canção e a resposta é imediata: «que saudades!». Pode ser uma saudade ligeira, passageira – mas é saudade, exactamente aquela que ficou no sétimo lugar das palavras intraduzíveis. Agora mesmo li no perfil de uma rapariga portuguesa e utilizadora desta rede o seguinte:«A melhor definição da palavra ‘saudade’ está nesta letra de Chico Buarque. Arrepiante…». Segue-se o YouTube da canção Pedaço de Mim. Acho que por aqui estamos conversados.

 

Sentir saudade não é um privilégio nem exclusivo nacional. Nós apenas nascemos assim. Dante, n’A Divina Comédia, já colocava os amantes condenados no Inferno a falarem da saudade:«Nessun maggior dolore/che ricordarse del tempo felice/ne la miséria(..)».Em Portugal, Bernardim Ribeiro escreve o mesmo, de forma ainda mais bela, no Menina e Moça :« (…) a tanta tristeza cheguei, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha». Isto para não falar de Camões ou Pascoaes. O que eu acho é que se estivessem vivos provavelmente teriam hoje um perfil aberto no Facebook.

 

 

*crónica publicada originalmente no suplemento 'Nós', do jornal i.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 13:31
link do post | comentar
1 comentário:
De Sílvia a 15 de Julho de 2011 às 21:59
Discordo... Se estivessem vivos não teriam um perfil no facebook. E se tivessem estariam parcialmente vivos, porque algures parte de si teria definhado.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever