Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Amor, amor

A minha experiência com jóias não é, como se costuma ler nos cvs, do ponto de vista do utilizador. Também não sou propriamente um apreciador dos objectos em si próprios. Digamos, que a minha relação com esses adereços está relacionada com o grau de bem estar que proporciona à pessoa a quem os ofereço.

De há uns anos a esta parte não me tenho dado mal com o processo, sempre complicado, de oferecer anéis, brincos, pulseiras e coisas que tais. Ajuda muito comprá-los sempre para a mesma pessoa. Parece, contudo, que acontecem  uns problemazitos, muito pequenitos mesmo.

 

O cidadão vai a uma ourivesaria e escolhe uma jóia. Chega a casa e oferece-a à sua dedicadíssima consorte.

Se a coisa for assim para o pechisbeque, recebe um sorriso e um beijo de lado seguido do ternurento “obrigado por te lembrares, querido, o que interessa é a intenção” e segue-se o relato dramático do varicocelo do marido da funcionária doméstica ou do “teu” filho que insiste em trocar o estudo do relevo de Portugal Continental pelo residential evil para a playstation III.  

Na próxima data importante, o amantíssimo marido esmera-se e perde a cabeça com um cachucho ou um penduricalho lindíssimo, ou seja, caríssimo.

Duas coisas podem acontecer. A primeira possível reacção: “és mesmo um animal, foste dar uma fortuna por esta coisa horrível?”.

Quando o marido pensa que, ao menos uma vez na vida, a sua maravilhosa mulher está preocupada com as finanças caseiras, ela grita: “dá-me a factura que quero trocar este mono por uma coisa decente, e vou ter uma conversinha com a pirosa que te vendeu isto a ver se ela aprende a não fazer olhinhos a otários como tu só para vender porcarias como esta”.

Esta reacção pode parecer inqualificável, mas não, é até ponderada e calma. Peca porém por duas pequenas incorrecções. Primeiro, as vendedoras de jóias caras nunca são pirosas, são até bastante apelativas; em segundo lugar, as muito garbosas senhoras não nos convencem de porcaria nenhuma, simplesmente sorriem, inclinam-se no balcão e dizem: “aiii, esta é que eu gostava de receber dum amigo especial.”

 

A segunda possível reacção pode causar alguns problemas. Pelo menos é o que ouço dizer. Parece que começa por um não muito discreto “o que é isto?”, depois duns comentários sobre a possibilidade da pessoa a que chama sogro não ser obrigatoriamente o pai do marido, pode acontecer, em casos extremos, o arremesso de objectos contundentes à cabeça do marido ou uns pontapés em locais especialmente vulneráveis. No meio desta sucessão de acontecimentos ouve-se o impensável: “para me dares isto algo aconteceu, quem é a pouco digna profissional de sexo?” É possível as palavras não serem exactamente estas.

 

Apesar de tudo há coisas um bocadinho piores. Lembro-me duma amiga indignada por o namorado lhe ter oferecido um daqueles lindos cartões com umas florzinhas. A apaixonada criatura tinha lá escrito um ainda mais lindo poemazinho e rematava dizendo que dinheiro não tinha mas amor para dar sobrava-lhe. “Já viste este totó?”, dizia ela, “amor, amor é o polegar a roçar no indicador”.

Ele há gente...

publicado por Pedro Marques Lopes às 10:13
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1 comentário:
De Niagara a 5 de Julho de 2011 às 11:19
Lindo, não é?
Há (muitos) anos atrás também resolvi fazer uma surpresa a uma (então) namorada. Foi nuns vinte e tantos envelopes de correio azul, numerados e só com o destinatário - o remetente era mais do que óbvio. O resultado foi o desfiar do rosário de impropérios acerca da minha atitude inqualificável (e blá blá blá blá blá que, como é óbvio, deixei de ouvir). Como é lógico a coisa não durou muito mais tempo depois disso - mas depois queixam-se da falta de romantismo...

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