Domingo, 3 de Julho de 2011

Intelecto explanado

 

 

Achille Talon é um dos personagens mais brilhantes de Greg, autor maior de banda desenhada. Talon é um individuo irascível, vaidoso e pretensioso, que vive em permanente relação amor-ódio com o seu vizinho Lefuneste e abomina vendedores de porta-a-porta. É um opinativo polivalente, que interrompe as suas enormes verborreias com interjeições tipicamente francesas («ouais», «et bof»). É muito mais, mas para o que aqui nos interessa lembro o que este cidadão, numa das histórias mais inspiradas, mandou que escrevessem no seu cartão de visita: «Achille Talon. Erudito»

 

Pois bem, observações recentes têm-me levado a concluir que existem sítios que despertam naturalmente o Talon que há em nós. E eu sei quais são e irei dizer, por uma questão de puro divertimento ou saúde pública: são esplanadas, aquelas que têm paisagem que convida à contemplação (o mar, uma vista deslumbrante sobre Lisboa, por exemplo) e uma frequência a partir dos 26 anos de idade. 

Para o estudioso da natureza humana, as esplanadas são como o Serengeti para os documentários da National Geographic: um habitat repleto de seres raros, que se juntam à hora de beber. Há pouco tempo voltei a ter o privilégio de recolher alguns apontamentos deste fenómeno. Muitos dirão que isto é só um nome mais pomposo para «estar a escutar a conversa dos outros»; mas eu não falo com muitos. De modo que, aproveitando um pouco de ócio solitário e munido do caderninho de sempre, dei comigo na Esplanada da Graça,em Lisboa num fim de tarde junina deslumbrante.

O caçador experiente de Talons de esplanada sabe o que tem de procurar: conversas ou frases soltas ditas sempre como se fossem a derradeira certeza sobre o sentido da vida ou o mais cintilante aforismo, proferidos com voz pomposa a acompanhar. Rapidamente juntei nessa tarde estes indicios a estes exemplares, ditos por homens e mulheres e que juro serem absolutamente verdadeiros:

 

«[sobre cinema] Nos outros países há muitas correntes sobre cinema. Cá só temos a corrente Mário Augusto»

 

«Sim, identifico-me plenamente: objectividade, simplicidade, humildade. Identifico-me plenamente.»

 

«[para três pessoas que pareciam ir morrer de tédio a qualquer instante] Não existem orações. Não existe obrigação de orar.Deus não dá obrigações»

 

«[uma das minhas favoritas] Eles sairam dos Black Sabbath para formar os Genesis.»

 

«Ela tem 30 anos e namora com uma mulher de 40. Acho óptimo, diz que está na moda.»

 

«Aqui olha-se melhor, namora-se melhor, acasala-se melhor.»

 

«Ele não tem cara de beirão, tem cara de Licor Beirão.»

 

O que haverá com as esplanadas que faz sentir a tanta gente a urgência de explanar o seu intelecto? Esse é um dos mistérios e a maior beleza. Não me interessa sequer a resposta à questão até porque nas esplanadas vejo o olhar intrigado de quem olha para um palerma solitário, a rabiscar um caderninho armado em intelectual.

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 22:06
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever