Sábado, 29 de Outubro de 2011

Rui

Ciúme: uma abordagem prática (III)

 

Certa noite, escreveu Rui: "Só o primeiro choro do bebé é genuíno. Nos seguintes, a experiência vai encurtando o terreno que o instinto leva de avanço. E quando reconhecemos no bebé aquele choro que começa com um atraso subtil ou é interrompido por uma pausa e depois retomado, isto é, um choro que dependeu de uma decisão consciente, impossível de aplicar quando sentimos uma dor insuportavelmente aguda, concluímos que a idade da inocência acabou. Tudo isto acontece antes de o bebé dizer a primeira palavra". Rui não se sentia muito à vontade em destilar do exercício da sua paternidade de divorciado tiradas de psicologia amadora, como a anterior, mas tornara-se um vício. Contemplar o filho não o projectava no futuro, era sobretudo uma forma de se descobrir espiando o passado da sua espécie. Só por isso cada conclusão lhe parecia tão inequívoca e mais uma recordação do que uma descoberta, o que só reforçava a sua vontade de a transformar em regra de vida de enorme relevância para o problema mais premente que tivesse em mãos. 

 

Como perante o choro do bebé, devemos desconfiar do ciúme. Rui chegou a elaborar um teste de polígrafo para despistagem de ciumentos, mas tinha inclinação natural para a academia e o seu empreendedorismo nunca desabrochou em patentes, pelo que apenas há relatos de um questionário da sua autoria, diz-se que com 20 perguntas, que terá circulado entre os seus amigos mais próximos. Com base na sua experiência pessoal, Rui concluiu que na esmagadora maioria dos casos as fundações do seu ciúme revelavam-se frágeis. Nos mais simples e frequentes, o ciúme era uma convenção social interiorizada por reflexo condicionado - uma caricatura a que Rui chamava ciúme cargo, estabelecendo um paralelo com os cultos daquelas tribos que tomam a forma pela substância e pensam que com auscultadores e torres de controlo aéreo de brincar podem trazer de volta os aviões do homem branco que antes alimentaram um qualquer comércio e entretanto desapareceram. Era como se Rui construísse o amor da frente para trás, no calendário (um amor retrospectivo) e na cronologia das sensações (que lhe chegavam pela ordem inversa, fazendo causa do efeito). Porque implicava abdicar dos efeitos retroactivos, não era fácil encaixar tal conclusão, o que talvez explique que o questionário se tenha perdido. E ainda pior era a conclusão extraída dos casos mais complicados e raros: o ciúme como uma manifestação do ciúme fundador - uma doença crónica, portanto - e não como uma sensação genuína. Como sucede a muitos projectos com pretensões científicas, o de Rui pariu um resultado que o senso comum conhecia, embora preferisse ignorar: não há ciúme como o primeiro.

 

Abordagens prévias: 1, 2

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 10:49
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1 comentário:
De Sílvia a 3 de Novembro de 2011 às 12:22
O primeiro é o primeiro. O segundo, o segundo. O terceiro, o terceiro. O encontro com o desconhecido é intenso no primeiro, mas a descoberta poderá perpetuar-se partindo do princípio que o tempo passa por nós com algum efeito...

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