Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Romãs de Istambul

Se a lembrança mais forte que se traz da intemporal Istambul é a das suas romãs, desafio Constantino, Atatürk, Ricardo Quaresma e a humanidade em geral, e só me resta abrigar-me na fortaleza das recordações de infância, território ao abrigo de um pacto de não-agressão. Ao explicar o primado das romãs da casa dos avós alentejanos sobre as exuberantes frutas tropicais da casa dos avós madeirenses, não posso esquecer a singular romãzeira do quintal de Ourique, porque estabelecer o parentesco entre o fruto e a árvore conta, mas só o receio de ser chamado de menino da mamã faria com que não reconhecesse também em público que a cor de natureza morta da casca da romã, as suas gretas e o conglomerado vivo do interior estarão para sempre associados ao carinho da minha mãe, de uma forma tão forte que nem a releitura de Proust contaminará esta associação com o sabor do raio da tal madeleine involuntariamente recordada, porque se trata mesmo uma vontade consciente. Ainda hoje, mas com a devida infrequência, quando por vezes chego a sua casa e a minha mãe anuncia que me espera uma taça cheia de bagos de romã no frigorífico, só não fico absolutamente feliz por ter logo presente que jamais lhe poderei retribuir em atenção a entrega que descascar uma romã para alguém tão bem simboliza. Foi por isso que, ao passearmos pelas ruas de Istambul, nos concentrávamos tanto nas romãs por ali à venda, mais vistosas que as nossas, de uma cor de granada a induzir um tropismo tão grande que chega a ser contraproducente para o comerciante, pois são tão bonitas que basta ficar ali quieto a olhar para elas. Não foi a primeira vez que notei um desajuste entre o forma como o mercado e eu entendemos a romã.

 

Há uns anos, quando vivia em Nova Iorque, um certo empreendedor, talvez também marcado pela descoberta na infância da romã, mas com uma ambição e proselitismo que não possuo, invadiu os supermercados com garrafas de sumo de romã, então vendida como uma panaceia capaz de vencer tumores, retardar o envelhecimento, prevenir doenças cardiovasculares, aliviar inflamações e, claro, curar a depressão. Provei o seu produto sem grande entusiasmo, pois consumir romã pelo gargalo não reproduz o prazer táctil que precede a explosão dos bagos dentro da boca, mas ainda movido pela possibilidade de os frutos nos poderem salvar. Comer fruta é uma das poucas acções a que gosto de associar alguma irracionalidade. Não me custa provar pela razão a superioridade da fruta sobre todas as outras sobremesas, mas tendo a esquecer os milhares de anos de selecção artificial que nos deram a maior parte dos frutos que hoje consumimos, só para continuar a pensar que comer fruta me devolve à natureza, me regenera e purifica, numa relação que não pede intermediários, nem implica outra contingência além de um céu limpo entre o Sol e a Terra - e não será esta suspensão do conhecimento uma forma de religiosidade? Daí ter cedido à tentação de acreditar com fervor que a fruta cura a depressão e ter embarcado em exercícios revisionistas, que retiravam ao antidepressivos o mérito logo associado à maçã-reineta que por acaso tinha trincado na semana em que arrebitei.

 

Não serei o único a cair nestas ilusões. Aliás, não devem sobrar dúvidas e é até com alguma pretensão de serviço cívico que o escrevo: o que faz funcionar o mercado em expansão dos livros contra os antidepressivos e das soluções alternativas vai além da natural desconfiança face aos interesses comerciais e corporativos das farmacêuticas; o que explica este mercado é o desejo que os deprimidos têm de que os seus antidepressivos nada mais fizeram do que simbolizar o poder das suas mentes contra a doença. Da sua força de vontade. Da sua personalidade. Porque não seria apenas uma boa notícia, seria um renascimento. Só assim se explica a situação absolutamente insólita que é um doente reagir com alegria  à notícia de que o medicamento que tomou foi um placebo, isto é, que o enganaram. Mas como as farmacêuticas nem sempre são vilãs e a serotonina é mesmo parte do que somos, o que fazer? Talvez defender os nossos afectos, protegê-los do desgaste dos anos, cuidar deles como em tempos cuidavam do quintal de Ourique, hoje com a sobrevivente romãzeira cercada de ervas daninhas. Não é preciso gostar de fruta, nem ter ido à Turquia; o importante é encontrar as romãs de Istambul.

 

publicado por Vasco M. Barreto às 13:00
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4 comentários:
De Sílvia a 30 de Junho de 2011 às 01:11
No entanto, o entorpecimento emocional é dificilmente negado, não? O efeito associado induz um estado de vigília diminuída que permite controlar os impactos sensitivos e mentais que o doente dificilmente suporta em condições normais (ou que não se sente capaz de suportar); concebe-se o efeito placebo, mas num segundo momento, quando, imune ao choque, tem de transpor as barreiras e assimilar a realidade sem protecção - opinião de leigo, sem tempo para ler de momento os textos sugeridos...
De Helena Marques a 22 de Junho de 2012 às 07:23
Qual entorpecimento emocional negado, qual vigília diminuída? Os anti-depressivos, e há vários porque vários são os tipos de depressão, vão ajudar o paciente a levar uma vida normal, ao restabelecer-lhe os níveis adequados de serotonina, de noradrelanina e outros neurotansmissores, e se dor caso disso o médico, psiquiatra, receitará moduladores de humor. O paciente só sofrerá uma recaída grave se deixar de tomar os medicamentos e deixar a psicoterapia. Não há curas milagrosas, infelizmente, para a diabetes também não...
De Sílvia a 30 de Junho de 2011 às 01:14
Ah...as romãs ficam bem aqui. Tornam o quadro pitoresco.
De Sílvia a 3 de Julho de 2011 às 00:06
(agora completo) Assumiram o lugar que lhes era devido, as romãs.

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