Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

lições dum fim-de-semana de 40 graus e muitos quilómetros

  1. Quando se vive perto do mar, assiste-se todos os anos ao mesmo espectáculo embirrento: a romaria de gente que se veste como se estivesse em Lisboa, mas de chinelos, gente que está convencida de que, assim, se veste à campo. Gente que vai ali falar da vida de Lisboa e que vai regressar a Lisboa a falar de como é bom viver no campo. Gente que nunca ali passa o ano inteiro, aterra no Verão e cuja presença estridente ofusca a gente que ali vive de facto. Tudo isto é indefensável racionalmente, mas, para quem vive junto ao mar, esta gente que aparece lustrosa no Verão lembra as vedetas que aparecem nos eventos de caridade e desaparecem quando sai o último fotógrafo. Os amigos que só dão sinal de vida quando estamos na maior. Os montes de esterco, enfim, que sabemos que não contam para nada que valha realmente a pena.
  2. Na Serra, não é fresquinho. Na Serra, faz um calor estuporado. Na Serra, a gente pensa que aquela malta estendida ao sol, na praia, ali tão à beira do mar, com tão pouca roupa, vai-se constipar.
  3. Na vila, bandas anódinas em Lisboa enchem praças centrais e são chamadas para três encores. O Licor Beirão é barato. Os supermercados são sítios silenciosos e até à moça da caixa faz piadas. Há miúdas giras, miúdas com a mania que são giras, miúdas que não sabem que são giras – mas isso é assim em toda a parte. A diferença, porventura, estará na roupa. A roupa que, ao mesmo tempo – e isto é um mistério indecifrável – as faz giras e não faz. Há tipos a passear as amantes – dizem-me – na festa, como se estivessem entre a multidão anónima da cidade grande. Há muitos carrinhos de bebé. Engarrafamentos de carrinhos de bebé. E umas quantas grávidas. E muita criança. Dizem-me que ali há tudo: supermercados, seguros, piscina, cine-teatro. Que havia todos os bancos excepto um que, entretanto, já apareceu. Desconfiamos, mas a verdade é que não encontramos qualquer coisa que não esteja lá.
  4. Os comboios continuam a fazer o mesmo som da infância. E continuam a andar depressa, mas a demorar-se quando passam pela face de algumas paisagens. Ainda nos ataca aquele sentimento confuso, quando descemos na estação da vila, sentindo que ninguém nos espera, ninguém nos conhece, que ali teremos de começar uma vida nova, tentar guiar os miúdos do liceu a uma metafísica qualquer que, no fim, só lhes dará mais palavras para o sofrimento.
  5. Numa casa de família, mostram-me o facebook. Já não é uma tentativa de conversão, mas pura vontade de partilhar qualquer coisa que se tem por mágica. Mostram-me fotografias antigas. Tenho-as a quase todas em papel. Leio os comentários saudosistas que desenterram histórias a propósito. Lembro-nos de muitas, tinha esquecido muito poucas, estava quase a conseguir esquecer as restantes. Depois, passa o entusiasmo aos escribas e acabam os comentários. Está lá exposta parte da nossa vida contra a nossa vontade. Estamos lá mesmo não querendo. Negamos tudo. É montagem.
  6. Uma menina de 5 anos não se lembra de que já estive em casa dela umas dez vezes. Dou por mim a dizer, pela primeira vez na vida, a frase tremenda: “Andei contigo ao colo.” E ela a achar aquilo uma coisa extraordinária. Não se lembra de me acordar para ir almoçar com o pai e a mãe, não se lembra das prendas que lhe dei, não se lembra das conversas que tivemos. Nunca mais se lembrará. Mas é terna e encantadora com este homem de quem nada recorda, disposta a começar tudo de novo.
  7. De que servem a memória e a história? Estão 40 graus, os forasteiros do costume invadiram-me a terra, fugi para a vila, bebe-se barato e talvez possamos comprar um vestido de verão a uma das moças da praça. A menina de 5 anos promete-me, na estação, de que, da próxima vez, se lembrará de mim. O comboio arranca e faz o mesmo som que fazia na infância. Na minha e na dela.
publicado por Alexandre Borges às 07:35
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1 comentário:
De Sílvia a 27 de Junho de 2011 às 09:52
Gostei de ler. Senti uma certa desordem ordenada que me pareceu familiar... não sei...

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