Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

Igualdade de oportunidades

Temos andados distraídos com assuntos menores e ainda não tratámos do essencial: é preciso haver igualdade de oportunidades no acesso ao like. Há gente com muitos likes e gente com pouco likes. E ainda há gente que nem um like tem na vida. É uma injustiça - e que vem mostrar que neste país as desigualdades são de factos brutais. Cidadãos com mérito fazem grandes postas e nem um dos seus 15 amigos (mesmo aqueles que se julgava serem mesmo amigos) vai lá com o cursor. Aparece um famoso é o que se vê. Não é ou não devia necessário ser conhecido ou famoso para atingir os 50 likes com posts tão imprescindíveis como "tá calor, não tá?" ou "fui ver o Prince a Boston e achei uma merda". Qualquer cidadão devia poder ter o seu like mínimo garantido. Sim, porque há discrepâncias. Injustiças. Desníveis que é necessário reparar. Já vi muito posts de mérito que tiveram pouquíssimos likes para o que mereciam (um post sobre o Townes Van Zandt só teve três ou quatro likes na página de um amigo, o que me ofendeu bastante).

 

Depois vem um qualquer que tem 41 likes porque meteu um vídeo de um gajo que fica sem fato de banho em Carcavelos (no fundo quer é ser famoso e aparecer). E é assim que vai o país. A redistribuição do like devia estar na ordem do dia. Porque um like nunca é só um like. Um like é a hipótese de novos e novos amigos, cada vez mais influentes. Novos contactos nos círculos do poder. De um lado uma multidão de excluídos do like e do outro as famílias que dominam o like. Isto do facebook prometia muito mas afinal são dois ou três gajos que dominam e os seus amigos todos. Conheço gente que já mete cunhas para ter um likezinho em posts mais alternativos (tipo um video de um homem a comer cozido durante 57 minutos).

 

Isto só vai lá com  correcção e regulação por parte do Estado. Ou então em apostas de privados neste mercado da cibersolidão. Ainda ontem falei disto num encontro de personalidades internetizadas: por que não criar uma experiência "A Vida é Bela" para gente com poucos likes? A experiência "Bué da Likes". Assim de repente um enxame de links em posts pelos quais o cidadão não dava nada - um haiku plagiado: "O sol, três patos e o Roberto Baggio". Mais: por que não criar uma empresa que trate de colocar likes em posts de gente pouco amada? Um tipo com, vá lá, 17 amigos acordava, ligava o computador e percebia que a frase que tinha colocado na noite  anterior (e que ele nem achava nada de especial) - "Amo a vida, vá" - tinha 352 likes, alguns deles de pessoas famosas como o Rui Veloso e a rapariga que apresenta o programa com o Goucha. Também merece, não?

publicado por Nuno Costa Santos às 19:50
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4 comentários:
De João Bonifácio a 24 de Junho de 2011 às 20:40
ahahaha
De Sílvia a 24 de Junho de 2011 às 23:28
Pergunta: por que será que as pessoas fazem questão de ser apreciadas (por todos os seiscentos e noventa amigos e os mil e um potenciais)? Mais, apreciadas de forma superficial?
De Isa a 25 de Junho de 2011 às 06:38
Genial. tou consigo!
De Canito a 27 de Junho de 2011 às 23:25
Só é uma pena eu não poder fazer like a este mesmo post.

E essa é toda a verdade! Toda a gente merece, pelo menos, o seu like da vergonha, como lhe chamariam por cá.

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